Notas iniciais
Prepara que tem um tirozinho

− Eu não vou permitir que você o machuque. – Kiba tomou a frente, olhando com seriedade para o tigre que o encarava de volta. – Ele é meu companheiro e terá que me matar antes de alcançá-lo.

O tigre avançou em sua direção. Mesmo ferido, Kiba rolou para o lado, preparando a lança para atingi-lo. O lobo, antes caído aos seus pés, usou suas últimas forças para impulsionar-se sobre o pescoço do felino enquanto Kiba avançava com a lança...

− Corta! – Asuma gritou, observando a cena. – Acho que ficaria melhor se o lobo o salvasse. O vínculo entre homem e animal pareceria mais real e mais passional também.

− Mas a minha cena vibrante! – Kiba fez beicinho.

− Vamos novamente!

Kiba suspirou. Aquilo era mais trabalhoso do que parecia.

X

− Você foi ótimo ali, Kiba! – Rock Lee, companheiro de classe, deu um sorriso brilhante para Inuzuka. – Acho que a peça vai fazer muito sucesso! Shino vai vir assisti-lo?

− Não tenho certeza. – Kiba encolheu os ombros, enfiando a cabeça embaixo da torneira e refrescando-se. Permitiu que toda a maquiagem saísse do rosto antes de aceitar a toalha que Lee oferecia a ele, secando o rosto e os cabelos. – Ele teve que viajar às pressas para Suna para resolver umas coisas, mas espero que volte a tempo.

− Ele tem trabalhado muito, não é? – Lee abriu um sorrisinho para o amigo, condescendente. Os dois haviam se conhecido logo no primeiro dia de aula. Lee vinha de uma pequena cidade no interior, tendo como único sonho um dia brilhar na Broadway. Mas quem naquele ramo não desejaria o mesmo? Os dois fizeram amizade instantânea por conta dos gênios parecidos, e agora andavam para cima e para baixo juntos, tanto porque Lee precisava de ajuda na maior parte do tempo com o filho bebê, Metal.

Segundo o que ele havia lhe contado, a mãe de Metal morrera no parto do garoto. Os pais de Lee, Kakashi e Gai, lhe davam todo o suporte possível. Não vinha de uma família pobre, Kakashi era um cozinheiro famoso e Gai, um apresentador conhecido na TV. Mas Lee resolvera trilhar o próprio caminho sem usar o estrelato dos pais como uma porta para o sucesso, até porque o que desejava era o teatro e não a TV!

− Mas é por uma boa causa. – Kiba sorriu. – Vai pegar o Metal hoje na casa dos seus pais? Se quiser pode ir lá pra casa e vemos um filme juntos.

Lee negou com a cabeça.

− Preciso estudar o meu papel! Sei que sou apenas um tigre, mas quero vivenciar mais isso! Quer carona? – Lee perguntou.

− Não se preocupa, tô tranquilo. Acho que vou dar uma caminhada mesmo.

− Tudo bem então! Exercite seu fogo da juventude!

Despediram-se, e Kiba seguiu o próprio caminho.

X

O clima estava esfriando naquele dia. Já era noite quando Kiba finalmente resolveu caminhar para casa, saído de uma sala vazia onde tinha passado o restante da tarde ensaiando.

Caminhava para casa usando um moletom grosso quando ouviu os pequenos passos atrás de si. Já tinha algum tempo, pelo menos desde que havia saído da mercearia onde fizera compras para casa, que se sentia sendo seguido.

Os passos foram diminuindo aos poucos até que Kiba estacou, surpreendendo quem quer que estivesse se aproximando.

− Eu te ouvi a pelo menos duas esquinas. – O homem virou-se na direção de seu possível agressor, deparando-se com uma garota magra e desnutrida que segurava apenas um canivete como arma. – O que acha que vai conseguir com isso? – Kiba sopesou as compras, equilibrando-as com a mão esquerda.

A menina, com uma expressão funda e cadavérica de quem não comia há dias, encarou-o assustada.

− Me dá a sua carteira, tio! Anda! – As ruas pouco iluminadas projetavam a sombra de ambos. Ninguém transitava por aquele caminho onde Kiba havia decidido pegar um atalho. Ele sabia que não devia descuidar-se mesmo que aquela garota estivesse em condições precárias, mas foi justamente isso que o atingiu em cheio.

− Na minha carteira não tem mais que uns trocados, garota. – Kiba respondeu com sinceridade. Enxergava no olhar dela algo que não era apenas fome ou desespero, mas o pavor de quem estava perdido. O mesmo pavor que encontrara nos olhos de Naruto quando o garoto havia perdido o avô. – Vamos, você não quer fazer isso.

− Cala essa boca! Você não sabe de nada! – Os cabelos em tom violáceo estavam desgrenhados. A menina não devia ter mais do que doze anos, mas já estava assim, perdida nas ruas...

− Sei que você tem me seguido já tem algum tempo, que deve estar na região sendo protegida por algum desses caras que acha que faz bem a você, mas que na verdade só se aproveitam de crianças. – Ele trocou o peso da perna, os olhos argutos observando-a como nunca. A garota o tomara apenas por um bobalhão, mas pelo visto Kiba era mais do que isso. – De que orfanato você fugiu?

As palavras a pegaram em cheio. Choque preencheu seu rosto.

− Foi o que pensei. – Kiba não usava um tom maldoso ao falar com ela. – Deve estar faminta, né? Vamos, pago um lanche pra você. Guarde esse canivete antes que alguém te veja.

X

Seu nome era Sumire.

Kiba descobriu que a menina tinha perdido o pai para um incidente que ocorrera na indústria onde ele trabalhava, há mais ou menos seis anos. A explosão o matou muito antes que tivesse a chance de fugir. A mãe tornou-se violenta, depressiva. Batia na filha com frequência até que o conselho tutelar a tirou de sua guarda, há mais ou menos dois anos.

Sumire achou que a vida não poderia ficar pior até que foi lançada no sistema. Enquanto ela lhe contava aquilo, tomando o copo de suco e devorando o hambúrguer que Kiba pagara para si, ele sentiu o coração apertado.

Quantas crianças como ela deveriam passar por isso?

Sumire ainda lhe contara a respeito das casas que já havia frequentado; pessoas que aceitavam órfãos como ela apenas pelo dinheiro que o governo oferecia. E então os espancavam ou faziam coisas piores. Ela lhe contara a respeito de uma amiga que tinha sido usada para outros fins que deixaram Kiba aterrorizado.

− E então eu encontrei esse cara. – Sumire murmurou baixinho, os olhos perdendo o brilho. – Ele disse que me protegeria e me daria um lar, desde que eu levasse dinheiro para ele todas as noites. Somos um grupo de seis ou sete garotos no total, que obedecem a ele. Todos com alguma história parecida. Ele não judia da gente se voltamos com a grana. Dá um prato de comida e um canto pra dormir. É melhor do que passar por aquelas coisas.

Inuzuka ouviu aquilo em silêncio, sentindo um nó na garganta.

− Obrigada pela comida. Eu vim te roubar e você foi super gentil comigo. – Sumire sorriu para Kiba com lágrimas nos olhos, pronta para se levantar, mas Kiba segurou sua mão.

− Me mostra esse lugar e esse cara. Me deixa ajudar você.

Mas Sumire negou com a cabeça.

− Faz parte do código, não posso fazer isso. – Suspirou. – Você é legal, mas não pode mudar as coisas. Elas são como são.

Era como se algo se partisse dentro dele. Como se de repente o chão fosse sugado dos seus pés. Ele não soube o que fazer quando Sumire se levantou, acenando. Agradecendo o pouco de dinheiro que Kiba havia lhe oferecido. Se a história era verdade ou não, Inuzuka não sabia. Mas lágrimas tinham lhe alcançado os olhos enquanto encarava as costas daquela menina, seguindo para o frio da noite com as roupas esfarrapadas e o casaco grosso que Kiba havia lhe dado.

O mundo realmente sabia como ser cruel, não sabia?

Notas finais
Esse arco eu planejei tem alguns meses. Não sei o que nos aguarda a partir daqui. Mas segurem a minha mão e vamos com fé! Foco no bb!