Submisso
74 Capítulo 74 – Todos Querem Severus
Notas iniciais
Capítulo 74 – Todos Querem Severus
No dia anterior, Molly acabou retornando apenas no fim da tarde, então, optou por mandar uma coruja ao professor, mudando o dia do encontro, para o dia seguinte. “Certo, ao amanhecer, Srta Granger”, foi a resposta sucinta que obteve. Bem, foi exatamente o que fez.
Hermione bateu os últimos vestígios de fuligem que denunciavam sua recente saída da lareira e se surpreendeu. A casa de Severus e Sirius estava anormalmente quieta. Talvez fosse o horário, afinal, havia amanhecido há pouco tempo. Ou então poderia estar presenciando o ápice do stress do renomado mestre de poções que, já desprovido de qualquer lucidez, tenha petrificado todo e qualquer ser vivo nas redondezas.
A castanha de cachos volumosos sacudiu a cabeça, recriminando-se mentalmente por sequer cogitar tal estupidez. Ela teria que fazer algo sobre a tendência “galopando para a tragédia” que, tinha certeza, viera de Ron.
O silêncio era mesmo estranho, mas decidiu ignorá-lo. Quando o (já não tão) temido professor pediu que chegasse ao raiar do dia, optou por ser literal. O aroma de café fresco logo captou sua atenção e não pôde dizer que se surpreendeu ao ter uma xícara vindo em sua direção.
—Fico realmente contente com a sua pontualidade, Srta. Granger. O café nos manterá mais atentos – e sorveu um gole da xícara que trazia em mãos.
—Obrigada, professor – e riu-se, pois as palavras “fico” e “contente” eram realmente raras na voz dele.
—Assumo que está recuperada e completamente bem, certo?
—Assume corretamente.
—Fico aliviado. Não desejo que qualquer preparo de poções prejudique a sua recuperação.
—Oh, não se preocupe, eu estou ótima. Um dos aurores foi bastante heroico, sabe? Ele fez bem mais do que o trabalho dele ao proteger a mim e a Madeleine... Ele empenhou a vida na tarefa.
—Heroísmo desprendido? Tem certeza de que não é um irmão gêmeo perdido de Harry Potter? – E como Hermione nada disse, prosseguiu. – E como ele está?
—Bem, eu pretendo ir visitá-lo hoje, em St. Mungus. Segundo as informações, ele deve ser liberado em mais alguns dias. Imagino as muitas maldições que recebeu, enquanto eu mesma, veja, acabei apenas com alguns arranhões.
—Não subestime a capacidade ofensiva de Comensais da Morte.
—Oh, não professor, eu não faria isso. A vaca da Bellatrix Lestrange incutiu sua periculosidade bem fundo em mim. De fato, na própria carne do meu braço.
Sem nem ao menos se dar conta, a castanha esfregou o braço no qual jazia uma tênue cicatriz.
—Creio que sofri mais dano ao romper as barreiras de Prince’s House. Suas defesas realmente são bastante eficazes, o que é ótimo. Eu me sinto bem, portanto, estou muito melhor do que pareço. Expliquei isso a Ronald, mas ele entrou no personagem “mamãe galinha”, sabe? Devem ser os genes da senhora Weasley se evidenciando.
Severus sorriu indulgentemente. Ele também acreditava que Molly Weasley era uma mamãe galinha.
—Molly Weasley se excedendo na faceta protetora? Creio que esteja exagerando, senhorita Granger – e riu, sendo acompanhado por Hermione.
—Ah, professor, o senhor percebe que eu estou muito feliz de poder ter um pouquinho de satisfatória distração com o preparo de poções, certo?
—Apenas uma verdadeira sabe-tudo obteria “satisfatória distração com o preparo de poções”, devo explicitar.
—Admito: sou uma sabe-tudo.
—E para o bem de todos nós, devo explicitar também. Sem a sua sagacidade, muito pouco conhecimento teria adentrado o crânio duro dos demais integrantes do “trio de ouro”.
O rosto de Hermione se iluminou com o reconhecimento. Ora, não era sempre que o sábio pocionista elogiava alguém.
—Presumo que trouxe o livro...
—Presume corretamente. Desculpe a indiscrição, professor, mas... Onde estão todos? Sei que ainda é bastante cedo, mas está tão silencioso...
—Sim, o que é fantástico. Deixe-me aproveitar um pouco desse silêncio... – e perdeu-se por poucos segundos oníricos.
—Está tudo bem, não é?
—Oh, sim, sim, é claro. Está tudo bem. Eles estão, felizmente para nós, dormindo ou em seus próprios afazeres. Meu esposo foi previamente avisado de que eu estaria aqui mesmo, dentro de casa e trabalhando, portanto, teremos alguma paz até o meio da manhã. Enquanto a minha residência se transformava num hotel, eu não perdi tempo. Reuni todos os ingredientes de que vamos precisar no momento. Ainda não viabilizei os mais raros, contudo, irei pessoalmente negociá-los. Tenho excelentes contatos e um pouco de ouro nas mãos certas faz maravilhas... Aprendi essa arte com o melhor.
—O senhor Malfoy, imagino.
—Sempre perspicaz.
—O preparo não ficará comprometido, certo? O senhor nos ensinou que alguns preparos não podem ser interrompidos, pois...
—Algumas poções não admitem serem deixadas em estase. Dez pontos para a Grifinória, senhorita Granger.
Para o espanto de Hermione não houve nem um pingo se sarcasmo.
—A estase, felizmente, pode ser utilizada na nossa empreitada. Não avançaremos muito hoje, mas espero que possamos progredir ao longo dos próximos dias. Com empenho, teremos tudo pronto brevemente. Acompanhe-me, por favor. Vamos ao meu laboratório.
As xícaras foram enviadas para a cozinha e pouco depois já estavam no laboratório de poções. Hermione respirou fundo, enquanto abria o livro na página já previamente marcada.
—Já era hora de atiçarmos o besouro adormecido, professor.
—Mais dez pontos para a Grifinória.
Ambos se perderam em conversas e medições, por algumas horas. Já os demais habitantes de Prince’s House acordaram. De fato, Sirius foi um dos primeiros a ficar de pé. Sob o olhar atento de Esther, deixou o quarto e se juntou aos demais para um demorado café da manhã. Lucius não estava presente, pois optou por acompanhar o “noivo grávido na doce alcova” – palavras dele.
O doncel se divertiu e realmente compartilhou de um ótimo momento com todos. Frederick os deixou de forma apressada, pois estava atrasado para a faculdade. Pouco depois, Zabini saía novamente da lareira para concluir as alterações finais em Prince’s House.
Pelo que tinha em mente – e em pacotes e mais pacotes aguardando por ele, cortesia de Pansy – em poucas horas terminaria o serviço. A magia era mesmo algo incrível, quando se conhecia os feitiços corretos e se tinha a habilidade exigida para empreendê-los.
O belo jovem esclareceu que tudo transcorria com normalidade em Bristol. Bom, ao menos a normalidade que poderiam ter dadas as circunstancias. Eram duas esposas e sua mãe, afinal, além de um mago grávido e traumatizado. Sofia estava bastante inquieta quando saiu da nobre casa dos Nott. E, decididamente, a combinação “Sofia” e “inquieta” na mesma sentença nunca significava paz de espírito.
Theodore estava sendo muito mimado por todos, inclusive por ele mesmo, acrescentou. Contudo, não acreditava que Sofia iria permanecer em Bristol pelo tempo estipulado pelo professor Snape. Theo acordou muito melhor, mais centrado e dono de si, o que só fez Sofia, Gabrielle e Gina desejarem arrancá-lo o mais rápido possível daquela casa.
Suas preocupações tinham real fundamento e até mesmo Esther demonstrou interesse nas suas divagações. A perspicaz senhora, enquanto levava refresco e bolinhos para Zabini, perguntava sobre o trio, sobre a família dele e sobre os planos que tinha para a própria vida.
O mago percebeu o porquê de Esther ter sido proclamada “mãe” por Lucius Malfoy. A senhora era astuta, inteligente e de extrema habilidade com as palavras. Quando menos se esperava, Esther tinha todos enrolados em seu dedo mindinho.
Já Sirius aproveitou o tempo para conversar com Remus. Com cuidado, subiu a escada e adentrou o quarto, sendo recebido por um olhar cinzento bastante desagradável. Decidido a ignorar aquela ameaça descarada, o doncel sentou-se próximo ao amigo e se distraiu. Até Teddy percebeu a irritação do loiro.
Conversaram sobre trivialidades. Remus era mesmo forte, pois já transparecia uma visível melhora. Uma noite apenas foi suficiente para a cicatrização dos cortes na face, embora ainda não se pudesse dizer que ele estava completamente recuperado.
Já passava das dez horas quando Sirius foi expulso pelo veela ciumento. Segundo Lucius, o lupino deveria descansar tranquilamente até a Dra. Morse chegar e Sirius não contribuía para o descanso de ninguém, com a sua “tagarelice desmedida”.
Mesmo sob as reclamações de Remus, o patriarca Malfoy o isolou de todos, exceto Teddy. O garotinho estava bastante entusiasmado com a perspectiva de ver o seu irmãozinho num possível ultrassom e nem reclamou quando Lucius bateu a porta do quarto na cara do tio Sirius.
—Você nunca conseguirá ser nada além de um cretino emproado, Malfoy! – Rosnou Sirius, sendo completamente ignorado pelo loiro.
Era evidente que Remus precisava descansar, mas daí a assumir que o lupino não poderia nem ao menos sustentar uma conversa, bem... Era mesmo um exagero! Ok, ok... Exagero e Malfoy sempre andaram de mãos dadas, não é? Ainda se lembrava de Narcisa enaltecendo o “excesso de mimos” do então marido.
No fundo mesmo, ele gostaria que Severus fosse um pouco mais parecido com Lucius Malfoy nesse quesito. É claro que não poderia reclamar das atenções do pocionista, mas percebeu que apreciaria um pouco mais de romantismo.
Severus era objetivo e cirúrgico. Em vários momentos, o marido até o assustava com a intensidade dos sentimentos que lhe professava. Entretanto, eram todas demonstrações muito pontuais, quase raras. Estava casado com um homem sisudo, talvez até demais. Logo ele, o Black descontrolado, casado Severus Snape, a encarnação do autocontrole.
Tal compreensão era bastante realista e o fez ir além: será que ele estava, inconscientemente, atiçando o marido? Será que sua doncelaria recém-descoberta o incitava, mesmo que não percebesse, a fazer o marido ultrapassar os limites? Poderia ser isso mesmo... Bem, ele com certeza bagunçou a vida de Severus Snape.
Tentar fugir de casa, cair da escada, ser acometido por ondas terríveis de febre, ficar preso na forma animagus, irromper em St. Mungus, ser atingido por um feitiço potencialmente letal... É, não havia dúvida alguma: seu comportamento nos últimos meses deu a Severus muitos fios brancos.
Por que fizera tudo isso? Para ter uma reação visceral de Severus? Oh, por Circe, Sirius Black! Era isso! Era isso mesmo, não é? Ele estava fazendo de propósito, ainda que não de todo consciente do caminho traçado por suas ações.
Por Circe, cair assim tão baixo... E por estar SIM morrendo de amores pelo narigudo? O que o seu eu adolescente diria de si mesmo agora? Riu-se muito ao perceber que estava mesmo perdido, pois, para o pior ou para o melhor de tudo: ele não estava nem um pouquinho envergonhado de nenhuma, nenhuma mesmo, das ações relembradas. Ao contrário, queria mais e mais.
Desejava fervorosamente as reações do marido. Ansiava ser o alvo de toda aquela intensidade, de toda aquela paixão. Bem, isso sim era vergonhoso...
—Pretende ficar parado aí o dia inteiro, cachorro?
A voz profunda de Severus atraiu os seus sentidos. Ofegou sem querer, sentindo-se quente e desejoso só ao encará-lo. Morgana bendita, alguém deveria interná-lo imediatamente. Não era sinal de sanidade ficar endurecido só de sentir o ar perfumado que rodeada a sua perdição.
—Sirius, você está bem? – Questionou Severus, agora colado a ele, a mão direita, grande e cálida, pressionando-lhe de leve a têmpora e subindo até a testa. – Sem febre... Você se alimentou hoje?
O doncel inebriou-se daquele perfume tão sedutor.
—Você ingeriu algum alimento? Eu pedi a você que o fizesse... Sirius, responda!
—Oh, sim, é claro. Eu comi até demais... Esther se ocupou disso, na verdade. E o trabalho com Hermione?
—Não quero falar sobre tal assunto aqui. Vamos para o nosso quarto.
Sirius apenas se deixou conduzir. A aura envolvente de Severus já o tinha completamente aprisionado. Se o marido dissesse que deveriam conversar no Cabeça de Javali ele, sem pestanejar, rumaria feliz para Hogsmead.
—Acomode-se melhor na cama, Sirius – pediu o marido, enquanto o ajudava a se recostar nos travesseiros.
Enquanto contava superficialmente como passou a manhã com Hermione Granger, Severus lhe retirou os sapatos e parte das vestes, tudo para que obtivesse maior conforto. Então, sentou-se na cama também, massageando-lhe os pés. Oh, era o paraíso!
—Você precisa de repouso. O fato de eu ter permitido que saísse do quarto, não significa que você está livre de cuidados. Por hoje, chega de perambular pela casa. Os elfos trarão sua refeição em breve e você descansará de forma adequada pelo resto do dia, fui claro?
O doncel apenas assentiu.
—Estou começando a suspeitar dessa sua falta de resistência, cachorro. O que você está tramando?
Sirius apenas sorriu caninamente. Estava tomado de prazer por todo o cuidado que lhe era direcionado.
—Não sei o que traz em mente, Sirius, mas não se perca em pensamentos. Eu estou aqui, com você. Pode me contar qualquer coisa... Lucius o expulsou do quarto, por acaso? Por isso estava de pé no corredor? – E o rosto de surpresa do doncel fez o pocionista prosseguir. – Em alguns momentos, raros momentos, você é bastante previsível, meu amado esposo. Escute-me, sim? Sei que deseja se certificar de que Remus está bem, mas eu, por cautela, evitaria muito contato com Lucius Malfoy por alguns dias. Lucius ainda está lidando com o incremento do seu lado veela e teve que enfrentar o ataque ao parceiro. É muito para ele lidar, Sirius.
A massagem nos pés terminou, mas não os cuidados. Severus convocou uma colcha leve e o cobriu com ela. O calor logo começou a se espalhar, ao mesmo tempo em que o marido se aproximou mais, sentando-se ao seu lado.
—Draco tem uma herança veela poderosa e sempre foi ensinado a controlar a magia selvagem. Evidentemente, Lucius Malfoy conhece tais ensinamentos, contudo, sua própria magia veela nunca foi algo com o que precisasse se preocupar. Creio que a criatura de Remus, com o chamado urgente do lobo, fez o veela em Lucius acordar e ganhar mais força. Não que Lucius seja tão poderoso quanto Draco, nem de longe, mas ainda assim é bastante poder para ele suportar e aqprender a lidar de maneira tão abrupta...
Poções foram convocadas e logo o doncel percebeu que se tratavam de seus medicamentos diários. Obedientemente, sorveu tudo o que o marido lhe deu.
—Voltar do mundo dos mortos, ser adotado por uma família trouxa e a ter adotado em equidade sentimental, recuperar as memórias perdidas, voltar para Draco e para o Mundo Bruxo, descobrir um parceiro em Remus, perceber que ama Teddy como um filho, ter outro filho a caminho, o ataque, a magia veela... Enfim, Lucius Malfoy está lidando com mais coisas do que é capaz de suportar. Ele nunca o expulsaria da vida de Remus, pode ficar tranquilo quanto a isso, contudo, seria sábio da sua parte dar-lhe mais espaço, deixar que ele se sinta mais seguro da atual condição na qual se encontra.
Então, subitamente, parou de falar, dedicando-se a encará-lo. Ah, ele adorava apreciar toda a sensualidade do professor... Severus não era um homem bonito para os padrões convencionais, mas desde quando Sirius Black foi um bruxo do tipo que se encaixa em padrões convencionais? Por Circe, a própria palavra “convencional” dava-lhe náusea.
Severus Snape era mais que desejável. O olhar era tão penetrante, que não conseguia se manter imune por muito tempo. Os lábios afiados o deixavam sempre sufocando de prazer... Ah, e aquelas mãos? As mãos de Severus deveriam ser presas por atentado à moral e aos bons costumes.
De fato, cada pedacinho do pocionista lhe instigava a querer mais e mais, nunca era suficiente. Entendia agora que Severus nunca seria como Lucius, exagerado em demonstrações de afeto... Não, esse nunca seria o seu Severus.
Cada pedacinho daquele bruxo poderoso estava ali para cuidá-lo, para amá-lo com ações e atitudes. A magia o presenteou com um amor profundo e verdadeiro, um amor adulto de verdade, mesmo que ele, Sirius Black, fosse mais adepto de tolices infantilóides.
Severus demonstrava descaradamente o quanto o amava ao se irritar com sua impulsividade, ao ser intenso e até apavorar o mundo inteiro quando colocava sua vida em risco. Sim, esse era o seu Severus. Só dele.
—Você está muito silencioso, cachorro.
Sirius sorriu mais uma vez e recebeu um carinho na bochecha.
—Cansou de ladrar, é?
—Na verdade, cão que ladra não morde – e como pôde avançou sobre o marido, beijando-o na boca com força e puro desejo. – E Sev, você sabe: eu amo te morder.
Severus não esperava pelo beijo, tampouco pelos dentes pressionando seus lábios com força controlada, arranhando de leve. Aproveitou a forma deliciosa como a língua de Sirius invadia sua boca, explorando a cavidade úmida e quente.
Agarrou-o com habilidade, sem apertar demasiado. O cachorro realmente não conseguia entender que estava machucado e precisava repousar. Já havia desistido há muito tempo de fazer o esposo compreender que a saúde era prioridade, então, assumiu para si aquela dura tarefa: proteger Sirius Black do próprio Sirius Black.
A colcha ficou toda embolada, mas pouco importava. Já encaixado sobre as pernas fortes que tanto amava, o doncel demonstrava estar bastante afobado. Enfiou a mão nas vestes do marido, pegou a varinha e lançou sobre ambos um feitiço simples, além de ter lacrado o quarto.
—Por Merlin, sem magia sobre você! – Reclamou Severus, contudo, já era muito tarde.
O resultado da traquinagem de Sirius foi ter dois bruxos completamente nus sobre a cama, pele contra pele. Não era possível mesmo lidar com aquele doncel, ao menos não de maneira racional.
—Sirius, fui bem claro sobre a magia...
—Ah, Sev... Foi só um feitiçozinho de nada. E também impedi que nos incomodassem. Relaxe, eu estou bem – e o puxou para mais um beijo exigente.
Não havia possibilidade alguma de resistir ao doncel. Por mais que tentasse, aquela era uma batalha perdida.
—Sev, eu quero você.
—Eu deveria te deixar preso numa coleira, cachorro. Ou então, castrá-lo, para diminuir o seu fogo. Você está grávido, por Merlin!
O animago soltou-se do marido e deitou sobre a cama, acomodando-se novamente sobre os travesseiros, quase ingenuamente, como se desconhecesse o fato de deixar qualquer ser vivo atrelado a sua sedução indefensável.
Ah, ele tinha plena consciência de que era uma visão arrebatadora. A pele macia e leitosa, sem qualquer mácula (exceto as mais recentes, obviamente, frutos da sua própria torpeza), os cabelos longos e de cachos longos, que caíam sobre os ombros dando um contraste único com a própria carne, as pernas firmes, torneadas e também flexíveis, encaixando-se com facilidade onde desejasse... Ah, ele sabia muito bem o efeito que causava no marido.
Acariciou-se com delicadeza, a mão passeando pelos mamilos rosados e convidativos, avançando sobre o ventre apontado e indo ao pênis já túrgido pelo simples fato de sentir-se ser tão desejado.
—Espera conseguir o que de mim, cachorro?
Severus estava mesmo hipnotizado. Ah, ele conhecia bem os desejos do esposo. Sirius queria ser fodido, bem fodido, e o atiçava. Por Merlin, agora ele estava se virando de lado, abrindo uma das deliciosas bochechas para revelar a entrada rosácea pulsante que tanto amava lhe aprisionar.
—Tudo, Sev. Você inteiro. Quero sentir você inteiro dentro de mim. Bem fundo, bem aqui – completou Sirius, enquanto se autopenetrava com dois dedos.
—Você me quer aí dentro, cachorro? Bem fundo no seu buraco?
—Sim... Bem fundo e bem forte.
—Você anda realmente insaciável.
Severus se inclinou com rapidez, retirou os dedos de Sirius daquela entradinha apertada e a beijou com fome. Os gritos caninos encheram o quarto, intensificando o volume, quando a língua afiada do professor de poções penetrou com vigor o espaço antes preenchido com os dedos.
Sirius gemia incoerências. Amava ser alvo da lascívia do marido, contudo, queria mais, muito mais do que apenas a língua molhada que se encaixava tão bem dentro dele.
—Sev, Sev... Mais!
Tocar o doncel era como profanar algum tipo de recanto sagrado, não que ele se importasse com as consequências.
—Você tem um sabor viciante, Sirius – disse numa voz declaradamente afetada pela excitação.
Estava no limite. Caso continuasse degustando o esposo, se melaria inteiro. Posicionou-se da melhor forma possível, ergueu uma das pernas do doncel e o penetrou por trás, com proposital lentidão. Queria que durasse o máximo possível.
Sirius gemia enquanto se sentia ser invadido pelo pênis de Severus. Oh, estava quente, muito quente. Incendiava ter o marido dentro de si, com todo vigor e dureza se projetando fortemente contra si.
—Oh, Sev...
—Vou apagar o seu fogo, cachorro.
Sirius arfou... Severus era grande e o preenchia de tal forma... Ah, nunca poderia imaginar que amaria esse sentimento: o de ser empalado e sentir um homem (o seu homem) inteiro dentro de si.
Ambos estavam de lado na cama, as costas de Sirius colando-se ao peito de Severus. A temperatura se elevou e gotículas de suor emergiam dos poros de ambos, facilitando o deslizar das peles, esquentando-os ainda mais.
Severus se manteve firme no propósito de prolongar ao máximo a culminação daquela deliciosa tortura. Beijou, lambeu e mordeu Sirius, deixando marcas nas costas, nos ombros e no pescoço do doncel.
A cada toque, a cada penetração, Sirius empurrava o corpo de volta contra ele, aprofundando o enlace, tornando aquele ato mais e mais íntimo. Perderam-se nos minutos nos quais se dedicaram em sentir um ao outro. Erguendo o máximo que pôde a perda do esposo, Severus acelerou o ritmo, levando-os a gemidos mais e mais intensos. Estavam perto, muito perto.
—Não posso mais... Não posso...
—Não se segure – e o penetrou com mais força.
O corpo do doncel aceitou o novo ritmo, adequando-se com facilidade às investidas mais duras.
—Goze para mim!
Sirius Black foi consumido pelo prazer. Não precisou se tocar para se esvaziar inteiro, ao mesmo tempo em que Severus o inundava. O orgasmo foi avassalador. Estremeceu-o, cegou-o, ensurdeceu-o... Nada se comparava ao que sentia ao estar com aquele homem, nada mesmo.
Foi envolvido por uma névoa de felicidade extrema e estava tão inebriado por ela, que ignorou os toques gentis de Severus acomodando-o na cama e limpando-o com carinho para, em seguida, beijar-lhe a testa e cobri-lo.
O timing entre cobrir Sirius e ouvir altas batidas na porta não teria sido tão perfeito se houvesse um ensaio. Já vestido e resmungando contra quem quer que fosse que, por Merlin, não poderia deixá-los em paz por algumas horas, Severus se dirigiu à porta.
—Finalmente, Severus – ralhou Lucius que, trazendo uma bandeja nas mãos, simplesmente entrou, como se a sua interrupção fosse uma dádiva dos deuses e que o amigo deveria estar agradecido por isso. – Eu precisava da sua presença e estava te procurando quando encontrei um dos seus elfos aqui na porta. Precisei impedi-lo de afundar o crânio na parede. A criatura não conseguia enviar a refeição do seu doncel e não podia bater na porta, tampouco entrar no quarto – e deixou a bandeja sobre a primeira superfície que encontrou.
Os olhos afiados do patriarca Malfoy foram da cama meio desfeita, ao doncel dormindo profundamente, ao rosto do amigo, que, vejam só, tinha os cabelos bagunçados e as bochechas afogueadas.
—Ora, ora... Se pretendia mergulhar na libertinagem com o Black, poderia ao menos ter permitido algum acesso aos elfos.
—Sirius lacrou o quarto e impediu o acesso aos elfos – revelou Severus, aproveitando para anular o feitiço do esposo. – Obrigado por ter impedido que o elfo se ferisse – e acenou com a varinha uma segunda vez, enviando a bandeja para a mesinha de cabeceira, preservando os alimentos com magia. Sirius se alimentaria quando acordasse.
—Hum, pelo o que vejo, seu doncel já está bastante...
Os olhos predadores de Lucius Malfoy analisaram com interesse a voluptuosa figura de Sirius Black. É, ele poderia considerar que a personalidade era intragável, mas o doncel era uma perdição.
—Saciado...
—Não diga mais nenhuma palavra, Lucius.
—Estou elogiando o seu desempenho, meu caro. Sem mencionar que ontem Edward estava espionando vocês! Não sou contra o sexo, apenas, por Merlin, tenha cuidado em manter as portas bem fechadas. E, obviamente, não posso deixar de ressaltar que é um comportamento um tanto quanto pervertido, professor. Ainda é hora do almoço! – E rindo, o encarou. – Oh, Severus Snape, não me diga que você ficou envergonhado? Por Merlin, eu não consigo acreditar! Faz décadas que não vejo você ficar ruborizado por algumas palavras minhas.
—Vamos sair... Sirius precisa descansar. Fora do quarto, agora – exigiu em voz baixa, pois não queria acordar o esposo.
Lucius estava rindo quando foi empurrado sem gentileza para o corredor. Foi difícil aguentar as gargalhadas, mas se esforçou. Severus não gostava nem um pouco de ser o alvo de brincadeiras. De fato, suspeitou durante anos que o amigo sonserino era desprovido de senso de humor.
_Quando você parar de se divertir as minhas custas, pode enfim contar o motivo de ter vindo me procurar.
—Oh, sim, sim... – E ainda sorrindo, respirou fundo, reencontrando alguma serenidade. – A Dra. Morse está com Remus e eu gostaria que estivesse presente durante o exame, para nos precavermos de qualquer excesso da parte dela. Temos um acordo selado magicamente, sei disso, mas creio que seja adequado não nos descuidarmos.
—Certamente – concordou o professor e já se dispunha a ir ao quarto de Lucius, quando o mesmo o segurou pelo braço, impedindo os seus passos.
—A Dra. Morse veio acompanhada pela assistente. Por favor, essa assistente... Caso meu veela se descontrole, impeça-me de enfeitiçá-la, ou mutilá-la, o que eu tentar primeiro.
—Como assim, Lucius? Por que uma assistente de medibruxo deixaria o seu veela tão instável?
—É uma bruxa com herança de criatura... Meio ninfa, meio elfa. Meu veela não está muito feliz de tê-la borboleteando ao redor de Remus.
Severus revirou os olhos, enquanto floreava a própria varinha. Instantes depois, um frasquinho foi entregue ao amigo.
—Beba. É uma poção calmante. Uma bastante forte. Controle o seu veela, por Merlin! Remus não ficará nada satisfeito se você atacar alguém devido ao seu ciúme irracional.
O esnobe Malfoy assentiu de leve e bebeu todo o conteúdo do frasquinho. Não sabia em qual tempo Severus produzia tantas poções, mas não estava aqui para reclamar. Talvez o amigo tivesse um vira-tempo herdado dos Prince.
—E então?
—Está fazendo efeito. Sinto-me mais eu mesmo, Severus, muito obrigado.
—Ótimo. Vamos entrar então. Ainda preciso verificar os últimos detalhes para a chegada do trio e Sofia. Por Merlin, vocês conseguirão me enlouquecer.
Lucius conteve o amigo antes de adentrarem o quarto.
—O que foi agora, Lucius?
—Depois que a Dra. Morse partir, desejo conversar com você e com Remus sobre o meu retorno ao Mundo Bruxo e sobre o ano letivo em Hogwarts.
—Conhece bem minha opinião sobre o seu “retorno”, Lucius. Já sobre Hogwarts, o que tem o ano letivo?
—Depois, meu amigo, depois. Vamos entrar e despachar essa ninfa cretina de uma vez.
Severus ignorou o comentário rude e bateu levemente na porta, entrando pouco depois no quarto que agora estava bastante movimentado.
—Bom dia, tio Sev!
—Bom dia, Teddy.
—Edward, Severus, o nome dele é Edward – ralhou o loiro. Aparentemente, Lucius nunca desistiria de que Teddy fosse chamado pelo nome de batismo. – E, Edward, já é boa tarde.
—Oh, sim... Então, boa tarde, tio Sev.
—Boa tarde, Teddy – e antes de ouvir uma nova reclamação do esnobe Malfoy, voltou-se para os demais ocupantes do quarto. – Boa tarde a todos. Desculpem não ter vindo assim que chegaram. Meu esposo exigiu alguns cuidados.
—Boa tarde, senhor Snape – cumprimentou-o Morse. – Essa é a senhorita Dione Blackwater, minha assistente.
—É um prazer conhecê-la, senhorita.
A mulher era uma visão. Compreendeu de imediato o porquê de Lucius estar instável. Ela era alta e esbelta, mas tinha curvas sinuosas. Os olhos eram tão azuis que pareciam hipnotizar quem os mirava, além de fazer um delicioso contraste com os cabelos negros quase azulados de tão escuros. Os lábios eram suaves, assim como o nariz e a marcação das bochechas. Dione emanava sedução por todos os poros. Até o pequeno Teddy parecia orbitar ao redor dela.
—O prazer é todo meu, senhor Snape. Mal pude acreditar que teria o prazer de conhecê-lo pessoalmente. Sou uma grande admiradora do seu trabalho. Seus estudos na área avançada de poções experimentais são incríveis. E a completa reconfiguração na Wolfsbane realizada pelo seu trabalho, então? Oh, eu poderia ficar aqui por horas indicando seus avanços. O senhor não tem apenas um dom, o senhor é o maior pocionista dos últimos mil anos.
Remus sorriu, enquanto se ajeitava levemente na cama. Nos poucos minutos nos quais pôde conversar com a bruxa, soube que ela não apenas se preparava para ser pocionista, como era uma fã do trabalho de Severus.
—Não é para tanto. É apenas o meu trabalho, nada mais.
—Nada mais? A humildade só agrega mais e mais brilhantismo a sua genialidade, senhor!
Severus assentiu e quase – quase – corou. Lucius sorriu satisfeito. Depois da cena que presenciou, ficou completamente tranquilo com relação à Dione. Aproveitou a paz que sentia para soprar algumas palavras no ouvido do amigo, antes de se sentar numa cadeira colada à cama de Remus.
—Bem, podemos começar, senhor Lupin?
—Claro, claro que podemos. E, por favor, chame-me de Remus. Teddy meu amor, por favor, venha cá.
O garotinho se aproximou do pai obedientemente.
—Você verá o seu irmãozinho e depois, como combinamos, vai brincar lá na sala.
—Aham... Pode deixar, papai. Eu vou ser bonzinho e um super irmão mais velho – e sorriu feliz.
Lucius era incapaz de resistir à tamanha fofura, acariciou os cabelos, ainda da tonalidade “loiro Malfoy”, que Teddy ostentava orgulhoso, e o sentou em seu colo.
—Se quiser, meu amor, depois que formos agraciados com a visão de nosso bebê, posso ficar lá embaixo com Teddy enquanto a Dra. Morse termina o exame. Sei que Severus tem interesse científico no caso, então, fico tranquilo em deixar você em mãos capazes.
—Oh, seria maravilhoso, Lucius – disse Remus. – Realmente não vejo necessidade de todos ficarem aqui enquanto sou examinado e Teddy estaria contigo, o que me tranquiliza. Não gosto de sobrecarregar a dona Esther. Ela já faz demais por mim.
—Eu não sou um bebezinho, papai. Não preciso de babá.
—Babá? Claro que você não precisa! Desejo apenas me divertir com você. Não quer ficar comigo, Edward?
—Claro que quero! – E sorriu ao receber um beijo na bochecha do loiro mais velho.
Severus não estava conseguindo compreender tamanha bizarrice. As palavras sopradas em seu ouvido ainda ressoavam, incompreensíveis: “Ah, fico muito mais calmo agora. Quem não vai gostar é o seu doncel” .
Remus teve o abdômen descoberto e, após um breve exame físico na região, a Dra. Morse lançou um feitiço. Os gritinhos extasiados de Teddy encheram o quarto, enquanto todos mantinham os olhos bem atentos na imagem projetada do futuro e mais novo herdeiro Lupin-Malfoy.
Dione anotava cada informação pertinente num pergaminho, aproveitando o momento de distração dos demais para lançar olhares cobiçosos em direção a Severus. A sensação de ser observado não era desconhecida para o pocionista. E então, a sua já elogiada genialidade o brindou com a bendita compreensão: Lucius Malfoy, um veela cruelmente ciumento, não nutria mais qualquer sentimento negativo pela bruxa mestiça, pois, vejam só, a mesma estava descaradamente interessada no próprio Severus Snape!
“Ah, fico muito mais calmo agora. Quem não vai gostar é o seu doncel”. As palavras do amigo bateram nele com mais força ainda. Dione lhe direcionava olhares com um evidente interesse. Pelo bem da sua sanidade mental – e física, no caso de Sirius se irritar-, rogava para que fossem interesses meramente científicos.
Pouco depois, Teddy e Lucius deixaram o quarto e o exame prosseguiu, mais minucioso e, infelizmente para Remus, mais invasivo. Não lhe gerava dor nem nada do tipo, mas não se sentia muito confortável.
Folhas e folhas de pergaminho foram preenchidas com todos os dados que Morse julgou necessário coletar. Ela era uma pesquisadora voraz, disso não restou qualquer dúvida. O exame completo só terminou mais de duas horas depois, com metros e metros de pergaminho registrando cada detalhezinho sobre a evolução da gestação. Remus cochilava tranquilamente agora, já livre de todo as bandagens.
Como todo anfitrião decente, Severus conduziu as duas para a sala de estar, pedindo que se acomodassem no sofá. Lá lhes serviu chá e biscoitos. Lucius pediu a Esther que ficasse de olho em Edward e só então se juntou ao grupo, para assim ouvir as orientações médicas acerca do bebê e do noivo.
—Os ferimentos estão praticamente cicatrizados, mas os cuidados devem prosseguir até o fim da semana. Amanhã o professor Snape avaliará todas as escoriações e, estando a cicatrização completa, o senhor Lupin poderá ser liberado do repouso absoluto. Caso não, ele deverá permanecer na cama até a recuperação completa dos ferimentos, afinal, não vamos nos arriscar a que os mesmos se abram novamente. Todas as poções que prescrevi prosseguem por mais uma semana. Já as específicas de nutrientes, manteremos para o próximo mês inteiro. Não há carência de vitaminas nem nada do tipo, contudo, o organismo do senhor Lupin está com todos os indicativos no limiar do adequado e qualquer descuido pode nos levar a condições que desejo evitar. Portanto, quero elevar a resistência física dele para nos protegermos de potencias problemas.
—E por que os indicativos estão no limite? Remus está fraco? Está doente?
—Não Lucius, não é isso... A Dra. Morse apenas está retratando a condição clínica de um usuário de Wolfsbane – acalmou-o Severus. – É extremamente comum a qualquer usuário de Wolfsbane ter a saúde mais frágil com a progressão do uso. Não é nada que leve ninguém a óbito, meu amigo, contudo, a Wolfsbane é poderosa para “encarcerar” o lobo e seus efeitos cobram fatura sobre quem a utiliza. Remus é forte e saudável, tanto quanto possível. Sabemos que qualquer mago transformado em lobo tem mais força, mais resistência e mais poder, contudo, não podemos nos esquecer de que Remus utiliza a poção há muitos anos. Apesar dos benefícios da poção para os lupinos, é evidente que o organismo deles sofre os impactos da Wolfsbane.
—Eu não poderia ter colocado em melhores palavras. Senhor Malfoy, o senhor Lupin está saudável e bem e a genética ômega é realmente rara e maravilhosa... O bebê está em condições excelentes e com níveis equilibrados de magia. Nosso trabalho será o de maximizar a resistência dele, que já é elevada devido à condição lupina, mas poderia ser muito melhor, caso não utilizasse Wolfsbane.
—Não utilizar a poção é possível?
—Talvez. Entretanto, levando em consideração o atual momento... Não, não recomendo. O estilo de vida escolhido por Remus ao longo dos anos o trouxe até aqui. Ele está grávido, Lucius, logo, não é o momento de pensar em mudanças drásticas... Além do mais, esse não é o ponto agora. Dra, por favor, prossiga – pediu o pocionista, já antevendo que teria que esclarecer Lucius Malfoy sobre todas as questões relativas ao uso de Wolfsbane.
—Não fique preocupado, senhor Malfoy. A saúde dele está em condições mais que aceitáveis. Retorno em breve para monitoramento, mas caso haja qualquer alteração mágica, eu devo ser imediatamente comunicada. Estamos lidando com duas heranças muito distintas de criatura, portanto, todo o cuidado é necessário. No mais, basta prosseguir com os cuidados que mantiveram até agora. Está tudo bem e vamos garantir para que tudo permaneça bem. Obrigada pelo chá e desculpe pela demora – agradeceu Morse, já de pé.
—Não há nada a ser desculpado. Até breve – devolveu Lucius, também de pé.
Dione e Severus os acompanharam. Mais cumprimentos foram trocados antes que as duas deixassem Prince’s House. O silêncio durou pouco, pois logo a lareira se acendeu mais uma vez, o rosto em chamas de Sophie captando a atenção de ambos.
—Malfoy! Como?
—Oh, Zabini...
Severus optou por não dizer nada. A luz esverdeada queimou mais forte ainda, com a intensidade do olhar da bruxa.
—Vejo que temos mais um não morto – reconheceu a bela mulher, após minutos de silêncio. – Apesar de ter quase arrancado minha alma do corpo devido ao susto, é muito bom revê-lo, Lucius.
—Também é um prazer revê-la, Sophie.
—Eu pretendia contar a você pessoalmente, Sophie.
—Bem, você ainda vai, Severus, juntamente com Lucius. Agora eu preciso saber se o meu filho ainda se encontra na sua residência.
—Vou verificar, Sophie.
Sofia e Lucius nada disseram até o professor retornar.
—Sim, ele ainda está aqui. Blaise está almoçando no momento e me informou que o trabalho foi terminado, portanto, o espaço para recebê-los de forma confortável já se encontra em perfeitas condições.
—Ótimo então. Eu me antecipei, Severus. Estamos empacotando desde ontem. Já temos tudo organizado. Molly deve enviar algumas malas hoje ainda, com mais roupas e outros itens do trio que ficaram na casa deles, a nova casa que não vão poder utilizar até resolvermos toda essa situação. Eu o aguardo hoje para a remoção de Theodore, ou posso trazê-lo agora mesmo, sem maiores problemas?
—Você quer vir para cá hoje? Tinha planejado amanhã, Sophie.
A mulher sorriu um sorriso gelado cheio de chamas.
—Hoje, com certeza absoluta. Essa casa não é mais segura. Devemos sair e Theo acordou bem, dentro do possível. Pode ser apenas extrema preocupação minha, mas o fato é que o monstro do pai dele tem acesso livre a esta casa e... Theo não está seguro. Tive um pressentimento que gelou meus ossos, Severus. O monstro quer o meu menino e isso eu não vou permite. Perder Celina foi suficiente dor para uma vida inteira.
—Compreendo a urgência, mas... Eu não vejo motivo para arriscar a saúde dele agora. Caso Nott realmente o quisesse tão desesperadamente, o teria levado quando teve a chance perfeita, não?
—E como eu poderia responder a isso, Malfoy? Nunca compreendi a cabeça daquele psicopata – rebateu Sophie com rispidez, uma clara antipatia ao comentário do loiro estalando no ar. – Você o conhece melhor do que eu, logo, sabe bem do que aquele monstro é capaz.
O loiro nada mais disse. Ele tampouco era capaz de compreender a mente doentia do antigo “parceiro” comensal da morte.
—Talvez ele quisesse apenas deixá-lo apavorado, talvez ele desejasse deixar a todos nós apavorados, nos mostrando que ele tem acesso a Theo, independentemente de nossos esforços para protegê-lo... Sei apenas o que pressenti: ele quer Theo com tanta vontade, que tenho horror só de tentar vislumbrar para quais fins. Aquele cretino só deixará o meu menino em paz quando o matarmos.
—Tenho minhas suspeitas sobre as ações de Nott.
—Diga-nos, Severus – pediu a mulher, os olhos fixos no professor.
—Theodore está gestando a progênie de um veela...
Lucius engasgou com o próprio ar, a mente ágil lhe brindando com terríveis possibilidades.
—Então ele quer o...
—Sophie, minha cara amiga de longa data – e a voz de Snape ficou ainda mais profunda, quase num tom fúnebre. – Conversaremos melhor pessoalmente. Farei como deseja... Eu irei a Bristol, hoje ainda. Direi ao seu filho que permaneça aqui.
—Ótimo. Eu contarei aos três sobre o retorno de Lucius ao mundo dos vivos. E, obrigada Severus...
O belo rosto desapareceu, dando tempo a Severus de respirar profundamente. Sofia e seus pressentimentos... A maioria deles nunca lhe trazia sossego, ou boas novas. A mulher era uma força da natureza e parecia sentir quando o Cosmos, ou o que quer que fosse, conspirava contra os seus entes queridos.
Voltando-se para o patriarca Malfoy, o sagaz professor deixou muito claro, com a mera expressão facial, que não deveriam mais tocar naquele assunto. Havia muito em jogo para que tais questões fossem tratadas de forma leviana.
Eram tantos os problemas. Sentia-se sufocado, há muito tempo já... A vontade que tinha era a de agarrar o esposo e sumir pelos confins do planeta. Gostaria de saber quando teria um pouco de paz. Lutou duas guerras, por Melin! Ele merecia um descanso, não?
—Você não está bem, Severus.
—Não tenho permissão para esmorecer agora, meu amigo, então, estou tão bem quanto posso estar. Creio que uma boa dose de firewhisky seria melhor do que uma poção calmante.
—Sexo e firewhisky antes mesmo do almoço? Realmente, o casamento o fez voltar à adolescência, meu caro. Deve estar se medicando com o mesmo elixir de Sophie. A mulher continua tão jovem quanto uma aluna do sexto ano de Hogwarts! Como ela consegue tal proeza?
—Fala o quase cinquentão que parece estar eternamente na casa dos trinta, francamente. O único a envelhecer aqui sou eu, com todos esses problemas – ralhou Severus, deixando a sala.
Lucius o seguiu de perto, ainda sorrindo com o reconhecimento de que ele mesmo era um homem jovial. Severus resmungou mais um pouco, algo sobre Malfoys serem abusados, mas parou assim que encontrou Blaise Zabini.
O filho de Sofia degustava o belo almoço preparado por Esther. Teddy sorria para ele entre cada colherada. O garotinho se animou com a notícia de que iriam ter mais pessoas em casa. “Mais pessoas para brincar”, pensou feliz. A informação foi passada à criança pelo próprio Blaise, afinal, não havia motivo algum para escondê-la.
—Pode mesmo construir uma casa na árvore pra mim, tio?
—Claro, Teddy – respondeu prontamente o sonserino. – Eu tinha uma ótima casa na árvore quando tinha a sua idade.
O veela arregalou os olhos com o conteúdo da interação. Estava alucinando ou Blaise prometera a Edward que lhe faria uma casa na árvore?
—Sentem-se, sentem-se... – Pediu Esther, indicando duas cadeiras. – Os pequeninos já estavam inquietos porque vocês não vinham almoçar.
Ambos se sentaram e logo foram servidos por um dos elfos.
—Blaise, há algo mais para acertar na casa?
—Não professor, mais nada. Os feitiços de expansão estão em perfeita ordem e o resto foi ainda mais fácil.
—Uma coisa incrível a magia – divagou Esther. – Uma vez reformei um banheiro em casa e me trouxe tantos problemas. Foram semanas de muita sujeira, barulho e preocupação. Sem mencionar os atrasos e os gastos. Incrível mesmo como, em tão pouco tempo, sua residência foi transformada, senhor Snape.
Severus apenas sorriu. Ele mesmo tinha, há muitos anos, quase que numa outra vida, se surpreendido quando a mãe lhe mostrara magia pela primeira vez.
—Não quero me gabar, mas sou muito bom nessa esfera do emprego das habilidades mágicas. Na verdade, duvido que haja alguém melhor na Inglaterra.
—E que bom que você não está se gabando, não é mesmo, Zabini?
—Sim, sim, muito bom, professor. Sou fundamentalmente modesto.
Esther viu a dificuldade de Teddy para cortar a carne e decidiu ajudá-lo um pouquinho. Já Lucius mirava a cena com olhar enternecido. O silêncio durou por uns bons vinte minutos, até o pocionista ser questionado sobre a conversa com Sophie.
—Eu os trarei hoje, Blaise, portanto, pode permanecer aqui mesmo.
—Hoje? Não é muito cedo para Theo fazer uma viagem desse porte?
—Sua mãe insistiu.
—A segurança de Theo é mais importante do que um capricho da minha mãe, professor.
Severus o encarou em silêncio. Não poderia deixar de concordar em parte com a preocupação do ex-aluno. Contudo, conhecia bem Sofia e sua natureza.
—Vovó Esther, o que é carrapicho?
—Capricho, querido – corrigiu rindo, aproveitando para sussurrar algo no ouvido dele que o fez sorrir satisfeito. – Teddy e eu vamos agora mesmo escolher uma bela árvore, certo Teddy?
—Sim!!!
Esther disse algo sobre escovar os dentes primeiro e acompanhou Teddy para longe do local. Lucius, mais uma vez, não pôde deixar de admirar a sua mãe. Ah, a mulher tinha astúcia. Logo percebeu que a conversa ganharia tons bastante inadequados para a presença de uma criança.
—Sua mãe não está sendo caprichosa, ao menos não dessa vez... Os motivos dela são mais que aceitáveis.
—Professor, Theo passou por muitos problemas em pouco tempo de gravidez. Ele quase abortou, depois sofreu o ataque do próprio pai... Ele ficou devastado.
—Sim, ele ficou, mas Theodore é forte, muito mais forte do que podemos sequer imaginar. Ele vai superar o ataque.
—Sei que ele vai superar o ataque, entretanto, por que removê-lo hoje, professor? Não acredito que agir de forma imprudente seja o melhor para a gestação...
—Agir de forma imprudente? Eu?
Blaise se encolheu na cadeira, ante a raiva contida em cada palavra proferida por Snape.
—Realmente deve estar se esquecendo de quem eu sou, Zabini.
—Theo precisa de cuidados e eu...
—E quem você acha que cuidou de Theodore, enquanto você e a senhorita Parkinson brincavam de “papai e mamãe” nas masmorras? Quem você acha que fazia tudo o que podia para vigiar a podridão que é Nott? Quem você acha que atraiu para si o ódio do patriarca Nott, para assim minimizar o sofrimento de Theodore?
A voz do pocionista não se elevou, longe disso. Ele manteve o tom equilibrado, tal qual estivesse lecionando numa aula dupla com grifinórios e lufa-lufas, o que, todos ali sabiam, para Snape era pior que o próprio inferno escaldante.
—Não venha transbordar o seu complexo de pai controlador e superprotetor sobre mim, Blaise Zabini!
—Eu não tenho nenhum complexo!
—Ah, sim, o senhor tem. E pode servir perfeitamente bem para lidar com Theodore, afinal, a necessidade de ser protegido é muito latente nele. Aquela criança aceitaria de bom grado toda e qualquer afeição que lhe seja direcionada, ainda que superficial.
—Superficial? – Blaise respirou fundo antes de prosseguir, o rosto expressando claramente “eu não acredito que ouvi isso”. – Professor, os meus sentimentos por Theo, Draco e Pansy são profundos e maduros demais para serem confundidos com ações levianas. Eles são a minha família. Não é complexo, não é superficial, é zelo e amor.
—Tenho certeza de que os seus sentimentos são verdadeiros. Eu leio isso em você muito claramente, sem nem me dar ao trabalho de usar minhas habilidades mentais. Entretanto, senhor Zabini, é sim desmedido e, em vários momentos, afetado demais para a seriedade da situação de Theodore. E tal complexo não é compatível com o meu modo de agir. Eu jamais arriscaria a integridade de qualquer um de vocês.
O jovem negro visivelmente empalideceu uns três tons.
—Imprudente, o senhor disse... – Repetiu Snape.
Oh, ele estava muito fodido. Onde estava Pansy quando ele precisa dela?
—Eu nunca agiria de forma imprudente, ainda mais quando qualquer passo em falso pode arriscar a saúde de Theodore.
—Professor, perdoe-me. Eu não quis ofendê-lo. Eu só...
—Você só deveria pensar com maior profundidade, antes de me definir como um doidivanas e leviano!
—Eu nunca disse isso!
—Suas palavras foram muito claras. É muita audácia sequer supor que eu seria tão negligente a ponto de arriscar a vida de Theodore!
—Eu nunca disse isso também!
O loiro sorveu o último gole de suco, os olhos atentos às duas cobras exaltadas e, em especial, ao comportamento de Severus. Nada bom, nada bom mesmo. E Blaise não estava ajudando a arrefecer o calor dos comentários.
—Já o senhor disse com toda as letras que meus sentimentos por Theo são superficiais.
—Certo, foi rude de minha parte. Eu deveria ter dito imaturo, talvez?
—Imaturo? Realmente pensa que sou imaturo? Eu praticamente amadureci aos cinco anos de idade! Sophie é uma mulher poderosa e maravilhosa, mas nunca foi excessivamente maternal. Ela me ama, não tenho dúvida alguma disso, mas nunca houve muito tempo para as minhas demandas entre todos aqueles maridos. Não estou reclamando, já passei da idade... Apenas sei a importância da constância na vida de uma criança. Theo precisava de mim como uma figura constante na merda de vida que ele tinha e eu não me neguei. Professor, eu amo Theo. Ele é sim como um filho pra mim.
Oh, grande Merlin! Lucius quis se encolher... Ele sabia que a explosão estava vindo. Nem todo o sexo do mundo com Sirius aliviaria o stress que o amigo carregava sobre os ombros. Entretanto, ainda que estivesse se divertindo com as falas afiadas, Blaise não merecia ser o bode expiatório, ao menos não dessa vez.
—Professor, admito que fui extremamente infeliz em minhas considerações. Eu o respeito, mas o senhor está exagerando.
—E agora me acusa de estar agindo de forma descontrolada?
—Por Merlin, não! Nunca sequer cogitei isso!
—É suficiente, Severus – começou Lucius. – Essa discussão tola termina aqui e agora.
Silenciosos minutos se passaram. A tensão era palpável.
—A situação é perigosa e os nervos estão aflorados. Creio que você, meu amigo, assim como Blaise, está exagerando. Blaise não o ofendeu. Eu mesmo o questionei sobre trazer o trio para cá antes de aguardar mais alguns dias. E Blaise, por Merlin, evite expressar seus medos com palavras pouco adequadas. Severus pode ser muitas coisas, mas imprudente? Francamente, o homem já deve ter o próprio funeral meticulosamente planejado! – E sorriu maldosamente. – Eu só espero ir antes, meu amigo. Se é para lamentar a morte, que seja você lamentando a minha.
Zabini ouviu atentamente o patriarca Malfoy e o agradeceu mudamente. Nunca desejaria para alguém, nem mesmo para o seu pior inimigo, ser o alvo da fúria de Snape.
—Professor... Senhor... Severus, desculpe-me. Eu só... Eu só não posso sequer imaginar ver Theo sofrendo novamente por conta daquele homem.
Os olhos de Blaise estavam brilhando.
—De forma alguma quis ofendê-lo. Na verdade, sem sua inteligência e sacrifício, já teríamos perdido Theo há muito tempo.
Snape encarou o ex-aluno demoradamente. Por Merlin, só o que faltava agora era ter um sonserino às lágrimas em sua mesa de jantar. Nenhum chefe de casa gostava disso. O completo silêncio foi apaziguador.
—Esqueça... Lucius está certo. Ambos exageramos. Eu fui desnecessariamente rude em meus comentários.
—Por que não vai ao encontro da senhorita Parkinson? Diga a ela que eu autorizo uma folga pelo resto do dia. Aproveite o tempo com ela, Blaise, mas fique atento.
—É uma excelente ideia, senhor. Professor, realmente, eu sinto muito...
—Vá, Blaise. Vá se distrair um pouco – e assim que o rapaz deixou a casa, Severus relaxou na cadeira.
Lucius floreou a varinha e a mesa ficou limpa, sendo ocupada apenas por uma garrafa de firewhisky e dois copos. Um pouco mais de magia e Severus e ele foram servidos com uma generosa dose da adorada bebida.
—Melhor? – Perguntou o loiro minutos depois de ver o copo de Severus já pela metade.
—Melhor... Por Merlin, eu quase o azarei, Lucius. Se você não tivesse interrompido, eu teria azarado Zabini dolorosamente.
—Eu sei, meu caro. Eu conheço bem de perto o seu lado negro.
Severus drenou o resto da bebida e se serviu de mais uma dose. Lucius fez o mesmo, observando atentamente o austero professor ganhar uma expressão menos endurecida.
—Apesar de tudo, não enxergo imaturidade alguma no jovem Blaise. Ele age de forma madura demais para a idade que tem. Admita, meu caro: você foi grosseiro.
—Lucius Malfoy... Cale a sua maldita boca.
—Você já foi muito melhor em insultos, Severus. Creio que Sirius conseguiu te amansar, ou então anda consumindo muito álcool. Não, não é o álcool.
O esnobe patriarca encarou o amigo e esperou. Observou com cuidado os gestos controlados de Severus, até que o copo foi deixado vazio sobre a mesa, seguido de um sinal bastante feio e imaturo com o dedo médio.
Lucius gargalhou alto então, como há muito tempo não fazia. Os olhos marejaram até, algo tão inusitado que levou Severus a rir também. Os dois riram juntos por longos minutos antes de sumirem pelos cômodos da casa.
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