Sudden Storm
2 Dual-Shot - Parte 2
Notas iniciais
Correndo, Watanuki chegou ofegante ao templo onde Doumeki morava. Fez uma pequena pausa antes de tudo na frente do templo, para descansar.
Esperava que não ter chegado muito tarde.
Assim que seus batimentos cardíacos se normalizaram do cansaço de correr desde a loja de Yuuko até o templo de Doumeki, ele se dirigiu a porta do templo, dando leves batidas na mesma com a mão direita, enquanto a esquerda segurava o pano enrolado na caixa com toda a comida que o garoto havia preparado.
Porém, apenas de bater na porta, seus batimentos cardíacos, que já tinham se normalizado, se aceleraram novamente.
Por que ele estava se sentindo assim, tão envergonhado?
Não significava nada de mais ele ter preparado toda essa comida como “presente” para o aniversário de Doumeki, não é? Claro que não. Era só um presente...
Mesmo que não fosse normal alguém se esforçar tanto apenas para preparar algo para o aniversário de alguém que o mesmo não achava ser uma pessoa próxima dele, no caso, essa pessoa sendo Doumeki...
Mas, se não significava nada de mais, então por que ele sentiu como correntes elétricas percorressem todo seu corpo apenas por bater naquela porta, sabendo que Doumeki a iria atender? Por que sentiu o calor tomando conta das suas bochechas, provavelmente o deixando corado, apenas disso? E por que sentiu tanto nervosismo, os batimentos cardíacos acelerados, e muitas outras sensações, que até hoje, não se lembrava de ter sentido antes?
Os sentimentos eram muito diferentes do que sentia quando estava com seus pais, ou até mesmo amigos. Mas com certeza não era o ódio que Watanuki achava que sentia.
Não havia sentido coisa assim nem mesmo com Himawari, ou com Zashiki Warashi.
A pouco tempo ele começara a se sentir assim quando estava perto de Doumeki.
Não teve tempo de ter muitas reações além de franzir suas sobrancelhas, e logo a porta do templo foi aberta por Doumeki, mas dessa vez em um dos seus quimonos que usava no templo, invés de seu uniforme escolar.
Doumeki apenas o encarou inexpressivo, apesar de que novamente, se Watanuki reparasse bem profundamente nos olhos do maior, poderia ver um flash de surpresa passar pelo olhar dele. Mas esse não foi o caso, já que Watanuki estava confuso demais no momento. Confuso até ao ponto de não conseguir formar uma frase em sua cabeça, acabando gaguejando várias vezes antes de fechar a boca e pensar em como poderia dizer que viera trazer como presente de aniversário para Doumeki praticamente um mini banquete.
– O-Olha – Percebeu que havia gaguejado novamente, então endireitou sua postura e deu uma falsa tossida, para fingir como se o motivo de ter gaguejado fosse alguma dor na garganta ou despreparo vocal – Eu soube que hoje é seu aniversário, e como eu não sabia antes, eu trouxe isso como presente – Watanuki disse meio desconfortável e envergonhado, com o calor em suas bochechas apenas aumentando, resolveu abaixar a cabeça e olhar para o lado – Mas não é como se eu tivesse feito tudo isso – Apontou para o pano enrolado na caixa em sua mão –, só por te considerar meu amigo próximo! Claro que não! Eu, considerar um folgado como você meu amigo próximo? Nunca! – Watanuki formou alguma desculpa falsa em sua cabeça – E-Eu só fiz isso porque fiquei com peso na consciência, já que você já me ajudou bastante, e... – Fez uma pausa um pouco longa demais para completar a frase, tornando apenas ainda mais o discurso dele, falso – Principalmente porque Yuuko-san me disse que eu deveria fazer isso para agradecê-lo por tudo. É! – Watanuki sabia que essa estava longe de ser a verdade, mas ele que não iria dizer que realmente queria agradecer por tudo que Doumeki fez, não mesmo! E que, profundamente, e até mesmo sem o seu próprio conhecimento disso, considerava Doumeki um amigo... Na verdade, o que sentia era confuso.
Ele o fazia se sentir tão irritado, com as veias pulsando e o sangue correndo mais rápido por elas, isso era suposto para ser ódio ou raiva, não? Fazia parecer tanto um ódio. Mas... Como poderia ter certeza do que era? Não sabia.
Doumeki apenas o encarou inexpressivamente, e como o garoto de óculos apenas continuava com a cabeça meio abaixada – impossibilitando o maior de ver sua expressão –, Doumeki se abaixou e se inclinou um pouco, para que pudesse então, ver o tipo de reação no rosto de Watanuki.
Watanuki, com a ação inesperada de Doumeki, e um tanto quanto constrangedora para si mesmo, apenas sentiu que estava corando mais ainda, e deu alguns passos para atrás, balançando a cabeça para tentar se livrar de qualquer vestígio de “estar envergonhado” no rosto dele. O que funcionou um pouco, mas não completamente.
– E-Então – Watanuki sussurrou – Pega essa caixa logo, que é seu presente, que eu já vou indo embora e... – Watanuki se aproximou colocando a caixa nas mãos de Doumeki, que até agora não havia dito uma palavra – Feliz aniversário. Agora, até mais! – Se virou para ir embora, mas logo que fez isso, Doumeki resolveu se pronunciar.
– Tem certeza que quer ir agora? Não acho que seria uma boa ideia... – Disse, em uma voz baixa e calma, mas audível.
– O que... Mas por que não seria uma boa... – Watanuki parou de falar assim que escutou o som estrondoso de um trovão, seguido de um relâmpago que chegou a iluminar o céu. Assustado, olhou para cima e viu as nuvens escuras que já se aglomeravam no céu – Você só pode estar de brincadeira! Nem estamos na época de chuva! – Watanuki gritou alterado, e logo sentiu algumas pequenas gotículas de água molharem seu óculos e caírem na sua pele, geladas.
– Ei – Doumeki chamou Watanuki novamente pelo “apelido” que fazia o sangue do garoto ferver –, a escolha é sua. Vai ficar, ou quer voltar pra sua casa numa tempestade?
***
Watanuki suspirou estressado e já cansado, com as roupas encharcadas de água.
“No fim... Eu tive que voltar” Watanuki soltou um suspiro e choramingo. Havia até tentado ir embora, mas logo que saíra a pé do templo, dois minutos depois a chuva já caia, fria. E sua casa ainda ficava a minutos de distância a pé... E ele nem tinha um guarda-chuva...
O jeito era voltar mesmo.
Mas voltou com um plano de pedir um guarda-chuva emprestado, para poder ir pra casa, só isso. De forma alguma ficaria no templo o resto do dia, tendo que olhar pra cara de peixe morto de Doumeki. Se recusava a isso!
Assim que chegou a entrada do templo, já pode ver Doumeki parado na porta, com um guarda-aberto em uma mão, o protegendo da chuva, e outro fechado na outra mão.
“E-Ele sabia que eu voltava? Ugh!” Watanuki se aproximou nervoso, “rosnou” e pegou o guarda-chuva fechado que Doumeki não estava usando, abrindo-o e voltando a caminhar para tentar ir embora, novamente.
Novamente, falhou.
O hitsuzen só poderia estar de brincadeira com a sua cara.
A chuva, logo pouquíssimos minutos após ele ter saído com o guarda-chuva, piorou, e em conjunto com a chuva, o vento, se tornou tão forte que ele mal conseguia andar direito! Além de que o vento fizera que a chuva caísse de forma inclinada, tornando o guarda-chuva inútil.
É fácil perceber que logo “seu” guarda-chuva foi levado pelo vento, para sabe-se lá onde.
Acabou voltando para o templo de Doumeki só mais encharcado ainda, e com uma expressão nada feliz, na verdade era o completo oposto de “feliz”.
– Voltou, hm? – Doumeki deu um pequeno, quase imperceptível, irônico sorriso de canto e Watanuki apenas revirou os olhos irritado, indo em direção da porta do templo a passos fortes, aonde Doumeki estava parado de pé, com os braços cruzados e escorado na parede.
Assim que Watanuki já estava na porta, Doumeki imaginou que o mesmo já fosse entrar no templo sem a necessidade de um convite, então apenas se virou entrando na sua casa. Porém Watanuki apenas continuou parado na porta.
– Posso entrar...? – O garoto de óculos perguntou, ainda com uma expressão nada contente por estar encharcado da chuva.
– O que acha? Idiota... – Doumeki apenas murmurou a última sentença, porém Watanuki ainda assim pode ouvir, e então cerrou os dentes para se conter para não acabar gritando com o maior, já que afinal, estava na casa dele, então mesmo contra sua vontade, teria de ter o mínimo de educação.
Pelos mesmos motivos de educação, tirou os sapatos antes de entrar, e adentrou a casa andando na ponta dos pés, afinal, quando mais desleixadamente andasse, mais a água que encharcava seu corpo ia molhar o chão da casa.
Quando já estava dentro da casa, apenas pegou o objeto que foi jogado a ele por Doumeki: Uma toalha e um quimono provavelmente extra que era guardado no templo.
– Se não quiser pegar um resfriado, é melhor se secar. Ou melhor, se quiser tirar a água gelada do corpo, o banheiro fica pra lá – Doumeki indicou um corredor do grande templo, e logo em seguida se virou para ir para algum lugar que Watanuki não reparou muito.
Enquanto andava até o cômodo, Watanuki se perguntava ainda: Por que estava chovendo nessa época? Isso não era nem um pouco normal... “Talvez... Problemas com Ame Warashi?”, refletiu, afinal a “garota”, de passagem, espírito, tinha controle total sobre as chuvas.
É, provavelmente deveria ser algo do tipo. Bom, isso teria que ficar para depois, pois após olhar pela janela, viu que não poderia sair tão cedo na rua, com a chuva que caia impetuosa e, provavelmente, muito gelada, pelo inverno ter passado a apenas pouco tempo.
Assim que chegou ao banheiro, logo entrou na banheira com água quente, soltando um suspiro aliviado. Ficar lá era tão aconchegante num dia como esses, de chuva e tempo frio... Sentia até mesmo vontade de dormir, mas não faria algo assim, afinal sabia que poderia acabar passando mal se ficasse muito tempo na água quente.
Grunhiu descontente quando percebeu que já deveria sair da banheira. Não poderia passar o tempo todo na banheira de uma casa que não era dele.
Se secou com a toalha, e agradeceu por sua “roupa íntima” pelo menos não ter molhado na chuva como todas as outras roupas. Pedir emprestado e usar esse tipo de peça pessoal de alguma outra pessoa, seria constrangedor.
Logo colocou o quimono azul-celeste, que para seu descontentamento ficou levemente mais folgado que o normal nele. Mas teria que se virar com isso mesmo por enquanto.
Juntou todas as suas roupas molhadas e tratou de deixar o banheiro limpo antes de sair. Assim que saiu se dirigiu a sala entrada do templo novamente, e em uma pequena estante perto da porta colocou as suas roupas molhadas, para que as levassem quando fosse embora.
Olhou em volta, procurando Doumeki, e quando foi andar para se afastar da estante, tropeçou em algo e quase caiu, mas conseguiu se equilibrar. Procurou pelo ambiente o que tinha sido o responsável pelo seu quase tombo, e logo seus olhos localizaram a mesma sacola de presentes de garotas que Doumeki carregava mais cedo na escola, lá, jogada no chão no canto da parede.
“Esse cara não tem bom senso? Recebe presente de muitas garotas e deixa todos jogados num canto qualquer! Quem me dera se eu recebesse tantos presentes” Pensou Watanuki, tanto quanto indignado com o descaso que Doumeki fizera com os presentes.
Resolveu se sentar na cadeira de tatame no chão do cômodo, esperando até que Doumeki aparecesse novamente. Aproveitou o tempo para observar o local.
Era um tipo de “sala”. O chão todo coberto por tatame, uma pequena estante perto da porta de entrada, e outra em uma parede um pouco distante a direita, uma baixa mesa no centro, para se encaixar com as cadeiras de tatame, cujo duas estavam fora do lugar, um pouco separadas para a esquerda. Onde ele estava sentado em uma, no caso.
Em um canto do lugar, como ele havia reparado mais cedo, estava a sacola com presentes. Em cima da estante perto da entrada se encontravam apenas suas roupas e o guarda-chuva que Doumeki usara mais cedo.
Resolveu se levantar pela impaciência de ficar parado, e se dirigiu até a estante que ficava a direita, olhando o que ficava sobre ela. Na mesma estava um porta retrato com a foto de Haruka Doumeki, o avô do Doumeki “atual” que Watanuki conhecia, que tinha uma incrível semelhança na aparência com Shizuka Doumeki. Percebe-se que a família toda do Doumeki gostava muito do avô dele, o senhor Haruka, já que deixam uma foto dele especialmente em uma estante...
Sua atenção da foto foi retirada, para focar então em um álbum ao lado do porta retrato... “Talvez, um álbum de fotografias de família?” A tentação de ver o que o álbum tinha era grande, afinal, se conseguisse ver a história da família de Doumeki, seria um tanto quanto... Legal. Não entendia porque, mas acharia simplesmente incrível poder ver a história da família de Doumeki, já que o mesmo não fala muito de sua família, e assim a história da família dele despertava tamanha curiosidade nele que... Não sabia explicar.
Mas não poderia mexer nas coisas sem no mínimo pedir permissão, mas iria, pelo menos perguntar para Doumeki, o que o álbum continha, e assim talvez Doumeki o deixasse ver o objeto.
Se afastou da estante, Doumeki ainda não havia voltado então aproveitou também para tirar sua dúvida sobre o que era aquele pequeno bilhete em cima da mesinha de centro do cômodo.
Caminhou a passos lentos até a mesa, e assim que chegou a mesma, se ajoelhou na frente dela para poder ler o que estava no bilhete:
“Feliz Aniversário, seu estúpido!
–Watanuki”
Era... O bilhete de aniversário que Watanuki havia escrito às pressas para Doumeki... “Por que ele colocou o bilhete em cima da mesa?”, a pergunta rondou a mente de Watanuki.
Doumeki havia jogado para o canto todos os outros presentes, mas o seu simples bilhete, escrito às pressas, sem nenhum capricho, havia ganhado um lugar na mesa de Doumeki? “S-Será que ele... Considerou o bilhete algo especial, ou importante?” Se perguntou.
Não, não poderia ser! Chacoalhou sua cabeça de um lado para o outro. Claro que tinha algum motivo, tipo... Tipo...
Doumeki poderia ter ido comer os onigiris, e como o bilhete estava junto com a caixa, ainda enrolada no pano, o bilhete caiu na mesa e Doumeki pode não tê-lo visto, e acabou o deixando lá.
“Claro! Isso, só poderia ser isso!”.
Watanuki soltou uma risadinha nervosa, mas sentiu um arrepio percorrer seu corpo assim que sentiu uma mão tocar seu ombro. Levantou em um salto olhando pra trás, descobrindo que quem havia tocado seu ombro era Doumeki.
– Ei – Doumeki chamou Watanuki.
– Quantas vezes eu tenho que repetir pra não me chamar de “Ei”? Eu tenho nome pra que se você vai me chamar de “Ei”?! – Watanuki não se conteve e gritou indignado novamente. Doumeki apenas tapou um dos ouvidos, assim que Watanuki parou de falar, Doumeki começou:
– Obrigado pelo seu presente. Sabe, a comida lá – Doumeki disse e Watanuki virou o rosto envergonhado.
– Hmph. Eu não acredito que agora estou “preso” – Fez aspas com os dedos – aqui só porque vim entregar um presente, logo para o Doumeki! Sabia que era má ideia me esforçar a tarde toda para fazer algo para você, mal agradecido!
– Se esforçar... – Doumeki repetiu as palavras que Watanuki disse – Mas você não tinha dito que havia feito isso “obrigatoriamente” pois Yuuko-san pediu? Normalmente pessoas não se esforçam quando fazem algo obrigatoriamente, não a tarde toda pelo menos... – Doumeki apontou a “pequena” contradição do que Watanuki dissera mais cedo, fazendo-o dar um passo pra trás, e gaguejar completamente vermelho. Doumeki levantou uma sobrancelha.
– E-Eu falei errado, ok?! Pessoas erram! – Watanuki tentou se defender com o argumento um tanto quanto fraco, porém Doumeki pretendeu não insistir, já havia descoberto que Watanuki havia feito por pura própria vontade, já era o suficiente, não precisava fazer o outro admitir isso para saber – Ah, acho que na hora que foi abrir a caixa dos onigiris você não viu o bilhete que eu escrevi. Ele caiu na mesa aqui – O calor nas bochechas de Watanuki havia se dissipado um pouco, e ele apontou o bilhete na mesa, pensando que estava certo em pensar que Doumeki não havia visto seu bilhete.
– Ele não caiu na mesa, eu coloquei ai – Doumeki disse inexpressivo, como sempre, e se virou, indo em direção de uma das cadeiras de tatame que estavam um pouco afastadas da que rodeavam a mesa, perto da que Watanuki sentava antes.
– Espera, então, você viu o bilhete, e por escolha própria quis colocá-lo aqui? – Watanuki sabia a resposta, mas quis confirmar. Doumeki concordou balançando a cabeça. “Tá de brincadeira... Então... O meu primeiro p-pensamento lá, sobre ele ter tratado meu bilhete como algo especial... Pode ter sido v-verdade? Afinal, se ele não gostasse, ele não colocaria em cima da mesa. Se ele não gostasse ele provavelmente jogaria fora, ou até mesmo colocaria junto com os outros presentes... Por que ele deu preferência ao meu bilhete?”.
Um silêncio estranho se instalou sobre os dois, e Watanuki foi sentar ao lado de Doumeki, aonde sentara mais cedo, ainda meio envergonhado. Doumeki continuava com sua expressão inabalável, mas com os cantos dos olhos Watanuki jurava ter visto um pequeno tom de vermelho surgir nas bochechas de Doumeki, mas que logo, sumiu.
Para tentar diminuir a tensão do momento, Watanuki se pronunciou:
– Então... Sem querer ser intrometido, mas aquele álbum em cima da estante, é um álbum de fotografias de família? – Doumeki concordou com a cabeça, se levantando, pegando o álbum e retornando para o assento ao lado de Watanuki.
Assim que já estava acomodado abriu o álbum, o colocando em cima de uma das suas pernas para que ficasse visível para Watanuki também.
Haviam fotos de grande parte da árvore genealógica da família de Doumeki... Algumas até estavam meio desgastadas pelo tempo. Haviam fotos do avô de Doumeki, Haruka, tanto jovem, quanto mais velho, e até fotos de Doumeki quando pequeno. Watanuki se segurou para não rir de uma foto onde, Doumeki ainda muito pequeno, tinha o cabelo até a altura dos ombros, e usava um quimono feminino. Mas por mais que Watanuki se segurou, eventualmente uma risadinha escapou de Watanuki, e logo ele estava mergulhado em gargalhadas.
– Não sabia que você se vestia de garota! – Watanuki riu mais ainda, Doumeki esperou o garoto se acalmar para começar a falar.
– É um tipo de “lenda” dizer que se um garoto tem uma saúde frágil quando pequeno, ele deve usar uma roupa como um quimono feminino ou coisas do tipo para que quando crescesse, se tornasse mais saudável – Doumeki explicou sem demonstrar emoções e nem raiva de Watanuki ter rido dele – E funcionou muito bem comigo.
– Você tinha saúde debilitada na infância? Por essa eu não esperava... – Watanuki cochichou.
– Eu ficava doente praticamente toda semana. Qualquer vírus me atingia facilmente – Watanuki escutava atentamente, afinal, era raro Doumeki falar tanto, normalmente falava apenas “Hm”, ou respostas curtas só quando necessário.
Passando mais algumas páginas, havia uma foto bem grande, ocupando toda uma página, de um homem que era idêntico a Doumeki, em seu casamento.
– Doumeki, é seu avô? – Watanuki perguntou, e o outro respondeu com um simples “Uhum”.
O avô de Doumeki, Haruka estava de terno preto, ainda um tanto quanto jovem, sorrindo ao lado de uma mulher, provavelmente sua esposa, que tinha cabelo preto, preso em um coque, olhos de um azul índigo brilhantes, e tinha um olhar meio confuso no rosto quando a foto foi tirada, e seu rosto tinha um formato “ideal” para que de uma forma “combinasse” mais com ela.
– De alguma forma minha avó mais jovem me lembra alguém, nas fotos, mesmo eu mal podendo tê-la conhecido pessoalmente, já que ela se foi antes... – Doumeki disse em um volume baixo, em seguida olhou, com as sobrancelhas franzidas e estreitando um pouco os olhos, para Watanuki, que o encarou confuso. Observou bem o rosto de Watanuki. Cabelo preto, olhos azuis índigo e... Ah. Logo uma expressão de entendimento passou pelo rosto de Doumeki – Já sei quem ela me lembra agora... – Doumeki não falaria, mas a sua avó parecia uma versão feminina de Watanuki... Isso era bem estranho.
E agora que pensara sobre isso... É estranho ver sua avó na foto, que tinha traços que o lembravam Watanuki, sendo esposa, e ao lado, de seu avô Haruka, que era idêntico a ele.
Tirando esse pensamento de mente, os dois continuaram a ver o álbum por mais algum tempo, risadas foram dadas por parte de Watanuki em algumas fotos, e em outras, Watanuki escutava Doumeki explicar quem era, e o que, haviam acontecido naquela foto, atentamente.
Chegaram uma foto onde Doumeki, ainda muito pequeno, com praticamente nem dois anos de idade estava ao lado de seu avô, Haruka. Seu avô não viveu muito tempo para ficar ao lado dele, mas essa foto foi tirada quando ele ainda via seu avô, e o mesmo ainda estava vivo. Olhou para Watanuki, e nem precisou dizer nada, pela expressão no rosto do garoto, e o sorriso calmo que estava no rosto dele, ele já tinha entendido a história da foto.
Doumeki encarou a foto mais uma vez, e dessa vez não pode evitar de deixar um pequeno sorriso escapar pelos cantos dos seus lábios, quase imperceptível.
Porém logo Doumeki voltou a sua expressão limpa assim que Watanuki praticamente gritou:
– Você tinha sorrido?! Eu estou vendo certo?! – Watanuki se levantou num pulo – É o fim do mundo! O inexpressivo Doumeki sorriu! – Watanuki se abaixou um pouco para olhar no rosto de Doumeki – Aquilo foi tenebroso! Você sorrir não é normal! – Watanuki estava praticamente chocado, ficou parado mais alguns segundos, encarando Doumeki, enquanto o mesmo o olhava, até que Watanuki percebeu o quão próximo o rosto dos dois estavam.
Logo que percebeu, o garoto de óculos corou e se afastou em um movimento repentino para trás, caindo sentado.
– Ei, você está bem? – Doumeki se levantou e ofereceu uma mão para Watanuki levantar, e mesmo meio relutante, Watanuki aceitou no final.
Porém, quando Doumeki puxou a mão, para dar impulso para conseguir fazer Watanuki levantar, a força foi demasiada, o que resultou em Watanuki ao levantar, tombar em Doumeki e eles acabarem com os corpos e rostos muito próximos novamente.
Watanuki não entendia, mas seus olhos se fixaram nos olhos de Doumeki, e ele não conseguia desviar o olhar. Apenas conseguia ficar lá, com o olhar preso no do outro. “O-O que eu ‘tô fazendo... Eu tenho que me mexer!”, Watanuki pensava em se mexer, sair de lá e correr pra algum canto, ou só se afastar mesmo. Mas é como se suas pernas não estivessem respondendo as ordens do seu cérebro.
Quando Doumeki começou a aproximar o rosto do seu, Watanuki já estava praticamente gritando no seu subconsciente para que ele se afastasse e corresse, dane-se a chuva, isso não deveria acontecer, definitivamente, não deveria!
Porém novamente ele não conseguiu se mexer. Era como se o seu cérebro desse uma ordem, mas seu subconsciente ao mesmo tempo queria outra coisa.
E logo, os lábios de Doumeki tocaram os seus. Watanuki fechou os olhos com força e ficou mais vermelho ainda, se é que seria possível. Até mesmo suas orelhas começaram a ficar vermelhas.
Um beijo inocente, um simples ‘selinho’, mas que já o fez sentir um frio na barriga, quando como ele ia em montanhas russas, aquela sensação de desespero, mas que ao mesmo tempo, era tão boa... Sentiu seu coração acelerar e seu corpo estremecer.
As sensações eram como... Como... A chuva que ainda caia lá fora. Todas as sensações começaram do nada, repentinas, fora de hora, e até agora, desconhecidas. Assim como a chuva.
E a cada segundo que eles passavam com os lábios colados, só faziam as sensações aumentarem, e tempestuosamente correrem pelos corpos de ambos, dando aos dois garotos sentimentos inesperados. Nenhum dos dois esperava aquilo, para falar a verdade, mas era ao mesmo tempo tão bom.
Exatamente como a chuva, que havia começado repentinamente, num dia tão normal, sem nenhum indício de que algo do tipo aconteceria.
E a chuva logo se tornara uma forte tempestade, assim como os sentimentos que insistiam em martelar no peito de Watanuki.
Por que se sentia assim, o garoto se perguntava. Por que logo por Doumeki? Por que seu primeiro beijo, mesmo que só um selinho, estava sendo com um garoto? Por que ele estava se sentindo tão bem assim? E a pergunta final, por que ao saber que era Doumeki que o beijava, o fazia sentir mais ainda todas aquelas sensações boas?
Por que assim que Doumeki separou seus lábios do dele e afastou um pouco seu corpo, ele sentiu a falta do calor do corpo do maior? Por que sentiu uma vontade imensa de abraça-lo agora mesmo? E mesmo sem entender direito, era como se um nó se formasse na garganta de Watanuki, ele sabia o que queria dizer, sabia que as palavras que queria dizer eram: Eu te amo, Doumeki. “Espera, n-não! Claro que não!”. Sua parte “automática” e natural do cérebro dizia uma coisa, e a lógica e racional dizia outra.
Era isso que Watanuki queria falar, mas não entendia o porquê. Como assim ele amava logo o Doumeki? Logo quem ele achava que sentia um tipo de ódio, acabou descobrindo que era amor? Todas aquelas vezes que sentia seu sangue correr mais rápido em suas veias quando estava perto de Doumeki, era amor e não raiva? Ou talvez, uma mistura dos dois sentimentos?
Nem mesmo o próprio Watanuki entendia o porquê de querer falar que amava Doumeki, não entendia por que amava o Doumeki, pra começo de história.
Era tudo tão confuso. Tudo se resumia a perguntas, e nenhuma resposta. Mas, era como se as respostas que procurava, ele já sabia, porém ele mesmo não conseguia acha-las lá “dentro”.
Tudo que conseguiu fazer foi colocar as mãos sobre a boca rapidamente, sentindo o quão quente estava seu rosto.
– Doumeki... V-Você... O que... Você gosta de m-mim? – Watanuki tentavam não gaguejar, mas tremia tanto com todas as sensações que não gaguejar parecia impossível.
– Eu tenho quase certeza disso... – Doumeki disse, franzindo as sobrancelhas e olhando para baixo. O maior pareceu querer reagir e ir atrás de Watanuki, quando o mesmo se virou e correu para a porta, pegando as roupas que estavam em cima da estante, juntamente com o guarda-chuva, mas parece que a ideia de reagir logo saiu da mente de Doumeki.
–D-Depois eu devolvo o guarda-chuva e o q-quimono! – Calçou os sapatos que estavam perto da porta correndo, e felizmente ao abrir a porta, Watanuki viu que a chuva já havia se tornado mais fraca.
Correu com as coisas em mãos em direção da sua casa, e pela quantidade de pensamentos que rondavam sua mente, nem percebeu o tempo passando ao seu redor, e quando se deu conta, já estava em casa. Entrou e trancou a porta, deixou as suas roupas e o guarda-chuva caírem de sua mão, indo em direção do chão, e se encostou na parede, com as duas mãos sobre a boca, e o rosto queimando mais do que na última vez que ficou com febre.
E agora, o que faria? As perguntas eram tantas que ele não conseguia focar em uma para respondê-la.
Doumeki o amava, era isso mesmo?
– E eu... Eu a-amo o D-Doumeki? – Sussurrou inaudível para si mesmo, a resposta era tão óbvia, e ao mesmo tempo, tão misteriosa...
E mesmo se amasse, como falaria isso?
Os pensamentos provavelmente não o deixariam dormir essa noite... E durante apenas alguns momentos, sua mente se esvaziou, para apenas escutar as gotas de chuva que caiam na rua lá fora. Calmas, com seu pequeno e até mesmo confortável barulho.
Claro, seriam confortáveis. Mas não para Watanuki, já que a chuva apenas o lembrava dos seus sentimentos que bagunçavam sua mente.
Afinal, seus sentimentos estavam como aquela chuva, uma tempestade, uma confusão de sentimentos “lá dentro”.
Mas ao mesmo tempo, isso só o fazia querer se agarrar ainda mais a esses sentimentos. Mesmo tão confusos, o incomodando de toda forma possível, todas aquelas sensações, todos aqueles pensamentos eram irritantemente... Agradáveis.
***
No dia seguinte, já na escola, Doumeki ainda pensava no acontecimento.
Deveria realmente ter feito aquilo? Bom... Doumeki sempre sentiu algo... Diferente quando olhava para Watanuki, mas não imaginou que fosse isso.
Não estava chocado pelo fato de amar Watanuki, quem muitas vezes já chamou de “tolo” ou “idiota”, mas sim pelo fato de não ter percebido antes o sentimento.
Tantos sentimentos que teve antes já deveriam ter sido suficientes para ele perceber, mas não, havia demorado até agora para percebê-lo.
Lidar com o pensamento de amar um garoto, e este sendo Watanuki, não era um problema para ele. Aceitou isso com tamanha facilidade que chegou a se surpreender.
Só sentia curiosidade em saber como Watanuki o responderia... Se o responderia, claro.
Doumeki admitiu que ama Watanuki, mas como o outro se sente sobre ele? Essa era a grande pergunta.
Esperava falar sobre isso com Watanuki na escola, mas toda vez que ele tentava se aproximar de Watanuki, o menor arrumava um jeito de evitá-lo.
Já estava cansado, o dia todo correu atrás de Watanuki para tentar falar com ele, e agora, as aulas já haviam acabado, e até mesmo já havia ido e terminado a prática no seu clube de kyudo e no momento estava com todo seu uniforme para a prática do esporte, ou seja, seu quimono e seu hakama, e carregava seu arco em uma mão.
Sem mais esperanças de falar com o menor hoje, foi até onde havia deixado a sacola que usava para carregar as coisas mais cedo, já que não poderia carrega-la para dentro da “quadra” de kyudo.
Mas, ao ir guardar o arco dentro da sacola, nota... Algo mais, e que não estava lá antes, dentro da mesma, antes.
Lá estava o quimono que Watanuki havia usado ontem, que ele havia emprestado para o garoto, e em cima dele, um bilhete:
“Olha aqui, seu estúpido, estou escrevendo isso por causa do acontecido ontem a noite, e sei que talvez me arrependa de estar dizendo isso, mas...
Eu acho que te amo também...
–Watanuki”
Haviam mais algumas coisas escritas, mas a maioria havia sido rabiscada pela caneta logo que foi escrita, indicando que Watanuki não conseguia dizer direito o que sentia, e confuso, escrevia e logo rabiscava, mudando de ideia.
Doumeki não poderia evitar de achar fofo o quanto Watanuki ficava envergonhado e não conseguia se expressar direito, tentando o ofender para parecer mais durão, mas no final, nem conseguindo escrever de forma decidida.
Não pode evitar de não sorrir com o bilhete.
*** Epílogo ***
– Então, Ame Warashi, sua “dívida” comigo por enquanto está paga – Yuuko disse enquanto sorria para a Warashi, que continuava com o seu guarda-chuva, com as mãos na cintura e que tinha uma expressão confusa no rosto.
– Eu só não entendo o porquê você iria querer que eu fizesse cair um temporal fora de época ontem. Qual foi o sentido disso? – Ame perguntou. Após Ame ter pedido a ajuda de Yuuko, e ter recebido a ajuda que pediu, como sempre teria que dar algo em troca, o que no caso, foi um favor para Yuuko.
A dona da loja pedira para a Warashi que fizesse que no dia 3 de março, a tarde, uma forte tempestade atingisse a cidade, fora de época e sem aviso prévio e nenhuma previsão, mas que passasse e diminuísse até que rapidamente.
– Às vezes algumas coisas são necessárias para “ajudar” o hitsuzen, nesse caso, eu só estava dando um “empurrãozinho” para que o destino entre aqueles dois acontecessem. Mas era, simplesmente, o hitsuzen, iria acontecer, apenas antecipei um pouco, bem pouco, tudo – Yuuko disse, com um sorriso no rosto enquanto se despedia de Ame Warashi – Às vezes o hitsuzen precisa de uma pequena ajuda para que aconteça de forma como ele deve... – Yuuko disse para si mesma, dando uma risada logo em seguida e entrando de volta na sua loja.
Não existem coincidências, apenas o hitsuzen.
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