Notas iniciais
Lembram que eu disse que esse arco seria mais focado no Kiba? Pois é. Boa leitura!

O tapa estalou no rosto de Sumire antes que se desse conta do que acontecia. As lágrimas se concentraram nos olhos violáceos, mas ela recusou-se a derramá-las.

− Você já foi melhor que isso, querida. – A voz serpentina fez com que se arrepiasse. – Não está escondendo dinheiro de mim como Kotarou fez, não é? Sabe o que aconteceu com ele.

Ela sabia.

Em parte, dissera a verdade a Kiba. Sobre o fato de que Kabuto permitia que tivessem um prato de comida e um local para dormir. Só não havia dito a ele como as regras eram rigorosas. E que havia uma taxa mínima a ser paga todos os dias pela benevolência que o homem lhes oferecia.

− Não estou escondendo nada! – exclamou ela.

− E quanto a esse casaco maravilhoso? – questionou ele com ar venenoso, segurando seu pulso com tanta firmeza que as marcas dos dedos ficaram como hematomas na pele alva de Sumire.

− Eu peguei do cara que assaltei. – mentiu. – Ele só tinha uns trocados, foi o preço.

Kabuto a encarou como se testasse a veracidade de suas palavras. Os olhos ainda brilhavam como olhos de serpente quando finalmente a soltou, desamassando as próprias roupas.

− Acho que posso usá-lo como uma parte de seu pagamento nesta noite. Apenas porque estou muito bondoso. – Ele estendeu a mão, esperando que o casaco fosse entregue de bom grado.

Sumire ficou indignada.

− Mas o combinado era apenas o dinheiro! Não os objetos!

Outro tapa estalou em seu rosto, e desta vez Sumire sentiu o sabor do próprio sangue.

− Não brinque comigo, Sumire. Te tirei daquela merda de orfanato e posso te colocar de volta. Quer isso? Voltar para aquele sistema que só vai acabar com sua vida?

A ameaça clara fez com que ela estremecesse mais que a dor do tapa. Lembrou-se do sorriso caloroso de Kiba e em como ele havia sido gentil consigo, mas tinha medo. Medo porque Kabuto também fora gentil a princípio. Como saber que eles não eram iguais? Que não se meteria em uma situação ainda pior ou que o próprio Kiba não a levaria de volta para o orfanato? Era arriscar-se demais sem garantia alguma.

Sumire tirou o casaco, sentindo o frio gelar os ossinhos finos de seu corpo.

− Boa garota. – disse ele com um sorriso. – Tenho certeza que o dia de amanhã será muito melhor.

Sumire não sabia disso. Apenas desejava que algum dia pudesse juntar dinheiro o suficiente para sair dali.

X

Kiba revirou-se nos lençóis incapaz de dormir, pensativo a respeito da garota. Sentira algo diferente ao vê-la, uma necessidade que não cabia em si de ajudá-la. Respirou fundo, mas as palavras dela rondavam em sua mente. O que ele poderia fazer? Como poderia lutar contra todo um sistema?

Decidiu consultar a única pessoa que sabia que poderia ajudá-lo no caso. E não pensou na hora quando vestiu-se, pegando um táxi na direção do apartamento que Naruto dividia com Sasuke.

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− Você conversou com Shino a respeito disso? – Sasuke arqueou as sobrancelhas quando Kiba o colocou a par do assunto. Naruto não estava em casa naquele dia. Viajara para um curso que haviam lhe oferecido para aprimorar suas habilidades como chef.

− Ele está ocupado demais resolvendo as coisas da empresa e Ino está perto de ganhar o bebê. Não posso ocupar ele com isso, Sasuke. – A expressão preocupada de Kiba fez com que o Uchiha se concentrasse naquilo enquanto bebericava uma xícara de café.

− Essa não é a minha área, Kiba, mas posso te direcionar em uma coisa ou duas. – disse ele. – Não é tanto sobre direito até aqui, sabe? Mas sobre uma criança fugida de um orfanato. Não adianta nada você achar que pode ajudá-la simplesmente tirando-a da rua, porque o sistema... o sistema apenas vai jogá-la de volta em algum lar adotivo. É difícil combater isso.

− E eu não posso ser esse lar? – perguntou ele, coçando a cabeça. – Quero dizer... eu e o Shino?

Sasuke encarou aquele olhar perdido. O olhar de quem faria de tudo para ajudar alguém que precisasse.

− Você mal a conhece, Kiba. Tem certeza de que quer se meter nisso?

Kiba o olhou no fundo dos olhos. Sasuke reconheceu ali uma determinação que jamais enxergara em si mesmo e invejou-o por um momento.

− Fale com o Shino primeiro. Se ele aprovar isso... se aprovar, eu darei um jeito de ajudá-lo. Posso mexer uns pauzinhos em seu favor.

Aquilo era tudo o que Kiba precisava ouvir.

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Aquela não era uma conversa que Kiba gostaria de ter por Skype, mas não via outra escolha. Sabia que se deixasse o rastro esfriar, perderia aquela garotinha para sempre. A perderia, e ela seria engolida por uma vida marcada por dor e desastre. Nem mesmo o próprio Inuzuka sabia explicar porque ela lhe tocara de maneira tão profunda.

Quantas crianças não estavam na mesma situação? E o que ele poderia fazer? Adotar todas elas? Sabia que isso era utópico.

Mas de alguma forma, ainda que a tivesse conhecido de maneira tão inusitada, sentiu-se conectado... como se aquilo estivesse ao seu alcance de alguma forma.

Kiba respirou fundo, fazendo a vídeo-chamada. Shino atendeu-o no terceiro toque.

− Ei, tudo bem por aí? – Kiba tentou oferecer um sorriso que não enganou o marido nem mesmo por um minuto.

− Estou quase fechando um acordo. O que houve?

Patético. Era patético por querer isso. Patético por pedir a Shino que parasse tudo apenas para ouvi-lo. Mas antes que pudesse se dar conta, contava tudo ao esposo. Cada detalhe do que havia acontecido aquela noite. E Aburame ouviu-o com a mesma expressão estoica que usava para tudo, indecifrável.

− Sasuke disse que pode resolver isso?

− Disse que pode tentar. – Kiba limpava as lágrimas do canto dos olhos ao dizer isso.

− Sabe que essa garota pode ter armado para você, não é?

− Sei.

Shino suspirou, uma longa pausa.

− Pedirei a Kankuro que vá até aí e investigue. Quando soubermos que é seguro... voltaremos a conversar sobre isso. Mas Kiba... não se envolva demais.

Kiba sorriu fracamente. Ele já estava envolvido. Ambos sabiam disso.

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Kankuro chegou logo pela manhã, parando tudo o que estava fazendo para realizar aquele favor para o cunhado de consideração. Não tanto por Shino, mas por Kiba e tudo o que o garoto já havia feito por ele.

Pesquisara a respeito do nome da garota, sobre o incidente que ela relatara com o pai e a mãe. Conseguiu puxar algumas informações durante o voo, mantendo-se acordado a base de muita cafeína até que bateu à porta do orfanato do qual conseguira o nome.

Foi atendido por uma senhora, fingindo ser um homem casado que tinha interesse em adotar uma criança. Não foi muito difícil ganhar a atenção dela com o porte que possuía, o jeito fácil de ganhar a confiança também.

Em dado momento, pediu para ir até o banheiro, e aproveitou-se daquele momento para investigar um pouco mais a respeito.

O orfanato possuía uma situação precária, as paredes emboloradas e mofadas causando alergias e problemas respiratórios na maioria das crianças ali. Muitas eram remanejadas para outros orfanatos, jogadas em lares adotivos que só se importavam com o dinheiro e nada mais.

Molhando a mão certa, Kankuro conseguiu acesso aos arquivos de Sumire, mesmo que lhes garantisse que agora ela estava em um bom lar.

Não foi difícil para Kankuro descobrir que, em muitos desses lares, a violência doméstica fora relatada. E ele logo chegou à casa onde Sumire havia estado por último. Quem lhe atendeu foi um homem com o dobro do seu tamanho e, ao ver as crianças assustadas correrem para o quarto, o irmão mais velho de Gaara logo compreendeu o que acontecia.

Precisou usar algumas táticas pouco convencionais, mas logo compreendeu o que acontecia ali. Em troca de devolver as crianças para o orfanato alegando não poder cuidar delas e de informações, Kankuro permitiu que o homem não apodrecesse o resto da vida na cadeia, ou ao menos foi o que disse a ele.

Obviamente, ele não falou nada a respeito dos colegas que passariam por ali mais tarde.

Com todas as informações reunidas, restava-lhe apenas agora falar com Kiba e ver o que o outro homem decidiria a partir disso.

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− Caralho, você é bom mesmo no seu trabalho! – Kiba exclamou ao ser bombardeado com as informações de Kankuro. – Conseguiu achar ela?

− Ainda não, mas também não fui muito a fundo nas buscas, jaan. – Kankuro esclareceu dando um gole na cerveja oferecida por Kiba. – Até onde eu vi, a história dela bate, Kiba. Mas essa cidade é um palheiro e sua garota é uma agulha.

Ele acenou com a cabeça, mordiscando o lábio inferior.

− Por que decidiu se envolver com isso agora?

− Eu... não sei, cara. Ela mexeu comigo. – Kiba respirou fundo, abaixando a cabeça com um sorriso perdido. – Eu sei que não posso salvar o mundo, sabe? Que eu talvez não faça diferença alguma, mas...

− Você faz. – Kankuro garantiu olhando para o amigo. – Ninguém no seu lugar teria tomado a mesma atitude. E vou garantir que sua garotinha seja encontrada.

Um sorriso brotou dos lábios de Kiba. Grato. Ele era realmente grato por todas as amizades que havia feito ao longo da vida.

Notas finais
Não gosto da ideia de crianças apanhando para caras malvados, mas eu decidi que, em algum momento, iria explorar isso nessa fic. Acho que aqui é o ponto certo. E aí, o que vocês estão achando dessa Sumire bb nas garras do Kabuto? Aguardo vocês nos comentários!