Subway - OneShot
1 Capítulo Único - Sweather Weather
Notas iniciais
“Era mais um dia cinzento e frio, mas aquela garota tinha algo diferente, talvez fosse seu casaco vermelho vibrante encharcado pela chuva que se destacava em meio as roupas escuras da multidão de pessoas que cruzavam nosso caminho e insistiam em ficar entre nós, ou talvez fosse sua feição aflita que denunciava que algo não corria bem.
Apesar do local não ser o melhor de todos para se apaixonar, afinal, estávamos em uma estação de metrô lotada por pessoas que estavam focadas apenas em chegar aos seus respectivos destinos numa segunda-feira chuvosa às 9:15 da manhã, eu não pude evitar de me sentir atraído por aquela bela moça dos cabelos castanhos e olhos azuis tempestuosos.
Não faço à menor ideia de quanto tempo fiquei encarando-a, apenas entrei em um transe que era quase impossível de sair, só voltei à realidade quando a vi se esgueirando no meio daquela multidão e entrando no vagão do metrô. Naquela hora não pensei em nada, apenas corri e entrei junto a ela, não me importava se eu tinha que ir trabalhar, se eu iria ser demitido por chegar atrasado numa reunião importante, não pensei nas contas que deveria pagar com meu salário, não pensei nos problemas, foquei exclusivamente na felicidade e ela usava um par de óculos incrivelmente charmoso.
Provavelmente eu nem havia sido notado, ela estava checando insistentemente seu relógio, conferindo a hora a todo instante, não devia nem ter olhado ao redor.
Eu desejava chegar até ela e perguntar o que tanto lhe afligia, sentia uma vontade imensa de fazer alguma piada idiota apenas para ver a ruga de preocupação se dissipar de sua testa e um belo sorriso surgir em seu rosto.
Tentei me arriscar no meio das pessoas e chegar até ela que estava se apoiando no corrimão e olhando pela janela à sua frente, um pouco distante demais de mim, mas havia muita gente no caminho impedindo com que eu me aproximasse.
Foram exatamente 4 tentativas falhas, sempre que chegávamos em uma estação e uma pessoa desembarcava eu dava um passo à frente, quando finalmente chegamos na 5° estação boa parte das pessoas desembarcaram e eu fui me aproximando cuidadosamente, ela havia colocado fones nos ouvidos e escutava uma música muito alta, logo reconheci as batidas, era Sweater Weather do The Neighbourhood, minha banda favorita.
Eu estava cada vez mais surpreso com a moça do casaco vermelho, que a propósito notei ainda estar molhado, sem hesitar tirei meu próprio casaco, mas não sabia como oferecê-lo a ela, estava praticamente ao seu lado, porém não fazia ideia de como reagir.
Olhei pela janela com um olhar perdido, procurava no horizonte, direção à qual ela olhava; uma solução para essa situação em que havia me metido. Nem sequer conhecia essa garota, não fazia à menor ideia de onde ela, indiretamente, estava me levando, não sabia se ela gostaria de mim assim como eu gosto dela.
E se ela já tiver um namorado? E se for casada? E se ela não gosta de garotos?
Fui invadido pela sensação de medo, fracasso e incerteza que se apoderaram de mim, mas era tarde demais para isso, não tinha porquê ter essas dúvidas idiotas, já estava encrencado mesmo, havia mergulhado de cabeça nessa aventura e não existia mais volta.
Eram tantos questionamentos que eu nem se quer tinha considerado antes de agir impulsivamente e me jogar dentro deste vagão, agora não podia voltar atrás, eu que comecei isso, agora preciso terminar, nunca saberei se poderá dar certo se eu não tentar.
Me aproximo um pouco mais, encostando nossos braços para tentar chamar sua atenção, mas em resposta ela apenas se afasta e continua com seu olhar fixo na paisagem que passa como um borrão fora da janela.
Tive que tomar coragem e chama-la, delicadamente toquei em seu braço e logo fiquei devastado pelo seu incrível olhar, ela conseguia ser ainda mais bonita olhando para mim.
Sorri envergonhado e ofereci meu casaco a ela, contei sobre minha preocupação para que ela não pegasse um resfriado, meio tímida e envergonhada ela me disse que estava tudo bem e que não poderia aceitar, mas percebi que ela estava com frio, era evidente por conta dos espasmos que estava tendo. Insisti mais até que ela se rendeu e vestiu meu casaco.
Eu sorri para a mesma, que retribuiu o sorriso e agradeceu. Após alguns minutos num silêncio constrangedor perguntei seu nome, Mariana, ela me respondeu, ah Mariana... Passei a gostar muito desse nome, se tornou meu nome preferido em todo o mundo, o nome que ligava à pessoa com que eu imaginava um futuro, à pessoa com que queria dormir e acordar todos os dias, podia parecer estúpido sonhar assim, mas com ela tudo era possível.
Puxei assunto, usando como desculpa a música que ela ouvia nos fones, elogiei o bom gosto dela e logo ríamos e conversávamos animadamente sobre nossos estilos musicais preferidos, questionei o motivo dela parecer preocupada e checar o relógio a todo instante, Mariana me contou que iria ter uma prova na faculdade e que inclusive já estava muito mais que atrasada, mas disse que agora nada adiantava mais, faltava um pouco para chegar à faculdade e que provavelmente já tinha perdido a prova, enquanto ela falava, lentamente fui subindo minha mão pelo corrimão onde estávamos nos apoiando e segurei sua mão, Mariana; agora sempre que citarei seu nome será com amor; hesitou um pouco e por fim entrelaçou seus dedos aos meus.
Ficamos inertes em um mundo só nosso, aquela conversa poderia ser eterna se dependesse de mim, porém inesperadamente Mariana avisou que tinha chegado ao seu destino e que precisava desembarcar, meu coração doeu no momento em que imaginei ela saindo do metrô e me deixando para trás. Sem pensar duas vezes pedi seu número de telefone, ela confusa recitou alguns números para mim que anotava na manga da camisa social branca, pois não conseguia tirar o celular do bolso e estava com a maleta cheia de documentos importantes que não podiam, em hipótese alguma, ser rasurados, eu não podia confiar em anotar na palma da mão porque se continuasse a transpirar ansiosamente daquela maneira acabaria perdendo o telefone dela.
Tão rápido quanto chegou ela partiu, eu acabei ficando no metrô mesmo, desci na estação seguinte e peguei outro vagão para voltar até a estação do início.
Voltei para casa e passei o dia pensando nela, suspirei pelos cantos e esperei ansiosamente até o anoitecer, às 20:00 liguei para o número e fui atendido por uma voz completamente diferente, perguntei pela Mariana e a moça me disse que era ela mesma, eu me identifiquei e convidei-a para sair, mas a mulher ao telefone negou e me disse que não me conhecia, fui chamado de tarado maluco e em seguida o telefone foi desligado na minha cara.
Fiquei confuso e desolado, não acreditei que a Mariana que eu havia conhecido no metrô tinha me passado o número errado. Estava atônito, não sabia o que acabara de acontecer e torcia para ser apenas um engano, conferi se tinha discado os números corretos, então me deitei para pensar e na mente só me vinha o sorriso dela, seu jeito doce de falar, o brilho em seus olhos enquanto me falava sobre suas músicas favoritas, nós tínhamos combinado tanto, não consegui entender o porquê de ela ter feito isso.
Logo meu telefone tocou novamente, achei que era meu chefe, mas era uma senhora que me disse que ocorreu um erro, que a Mariana, a minha Mariana tinha passado o número errado e que a filha dela, que por coincidência também se chama Mariana se confundiu e acabou causando aquela confusão, fiquei esperançoso e a senhora me passou o número correto da minha Mariana, assim que encerrei a ligação digitei o número e torci para ouvir a voz da moça que conheci no metrô e assim foi.
A Mariana do metrô atendeu e começamos a conversar, convidei-a para sair comigo e então esse foi nosso primeiro encontro, onde ela esclareceu o ocorrido, ela havia me passado o número errado, pois teve medo de passar o telefone para um desconhecido que puxou assunto no metrô, só que se arrependeu depois e por sorte ou destino, a senhora, dona do número de telefone nos ajudou.
Depois de 5 meses saindo eu a pedi em namoro, e assim ficamos por 3 longos anos até que resolvi realizar 2 sonhos dela na mesma noite.
Fomos para um show do The Neighbourhood, e quando Jesse, o vocalista da banda estava cantando aquele trecho de Sweater Weather em que diz: “one love, two mouths; one love, one house; no shirt, no blouse; just us, you find out” eu a pedi em casamento e em meio à muitas lágrimas ela aceitou. 1 ano depois ocorreu a festa de casamento e 9 meses depois tivemos nosso primeiro filho.
E de um amor platônico de metrô construímos uma família, com 5 filhos adoráveis, 3 netinhos e então ela nos deixou.
Apenas a agradeço, por ter me amado, me apoiado em minhas decisões, por ter me feito feliz e até ontem, ter estado ao meu lado em todos os momentos. Eu a amei intensamente e vivemos nossa vida juntos plenamente felizes desde quando nos vimos pela primeira vez e eu vou continuar amando-a até depois, quando eu a reencontrar, pode ser hoje, amanhã ou daqui à 5 anos, só Deus sabe quando.”
Eu estava em prantos enquanto meu pai fazia o seu discurso de despedida à frente do caixão de minha mãe, o amor dos dois é tão bonito, me faz acreditar na vida, no amor e nas pessoas, tenho esperanças de algum dia eu, a filha caçula e fruto desse amor, possa viver algo tão intenso assim. Quem sabe assim como esses dois eu não encontre o amor da minha vida hoje mesmo no metrô indo ou voltando da faculdade.
Qualquer lugar é um local propício para o amor, apenas abra a porta e o deixe se acomodar.
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