Sugar Daddy
39 A minha intuição nunca falha
Notas iniciais
Kiba estava nervoso.
Não importava que dissesse que tinha tudo sob controle, aquela seria a primeira apresentação que fariam em público e o teatro estava lotado. Soube disso no momento em que Rock Lee entrou anunciando a massa de pessoas que observava do lado de fora.
Embora fosse uma apresentação da faculdade, era aberta ao público de todas as idades com um preço irrisório pelos ingressos junto com um quilo de alimento.
Era óbvio que a maior parte dos colegas de trabalho de Shino e Kiba estavam ali, o próprio Shino incluso. Para ele, Sumire, Tsume, Hana, Sasuke e Naruto, a fileira da frente havia sido reservada. O próprio Shino tinha entrado como patrocinador da peça, garantindo que todas as doações seriam entregues para famílias carentes.
O evento social todo havia sido um sucesso.
Mas o que dizer sobre o comichão que sentia? Sobre o frio na barriga que ameaçava se sobrepor ao desejo de se apresentar?
Respirou fundo, sentindo as mãos gélidas.
− Vai ficar tudo bem, cara! – Rock Lee o encorajou enquanto lhe faziam a maquiagem. – Temos o fogo da juventude conosco!
Mas tudo o que Kiba queria naquele momento era cavar um buraco no chão e fugir.
X
A apresentação estava prestes a começar. Sumire estava ansiosa para ver Kiba em ação. Tinha acompanhado alguns ensaios dele com autorização, e embora estar em meio a tantas pessoas ainda fosse difícil para a garotinha, o acompanhamento psicológico vinha ajudando bastante.
Shino, por outro lado, sentia-se incomodado. Pessoas andavam de um lado para o outro fazendo burburinhos atrás da cortina. Seu sexto sentido apontava para algo estranho e sua intuição nunca falhava.
− Vou buscar uma água. – anunciou, levantando-se. – Fique aqui com a vovó e o tio Naruto, sim?
Sumire concordou com a cabeça. Era, para ela, muito difícil estar longe de Shino ou Kiba ainda. Mas havia feito algum progresso, chegando até mesmo a passar um fim de semana inteiro na casa de Tsume.
− Se precisar, vou lá e dou um safanão. – Tsume anunciou ao que Shino sorriu amarelo. Sabia que, como ele, Tsume previa que havia algo de errado. Pois Kiba nunca havia sido muito bom em suportar grandes pressões.
− Tudo bem, mas acho que não será preciso. – Pediu licença para as pessoas adiante, passando pela fileira e seguindo para o local que dava acesso aos camarotes.
− Acha que Kiba vai ficar bem? – Hana perguntou para Naruto, baixinho para que Sumire não ouvisse.
− Tenho certeza que o Shino vai colocar os pés dele no chão, ‘te bayo! – Naruto sorriu largo, olhando para as cortinas que ainda estavam fechadas. Um pequeno problema técnico, eles haviam dito. Hana também tinha essa certeza.
X
Não foi difícil para Shino conseguir acesso aos camarotes. Mesmo ali, seu nome era conhecido como um dos grandes investidores daquele evento beneficente. Encontrou Rock Lee no caminho, reconhecendo-o como um dos amigos de teatro de Kiba.
− Ele está lá dentro. – disse ele. – Acho que está se sentindo um pouquinho pressionado com tudo. – Sorriu largo, a maquiagem de tigre destacando-se em seu rosto. – Mas tenho certeza que com o fogo da juventude, logo estaremos no palco!
Era um tipo bem esquisito aquele, Shino pensou enquanto batia com os nós dos dedos na porta.
− Vá embora! Já disse que não vou! – Kiba exclamou.
− Sou eu. – Shino anunciou, sendo seguido por um silêncio incômodo. – Kiba.
O rapaz sabia que ele não iria embora. Shino poderia muito bem ser persistente quando queria.
− Eu envergonhei todo mundo, Shino. – murmurou. Aburame podia ouvir a voz dele abafada, próxima à porta. – Fiz todos os ensaios, peguei o papel principal. Mas agora... é tanta gente!
Shino abriu um pequeno sorriso, tocando a madeira sulcada, observando o desgaste.
− Lembra-se quando tivemos aquela apresentação de Bela Adormecida na escola? – Shino perguntou, apoiando a testa sobre a porta enquanto fechava os olhos. – Você não queria aquele papel porque achava ridículo, mas no fim das contas subimos no palco juntos e trocamos nosso primeiro beijo em público. Mesmo não sendo real.
− E o que tem? – Sua voz ainda estava abafada.
− Naquela época, eu tinha sérios problemas em fazer qualquer coisa em público. – Shino prosseguiu. – Mas como você estava comigo ali, senti que poderia fazer qualquer coisa. – Ele fez uma pausa, respirando profundamente e ficou de costas com as mãos dentro dos bolsos do sobretudo. – Sei que não estarei com você lá no palco, mas vou estar na plateia torcendo por você junto com todos os seus amigos. Quando você me disse... quando disse que seu sonho era teatro, eu nunca me importei que abraçasse isso apesar de saber das dificuldades desse caminho. Se isso não for o que você quer, Kiba, sairemos eu e você pelos fundos agora e não deixarei que ninguém fale sobre isso. Arrumaremos outra pessoa para o papel. Mas se você não fizer isso porque está com medo... Acho que se arrependerá por sequer ter tentado.
Kiba refletiu sobre isso, desejando rebater que era fácil falar. Mas ser agressivo com aquele que tentava lhe ajudar era realmente a resposta certa para aquela situação?
− Sabe... Sumire disse que você estava ótimo nos ensaios. – Decidiu apelar para o emocional. – Ela tem estado ansiosa desde o momento em que pisamos aqui.
Aquilo o tocou profundamente. Ele sabia que a filhinha estava doida para ver aquela peça! Não podia desapontá-la!
− Além disso – Shino pigarreou. – Tsume-san disse que eu poderia chamá-la, sabe, caso fosse preciso.
O sangue de Kiba gelou. A porta destrancou-se imediatamente.
− Entra aqui logo e me ajuda! Ela vai arrancar minhas orelhas se eu não for pro palco!
Shino sorriu. Às vezes era preciso um pouco de psicologia materna para as coisas funcionarem.
X
A apresentação foi um sucesso. Kiba incorporou o papel de um selvagem que tinha seu primeiro contato com um lobo, domesticando-o e transformando-o em seu melhor amigo. A cena onde o lobo lhe salvava do tigre malvado havia sido simplesmente maravilhosa! Kiba era natural, cheio de caras e bocas que tornavam a peça leve e divertida. Chegou até mesmo a improvisar interagindo com o público e levando Rock Lee como tigre para o meio deles para assustar as crianças!
Foi simplesmente perfeito.
No meio da apresentação, se sentia mais leve. Ao fim da peça, foram ovacionados pelos aplausos do público que pedia por mais.
Depois disso, ficou para falar com o pessoal e receber os parabéns dos amigos. Comemoraram com um grande jantar, que acabou em bebedeira e diversão.
Por fim, indo para casa levados pelo motorista particular de ambos, colocaram Sumire na cama.
− Você foi incrível, tou-san. – murmurou para Kiba, palavra que não passou despercebido pelo homem que transpareceu as lágrimas mudas no semblante. Alegria pura, é claro. – Quando crescer, quero ser como vocês.
Sumire adormeceu pouco depois, embalada por uma canção que Shino costumava cantar para ela todas as noites. Foi uma grata surpresa para Kiba descobrir que a voz rouca e arranhada do marido tinha também aquela finalidade.
− Ela se sente calma quando canto para ela. – respondeu, o rosto corado como quem não quer admitir um talento oculto.
− Sei. – Kiba sorriu de canto. – Obrigado por hoje. Pelo safanão.
− Faz parte. – Shino o envolveu em seus braços depois que se deitaram. Kiba vestindo um confortável pijama de flanelas amarelo enquanto Shino usava apenas um moletom preto sem camisa. – Você foi ótimo, Sumire não mentiu.
Kiba anuiu com a cabeça, ainda saboreando a palavra na mente.
− Ela me chamou de tou-san. – disse ele. – Eu não estava preparado. Apenas muito preparo no teatro me permitiu segurar as lágrimas!
Shino sorriu. Era óbvio que Kiba não havia segurado nada. Mas apertou-o em seus braços como se concordasse.
− Sabe... – Kiba falou depois de um tempo, olhando para o marido. – Nunca pensei que chegaria até aqui. Que daquele encontro no leilão, depois de tudo... as coisas aconteceriam desse modo.
− Confesso que eu também não. – Shino sorriu. – E por um tempo a possibilidade de que você pudesse ir embora a qualquer momento me assombrou. Fico feliz que não o tenha feito.
− Eu não poderia. – Abaixou a cabeça, desenhando círculos invisíveis em sua pele. – Você e eu... simplesmente tinha que acontecer. Aceitei isso como destino.
Destino. Como Naruto havia lhe falado no dia posterior ao casamento de ambos.
− Suponho que sim.
Kiba riu.
− O que foi?
− Você nunca foi uma pessoa de suposições, mas de certezas.
Shino tinha que concordar.
− Acho que... tê-lo em minha vida me mostrou que não posso ter o controle de todas as escolhas e opções, e tudo bem também. – disse por fim. – Depois do trauma que passei, manter o controle era o que me mantinha são. Mas quando você retornou, eu... simplesmente aceitei que certas coisas são como furacões. E isso não é sempre uma coisa ruim. Posso perder o controle às vezes, se for com você.
Beijou-lhe os lábios com cuidado.
− Posso aceitar isso como uma espécie de elogio. – Deu um risinho baixo, aconchegando-se perto dele. Pois sabia que enquanto estivessem juntos, poderiam enfrentar qualquer coisa.
Fale com o autor