Such a Problem
1 That Problem...
Notas iniciais
Encarou a casa vizinha mordendo o lábio inferior, os olhos azuis percorriam sutilmente desesperados o dono do olhar esmeralda. Afrodite não podia deixar de debruçar-se sobre a sacada de mármore procurando, faminto, pelo dono de longos cabelos avermelhados, retorceu a face ao ver o loiro que o acompanhava em mais um treinamento, inconscientemente mostrou a língua para o jovem que ao vê-lo sussurrou alguma coisa para o acompanhante de cabelos verdes, o jovem Andrômeda apenas riu e acenou para o pisciano que educadamente devolveu o gesto ignorando ambos ao ter seu maior objeto de desejo em seu campo de visão.
Camus de Aquário.
O famoso cubo de gelo, pedra de mármore, frieza encarnada, personificação do polo norte. Este, era o homem que sem saber, esquentava suas noites nos sonhos mais loucos e, por que não dizer, eróticos. Porém, havia um pequeno problema, Peixes era considerado o mais belo cavaleiro de todos, loiro, esguio, olhos azuis como o céu, músculos delicadamente definidos, uma cintura fina e o quadril excessivamente largo para ao sexo masculino; basicamente, sua presença capturava os olhos de quem quisesse dar-lhe atenção, aliás, atenção é praticamente o sobrenome desse pisciano.
– Então, por que diabos ele não liga pra mim?!
– Falando sozinho, Afrodite?
– Shun!
– Olá...
– Há quanto tempo, não achei que o veria tão cedo.
– Vim acompanhar o Hyoga em seu treinamento...
– Hum... Que fofo.
– Afrodite!
– Tsc, não seja bobo, o santuário inteiro sabe sobre vocês! Aquela historia de Libra, heim... Nunca imaginei!
– Deuses... Não diga coisas assim Peixes.
– Que seja.
Deu os ombros caminhando para perto do menino que se avermelhava cada vez mais com as palavras do mais velho. Em outro passado, Afrodite jamais estaria ao lado do virginiano se não fosse para matá-lo, mas após terem a segunda chance, fora obrigado e pedir perdão não só para Athena e os demais dourados, mas também para o garoto que agora, se mostrava uma ótima companhia. Shun era amável e doce, totalmente o contrário de si, ria pensando se isto devia ao fato de serem signos oposto do zodíaco, mas independente disso, se davam muito bem!
– Me diga, querido, como está o treinamento do seu amado pato?
– Afrodite!
– Okay... Hyoga de Cisne, puf!
– Ai, desse jeito você nunca vai conseguir chamar a atenção do Camus!
– Oi?
– Ah eu sabia... Você está de olho no mestre do Hyoga!
– Ridículo, Shun. Naquele cubo de gelo sem coração? Nem pensar! – Virou o rosto escondendo o sutil rubor que se formara em suas bochechas, não daria o braço a torcer, jamais! Mas sabia que o irmão mais novo de Ikki não era nada tolo e entendera muito bem a situação. – Não mesmo...
– Bom, nesse caso, sorte sua.
– Como assim? Por que sorte?
Viu Shun sorrir como nunca vira antes, não era a genuína felicidade e gentileza de sempre, havia malicia e maldade naquele sorriso, e Afrodite não sabia explicar o porquê, mas lhe deixou apavorado.
– Ora, você não sabe?
– Deuses, Shun! Desembucha!
O jovem riu aproximando-se do assento onde o sueco repousava visivelmente tenso, o sorriso do menor amenizou-se um pouco vacilando para algo bom, afinal, ver Afrodite tão vulnerável era algo épico e raro, mesmo que por uma boa causa.
– Ainda bem que você não gosta do Camus, afinal ele não te suporta!
– O-o que?
As palavras não deixaram de serem dolorosas, sabia o quanto isto era verdade, de fato, nunca fora o melhor vizinho para Camus, o francês era reservado, tradicional, bonito e constantemente frio, enquanto Afrodite parecia queimar o tempo todo, era arrogante, pré-potente, vadio, pervertido e fogoso, não havia um membro fixo em sua cama, uma pessoa em sua vida, imaginava o quanto era julgado pelo aquariano ao vê-lo passar cada final de semana acompanhado de um homem ou mulher diferente, afinal, Afrodite era libertino e Camus um clássico.
Revirou os olhos dando os ombros como se realmente não se importasse com as palavras proferidas do menino, Shun ficou sutilmente decepcionado com a reação do pisciano, esperava um chilique e talvez, quem sabe, uma crise de desespero para ser aceito, mas nada disso veio, apenas o silêncio. Afrodite sentou-se em posição fetal enrolando os cachos louros, que agora pendiam irregularmente na altura do maxilar, enquanto encarava o outro lado da sala.
Suspirou cansado, sua conversa com o guardião do décimo segundo templo acabara e nada mais sairia dali, levantou-se depositando um gentil beijo na franja dourada do amigo e dirigia-se para saída quando ouvira o namorado gritar pelo nome do mestre.
– O que foi isso?
– Não sei, é a loira oxigenada que está fazendo escândalo, vai lá ver.
– Mereço... Ah... Oh-oh.
O loiro ergueu uma das sobrancelhas ao ver a face distorcida do virginiano em uma careta engraçada, porém aquela visão não lhe divertia, algo dentro de si dizia que algo havia dado errado. Muito errado.
– N-não foi anda Dite, é que o Hyoga caiu!
– Caiu à merda, Shun. Tenho quase trinta anos, acha mesmo que eu vou cair nessa?
– Ah... Dite, e-eu acho melhor você não vir até aqui e...
– Shun, saia da frente.
– T-tem certeza?
– Eu vou enfiar uma rosa piranha na sua goela se você não sair dessa janela nos próximos 5 segundos!
Shun arregalou os olhos dando um largo passo para a direita, o cosmo de Afrodite queimava possesso sem nem ao menos ver o que havia acontecido, parecia que este deduzia as coisas pela mais pura intuição. Piscianos...
Mordeu o lábio preparando-se para o que viria a seguir, afinal, não poderia esperar nada de bom vindo de Afrodite, ainda mais se tratando de seu jardim, mais precisamente de um jardim que agora estava completamente congelado...
– Mas que porra é essa? Camus! Caralho Camus!
O loiro que encontrava-se ao lado do mestre olhou para a janela avistando o pisciano possesso gritar pelo nome do cavaleiro de Aquário, enquanto este permanecia quieto e indiferente encarando a belíssima “obra de arte” recém criada.
– Eu vou matar esse cubo de gelo estúpido, ah eu vou!
– Af-Afrodite, espere!
Os dois correram escadaria abaixo, o pisciano que antes vestia apenas uma confortável túnica de algodão agora trajava a tão pesada armadura e uma rosa em mãos pronto para cravá-la no peito do vizinho.
– Shun, Hyoga... Acho melhor se retirarem.
– Ah, com certeza, afinal ele não quer que vocês vejam a surra!
– Pelos deuses, Afrodite, não envolva os meninos nessa historia. A culpa foi minha.
– Claro que foi! Isso está meio obvio, não?!
A ironia na voz não podia ser contida, batia o pé impacientemente e estava realmente prestes a matar o guardião de aquário, o que o impedia? Simples, não queria testemunhas.
– Mestre, t-tem certeza?
– Se não quiser ter uma Rosa Sangrenta cravada no meio do peito Hyoga, aconselho a pegar o Shun e saírem daqui o mais rápido possível.
– S-sim.
O siberiano agarrou a mão de Shun puxando-o para longe, mesmo sob protestos do virginiano, afastaram-se o suficiente para deixar apenas os dois dourados no jardim, que antes brilhava na vivacidade das cores e agora jazia no silêncio da morte.
– Qual é o seu problema? Eu vou te matar, Camus, eu juro que vou!
– Desculpe.
– Você é tão arrogante, estúpido, ridículo, sempre achando que é o melhor e... O que?
– Desculpe.
Os olhos azuis arregalaram-se sutilmente, seu coração saltou uma batida e seus lábios abriram-se tentando formular algo, mas parecia inútil perante a sóbria presença e excessiva sinceridade do outro. Camus não tentara inventar desculpas, nem mentir, omitir ou culpar o aprendiz, apenas responsabilizou-se pelo o que aconteceu.
– Ah... Eu...
– Não fique irritado com o Hyoga. Eu errei o golpe.
– Vo-você errou? Isso é uma piada? O grande Camus de Aquário erra?!
O olhar gélido que recebeu foi o suficiente para lhe calar, baixou os olhos encarando a direção contrária. Divertia-se com a situação, mas aos poucos sua sanidade voltava e a ideia de estar sozinho com o aquariano em meio ao seu (falecido) jardim de rosas, lhe causava certo calafrio e ansiedade.
– Que se dane. A merda já foi feita.
– Não. Isso não está resolvido, não é justo que eu destrua seu jardim e simplesmente fique assim, há algo que eu possa fazer por você?
Afrodite não pode negar que seu primeiro pensamente fora perguntar se o francês entendia alguma coisa de botânica, porque o faria replantar cada mudinha perdida, mas recordou-se do seu profundo desejo de tê-lo ao seu lado. Obviamente que sua língua preparou-se para oferecer-lhe aquela tentadora redenção, mas antes que o fizesse, o próprio Camus decidiu o que fazer.
O ato que se seguiu pegou o mais velho de surpresa, antes que pudesse sequer pensar em algo ou dizer palavras acidas, sentiu lábios frios tocar os seus. Os olhos azuis arregalavam-se com espanto, fora um beijo rápido, de no máximo dez segundos, apenas o suficiente para assustá-lo. Camus permanecia indiferente, apesar do sutil rubor na face.
– Sinto muito.
– O-o que...?
O sorriso emoldurando a face belamente moldada por bons genes sorria para si com malicia. Nunca, nunca em toda sua vida imaginaria que veria Camus sorrir, ainda mais para si e complementando, com malicia.
– Camus...?
O francês aproximou-se mais um passo, tomando a mão do pisciano e beijando-a.
– Dou graças por ter errado esse golpe, ou jamais teria coragem para isso...
– Do- do que você está falando...?
– Afrodite... Você acha que nunca percebi, os olhares, as insinuações, o sorrisos?
Peixes deu dois passos para trás, sentia-se recuado e quem antes caçava, instantaneamente tornara-se a caça. Abriu a boca para protestar as palavras ditas com tanta convicção pelo aquariano, mas seu inconsciente o lembrou do quanto àquelas palavras eram sinceras. De fato, cobiçou o aquariano, olhou, desejou, sonhou... E agora que o poderia ter, negaria?
– Merda.
A vançou para os braços do francês sentindo-os envolverem sua cintura, agarrou o pálido pescoço com as mãos atacando os lábios gélidos em um beijo eufórico e cheio de desejo, as mãos calejadas do outro percorriam suas costas tentando a todo custo tocar sua pele protegida pela armadura, Afrodite deu um jeito de retirar a incômoda peça dourada ficando novamente apenas com a túnica, afastaram-se do beijo buscando por ar, Camus não deixou de sorrir ao ver o corpo perfeito moldado no tecido, riu, Afrodite definitivamente adorava à própria imagem, afinal usar uma roupa daquele comprimento... A barra da seda terminava no meio da coxa branca e roliça, o cinto de couro acoplado na cintura encurtava a peça ainda mais, deixando-o praticamente todo à mostra. Os ombros desnudos, os lábios róseos e os cachos, antes tão longos, moldando a face corada do sueco.
– Como eu nunca tinha reparado em você antes?
– O que? Achou que a alcunha de “mais belo” era brincadeira?
– Não, achava que eles exageravam, apenas.
– Bem será que é por que você não me conhecia... De perto?
– Não sei...
– Bom, por que não tiramos essa dúvida?
Afrodite ergueu os olhos verificando se ainda estavam sozinhos, sorriu ao constatar o olhar faminto que o guardião do décimo primeiro templo lhe dirigia, alheio a tudo que estava ao redor; não pode deixar de provocá-lo apoiando as mãos no joelho como se procurasse algo no chão e subindo-a aos poucos arranhando a própria pele até a barra do tecido de seda, erguendo-o ainda mais, o aquariano vagueou a língua pelos lábios inconscientemente sem desgrudar os astutos olhos verdes da pele branca à sua frente. Afrodite alargou o sorriso mandando o pouco juízo que lhes restara pelos ares, andou novamente colando seu corpo ao do francês, com brutalidade o empurrou para baixo derrubando o corpo nos resquícios de gelo que se espalhavam pelo chão, caiu por cima do mais novo sentando-se em seu baixo ventre, Camus tinha os olhos nublados de excitação e não aprecia se incomodar nem um pouco com a movimentação ousada do pisciano.
Afrodite, suspirou agradecendo pela oportunidade, abaixou-se o suficiente até encostar os lábios na orelha esquerda do vizinho.
– Se for para se arrepender amanhã... Me faça seu hoje!
Não sabia se o que estava acontecendo era um mero acaso, se em algumas horas, quando tudo acabasse, Camus iria se arrepender e sumir de sua vista ou se tudo não passava de um sonho realista demais, mas independente disso, se esta era a oportunidade que lhe fora dada, bem... Por que não aproveitar? Afinal, era tudo o que queria!
~
O sol bateu contra a janela iluminando totalmente o cômodo, sua cabeça doía e parecia prestes a explodir a qualquer momento, apertou os olhos voltando a face para o travesseiro macio, resmungou algumas palavras em sueco. Seu corpo estava extremamente dolorido e memorias da noite anterior vinham à sua mente como um turbilhão.
– Deuses, foi tudo um sonho?
Tentou se levantar mas sentiu uma terrível dor no quadril, bem, talvez não tivesse sido um sonho, afinal. Mordeu o lábio inferior esforçando-se para levantar, enrolou-se no lençol de seda egípcia caminhando até o banheiro. Foi quando parou e voltou um passo.
– O que...?
Caminhou silenciosamente até o volume que encontrava-se embolado em sua cama, pé ante pé, puxou o tecido delicadamente relevando o ruivo. Dormia, calmo, com a respiração suave e os lábios entre abertos, não pode conter um gritinho de excitação que fez o outro remexer-se na cama.
– Ah... Minha deusa!
Tocou as longas madeixas avermelhadas, seus olhos encheram-se de lágrimas e seu coração se aquecia aos poucos com a visão, porém, ao mesmo tempo, seu estomago dava piruetas, algo dentro de si dizia que tudo aquilo fora apenas uma ilusão, e as lágrimas que antes se formavam em contentamento, aos poucos se transformavam em gotas de desespero e tristeza, fechou os olhos tentando conter as gotas que corriam livremente por sua face; distraído nos próprios pensamentos, não notou quando o aquariano acordou, Camus passou alguns segundos observando a cena a sua frente, teria sido tão ruim assim para o pisciano a ponto de fazê-lo chorar? Abaixou-se até ficar na altura do vizinho que parecia concentrado demais para nota-lo, delicadamente e com muita hesitação, tocou a bochecha corada do companheiro, chamando sua atenção.
– Afrodite?
– Ah...
O loiro enxugou as lágrimas rapidamente respirando fundo e olhando diretamente para os olhos esmeralda que o observava com genuína preocupação.
– Me desculpe.
Ouvir o ruivo dizer aquilo mais de uma vez estava começando a ficar estranho, mas o pior não eram as palavras, mas como chegavam a seu ouvido.
– Vo-você se arrependeu, não?
– Arrepender?
– Sim, eu sei que não deveria ter me deixado levar, mas é que...
Os dedos gélidos em sua boca foi mais que suficiente para calar-se, os olhos curiosos tentavam decifrar o sorriso gentil e amoroso desenhado na bela do guardião e aquário.
– Afrodite.
– Hm?
Sorriu ainda mais, substituindo os dedos pelos próprios lábios, em um beijo calmo e simples, cheio de carinho e carregado, muito carregado de amor. Afrodite mantinha a expressão confusa, mas não tinha coragem de retrucar nada. Os braços envolveram seu corpo em um abraço aconchegante, a boca do francês próxima a sua orelha esquerda sussurrava palavras doces, mas de todas, a que fez o sueco voltar a chorar e abraçá-lo com vigor foram apenas estas:
– Você não sabe o quanto esperei por isso. O quanto esperei por você... Afrodite.
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