Sucesso
1 Capítulo Único
— Eu não consigo acreditar que você é tão burro assim. Como você tem coragem de fazer esse pedido tão surreal para uma pessoa completamente acima do seu nível como eu? Não passa de um esforço patético feito por um ser inútil como você. Sua mente é tão densa, que ela nem conseguiu compreender que eu estava te iludindo esse tempo todo, só porque achei que seria muito engraçado te enganar, quatro-olhos...
Definitivamente não era a resposta que eu estava esperando. Como deu tão errado assim?
***
*3 horas atrás*
— É sério que você vai fazer isso? Eu ainda não consigo acreditar.
— Eu estou te falando pela quinta vez. Desde ontem. O dia vai ser hoje, com certeza. Toda essa jornada durante esses seis meses vai resultar numa vitória, finalmente — reclinei a cadeira para trás, pondo as duas mãos por trás da cabeça.
— Então você vai finalmente por seu plano em prática.
— Com certeza. E estou contando com chances altas de sucesso. Mas acho que você ainda não está convencido disso.
— Não, cara. Não é isso que eu estou querendo dizer. Eu sempre confiei nos seus planos. Eu só acho que é uma péssima ideia.
— Por que? Eu achei que você poderia me apoiar um pouco, mas acho que eu estava enganado. Tentando mudar minha escolha até os últimos momentos — eu disse, retomando minha postura. — Qual é a sua?
— Confia em mim, eu estou com um péssimo pressentimento — seu olhar ficou sério de repente.
— Para falar a verdade, eu acho que você está com segundas intenções.
— Como assim? — Ele perguntou, indignado. — Tudo bem que eu nunca te apoiei nessa decisão, mas eu só estou tentando te avisar, como seu melhor amigo.
— Esse é o problema. Eu sempre te ajudo com o possível quando você precisa. E esperava que fizesse o mesmo por mim.
— Ah, você está entendendo tudo errado. Eu só não quero que aconteça o pior, tá ligado?
— Talvez eu não esteja entendendo mesmo. Do jeito que você fala, parece até que meu mundo vai acabar se ela falar não. Pode ter certeza que eu ficarei bem.
— Então você pode por favor mudar de ideia?
— É sério? Ainda nessa? Eu já falei que não. Na moral, deixa de ser um babaca. Essa conversa já acabou... E vira pra frente aí porque o professor começou a explicar a matéria — apontei para seu peito em um ato de fúria.
— Olha só, eu estou realmente tentando te avisar que não é uma boa ideia. Eu tenho ouvido umas coisas estranhas nesses últimos...
— Você está fazendo o oposto de me ajudar nesse momento.
— Beleza. Se você insiste tanto assim...
Hoje é o dia em que eu finalmente terei coragem de perguntar. E nada nem ninguém vai me impedir.
***
Saio da sala o mais rápido possível após o término da aula e vou em direção da saída e começo a procurá-la pelos corredores. Não achei ela, mas também não esperava encontrar, afinal eu pedi para ela me esperar no fundo do pátio. Exatamente no banco rodeado de árvores, onde nos conhecemos pela primeira vez. Lembro como se fosse ontem. Ela estava sozinha nesse lugar, chorando porque seu namorado estava a traindo. Parecia verdadeiramente perdida e deprimida. Eu estava surpreso, já que quase ninguém ficava naquele local durante o intervalo, então eu ficava lá ouvindo música. Mas lá estava ela. Como se o destino nos juntasse e tivesse grandes planos. Bastou uma conversa e viramos grandes amigos. No começo, eu não a via dessa forma, mas conforme fomos passando tempo um com o outro, esse sentimento foi crescendo. Em algum momento durante esses seis meses, eu me apaixonei...
— Sai da frente! — Alguém gritou enquanto me empurrava para o lado, passando rapidamente.
Droga, fiquei perdido nos meus pensamentos e fiquei plantado no meio do corredor. Nem percebi o tempo passar. Melhor eu me apressar para não deixar ela esperando.
***
Chegando ao local, eu a vi. Elegante e bela como sempre. Seus cabelos loiros bailavam com o vento, enquanto ela tentava segurá-los sem êxito. Sua saia vermelha e preta xadrez era um belo contraste com o tom único de branco da camisa social que era parte do uniforme escolar e realçava seu batom igualmente escarlate. Meias longas pretas e uma sapatilha cinza completava seu visual que eu já havia elogiado inúmeras vezes.
Antes de adentrar o local combinado, ajeitei o cabelo e o óculos e juntei toda a coragem e calma dentro de mim.
— Você veio mesmo! — Eu disse, enquanto caminhava em sua direção.
— Mas é claro que eu vim. Por que eu não viria? — Ela perguntou enquanto abria seu sorriso perfeito.
— Nada não, esquece. E então, como foi a aula? — Perguntei enquanto me sentava no banco. Eu acho que a preparação mental não serviu de nada. Será que dá pra perceber o nervosismo?
— Foi bem chato — ela disse enquanto sentava-se também —, mas graças a você eu consegui fazer os exercícios — acabei recebendo um abraço desajeitado. Espero que eu não fique mais nervoso ainda.
— Sério? Fico feliz que eu consegui te ajudar.
— Mas então, por que você decidiu me chamar aqui? — Pela sua expressão, parece até que ela já sabia o que eu queria desde o começo. Espero que dê certo...
— Vai parecer meio estranho, e eu não sei como dizer isso exatamente, mas... Nós já passamos tanto tempo juntos que, de certa forma, você já é uma parte importante da minha vida. E nós sempre falamos que gostamos um do outro, mas acho que já não consigo separar “gostar” e “amar” agora. Então eu gostaria de perguntar... Você quer namorar comigo? — Enfim consegui.
— Que fofinho... — sua voz era doce e aconchegante. — Mas é claro!
— Sério? — Meu sonho acabou de ser realizado — Você não faz ideia do quanto eu... — conforme eu falava, mal pude perceber sua expressão tornando-se maquiavélica.
— Claro que não! — Ela levantou-se de repente e sua expressão fechara definitivamente. — Eu não consigo acreditar que você é tão burro assim. Como você tem coragem de fazer esse pedido tão surreal para uma pessoa completamente acima do seu nível como eu? Não passa de um esforço patético feito por um ser inútil como você. Sua mente é tão densa, que ela nem conseguiu compreender que eu estava te iludindo esse tempo todo, só porque achei que seria muito engraçado te enganar, quatro-olhos... Bom, pelo menos pude aproveitar e melhorar minhas notas enquanto estive com você — ela ria descontroladamente enquanto me encarava com desprezo —, eu realmente estava precisando.
Eu fui do céu ao inferno em questão de segundos. Devido ao choque, não me dei conta de quando, mas num piscar de olhos, não estávamos sozinhos. Uma dúzia de alunos que eu já havia visto pela escola formava um círculo em nossa volta.
— Q-quem são essas pessoas? — Eu perguntei, visivelmente desesperado.
— Não se preocupe, eles são só uma galera que eu chamei pra assistir o espetáculo.
— E não é que o idiota realmente pediu ela em namoro?
— Eu tinha minhas dúvidas se ele realmente teria coragem...
— Na verdade, eu tinha dúvidas se isso realmente funcionaria. Não acredito que ele realmente caiu nessa.
Garotos e garotas visualmente diferentes cercavam meu redor. Eu nem lembro de tê-los visto pela escola. Mas todos tinham algo em comum nesse momento. Todos estavam me ridicularizando. De forma inconsciente, eu levei minhas mãos lentamente até os ouvidos e os tapei, enquanto abaixava o olhar. Totalmente exposto e indefeso.
— Só pra deixar bem claro, estou recusando seu pedido. E me faça um favor, nunca mais fale comigo — de repente, sua voz não parecia mais tão agradável...
***
*2 semanas depois*
— Olha só galera, ele perdeu a fala!
— Vocês poderiam me deixar em paz só hoje? — Minha voz estava falhando mais que o normal. — Ontem foi um dia horrível e...
— E você acha que a gente liga? — Mais um no estômago. Alguém vem caminhando em minha direção.
— Vocês poderiam parar? Isso está indo longe demais.
— Eu já estou ficando cansado de você se intrometendo toda hora. Para o seu bem, é melhor você se afastar dele, caso não queira se dar mal também.
— Saquei... Aí, você está bem? Eles já foram embora — o vulto estendeu a mão em minha direção, mas não sei se queria levantar. Estava ficando mais difícil a cada dia...
— Ah, é você. Eu acho melhor você ouvir eles. Você não deve ser bem visto, andando comigo agora.
— Deixa disso. Você sabe que eu não ligo. Levante logo, ou vai ficar sentado na grama?
— Eu comecei não ligando também. É fácil ignorar apelidos ou os papeis que jogam em mim durante a aula. Foi difícil me acostumar com os cadernos rasgados e os banhos de água, mas depois eu ignorei também. E por mais que eu queira esquecer os socos, não é como se eu pudesse apagar os hematomas do meu corpo — agarrei sua mão e comecei a me levantar. Mas acabei mostrando demais.
— Você sabe que eu sou seu amigo. Não posso deixar você sozinho nessa... Calma, o que são essas marcas no seu braço?
— Não são nada — agora que ele notou, escondi-as rapidamente com a manga da jaqueta.
— Eu já queria te ajudar antes. Agora, eu tenho certeza que eu ou alguém precisa te ajudar. Tem algo que eu possa fazer por você?
— Não se preocupe com isso não...
— Eu estou falando sério.
— E você acha que eu não estou? Tem noção do que eu já passei desde aquele dia? Chegou num ponto onde eu não sabia mais o que fazer! — Extravasei toda minha raiva e frustração. — Pelo menos ontem. Agora eu sei bem o que fazer. A única coisa possível para o meu bem — deve ter sido a primeira vez em que esbocei algo parecido com um sorriso desde aquele incidente
— Eu não sei, não. Não quero deixar você nesse estado.
— Se você é meu amigo, por favor, confie em mim e no meu plano.
— Não faça nada estúpido — ele disse após estender a mão.
— Sem problemas. Obrigado por tudo — respondi ao cumprimento.
***
*1 mês depois*
— ... Tenho certeza que todos vocês conhecem ou conheceram este aluno, afinal, estão na mesma classe. Após cerca de um mês sem comparecer às aulas, recebemos um pedido de transferência da parte dele vindo de uma escola em outra cidade. Segundo informações do responsável, preocupado com o estado psicológico do aluno, ele estava sendo vítima de bullying dentro do espaço escolar, e esse teria sido um dos motivos da transferência. Como diretor, estou declarando agora que o caso será investigado e que os culpados serão punidos, sem dúvidas. Dito isso, estejam avisados e tenham uma boa aula.
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