Sufoco
1 Capítulo 1
“Acho que você perdeu isso aqui.”
Shadam devolveu um medalhão relicário a Gara, que olhou para ele, preocupada. “E tem umas fotos minhas nele.”
A respiração dela ficou um pouco mais pesada.
Os dois estavam em um corredor do Palácio Gorma. Para sorte dela, não havia ninguém por perto que pudesse ouvi-los. Houve um momento de silêncio antes que ele retomasse a palavra.
“Confesso que estou curioso. Por que você tem–”
“Não devia estranhar. Nós nos conhecemos há tanto tempo.” Tentou dar uma desculpa.
“Você tem um desse com fotos do Zydos também?”
Notou que ela ficou surpresa com a pergunta. “Não minta pra mim.”
Ela pensou por um tempo e suspirou.
“Você me pegou desprevenida. Não consigo responder.”
“Não consegue ou não quer?”
“O que você quer saber de mim?” Ficou um pouco irritada.
Shadam hesitou. Queria saber o porquê das fotos no medalhão, mas não queria entrar em um assunto espinhoso para ele. Gara também não cederia. Ele pensou por um momento.
“Confia em mim?” perguntou a ela, que ficou surpresa.
“Tenho medo da sua reação.”
“Não se preocupe, não vou contar pra ninguém–”
“Tenho medo de como você vai me tratar depois disso.”
“Não vai perder meu respeito, pode ter certeza.”
Ela sentiu um nó na garganta, mas criou coragem e disse-lhe:
“Sinto algo forte por você.” Pausou. “O que os humanos chamam de amor, paixão, sei lá.” Pausou novamente. “Não sei lidar com isso.”
Ele tentou permanecer impassível, permitindo-se apenas balançar a cabeça. Ela suspirou fundo. Shadam fitou-a por um tempo.
“Pro seu bem, eu te peço: esqueça isso. Você vai sofrer. Não vale a pena.”
“Como se eu já não estivesse sofrendo.” Ela pensou.
Suas palavras apunhalaram-na. Estava tudo perdido.
Eles passaram alguns minutos fitando um ao outro.
“Você faria isso se estivesse no meu lugar?” Ela perguntou.
“Com certeza.”
“E se pudesse fazer diferente…”
“Não posso–”
“Não pode ou não quer?”
“Não tem espaço para esses sentimentos aqui. Sinto muito… Sufoque, destrua isso. Vai ser melhor.”
Depois de ter dito isso, foi embora. Ela sentiu as lágrimas rolarem e as enxugou. Trancou-se em seu quarto. Não poderia ser vista naquele estado.
A cena da confissão repetia-se na mente de Shadam, que estava em outro cômodo do palácio. De certa forma, foi difícil dizer aquelas coisas, apesar de ter parecido tão frio e seguro de si.
“Se você soubesse o quanto eu te quis… É a desgraça de ser um Gorma”, pensou.
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