Notas iniciais
Hellooo Ai gente voltei. Demorou, mas voltei. Mais uma fic inspirada em um plot do fanctions que é este: "Uma fic onde a lily vai num aniversário, come demais e fica mal do estômago ela vai pro plantão e quem atende ela é o dr potter que diagnostica a lily com "mto açucar no corpo" e deixa ela no soro a noite inteira ele fica com ela na sala de medicação e eles formam uma amizade" com algumas alterações. Espero que vocês gostem, boa leitura!

Petúnia Dursley, mais conhecida como a bruxa da minha irmã, vai fazer uma festa hoje para o filho dela e eles não economizaram, afinal é o primeiro aniversário daquele moleque chato. Ela me convidou porque meus pais obrigaram e minha mãe contou que tudo vai estar lindo e que eu tinha que ser legal com a Petúnia e aparecer na festa porque somos família e todo esse papo.

Uma das piores sensações no mundo é a sensação de querer comer mais e não poder porque não cabe mais nada no estômago. Por isso, hoje eu estou decidida a me acabar na festa do meu sobrinho chato e mimado.

A festa começa às 14 horas e eu não comi nada desde que eu acordei. Assim, eu vou poder comer tudo que tem no menu do melhor buffet da cidade – como Petúnia reforçou várias e várias vezes.

Bom, a culpa é inteiramente dela. Se ela não ficasse a cada cinco segundos falando dessa festa, da comida, da decoração e tal, eu não estaria tão ansiosa assim.

— Você tem certeza que não vai querer comer, Lily? – Minha mãe pergunta quando me vê.

— Tenho mãe. Eu vou comer na festa da Petúnia.

— Lily, come pelo menos uma fruta.

— Mãe, eu vou comer na festa. Não tem problema.

Bem, aqui vai um conselho: sempre ouça a sua mãe. A gente tem essa mania de ignorar os conselhos dela e NÃO deveríamos fazer isso. NUNCA.

Então, chegou a hora de irmos para a festa do Dudley e eu estava com fome, confesso. Porém, eu estou firme no meu pensamento. Me encher de doces e tudo que o melhor buffet da cidade podia me oferecer.

— Lily, ajude-nos aqui, por gentileza. – Minha mãe chamou quando eu me sentei na bancada da cozinha e comecei a comer discretamente os salgadinhos na caixa.

— Não precisa, mãe. – Petúnia respondeu. – Lily é muito desastrada e não quero que ela estrague nada. – Ela colou o último balão com estampa de estrela no teto.

— Petúnia... – Minha mãe usou o mesmo tom que ela sempre usava quando Petúnia fala alguma coisa maldosa, mas honestamente eu nem ligo mais.

Petúnia fingiu que não ouviu até que ela virou o olhar na minha direção.

— Você está comendo da caixa? – Ela estreitou os olhos para mim.

— Não. – Limpei os dedos na banqueta, porque eu não quero sujar meu vestido, e ela viu.

Eu queria ser mais discreta.

— Lily! – Ela bateu o pé no chão e fechou as mãos em punho. Como ela fazia quando criança.

— Petúnia, não brigue com a sua irmã. Ela está com fome.

— Por que não pode esperar como todo mundo?

— Porque eu sou sua irmã e família tem privilégios.

Sorri para minha irmã enquanto minha mãe não olhava e Petúnia teve que engolir sua raiva porque minha mãe olhou para nós duas no momento exato.

— Se comportem, pelo amor. – Ela estreitou os olhos e voltou a arrumar a mesa. Eu dei de ombros e ignorei o olhar de raiva de Petúnia e voltei a comer os salgadinhos.

Quando finalmente deu duas da tarde e a maioria dos convidados havia chegado, eu deslizei para a mesa de doces e comecei uma conversa leve e desinteressada com uma tia que não via há muito tempo.

Eu, sabiamente, tinha escolhido um vestido com bolsos e enquanto sorria e falava sobre a pós-graduação com a minha tia eu, habilmente, colocava os docinhos no bolso.

Quando meus bolsos já estavam cheios, eu dispensei minha tia e comecei a procurar um lugar para comer em paz.

Acontece que Petúnia está me observando desde que eu peguei os salgadinhos da caixa e ela deve ter me visto guardando os doces.

Então quando me afastei da tia, Petúnia começou a andar na minha direção e eu corri.

Corri para dentro da casa e me tranquei no banheiro.

Dois segundos depois, Petúnia bate à porta.

— Lily?

Fiz minha melhor voz de inocência.

— Sim?

— Você pegou os doces da mesa?

— Não. – Respondi no mesmo momento em que coloquei um na boca.

— Lily, eu posso ouvir você.

— Petúnia, eu estou no banheiro e gostaria de privacidade. – Mastiguei rápido e tentei disfarçar o fato da minha boca estar cheia.

— Lily...

— Por que você não vai dar atenção aos outros convidados que não estão no banheiro? – Ela grunhiu, mas logo ouvi seus passos se afastando.

Eu nem sei quando essa rivalidade entre mim e Petúnia começou, mas eu não estava mais ligando para isso a essa altura da minha vida.

Não fui eu quem começou então eu não podia terminar sozinha.

Mas se ela quiser voltar a ser amiga e tal, eu quero.

Saí do banheiro discretamente e atenta a algum sinal de Petúnia. Eu não estava nem perto de ficar satisfeita e tem uma mesa repleta de doces e lanches que tinham acabado de reabastecer.

— Tia Dorothy. – Peguei no ombro de uma tia-avó e a conduzi para perto da mesa. – Quanto tempo! Como a senhora está?

Eu deveria ter vergonha, mas aquela é a minha missão do dia: me acabar de tanto comer na festa da Petúnia. E os meios justificam os fins, os fins justificam os meios, alguma coisa assim.

Talvez, e só talvez, eu não devesse ter feito isso porque quando eu estava comendo a minha enésima rodada de doces eu comecei a me sentir mal.

Não mal de consciência, porque eu me livrei desse peso antes de vir para a festa. Mal fisicamente.

— Ah meu Deus, ah meu Deus. – Aperto minha barriga e fecho os olhos.

— Lily, você está bem? – Minha mãe aparece me olhando com preocupação.

— Sim, estou. – Abri um sorriso e peguei mais um doce, mas foi difícil engolir.

Ah pronto.

— Mãe, eu acho que tenho que ir ao hospital.

— Por que? – Não tive tempo de responder, só de me abaixar e vomitar por trás da mesa, manchando as lindas toalhas de linho branco. – Ah meu Deus, Lily. Eu disse. Eu disse pra você.

Em resposta, gemi alguma coisa. É muito ruim vomitar, eu só queria morrer.

— Sai daí. – Minha mãe me cutucou com o joelho. – As pessoas estão olhando. – Ela jogou o celular debaixo da mesa e por pouco ele não caiu na poça. Fiquei um tempo encarando o celular e pensando o que ela queria dizer com aquilo. Limpei minha boca e tentei disfarçar a cara de morta.

— Achei! – Gritei mais alto do que o normal enquanto levantava o celular no braço e sorria. – Achei. – As pessoas olharam para mim.

— Obrigada, querida. – Minha mãe pegou o celular e jogou dentro da bolsa. – Pega a chave do carro e vai.

— Ok. Ok. – Ela me empurrou levemente e eu saí apressada torcendo para que meu vestido não estivesse manchado.

— Lily? – Ah Petúnia, me dá um tempo.

— Sim?

— Já vai? Não cantamos ‘Parabéns’ ainda.

— Ai Petúnia, sabe o que é? É que eu totalmente me esqueci de que tenho um trabalho para entregar... – Ela parou de prestar atenção à minha desculpa quando abaixou o olhar. Olhei para meu vestido e bem ali perto da barra, uma mancha de vômito.

Que grande merda.

Ela lentamente levantou a cabeça e sorriu para mim.

— Claro, Lily. Boa sorte com o trabalho. Até mais. – E assim se virou.

Eu não estou acreditando na minha imensa falta de sorte. Porém, não pude fazer nada porque minha barriga começou a incomodar e eu sabia que se não corresse ia vomitar no carro dos meus pais.

Dirigi o mais rápido que consegui e torci para não ter pegado nenhuma multa.

Entrei no hospital e corri até uma enfermeira.

— Me ajuda moça. Eu acho que vou morrer. – Ok, talvez eu tenha exagerado um pouco, mas eu queria a atenção total dela.

— Calma senhorita. Sente-se aqui, por gentileza. – Ela me conduziu até uma maca e eu me deitei.

Minhas amigas sempre me falam que eu sou dramática. Mas isso não é algo que eu consiga controlar, é mais forte do que eu. Quando percebo já estou lá fazendo drama. É natural.

— Ai ai ai. – Resmunguei enquanto me deitava.

— O que você está sentindo?

— Minha barriga dói. Tudo dói. – Ela começou a apalpar minha barriga e eu comecei a rir involuntariamente.

Isso sempre foi terrível. Toda vez que eu ia a um médico e ele fazia esse exame na barriga, eu começava a rir descontroladamente. E nunca dava certo.

A enfermeira continuou tentando, mas eu não conseguia parar de rir.

— Senhorita, eu vou chamar o médico. Espere aqui, sim? – Ela disse depois de pegar meus dados e fazer outros exames iniciais.

Eu só concordo com a cabeça ainda com minha careta de dor, involuntária.

— Boa tarde Lily, meu nome é James e eu vou atende-la hoje. – Levanto o olhar para ver o médico e eu quase morro ali mesmo.

Minha nossa senhora da bicicletinha. Amém. Amém.

— Ah oi. – Sorri.

Meu Deus, Lily. Você vai mesmo flertar com o médico?

Em minha defesa, eu só sorri para o médico bonito e isso não significa nada, mas se ele quiser eu quero.

— O que você está sentindo?

Paixão.

— Dor. Dor na barriga. Eu fiquei sem comer o dia todo porque a festa da minha irmã começou às 14 horas e eu queria comer muito sabe. – Ele me olhou por cima das lentes do óculos e sorriu um pouco e meu coração até parou.

— Eu vou colher seu sangue então. Mas provavelmente deve ser intoxicação alimentar ou algo assim.

Que coisa. Na única vez que eu me libero pra comer tudo que eu tenho direito, eu fico doente.

Ele pegou meu braço e começou a fazer aquelas coisas que os profissionais de saúde fazem quando tem que tirar sangue.

Profissionais da saúde, quem vê até pensa que eu tenho noção do que faço.

— Você só vai sentir uma pontadinha. – Nunca me incomodei em tirar sangue e sempre achei interessante ficar olhando meu sangue saindo e tal.

Porém, aproveitei e fiquei olhando para meu médico bonito. Ai ai.

Eu estava encarando mesmo na cara dura, sei nem como ele não reparou. Ou reparou, mas tinha que continuar prestando atenção no meu braço.

— Pronto senhorita Evans. O exame deve ficar pronto em 45 minutos. Espere aqui, tudo bem? – Ele sorriu e saiu.

Sim, eu fiquei desapontada. Eu estava encarando ele sem nem ao menos disfarçar e ele só sorri e vai embora?? Que fase, que fase.

Eu deveria saber, minha sorte está esgotada porque é fim de mês.


Lily, você está bem?
Precisa que eu e seu pai vamos até aí?

Não precisa mãe, eu estou bem
Como está a festa?


Boa, sua irmã vai cortar o bolo agora
Quer que eu leve um pedaço?

Quero que você leve dois


Lily!
Pare de ser exagerada, você está no hospital

Mas quando eu sair eu vou estar melhor


Eu vou levar só um e está bom demais!!

Se minha mãe usou dois pontos de exclamação, é porque ela está mesmo falando sério.

Ok
Sua filha tá aqui morrendo em um hospital e a senhora
nem quer pegar mais um pedaço de bolo pra ela

Mas não custa tentar.


Lily...

Mãe...


Eu vou ver aqui, mas não prometo nada

Obrigada mãe
Te amo ♥ ♥

Eu não vou perder esse bolo por nada no mundo. Quando Petúnia estava decidindo as coisas para a festa, ela chamou minha mãe e minha mãe me chamou e nós três fomos visitar os buffets e confeitarias – é uma maravilha isso e é a melhor parte de se planejar uma festa.

Eu acabei participando da escolha do bolo e o sabor escolhido foi um dos meus favoritos. Então, é claro que eu não posso perder a oportunidade de comer o meu sabor de bolo predileto.

Eu não sei por quanto tempo fiquei deitada na maca pensando na vida e nos doces da festa – 45 minutos – quando o médico bonito apareceu com meus exames.

— Parece que alguém andou comendo muito doce. – Ele disse segurando meus exames. – Seus níveis de glicose subiram muito, porém alguma coisa devia estar estragada porque você passou mal.

— Eu já estou bem melhor, na verdade.

Olha aí, Petúnia. Olha aí, o melhor buffet da cidade com comida estragada. Eu ia lembrar isso para ela pelo resto da minha vida.

— Você vai ter que passar a noite em observação. Tomar soro e tal. – James disse, distraído, enquanto mexia em um tablet e eu imaginava que aquela era a substituta das pranchetas.

— Sério? Mas eu já estou bem melhor.

— Não precisa se preocupar, é só pra ter certeza. Eu vou estar de plantão hoje e vou te fazer companhia. Pode ser? – Eu só queria falar “Claro que sim, meu anjo. Você quer o mundo eu te dou”. Porém, fiquei quieta e assenti.

Ele saiu e depois uma enfermeira me transferiu para uma sala na qual tinha vários outros pacientes que deviam estar em observação também. Ela me entregou aquelas camisolas de hospital e eu fechei a cortina para me trocar.

Resolvi avisar para minha mãe. Eu só pensava nas minhas duas fatias de bolo.

Vou ter que ficar de observação a noite toda


Ah meu Deus Lily Evans!!
Como você pode ser tão irresponsável??
Eu vou para aí, qual hospital você está??

Mãe e o meu bolo?


Você está pensando no bolo?
Pois não devia!!
Foi o seu exagero que te colocou aí!

Mãe pelo amor de deus
Eu tô passando mal


Não devia ter comido tanto!
Agora vai ficar sem!

Ah mas eu não ia mesmo. Fiz muitos sacrifícios por causa dessa comida, não vou desistir assim tão rápido. Falei qual era o hospital que eu estava para minha mãe e ela disse que iria depois de ajudar Petúnia.

Fui falar com meu pai.

Pai, minha mãe não quer mais me dar bolo
Pega sem ela ver por favor e traz aqui pro hospital


Lily, Lily...

Por favooor
Eu estou no hospital


E pode comer em hospital?

Pode né
Eu acho


Eu vou ver aqui, Lily.

Aquilo era o melhor que eu ia conseguir, me despedi do meu pai e abri as cortinas em volta da cama.

Na televisão passava o noticiário e todos os outros pacientes que estão aqui estão dormindo.

Eu passei um tempo assistindo televisão até começar um filme chato e eu ficar sem nada pra fazer.

Porém, tinha um lado bom naquilo tudo: o atestado. E por causa disso, amanhã eu não preciso ir trabalhar.

A gente sempre pensa que depois da faculdade, as coisas vão dar certo. Mas eu estava trabalhando em uma área que não tinha nada a ver com a minha graduação e ganhava um salário baixo. Eu só esperava que depois da pós, tudo desse certo. Ah, as ilusões da vida.

— Oi, como você está? – Eu levei um susto quando vi que o médico James estava ali. Abri meu melhor sorriso de pessoa saudável.

— Eu estou ótima.

— Talvez você não precise ficar aqui a noite toda. – Ele disse mexendo no tablet.

— Eu preciso! – Meu Deus, eu quero aquele atestado. – Preciso sim, o soro tá me fazendo muito bem. – Ele riu.

— Você é a primeira pessoa que eu vejo que quer ficar no hospital.

— O atestado. Não vou precisar trabalhar amanhã.

— Você trabalha aonde? – Bom, eu sempre gostei de falar da minha vida. Isso se chama ascendente em Gêmeos.

É muito bom isso porque eu sempre ganho conselhos. É uma coisa que eu nem percebo, na verdade, eu só começo a falar – porque alguém me deu espaço e acredite, eu posso fazer isso em qualquer lugar. No metrô, na fila do banco, nas lojas... – e, geralmente, eu ganho conselhos.

Nesse momento eu estava falando da minha péssima relação com a minha irmã. James não deu indícios de que precisava ir a outro lugar checar algum paciente e eu só falei e falei.

— Você devia tentar conversar mais com ela. É sua irmã.

— Acontece, James, que eu já tentei. Sério. Mas, eu não consigo consertar uma relação sozinha, sabe? E agora ela não vai querer saber. Ela tá casada, tem um filho. Ela não precisa mais da irmã. – Aquilo ali saiu em um tom mais triste do que eu pretendia.

A verdade é que eu não pensava naquilo há muito tempo. Quando eu e Petúnia começamos essa “guerra fria”, eu estava na faculdade e isso significava muitos trabalhos, muitos seminários, tempo para pensar sobre coisas complexas reduzido a zero. E, enquanto isso, Petúnia ficou noiva e ela estava focada demais em organizar um casamento.

As coisas se tornaram uma bola de neve muito grande e pesada e eu teria que subir uma montanha muito grande e arrastar a Petúnia comigo. E subir na montanha, na neve, é muito difícil.

Talvez, a Petúnia quisesse subir comigo na montanha, mas andar na neve é difícil e você cai, muitas vezes.

Eu falei isso para James.

— Talvez vocês pudessem subir em um teleférico.

— Subir o que?

— A montanha.

Fiquei em silêncio.

— Mas o que vai ser meu teleférico?

— Você não disse que ela tem um filho?

— Sim. – Fiz uma careta. Aquela peste comumente chamada de Dudley me odiava e eu tenho certeza que Petúnia que falava para ele puxar meu cabelo e jogar brinquedos em mim. – Mas ele não gosta de mim.

— Ele tem um ano, ele não sabe do que gosta.

— Ah ele sabe sim, ele puxa meu cabelo!

— Toda criança puxa cabelo.

— Mas ele puxa com força. E joga brinquedos na minha cabeça. E ele não joga os brinquedos leves, ele joga os brinquedos pesados, aqueles feitos daquele plástico duro.

— O seu sobrinho vai ser seu teleférico. – Eu fiquei surpresa pela minha analogia ter feito sentido pra ele porque pra mim fez mais ou menos. – Você se aproxima dele e, consequentemente, se aproxima da sua irmã.

Eu fiquei um tempo pensando naquilo.

— Mas e se não der certo?

— Pelo menos, você tentou.

Ficamos um tempo em silêncio o qual é interrompido quando meus pais chegam junto com... Petúnia?

— Petúnia? – Eu falo alto demais e James me olha com repreensão. Esqueci que só eu e ele estávamos acordados naquela sala. – Quer dizer, Petúnia? O que você está fazendo aqui? – Ela revirou os olhos e me estendeu uma bolsa térmica.

— Eu vim ver como você estava, sua desmiolada. – Peguei a bolsa térmica e vi que ali tinha dois pedaços de bolo e muitos doces. – Ela pode comer doce? – Petúnia perguntou se virando para James.

— Não é o mais indicado, mas...

— É claro que pode. – Eu disse antes que tirassem a bolsa de perto de mim. – Tem um soro bem aqui. Eu vou ficar bem. – Comecei a comer o bolo antes que alguém me impedisse.

Meus pais se retiraram para falar com James e Petúnia ficou perto de mim. Eu nem acreditava que ela estava mesmo aqui.

— Sua festa estava muito bonita. – Ela sorriu e pegou um doce da minha bolsa.

— Que bom porque deu muito trabalho. Eu não vou fazer uma festa para Dudley tão cedo.

Nós duas começamos a conversar sobre festas e depois ela me contou que flagrou a nossa tia-avó Dorothy pegando salgadinhos e doces e jogando dentro da bolsa.

Eu não me lembro da última vez que eu e Petúnia conversamos sem brigar e rimos juntas. Parecia uma coisa fora da realidade, como um sonho ou algo assim.

Quando acabou o horário de visitas, Petúnia me deu até um abraço e disse que ligava depois pra saber como eu estava. Fiquei surpresa, mas foi uma surpresa boa.

— No fim, você mesma foi o teleférico. – James disse depois que meus pais e Petúnia foram embora.

— Quem diria? – Eu estava com sono depois de ter comido aquele tanto de bolo e o que eu disse saiu como “Queen dirira” ou algo pior.

Por causa disso, nem percebi que James estava ali conversando comigo e dormi.

Quando eu acordei no outro dia a sala de pacientes estava mais vazia e não vi James em lugar nenhum. Uma enfermeira veio ver como eu estava e disse que eu provavelmente receberia alta ainda pela manhã.

Como ninguém mais ali estava prestando atenção, eu tomei a liberdade de pegar o controle da televisão e comecei a procurar algum filme para eu assistir.

Porém, eu não consegui achar nada legal e, na verdade, eu já esperava. Nada legal passa de manhã.

Depois de ficar um tempo encarando o teto, um tempo insistindo em achar algum programa legal e um tempo assistindo um filme chato, eu decidi andar pelo hospital.

Peguei meu soro e comecei a caminhar pelos corredores. Eu queria ver se aqui é que nem “Grey’s Anatomy”. Fiquei em frente a “Sala de descanso” por um tempo pra ver se algum médico ia entrar seguido por outro. Ninguém entrou.

Fiquei perto do balcão das enfermeiras pra ver se eu ouvia alguma fofoca, felizmente, ouvi. Não entendi muita coisa, mas me senti no plot de ‘Grey’s Anatomy’ e isso valeu a pena.

Caminhei mais até achar uma senhora dentro de um quarto, em uma cadeira de rodas. Ela estava de costas para a porta. Parada.

Eu não sei o que dá em mim às vezes.

Eu fiquei curiosa sobre aquela senhora. Parada ali, olhando para o nada. Sozinha em um quarto.

Depois dessa experiência, eu me sinto obrigada a falar para todos.

Se uma pessoa está:

1) Longe de todo mundo;

2) Parada olhando para o nada;

3) Sozinha e alheia a tudo.

Tem uma razão para aquilo e uma razão muito boa. Então corra para bem longe quando você ver uma pessoa assim perto de você.

Era isso que eu deveria ter feito. Seguido meu baile e ir ver bebês na Pediatria ou algo assim.

Mas não. Eu quis falar com aquela velha.

Entrei na sala e me posicionei a fim de ficar em frente à senhora. Ela estava parada olhando para o nada. Eu já deveria ter percebido.

— Olá, tudo bem com a senhora? – Ela continuou parada olhando para o nada. – Meu nome é Lily. Eu estou aqui no hospital porque comi muito doce e passei mal. Vê se pode uma coisa dessas. – Eu ri como se não estivesse falando sozinha com uma velha perturbada.

Ela continuou parada.

— Eu estava na festa do meu sobrinho, o Dudley. – Eu não sei como eu continuei falando com ela quando, obviamente, a senhora não queria conversar. Mas eu não conseguia me controlar às vezes, eu gosto de falar. – Foi uma festa linda, a comida estava ótima. Eu não fiquei lá para ver o final, mas minha mãe disse que foi tudo lindo. A minha mãe é uma avó coruja, ela adora o Dudley, mesmo que ele seja uma peste. Você tem netos?

Sabe, depois dessa experiência bizarra que eu tive eu fiquei me perguntando de novo e de novo porque eu inventei de entrar naquela sala e começar um monólogo com uma velha catatônica, mas depois entendi. Eu sempre fui esse tipo de pessoa que tem um apreço por pessoas idosas.

Bom, agora eu não tenho mais.

Em algum momento do meu monólogo, a senhora começou a se balançar. Eu, obviamente, fiquei assustada pensando que ela ia ter um ataque epiléptico ou coisa assim.

E aqui vai uma coisa sobre pessoas que ficam se balançando compulsivamente, é bizarro. E é mais bizarro ainda quando é uma velha.

(Eu sei que eu deveria falar senhora, mas eu fiquei com raiva dela então vai ser velha mesmo).

Fiquei um tempo parada olhando aquilo e pensando “Ah pronto. Isso nunca vai sair da minha cabeça” e depois comecei a olhar em volta procurando aquele botão que a gente aperta para as enfermeiras virem. O quarto que estávamos era o mais distante do balcão e quando eu pensei em gritar por ajuda, a velha para.

— A senhora está bem? Quer que eu chame o médico? – Nesse momento, ela para e encara um ponto atrás do meu ombro direito.

— Ele está na Rússia. – Ela fala com uma voz fina e frágil, como papel sendo amassado ou algo assim. – Ele está na Rússia. – Eu pensei que ela tinha demência, o que é uma doença e acontece muitas vezes com pessoas idosas.

— Quem está na Rússia? – Falei me sentindo a Madre Teresa dos idosos e fracos.

— Atrás de você. – Meu coração parou.

Eu imaginei uma mão com garras pegando no meu ombro, enterrando as garras no meu ombro, me puxando e me arrastando para algum buraco na terra. Diretamente para o Inferno que nem aqueles filmes horrorosos de terror.

A velha continuava olhando para o ponto atrás de mim e eu pensei que ia morrer.

Primeiro veio o medo, depois veio a raiva.

Eu pensei em duas opções:

1) Se eu me virar e tiver algum bicho atrás de mim, eu corro e empurro a velha para ele e saio correndo sem olhar pra trás.

2) Se ele me agarra antes que eu possa empurrar a velha, eu levo a velha junto comigo.

Flexionei minhas pernas para que eu possa correr, tomei coragem e olhei para trás.

Não tinha nada, o que talvez tenha sido pior. Relaxei o corpo e olhei para a velha que ainda estava parada lá olhando para o nada.

Quis xingar aquela louca por ter feito eu passar por aqueles momentos de terror, mas ela ia dizer algo como “Ele está na Rússia e na sua frente” e fui embora.

De volta a sala dos pacientes eu ainda pensava naquela velha perturbada quando percebi que James me esperava encostado na minha maca.

— Fazendo um passeio pelo hospital?

— Queria saber se aqui é que nem Grey’s Anatomy.

— E é? – Em Grey’s não tem nenhuma velha louca, só algumas, mas elas não aterrorizam pobres meninas indefesas.

— Não.

— Estou aqui para te dar alta. Você está sentindo alguma coisa?

— Não, estou bem. Mas, no caso, de eu passar mal... – Eu disse me aproximando um pouco mais. – Como faço para entrar em contato com você? – Ok, foi um pouco na cara dura. Mas eu ainda estava cheia de adrenalina depois daquele encontro com uma personagem de “American Horror Story”.

Ele parou e ficou me olhando por um tempo. De acordo com meu conhecimento de ética médica, os médicos não podiam criar uma “relação” com os pacientes. Mas não era bem uma relação, eu só queria o número dele. Tomar um café, sair e falar sobre teleféricos. É isto.

***

A citação contemporânea “Nunca diga que não bebereis porque vai que bebereis” nunca fez tanto sentido na minha cabeça. Eu não queria me envolver com o meu próprio médico.

Eu já deveria saber que todos os meus esquemas dão errado.

— Eu não estou acreditando que você está ficando com seu médico. – Marlene disse enquanto sorria maliciosamente para mim.

— Eu não estou ficando com ele, a gente só ficou uma vez. E uma vez não significa nada.

— Lily, Lily... – Ela disse balançando a cabeça, mas continuava sorrindo.

— O que eu faço?

— Segue o baile né.

O problema da frase “Segue o baile” é que é muito interpretativa. Eu podia interpretar aquilo de várias formas.

1) Continua pegando seu médico;

2) Segue em frente e esquece seu médico.

Duas coisas completamente diferentes e a Marlene ainda sai falando por aí que é uma boa conselheira.

Mas eu até entendo porque Marlene ficou com essa fama. Quando ela dá esses conselhos vagos, dá espaço para a pessoa fazer o que ela realmente quer. Tudo que a Marlene faz é encorajar, eu já devia saber disso. Ela fez isso comigo a minha vida toda.

— Lily, você tem que se arriscar mais. – Marlene começa. – Você só teve um namorado sério na vida, tem 24 anos e ainda mora com os pais.

— Qual é o problema de morar com os pais? Morar sozinho dá muito trabalho e você sabe disso. Não quero ter que adiantar nada. Além do mais, realmente, eu tive só um namoro sério. Porém, eu tive vários outros namoros não sérios.

— Eu só estou dizendo que você não deveria se preocupar tanto com isso. Ok, você ficou com seu médico. Grande coisa, você não é a primeira e nem a última. – Na verdade, eu fiquei surpresa por Marlene ter complementado o conselho dela. Eu pensei que ia acabar em “Segue o baile”.

— É né.

— É. Você disse que ele é legal, que tem um papo bom, que é bonito e beija bem. – Ah se beija. – Chama ele pra sair de novo.

— Ok, ok.

No começo, eu não queria mais nada com James além da amizade porque achei que ia ser estranho ficar com meu médico. Porém, quanto mais tempo se passou, mais encontros, mais conversas, eu acabei me afeiçoando mais do que deveria e aí eu não queria ser só amiga.

— O que eu mando? – Marlene revirou os olhos e pegou meu celular. Eu quis protestar, mas sabia que ela ia escrever algo que mostrasse que eu estava interessada.

— Pronto. Você e ele naquela lanchonete legal que abriu aqui perto.

— Aquele que você prometeu que íamos juntas e depois nunca mais falou sobre?

— Bom, agora você não precisa mais me cobrar. – Ela piscou.

E eu sorri feliz com o rumo que as coisas estavam tomando.

Comer muito açúcar nunca teve consequências tão doces.

Notas finais
Outra estória mais focada em "Como se conheceram" do que "Como é nosso relacionamento". Não sei, gosto mais de escrever estórias assim :) Desta vez, a Lily que eu construí tem uma moral um pouco duvidosa hahahaha e eu adorei Me deixem saber o que acharam! Um beijo e até a próxima, Sorvete de Limão ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!