Minh'alma obscura clama por ti.

Hoje sei que fui só uma distração para você; na verdade, nem isso fui. Pensei que havia encontrado meu sol; ledo engano. Você se aproveitou de um pobre coitado, um cara solitário e triste. Você lhe deu esperanças. Me deu esperanças.

Eu sou patético; você é frívola. Mesmo eu tendo te dado o céu e as estrelas, o universo e o meu amor, nada disso era o suficiente. Não, para você, ouro e vinho é mais. Boa aparência é mais. Você me deixou porque eu nunca te dei flores. Para que elas? E os inúmeros jantares a que a levei? E as longas horas de momentos felizes? Nada disso importou?

Parece que não. Eu sou só um pedaço de lixo, meus pais tinham razão. Como eu fui acreditar que uma mulher bonita e sofisticada como você ficaria comigo? Como pude pensar ser o suficiente para você?

Eu sou uma merda.

Você foi discreta ao terminar. Não me xingou, não me insultou. Só disse: não dá mais.

Não dá mesmo. Aqueles seus olhos escuros estavam sempre desviando de mim. Você nunca me apresentou para os seus amigos ou pais. Você tinha vergonha de mim. Eu sei. Eu nunca cobrei nada disso. Eu só queria você ao meu lado. É tão difícil fazer isso? Ter de me suportar? Estar ao meu lado?

Estou sozinho. Isso não é novidade, sempre estive assim. O problema é que você me apresentou para a felicidade, para as gargalhadas, à companhia de outrem, para a vida.

O que eu faço com o buraco que você deixou no meu peito?

Eu te amava tanto! Mas isso não importava, não? Nosso sexo era lento e apaixonado, mas você não queria nada disso. Você queria selvageria, queria brutalidade.

Mas, baby, eu sou um nerd, se lembra? Sou do tipo romântico que prefere cinema a barzinho. Que prefere vinho a cerveja. Que prefere estar sozinho quando mal. Oh, você se queixava da minha solidão. Você precisa de amigos, dizia quase sempre. Mas eu sou só um miserável, não? Sou um filho da puta miserável! Sou a escória da sociedade.

Mesmo eu tendo dinheiro. Mesmo eu tendo poder. Eu não sou nada.

Você queria viajar, conhecer o mundo, ter filhos. Eu só queria ficar em casa, curtindo um videogame e escutando música no fone de ouvido. Não queria família, para quê? Meus pais me jogaram de um lado para outro entre eles depois do divórcio — que aconteceu por minha culpa. Enquanto os pais brigam pela guarda dos filhos, eles brigavam para se livrar dela. Irônico, não? Meus meios-irmãos riam de mim. "O filho que ninguém quer", de fato.

Eu era um monstro. Eu o sou ainda. Talvez isso seja algo incurável. Quer dizer, é. Você comprovou isso, não? Provou que eu não valho nada.

Desculpe-me por esta carta. Eu sei que você não a lerá. Não a escrevi para te entregar. Se, por algum motivo, chegar às suas mãos, peço que desconsidere qualquer sentimento de piedade para comigo. Não tinha a intenção de tocá-la; estava apenas desabafando. Se alguém chegar a encontrar isto, significa que estou morto.

Morri de desgosto.

Não há nada para mim mesmo neste mundo. Tudo e todos viraram as costas para mim. É perda de tempo tentar e tentar, mesmo sabendo que nunca se alcançará. Eu sou do tipo prático. Prefiro a dor da realidade à ilusão da mentira.

Despeço-me deixando a seguinte frase, de Hermann Hesse:

"Quando me comparava com os demais, sentia-me muitas vezes orgulhoso e satisfeito comigo mesmo, e em outras tantas deprimido e humilhado. Ora me acreditava um verdadeiro gênio, ora fraco do juízo. Não me era possível compartilhar a vida e as alegrias dos outros rapazes de minha idade, e às vezes reprovava asperamente o meu isolamento e sentia profunda tristeza, crendo-me definitivamente afastado de todos os meus semelhantes, com todas as portas da vida fechadas irrevogavelmente para mim."

Eu morri.

Notas finais
Alguns erros na história são propositais devido a ser uma carta, escrita em primeira pessoa. Alguns dos erros são: uso errado do pronome "te", ênclise/próclise trocadas de posição; algumas cacofonias são propositais.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!