Subversão
4 Capítulo Três
– Repita seu nome.
Philipe não parecia o mesmo. Era quase estranho velo tão serio caminhando ao meu lado, inquieto.
Eu me mantinha sentada, sem me mover.
As palavras saiam de minha boca sem esforço, meus lábios se abrindo e fechando minimamente.
– Mercy Red.
– Seu pai, era Edward Red, certo? – sua voz firme se fez ouvir e o canto de minha boca se contorceu.
– Sim. – respondi simples.
O homem que me prendeu a vida toda.
O homem que sempre me protegeu. Me protegeu até demais.
O homem que morreu devorado por mortos enquanto sua única filha fugia.
Edward Red.
Meu pai.
– O que aconteceu na cúpula na tarde de anteontem, pode contar com detalhes? – ele perguntava como se aquilo fosse um interrogatório de um crime.
Ele falava como se fosse me julgar.
Vaguei meus olhos pela parede do lugar. Qual seria meu julgamento?
– A cúpula foi invadida pelos infectados – respondi sem me importar com cerimonias, queria que aquilo acabasse logo, queria sair correndo, queria parar de falar.
Mas eu não podia.
– Eles entraram e eu consegui me esconder a tempo, mas meu pai não. Eles atacaram meu pai, e eu fugi. – minha voz não transmitia nada. Nenhum sentimento, nenhuma emoção.
Um poço vazio era como eu me sentia naquele instante.
– Edward Red morreu por um ataque de zumbis na cúpula? – ele perguntou levantando uma das sobrancelhas.
Levantei minha cabeça por alguns instantes, levando meu olhar até o do loiro ao meu lado, encarando seus olhos fixamente.
– Não deixaram nada dele, se era isso que queria saber. – respondi, vendo-o engolir a seco. Permaneci a encara-lo por mais alguns instantes – Nenhum pedaço, nada, Edward Red foi completamente devorado. Ele está morto. – assim como eu sempre me senti.
– Não precisa falar se não quiser, Mercy – Anna comentou, se aproximando.
– Eu disse que ajudaria. – respondi voltando meu olhar a meus dedos, que se entrelaçavam em meu colo.
– Como você sobreviveu? – Phil voltou a perguntar, seu passo novamente apressado atrás de mim.
– Eu fugi antes que pudesse terminar de ver... – Meu pai ser completamente dilacerado por mortos – e entrei na sala de pânico, onde eu tinha certeza nenhum zumbi poderia entrar.
– E então você esperou...
– E então eu esperei. – afirmei com a cabeça, levando meu olhar ao dele novamente.
– Como sabia que chegaríamos pra resgata-la? – ele perguntou serio.
– Não sabia.
Eu poderia ter morrido ali. Morrido esperando.
De fome, de falta de água.
Sufocada talvez pelas cordas que me prendiam até o pescoço e que jamais me soltaram.
Poderia ter morrido presa.
– Fico feliz que fizemos ronda naquele dia, realmente fico feliz. – ele declarou, caminhando até sua cadeira e sentando ali, logo em frente a mim. – A quanto tempo estavam lá?
– Dois anos.
– Como isso foi acontecer... – ele se perguntava tocando seu próprio queixo, coçando-o de modo pensativo. Eu observava seus movimentos de modo relaxado.
Alguém abriu a porta, simples assim.
Mas eu não podia falar isso.
Isso não.
– Quem saia da cúpula? – ele perguntou.
– Os funcionários.
– Você e seu pai não...
– Eu nunca sai de lá. – respondi o cortando, num impulso quase espontâneo que não pude sequer controlar. – Não pelo menos até agora...
– Você ficou dois anos sem sair de lá? – ele parecia surpreso. Seus olhos sutilmente arregalados, sua boca entreaberta.
Concordei com a cabeça, engolindo a seco.
– Não acredito nisso, você passou esses dois anos presa?
Passei muitos anos da minha vida presa.
Concordei novamente.
– Por quê? Não saiu nem ao menos um segundo? O local onde você e seu pai moravam era um dos mais seguros, tirando a situação recente, era quase não habitado por zumbis pela falta de pessoas, então, por quê?
– Meu pai prezava muito pela minha segurança.
Até demais.
– E por isso ele não permitia que você saísse de lá? Nem ao menos por alguns minutos?
– Se ele deixasse eu não conseguiria voltar. – comentei sem ao menos perceber o que eu dizia, minha boca já não mais guardava o que meu coração mandava.
– Por quê? – ele me parecia curioso, a firmeza e autoridade de antes quase sumindo em meio ao brilho que seu olhar obtinha.
– Quando se vive presa, e por alguns segundos sente a grama nos pés, ou o sol esquentando sua pele, você jamais vai desejar voltar pra prisão e não poder sentir nada daquilo novamente. – comentei engolindo a seco, abaixando meu olhar aos meus pés.
– Mercy, você não ficou só dois anos sendo... “protegida”, ficou? – ele perguntou e eu o encarei, de modo firme e sincero.
Fiz que não com a cabeça, uma negativa desesperada por entendimento.
– Meu deus... – ele passou a mão por seu rosto, fechando os olhos logo em seguida. –Quanto tempo?
Virei minha cabeça para o lado, me encolhendo um pouco.
Por favor, já chega.
– Phil, acho melhor mostrar a ela o lugar agora, que tal continuarmos isso outro dia? – Anna se pronunciou tocando meus ombros, enquanto eu a encarava num agradecimento mudo.
– Tem razão, Mercy, eu só tenho mais uma última pergunta pra você, depois vou te liberar, pode ser? – ele perguntou com um sorriso frágil no rosto.
– A cura, seu pai era o homem que trabalhava nela, o que... O que aconteceu com ela?
Procurei por todos os cantos da minha memoria.
Qualquer frasco, papel, rascunho, qualquer coisa que pudesse levar a receita da cura que meu pai tanto trabalhava.
Mas nada me vinha a mente.
Porque simplesmente nada existia.
– Provavelmente morreu com ele – concordei abaixando os ombros mas mantendo meu olhar fixo nos azuis de Phil, que demonstravam a tamanha decepção que minhas palavras lhe causaram.
– Obrigado – ele agradeceu, coçando a nuca.
– Aaron, leva ela pra conhecer o centro, ela precisa entender como as coisas funcionam aqui, cuida disso pra mim – Anna pediu suavemente, segurando meus ombros enquanto eu me levantava e caminhava até a porta, onde o moreno me esperava sério.
Ele não concordou e nem discordou, simplesmente abriu a porta e saiu.
E eu o segui.
O caminho era longo e silencioso, as diversas portas que se estendiam por toda a área estavam trancadas e nenhum som era emitido de dentro delas.
Finalmente chegamos a duas portas grandes das quais Aaron abriu.
O som emitido de dentro ecoou como um baque.
Diversas pessoas conversavam, em sua maioria eram homens, somente pude perceber umas quatro, cinco mulheres no máximo em meio a quase cinquenta homens presentes.
Até então eu jamais tinha estado num lugar com tantas pessoas assim. Eu estava cercada pela primeira vez em tantos anos.
Nunca pensei que realmente isso poderia acontecer.
Minha mente voava enquanto eu podia escutar todas as vozes que se diferenciavam naquele cômodo, a estranheza daquilo era absurda.
Só percebi que Aaron havia voltado a andar quando eu já o observava longe.
– Aaron – chamei, tentando alcança-lo. Avancei por entre as pessoas, tentando me aproximar. Eu me esgueirava sorrateira e silenciosamente por entre as pessoas, tentando ao máximo não ser notada.
Foi quando um ombro encostou no meu e eu me afastei instintivamente, sendo empurrada para o lado por outra pessoa, que tocou meu ombro de madeira repentina, me causando um medo na espinha, que me fez me lançar para o outro lado. Isso nunca aconteceu antes. Minha mente voava enquanto diversos braços e costas se chocavam contra mim, um contato que eu jamais antes tive. Eu me encolhia tentando não me aproximar. O que eu faço? Cambaleei pra trás. Eu não sei o que fazer.
– Cuidado – a voz de Aaron se fez ouvir logo atrás de mim, antes que suas mãos, firmes e grandes se postaram em meus braços, segurando-os enquanto me guiava pela sala. – Você é realmente descuidada, garota.
Eu não me importava com uma palavra do que ele dizia.
Suas mãos nos meus braços.
Eu não ouvia mais nada ao redor.
Suas mãos nos meus braços.
Eu não sabia nem ao menos como meus pés estavam se movimentando.
Suas mãos nos meus braços por tempo demais.
Tempo que ninguém jamais ultrapassou. Ninguém jamais me tocou por mais de alguns segundos, rápidos e singelos.
Ele me segurava com força, me puxando pra perto dele para que pudesse me conduzir.
– Pronto – ele murmurou parando, mas ainda sim permanecendo com as mãos em minha pele.
Tire as mãos de mim, por favor, tire as mãos de mim.
Eu tremia. Mas não me mexia.
E deve ter sido por esse exato motivo que o fez me soltar.
Me virei pra ele em seguida, lentamente, porem minhas próprias mãos fizeram o caminho exato ao local onde o formigamento e calor ainda se instalavam, acariciando o lugar tentando tirar aquela sensação.
Mas ela não parecia querer sair.
– Ta bem novata? – ele perguntou com uma sobrancelha levantada, me encarando fixamente.
Para de me olhar assim.
Concordei com a cabeça, me apertando ainda mais num abraço.
Ele murmurou algo que não pude ouvir.
– Esse é o centro. É aqui que todo mundo fica até a hora que quiser, ali depois daquelas portas ficam as salas de treinamentos, amanha começam os seus falando nisso.
– Treinamentos? – perguntei quase sem voz, um fio único forçado a se soltar.
– Você precisa aprender a se defender garota – ele respondeu, me encarando de cima a baixo – você não parece saber.
Não discordei. Eu realmente era fraca.
Era muito fraca.
Eu não queria precisar de ajuda, mas eu sabia que precisava.
– Você vai ter o resto do dia livre, daqui três horas vai ter comida naquela sala ali – disse apontando para duas portas no canto da sala, onde algumas pessoas se aglomeravam. – Se estiver com fome é só ir ali, mas na hora oficial mesmo eu vou ter que passar lá pra te levar, então...
Ele era indiferente. Falava como se nem ao menos eu estivesse ali.
Eu sabia que se eu não estivesse ali realmente ele provavelmente estaria bem mais feliz.
Pra maioria das pessoas eu sou sinônimo de azar.
Minha mente vagava pela sala, procurando por algo que me chamasse atenção.
– Vai querer fazer alguma coisa ou posso te levar pro seu quarto? – ele perguntou irritado.
Era como se ele estivesse esperando pra se livrar de mim. Esperando pra que pudesse fazer algo melhor, pra que recupera-se a liberdade que antes parecia ter.
Antes que eu chega-se ali. Antes que ele fosse encarregado de cuidar de mim.
Antes que ele fosse preso a você, assim como você foi presa a sua vida toda.
– Quarto. – respondi simplesmente, encarando saída dali.
Ele não respondeu, novamente só começou a andar, me levando até o corredor.
As paredes pareciam falar através dos emitidos pelo aço. Nossos passos ecoando por todo o lugar enquanto eu me mantinha abraçada por meus próprios braços ainda, num aperto quase desesperado.
Eu queria saber o que fazer.
Mas eu não sabia.
Finalmente pude ver a porta do meu quarto, me aproximei da mesma, pegando o cartão branco guardado em meus bolsos.
– Você foi realmente sincera hoje na sala do Phil? – a voz de Aaron soou pelo corredor vazio.
Não parei o que eu fazia para responder.
– Por quê mentiria?
– Me diga você – confrontou, encarando-a de modo firme.
– Não tenho nada a perder falando a verdade. – respondi passando o cartão pela caixa preta, vendo a porta destravar. – Não tenho mais nada, nem ninguém.
– Hoje no centro, você realmente pareceu assustada quando ficou cercada por todas aquelas pessoas – ele dizia e eu permanecia parada, os olhos na maçaneta, sem expressão. – você parecia desesperada, parecia completamente alarmada, era como se... – eu ouvia atentamente, não mexia se quer um musculo de meu corpo. – Como se você tivesse medo daquilo, como se jamais tivesse estado num lugar assim.
Eu nunca estive.
A mão na maçaneta tremia levemente, enquanto a mais pura verdade era dita em suas palavras.
Eu tinha medo. Tinha tanto medo.
Eu não estava acostumada, não estava nada acostumada. Eu queria fugir mas não podia.
Eu não sabia o que fazer, eu estava desesperada.
Mas eu jamais diria isso a ele.
– Você disse que passou mais de dois anos sem sair, mais de dois sem pisar do lado de fora – ele dizia com cautela, como se medisse suas próprias palavras. – Garota... Quanto tempo você ficou sozinha?
Quanto tempo você ficou sozinha?
A pergunta repercutia em minha mente. Vinha e voltada sem parar.
Abri a porta e pisei pra dentro, encarando o moreno uma última vez, lançando lhe um olhar firme.
Verde no castanho, castanho no verde.
E por um segundo, sorri.
Naquele sorriso, eu transparecia todo o meu cansaço, todo a minha angustia. Nele podiam ser refletidos todos os momentos desesperados dos quais eu me via sozinha, me via abandonada, me via presa e necessitada de ar.
E logo em seguida, fechei a porta, deixando Aaron para trás, sem dizer uma única palavra.
Fale com o autor