O despertar fora muito diferente do que ela imaginava, pois o cheiro fresco e variado do jardim ainda impregnava o seu nariz e ela estranhamente se sentia alerta, esperando a qualquer momento que algo se atirasse nela.

Bocejou e sentou-se na beirada da cama, esfregando um dos olhos com a mão direita e sentindo a textura macia do lençol com a esquerda. Passado a preguiça inicial, ela rumou para fora do quarto ainda de pijama.

Ela se encontrou refletindo sobre o sonho, sobre os detalhes tão reais e principalmente sobre aquela sensação de serenidade tão avassaladora. Nunca fora de ter muitos sonhos e menos ainda ligava para eles, mas estava sinceramente impressionada com aquele.

Mas seus devaneios logo mudaram dos sonhos para a realidade, e, como toda manhã, ela pousou seus pensamentos na mãe que andava muito abatida desde que o pai a deixara, mesmo que não fosse sua culpa ela continuava a se afrontar.

Subitamente deixou escapar um suspiro frustrado, ela tentava de tudo para fazer a mãe feliz, mas seus esforços não estavam obtendo o resultado esperado. Tudo que ela tentara fazia sua mãe se lembrar do ex-marido e pioravam as coisas. O pior de tudo? Ela saber que ela era uma lembrança dolorosa ambulante.

A parte coerente e erudita de si avisou que não era culpa dela e que pensar nisso seria muita imprudência, mas a parte sentimental ainda martelava aquelas palavras na sua mente. Ela deixou que a mente voltasse a se organizar e achou duas maneiras e animar a sua mãe: Distrai-la com coisas novas ou com coisas ainda mais antigas, bem antes do seu pai. Ela ponderou por um instante de decidiu que iria arranjar um Hobbie para mãe, algo que ela pudesse se dedicar e com isso superar a dor.

Naquele mesmo dia ela encontrara Joseph no caminho da escola, ele parecia mais cansado que o comum e os olhos estavam perdidos conforme seguia.

—Terra chamando Joseph!— Chamou sorrindo, vendo ele se virar assustado— Bom dia.

—Olá Alyssa, como vai?— A frase saíra em modo automático, ela ergueu uma sobrancelha, desconfiada.

—As coisas estão indo bem, eu acho... Mas parece que tem algo errado com você— Ela encarou-o — Estou certa?

—Eu não...— Ele soltou um suspiro e finalmente fitou-a nos olhos— Eu descobri algo ruim, só isso. Não precisa se preocupar.

—Certeza?

—Sim.

E ela decidiu mudar de assunto, provavelmente ele precisava de espaço. Ela contou-lhe sobre o que faria em relação à mãe (Provavelmente não era a coisa ideal para dizer, mas ela queria muito colocar para fora), Joseph era realmente um bom ouvinte e esperou ela terminar antes de dizer qualquer coisa. Embora ela desconfiasse que seus pensamentos ainda estivessem distantes.

—Acho que vai dar certo, mas tome cuidado se for xeretar as coisas da sua mãe.

—Eu terei.

E continuaram a andar em silencio, ele distante, ela curiosa.

Mais tarde, quando já voltara para casa, decidiu aproveitar as poucas horas antes de sua mãe chegar para pesquisar algo sobre o passado da mesma. Sob o pretexto de tirar o pó(Com direito ao espanador amarrado na cintura) para o caso de sua mãe chegar antes de esperado. Ela só faltou jogar a casa para cima, mas de resto fez tudo; Checou gavetas, armários, envelopes, roupas, caixas, até mesmo embaixo de móveis e em cada pote da casa, procurando qualquer resquício de lembrança que sua mãe pudesse ter guardado mas no final não conseguiu nada, se tinha qualquer coisa do gênero na casa, ou estava muitíssimo bem escondido ou havia desaparecido.

Por fim ela se jogou no sofá de couro, exausta e frustrada. Bufou e esmurrou uma das almofadas enquanto apertava os olhos e punha os pensamentos em ordem pela enésima vez.

—Como ela não pode ter sequer uma foto?— Murmurou para si mesma, irritada — Nem para tanto! Poderia ser uma coisa velha, um tutuzinho de ballet ou um desenho de criança!

Ela chutou as laterais do sofá e massageou um dos lados do pescoço. Um dia de trabalho perdido. Ergueu as mãos em sinal de desistência de decidiu encerrar as atividades do dia. Rumou para o banheiro e livrou-se das roupas rapidamente, entrou na ducha e deixou-se perder em pensamentos.

Frustação na sua forma mais concentrada.

Toda levada pela água, deixando somente a determinação presente. Ela suspirou e, mais serena, saiu do banho. Ela olhou seu reflexo no espelho e olhou surpresa para ele. Ela parecia... Diferente. Seus olhos estavam com uma cor mais acentuada e brilhante, com um tom tranquilizador mesmo com a expressão cansada. Ela fitou-se perplexa.

—Que coisa mais... — Ela tocou a face, surpresa e curiosa enquanto examinava os orbes castanhos e tão brilhantes que ela quase via cintilar, no entanto piscou involuntariamente e seus olhos voltaram ao normal sem que ela pudesse ter certeza do que vira, deixando-a confusa— Certo... Eu preciso ir dormir antes que veja coelhinhos nas paredes.

Ela bocejou cansada e repentinamente serena. Deixou um pequeno bilhete para a mãe na geladeira dizendo os motivos de ir dormir mais cedo e adormeceu.

No dia seguinte a rotina fora normal, embora Joseph estivesse distante e estranho, ela não desanimou. Foi a uma livraria próxima e gastou suas economias em livros sobre dança, pintura, jardinagem e algumas outras atividades. Passou a tarde lendo com voracidade, embora não fosse exatamente uma pessoa que gostasse de ler, os livros eram interessantes, sobretudo a uma garota curiosa.

Ainda absorta na leitura ela mal notou quando a mãe chegou ou sentou ao seu lado.

— Como foi o dia querida?— A garota sobressaltou-se no primeiro momento, mas logo abraçou a mãe, tentando não reparar nas feições abatidas da mesma.

— Foi divertido— Vendo que a conversa já iria encerrar, ela mudou de tática —Joseph me emprestou esses livros.. Pensei que talvez pudéssemos por em prática algum deles, aposto que curte uma sacudida no esqueleto ahn?

A mãe revelou um sorriso forçado, Alissa não podia culpa-la por isso... Quem em sã consciência riria de “Sacudida no esqueleto”?! Ela prometeu estapear-se mais tarde.

— Filha... Eu tenho que falar com você.

Assim que sua mãe disse a frase Alyssa prestou atenção, o tom dela era entre o cuidadoso e preocupado, e ela estava hesitante, escolhendo as palavras cuidadosamente.

Vinha problema por ai.

Bridgett —Sua mãe—era uma mulher muito bonita, tinha madeixas muito negras e encaracoladas que lhe caiam tão leves quanto névoa sobre os ombros. Seus olhos cinzentos e vorazes —junto com traços angulosos e finos —, como se desafiassem o mundo, o ar abatido que ela tinha parecia cada vez menos natural aos olhos da filha. Alyssa culpava inteiramente o pai por aquilo, além de ser um pai ruim ele tivera a coragem de deixar sua mãe daquela forma, ela estava furiosa com ele.

—Eu estou preocupada com seu pai.

Essa frase foi o suficiente para Alyssa querer gritar mil palavrões, dizer milhares de verdades e explicar cada vez mais para sua mãe como aquela afirmação era errada e absurda. Seu pai deveria estar preocupado com elas, não o contrário.

Ao invés de fazer tudo isso, ela soltou um longo e profundo suspiro. Arrumou-se no sofá, jogou os livros para um lado e segurou as mãos de sua mãe nas suas, como quem faz com uma criança teimosa.

—Mãe, eu sei o que está sentindo— Não sabia mesmo, mas era o melhor a dizer— Mas você irá superar, além disso, ele sabe se cuidar.

—Mas eu temo que...

Alyssa a cortou.

—Mãe, nós precisamos seguir em frente. Não tem nada que não possamos fazer sem ele.

A mãe analisou-a por um segundo e logo depois concordou com um sorriso tímido, Alyssa a abraçou novamente.

— Então, agora pode me ajudar a escolher um hobbie para nós?

A mãe da garota alargou ainda mais o sorriso, deixando-o travesso.

—Coloque-os na mesa um ao lado do outro, vou fechar os olhos e apontar, no que parar nós faremos.

Alyssa não respondeu, só sorriu ligeiramente e colocou os livros um ao lado do outro e viu a mãe passar os dedos nas capas lentamente, por um segundo ela quase parou no livro de dança, mas no final escolhera o de jardinagem.

— Vai ser divertido— Bridgett recolheu o livro de jardinagem e folheou algumas páginas —Que acha de eu ir te buscar depois de aula e irmos comprar o que precisamos?

—Está marcado.

E elas tiveram um momento feliz naquela época difícil, elas leram os livros, comparam plantas e cresceram com a ideia. O consenso foi comum quando elas resolveram plantar morangos e, por ideia de Bridgett, begônias.

O dia seguinte fora ótimo até a última aula, especificamente a de Educação Física(Não era exatamente a aula principal, mas ela entrou somente por diversão) na qual praticavam vôlei, em determinado salto, sentiu uma dor lancinante nos tornozelos e aterrissou de joelhos na quadra.

O professor deixou-a apoiar-se nele conforme ela suprimia um grito de dor na garganta, a dor era enorme, como se milhares de formigas estivessem comendo seus tornozelos. Por alguma razão ela sentia um volume no local, como se tivessem colocado uma pedra no seu tênis.

Talvez fosse instinto, ou bom senso, ou até mesmo sorte, mas ela acabou por pedir involuntariamente para o professor deixa-la só.

—Eu acho que caí de mau jeito, só me deixe ir ao banheiro lavar o rosto e estarei bem— Por alguma razão ela tinha um mau pressentimento sobre aquilo. O professor ergueu uma sobrancelha, mas deixou-a ir. Ela andou até o banheiro coxeando e tropeçando a cada dois passos, quando chegou lá já sentia os olhos úmidos e os pés dormentes de tanta dor. Jogou-se em um dos boxes e tirou desesperadamente os tênis.

Assim que se libertou dos calçados e das meias se sentiu muito bem, mas não conseguiu evitar um ruído assustado da garganta mais alto do que deveria, alto o suficiente para ela desconfiar que umas garotas fora estavam mais curiosas sobre si.

Mas era definitivamente o menor de seus problemas. Ela tocou a parte pouco acima do seu calcanhar, assustada e tendo que usar toda a sua força de vontade para não entrar em pânico. Sua pele estava cor creme no calcanhar e seu pé estava com a cor marrom e uma pequena folha estava nascendo onde estava seu... Seria perónio? Certo, ela estava muito assustada para lembrar-se do nome de um osso do pé, além disso aquela parte estava muito mais peluda do que qualquer adolescente e seguia a mesma cor da pele... Era sua impressão ou seu pé estava diminuto? Ou pior; que alguns de seus dedos estavam unidos demais?

Engasgou com uma frase que não queria sair da sua boca, ela apalpou o local tentando fazer seu ser lógico acreditar e antecipou que aquilo ali acabaria mal, meio segundo depois se imaginou em uma sala tendo partes de seu corpo amputadas e estudadas como um ET. Não, se não conseguisse fazer aquilo desaparecer ela iria esconder a todo custo. Por fim, desesperada e amedrontada, murmurou:

—Ou estou enlouquecendo ou estou virando um mutante.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.