Suffering
1 Pain
Notas iniciais
Após Sam ser raptado pelo demônio de olhos amarelos, Dean começou as buscas com a ajuda de Bobby. Os dois procuravam por qualquer pista que pudesse levá-los até Sam, mas, quanto mais tempo passava, mais aquele sentimento de vazio tomava conta de Dean. Ele tentava não demonstrar, tentava agir como sempre, fazia piadas, reclamava, fingia estar irritado e dizia que Sammy provavelmente estava dando trabalho até para os demônios, mas, por dentro, estava em pedaços. Cada vez que olhava para o banco do passageiro vazio do Impala, sentia o peito apertar. Sam deveria estar ali, deveria estar dormindo, reclamando da música ou simplesmente em silêncio enquanto Dean dirigia... Mas não estava, e aquela ausência era quase insuportável.
Dean já havia perdido sua mãe. Depois, o pai. Jess também tinha morrido. Pessoas demais haviam entrado em sua vida apenas para serem arrancadas dela pouco tempo depois, e agora era Sammy. Seu irmão. Sua responsabilidade. A única pessoa que Dean ainda conseguia enxergar como parte de um futuro. Ele não sabia o que seria dele se Sam morresse, não sabia como continuaria acordando todas as manhãs, entrando naquele carro e seguindo em frente como se a vida ainda tivesse algum sentido.
Por isso ele procurou. Procurou até não conseguir mais pensar direito, até os olhos arderem de cansaço, até Bobby precisar lembrá-lo de comer alguma coisa, até que, finalmente, encontraram Sam.
E Dean pensou que aquilo seria o fim do pesadelo.
Mas estava enganado.
[...]
Sam estava vivo. Estava ferido, fraco e confuso, mas estava vivo, e Dean deveria estar aliviado. Uma parte dele estava, é claro, porque depois de tudo que havia acontecido, ter seu irmão novamente diante dos olhos deveria ser suficiente para fazê-lo respirar aliviado. Só que havia algo diferente. Alguma coisa havia acontecido naquela noite.
Sam havia morrido.
Dean sabia disso.
Ele tinha visto, tinha sentido o desespero de perceber que seu irmão estava morto em seus braços, tinha visto o olhar de Sam perder a força e, por alguns segundos, sentido o mundo inteiro parar. E então, de alguma maneira, Sam estava respirando novamente.
Era um milagre.
Ou talvez fosse exatamente o contrário.
Dean não conseguia parar de pensar no pacto. Não conseguia esquecer o preço que havia aceitado pagar. Sam ainda não sabia, mas Dean sabia, e aquele segredo parecia pesar toneladas sobre seus ombros.
Por anos, Sam sempre perdoava Dean. Por mais que brigassem, por mais que Dean mentisse ou tomasse decisões idiotas tentando protegê-lo, Sam acabava ficando. Mas dessa vez poderia ser diferente. Os dois estavam cansados, cansados daquela vida, cansados de sangue, demônios, corpos, perdas e despedidas, cansados de acordar todas as manhãs sem saber quem seria o próximo a morrer e, acima de tudo, cansados de ter que escolher quem deveria viver.
A guerra que se aproximava parecia grande demais, e Dean tinha a sensação de que, dessa vez, talvez não houvesse um final feliz.
[...]
— Você mentiu pra mim! De novo!
A voz histérica de Sam ecoou pela sala, fazendo Dean sentir o coração apertar. Ele conhecia aquele tom, conhecia aquela expressão e sabia que Sam estava magoado, muito mais triste e decepcionado do que bravo.
— Eu não tive escolha! — Dean respondeu, também elevando a voz.
Sam soltou uma risada curta, incrédulo.
— Você sempre diz isso!
— Porque é verdade!
— Não! Não é!
Sam passou a mão pelos cabelos, tentando controlar a respiração. Seus olhos estavam vermelhos e algumas lágrimas já começavam a escorrer pelo rosto.
— Eu estava pronto para morrer, Dean!
Dean ficou em silêncio. Aquelas palavras doeram mais do que um soco.
— Por que você sempre tem que se sacrificar por todos? — Sam continuou. — Por mim, pelo papai, pela mamãe... por qualquer pessoa que você acha que precisa salvar!
— Porque alguém precisa fazer isso!
— Não! Você acha que precisa fazer isso!
Dean apertou os punhos.
— Eu não podia deixar você morrer.
— Mas eu já estava morto!
O silêncio tomou conta da sala. Sam respirou fundo, tentando controlar as lágrimas antes de continuar.
— Eu estava morto, Dean. E você não aceitou.
Dean desviou o olhar.
— Eu não podia.
— O pai disse que você teria que me matar.
Dean fechou os olhos por um instante.
— Eu sei.
— Então você sabia!
— Eu sabia!
— E mesmo assim fez isso!
— Porque eu não consigo continuar sem você!
A frase escapou antes que Dean pudesse impedir.
Sam ficou imóvel.
Dean também.
Por alguns segundos, nenhum dos dois disse nada.
Dean respirou fundo.
— Eu sei que você acha que eu fiz a coisa errada. Talvez eu tenha feito. Talvez eu tenha condenado nós dois. Mas eu estava olhando para você e... — sua voz falhou. — Você estava morrendo, Sammy. Eu não consegui simplesmente assistir.
Sam abaixou a cabeça.
— Sabe quem morreu por você?
Dean não respondeu.
— O pai.
Aquelas duas palavras fizeram Dean estremecer.
— Eu sei como você se sente — Sam continuou. — Você acha que ninguém percebe, mas eu percebo. Você mal suporta acordar todos os dias.
— Sam...
— Você está cansado.
Dean engoliu seco.
— Eu estou cansado também.
As lágrimas agora escorriam livremente pelo rosto de Sam.
— Como você acha que eu me sinto sabendo que você entregou sua vida pela minha?
Dean não encontrou resposta.
— Sua vida pela minha? — Sam perguntou. — Como você pode fazer isso comigo?
— Você não entende...
— Então me explica!
— Eu não consigo!
Dean passou as mãos pelo rosto.
— Eu não consigo continuar sem você, Sammy! É isso! Essa é a verdade!
Sam ficou olhando para ele.
— Eu não aguento mais — confessou, finalmente. — Eu não aguento mais isso.
Dean franziu a testa.
— O quê?
— Eu não sei mais quem eu sou.
Sam limpou o rosto com as mãos.
— Eu não sei por que nasci desse jeito. Não sei o que o demônio quer de mim. Não sei o que vai acontecer comigo. Eu tenho essas visões, essas coisas dentro da minha cabeça... E agora você fez um pacto por mim.
Ele balançou a cabeça, completamente perdido.
— Eu queria ter morrido.
Dean sentiu o sangue gelar.
— Não fala isso.
— Mas é verdade!
— Sam!
— Eu queria morrer, Dean! E você não deixou!
Dean socou o batente da porta.
— Todos nós estamos cansados!
Sua voz saiu quebrada.
— Você acha que eu não estou? Você acha que eu não acordo todos os dias pensando em tudo que já perdemos?
Bobby observava os dois de longe.
Bobby deu alguns passos para frente.
— Ei! Chega!
Nenhum dos dois respondeu.
— Droga, rapazes! Vocês precisam mesmo fazer isso agora?
Bobby se colocou entre os irmãos.
— O que está feito, está feito. Vocês estão vivos. Isso é o que importa agora.
Sam virou o rosto.
Bobby continuou:
— Eu vou pesquisar. Vou ligar para outros caçadores. Vou procurar feitiços, demônios, bruxas, vou atrás da fada Sininho, qualquer coisa. Deve existir algum jeito de desfazer esse pacto.
Dean olhou para Bobby.
— E se não existir um jeito?
Bobby hesitou.
— Então nós vamos encontrar outro jeito.
Sam deu as costas.
O silêncio voltou e, por alguns segundos, ninguém se mexeu. Então Sam falou, sem olhar para Dean:
— Vá embora.
Dean piscou.
— O quê?
— Vá embora, Dean.
— Sam...
— Se você não for, eu vou.
Dean sentiu algo dentro dele se quebrar.
— É isso mesmo que você quer?
Sam permaneceu de costas.
— Eu me sacrifico por você e você me manda embora desse jeito?
Silêncio.
— É assim, Sammy?
Sam finalmente se virou.
Os dois se olharam. Havia tanta coisa naquele olhar que Dean quase esqueceu como respirar: raiva, medo, culpa e amor, tudo misturado. Sam balançou a cabeça, e uma única lágrima escorreu por seu rosto.
— Sim.
Dean ficou parado.
— Eu não preciso mais disso — Sam disse. — Não preciso da sua compaixão. Não preciso da sua pena. Não preciso que você seja durão o tempo inteiro para tentar me proteger. Chega.
Dean sentiu os olhos arderem. Queria dizer alguma coisa, qualquer coisa, mas não encontrou palavras. Então apenas saiu.
A porta bateu atrás dele.
Sem despedida.
Sem olhar para trás.
Sem saber que talvez aquela fosse a última vez que veria seu irmão.
Bobby ainda tentou seguir Dean.
— Dean!
Mas o Impala já estava deixando a propriedade.
Bobby parou no meio do caminho e ficou observando as luzes vermelhas desaparecerem na escuridão.
— Droga...
[...]
Dean dirigiu sem saber para onde estava indo. As lágrimas escorriam pelo rosto e ele sequer se dava ao trabalho de enxugá-las. Não havia mais ninguém ali para fingir. Não precisava ser durão, não precisava fazer piada e não precisava fingir que estava tudo bem.
Ele estava sozinho.
E doía.
Doía mais do que qualquer dor física.
A estrada parecia interminável. As luzes dos postes passavam rapidamente pelas janelas do Impala, iluminando seu rosto por alguns segundos e depois deixando tudo novamente escuro. Dean pensava na mãe, pensava no pai, pensava em Jess, pensava em todas as pessoas que tentou salvar e não conseguiu, e então pensava em Sam.
Sempre Sam.
Sam pequeno, seguindo seus passos. Sam adolescente reclamando das brincadeiras do irmão mais velho. Sam dormindo no banco do passageiro. Sam dizendo que queria sair daquela vida. Sam voltando para aquela vida. Sam morrendo. Sam respirando novamente. Sam mandando que ele fosse embora.
Dean apertou o volante.
— Desculpa, Sammy.
Sua voz era quase inaudível.
— Eu sinto muito.
Ele não sabia para quem estava dizendo aquilo. Talvez para Sam, talvez para seu pai, talvez para si mesmo.
Depois de quase duas horas dirigindo, Dean finalmente parou em um lugar afastado. Desligou o motor e ficou alguns segundos apenas sentado. O silêncio era ensurdecedor.
Ele saiu do carro e caminhou alguns passos, então olhou para o Impala.
Seu Baby.
Aquele carro tinha estado com ele em praticamente todos os momentos importantes de sua vida. Era uma das poucas coisas que nunca o abandonara. Dean passou a mão sobre o capô.
Dean abaixou a cabeça. As lágrimas voltaram e ele fechou os olhos com força, para que o choro cessasse. Queria sentir alguma coisa diferente, raiva, medo, qualquer coisa, mas só havia vazio. Um vazio enorme, como se tudo dentro dele tivesse sido arrancado e houvesse um buraco.
Ele abriu o porta-malas e ficou olhando para o arsenal que carregava havia anos. Facas, armas, frascos, poções, objetos que haviam servido para matar monstros e proteger pessoas. Tudo aquilo existia para ajudá-lo a sobreviver, mas naquela noite, Dean olhou para tudo e percebeu que não queria mais lutar.
Não queria mais correr.
Não queria mais salvar ninguém.
Não queria mais perder ninguém.
Ele queria silêncio.
Apenas silêncio.
Dean pegou uma mangueira fechou o porta-malas e ficou alguns segundos olhando para o céu. A lua estava alta e, por algum motivo, aquilo o fez lembrar de Sam. Quantas vezes os dois haviam parado para olhar o céu? Quantas vezes Sam havia tentado explicar alguma coisa sobre estrelas enquanto Dean fingia não estar prestando atenção?
Um soluço escapou.
Dean limpou o rosto.
— Você vai ficar bem.
Ele falou como se Sam pudesse ouvi-lo.
— Bobby vai cuidar de você.
Respirou fundo.
— Você sempre foi mais forte do que eu.
Outra lágrima.
— Você vai ficar bem, Sammy.
Dean engatou a mangueira na saída do escapamento, voltou para dentro do Impala e sentou-se no banco do motorista. O banco do passageiro estava vazio e, por alguns segundos, apenas ficou olhando para ele. Quase conseguia imaginar Sam sentado ali, o garoto que um dia tinha sido, o irmão mais novo que Dean havia protegido durante toda a vida, a pessoa por quem ele faria qualquer coisa.
Então fechou os olhos.
Preparou tudo em silêncio. Cada movimento parecia estranhamente tranquilo, como se estivesse realizando uma tarefa costumeira qualquer. Não havia pressa. Era justamente isso que tornava tudo mais assustador.
Dean deu partida, algemou-se ao volante e recostou a cabeça no banco, confortavelmente.
O motor começou a funcionar e, pouco depois, Dean percebeu a fumaça começando a tomar conta do interior do carro. Seu olhar caiu sobre o que havia preparado e, por alguns segundos, ficou imóvel.
Ainda poderia desistir.
Ainda poderia tentar sair dali.
Poderia começar a entrar em desespero por arrependimento.
Ainda poderia voltar para Bobby.
Poderia voltar para Sam.
Mas então lembrou das palavras do irmão.
Vá embora, Dean.
Aquela lembrança foi suficiente.
Dean respirou fundo.
A fumaça se espalhava lentamente pelo interior do Impala. No começo, sentiu apenas um leve desconforto, mas depois a cabeça começou a pesar. Dean fechou os olhos e o mundo parecia ficar cada vez mais distante.
E, estranhamente, ele não sentia medo.
Sentia um alívio profundo.
Seu pensamento começou a ficar confuso e as imagens vieram uma após outra: sua mãe sorrindo, seu pai ensinando-o a atirar, Sam ainda criança correndo atrás dele, Sam entrando na faculdade, Sam reclamando das músicas que Dean colocava no rádio, Sam dormindo no banco do passageiro, Sam dizendo que o amava, Sam morrendo em seus braços.
Dean abriu os olhos de repente.
— Sammy...
A voz saiu fraca.
Ele tentou respirar normalmente, mas já sentia o corpo pesado. Sua cabeça tombou contra o banco e os pensamentos ficaram cada vez mais lentos.
Ele não queria pensar no inferno.
Não queria pensar no pacto.
Não queria pensar no que aconteceria depois.
Queria apenas descansar.
Pela primeira vez em muito tempo, não precisava salvar ninguém. Não precisava lutar. Não precisava fingir que era forte. Podia simplesmente fechar os olhos.
Uma lágrima escorreu pelo canto de seu rosto.
— Eu sinto muito...
Dean não sabia mais se estava falando com Sam, com seu pai ou consigo mesmo. Talvez com todos.
Sua respiração ficou mais lenta e o som do motor parecia distante. O mundo ao redor começou a desaparecer pouco a pouco e, enquanto sua consciência se perdia, uma última imagem permaneceu em sua mente.
Sam.
Seu irmão.
Seu Sammy.
Dean sorriu fracamente.
Porque, mesmo naquele momento, mesmo quando acreditava que finalmente estava desistindo de tudo, seu último pensamento ainda era o mesmo.
Proteger ele.
Então seus olhos se fecharam.
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