Submisso
71 Capítulo 71 – Verdades e Mentiras
Notas iniciais
Capítulo 71 – Verdades e Mentiras
Assim que passou pela porta teve sete pares de olhos sobre si. Logicamente, todos eles refletiam nada além de pura fúria, combinada com muita indignação.
Gina e Gabrielle estavam verdadeiramente furiosas. Severus admirou-se por conseguirem contê-las fora do quarto. Como teriam realizado tal proeza? Ah, a resposta veio rápido e então, sorriu com sagacidade, reconhecendo a expressão “aqui se faz o que eu digo”, típica de Molly Weasley.
—Ginevra e Gabrielle, Theodore está bem, apesar de ter sido um grande susto. Ele está dormindo agora, portanto, sugiro que entrem, verifiquem minhas palavras com os próprios olhos e me encontrem lá embaixo, perto da lareira. Eu preciso desesperadamente de uma fumegante xícara de chá.
—Eu mesma providencio o seu chá, Severus – disse Molly, ao que Sophia a seguiu. – Vou acrescentar um pouco de conhaque. Esfriou bastante, não?
A bela viúva estava tensa com a espera e também bastante necessitada de uma bebida, ainda que chá não fosse bem o que tivesse em mente. Já seu filho, talvez, fosse o único ali que trazia no semblante.
Além da fúria e da indignação, havia um sentimento mais autodestrutivo em torno deles e vinha de Blaise. Ah, ele era a corporificação da frustração. Severus sabia muito bem o motivo. Qual outra razão além de Theodore? O fato que gerava tal amargor no jovem rapaz, também gerava em si o mesmo tipo de sensação. Ora, o pocionista era o mestre da Casa Sonserina e, obviamente, a alma dos seus pupilos não lhe era segredo algum.
Blaise Zabine sempre se considerou muito mais do que apenas um “amigo dos seus parceiros de casa”. Enquanto nutria um desejo profundo por ter Parkinson como parceira de vida, o belo jovem negro via Draco e Theodore (e anos atrás, Goyle e Crabbe) praticamente como filhos, apesar de se equiparar em idade com eles.
Como chefe de casa, Severus não conhecia bem apenas os seus pupilos, pois nisso se incluía a família dos mesmos. Não era segredo para a sociedade bruxa que Sophie Zabini, a mãe extremamente jovem de Blaise, era uma mulher dada a paixões e enlaces mágicos. A beldade vivia um amor após o outro, mas nunca ficava por tempo demais num mesmo relacionamento.
O professor nunca viu esse comportamento como um problema, afinal, Sophie era uma mulher inteligente, independente e dona da própria vida. De fato, sempre se admirou por uma mulher tão pouco convencional ter criado um filho bastante conservador, em especial no que tange à noção de família.
Blaise sempre sonhou em ter um único casamento, para toda a vida, ao que Sophie sempre dizia: “meu filho amado, quando conseguir tal proeza, farei questão de que me detalhe a fórmula.” E sim, Sophie falava sério mesmo. Ela sempre desejou ter um amor para vida toda.
“Mãe, a senhora é amorosa demais para tal empreendimento", respondia Blaise. O “amorosa demais” se devia ao fato de que Blaise convivera, desde muito jovem, com o desfile de namorados e padrastos com os quais a mãe se relacionava. Não que ele fosse traumatizado por isso, não mesmo. Se a mãe era feliz assim, quem era ele para se opor? Não gostava muito quando u dos "namorados" era da mesma idade dele... Ou mais novo. Contudo, ele não era ninguém para determinar o que Sophie poderia ou não poderia fazer.
Já a “má-fama” de Sophie pintada como uma viúva-negra nos jornalecos bruxos, não condizia com a realidade dos fatos. Sim, Sophie ficou viúva sim, três vezes. E como se afundou em tristeza então. Ela chorou a morte deles com imenso pesar... O correto seria dizer que a mãe de Blaise tinha pouca sorte no amor. E como a bela dama estava sempre à procura do amor verdadeiro, Blaise nunca conviveu com uma figura paterna sólida.
Talvez por isso, por não ter uma figura paterna constante em sua vida, fortaleceu-se feito um gigante no papel de “pai” dos amigos. Ele era, para todos os efeitos práticos, aquele que pegava no pé dos parceiros de casa, quem fazia às vezes de “o responsável”... Era algo muito natural nele e ficou muito "pior" depois do ressurgimento do Lorde. Esse personagem que Blaise tão bem interpretava realmente convencia, embora nunca tenha funcionado completamente com Pansy Parkinson. De fato, a loira estava mais para o papel de matriarca e, nessa lógica, Pansy mandava e Blaise, feliz, dizia: "sim, Pansy".
Obviamente, Blaise era apenas um ser humano e, de vez em quando, tinha os seus momentos "sem regras", mas não era mais muito fã de ficar fazendo loucuras por aí. O que desejava com fervor, naquele exato momento de sua vida pessoal, era que Pansy Parkinson aceitasse de uma vez que ambos tinham um relacionamento sério. A loirinha era extremamente independente e, como toda boa sonserina, deveras escorregadia. Contudo, precisava reconhecer que avançara e muito em obter de Pansy o “consentimento”, o “sim definitivo”, algo que selaria a vida dos dois para sempre.
No fundo, e talvez nem tão no fundo assim, ele era um homem romântico. Sophie o chamou, diversas vezes, de antiquado. Quando sua mãe te chama de antiquado, bem... Os sinais de alerta pipocam. "Filho, sinto muito, mas você é muito conservador. Creio que tenha a alma mais velha que a da minha avó", disse-lhe Sophie certa vez, quando Blaise reclamou por tê-la visto aos beijos com um "garoto" de 20 anos incompletos. Não é que fosse antiquado. Ok, ok... Em alguns momentos ele tinha mesmo era ciúme da mãe.
No mais, Blaise apenas acreditava mesmo que não precisava perder tempo procurando o "amor da sua vida", pois tudo o que desejava de um parceiro ou parceira se aglutinava em Pansy Parkinson. Talvez Sophie nunca tivesse dado tremenda sorte...
É, ele era um cara família. E já tinha o seu ninho de cobras bem consolidado. Precisava apenas evitar que mais horrores acometessem as serpentes sob sua guarda, assim como os agregados que, de forma mais que evidente, já considerava parte da própria família reptiliana.
É, ele era um cara família. E já tinha o seu ninho de cobras bem consolidado. Precisava apenas evitar que mais horrores acometessem as serpentes sob sua guarda, assim como os agregados que, de forma mais que evidente, já considerava parte da própria família reptiliana.
—Blaise, seu chá vai esfriar.
—Obrigado, Pansy — e pegou a xícara que flutuava bem diante de seus olhos.
Blaise então sorveu o chá, finalmente despendendo atenção à conversa entre Molly, Sophia e Severus. O tema era a saúde de Theo. Ambas estavam muito preocupadas, pois o grávido em questão não podia passar por tantas situações de stress.
O pocionista lhes assegurou que não ignorava tal fato. Destacou que foi toda uma dádiva não ter ocorrido um aborto, ainda mais devido ao recentíssimo quadro médico não superado, de todo, por Theodore.
O tom tenso arrefeceu quando viram Gina se aproximar. Ah, bem se notava que era filha de Molly Weasley. A ruiva filha era o reflexo da força, apesar de tão abalada pelo que acabara de acontecer. Viram-na nos últimos dias ir de "extremamente estressada", passar pelo "ciumenta enraivecida" para agora estacionar no "protetora enfurecida".
—Gabrielle vai ficar no quarto. Achamos melhor assim, pois os níveis mágicos de Theo estão abaixo do que estavam quando ele acordou.
—Algo normal, Ginevra, em especial devido ao ocorrido.
—Sim, professor, mas não há como demover aquela veela do papel de guardiã do nosso tesouro — e riu-se, entre frustração e tristeza. — Gabi não vai mais deixar Theozinho sozinho por um instante sequer.
—E como ele está, filha?
—Continua dormindo. Ah, mamãe... Theo está cheio de hematomas, com um lado do rosto inchado e, sem dúvida alguma, deve estar abalado. Esse cretino voltou do mundo dos mortos para nos aterrorizar. Ah, mas o que é dele está bem guardado.
—Como aquele monstro ainda está vivo, Severus?
A pergunta feita por Sophie ficou sem resposta alguma. De fato, não havia como elucidar a charada, apenas vislumbravam as tramoias arquitetadas por Nott para se safar da justiça bruxa.
—Na verdade, minha cara, o "como" agora não deve ser o alvo de nossa preocupação. Temos que tirar Theodore dessa casa, pois aqui não há mais segurança alguma. De fato, nem a casa dos Nott em Londres. Gustav entrou aqui facilmente por ter a relíquia ancestral em seu poder, logo, Theodore está numa situação extremamente vulnerável.
—Então vamos levá-lo para a Toca — sugeriu Molly, sem nem ao menos titubear. — Estamos num nível 5 de segurança por lá. Creio ser seguro o suficiente.
—Molly — e Severus a encarou com profundidade, terminando o próprio chá antes de prosseguir. — Sua família, a senhorita Granger e a criança sob a sua guarda estão bem... Mas, apesar de toda a segurança, a Toca foi atacada hoje mais cedo.
A matriarca Weasley emudeceu. Como assim, atacada? Estavam há semanas convivendo com aurores para todos os lados.
—Arthur, meus filhos, Her...
—Já disse, estão todos bem. A senhorita Granger foi extremamente brilhante, mais uma vez, e conseguiu aparatar na minha residência, a despeito das barreiras de Prince's House estarem ativadas. De fato, a minha casa também foi atacada hoje. O seu filho impediu o ataque, Molly.
Gina nem percebeu como as próprias mãos tremiam de raiva, até se servir de chá. Ataques nessa proporção num período sem guerra? O que estava acontecendo?
—Professor, o que não está nos contando? Obviamente há uma ligação entre os ataques. Quem são essas pessoas e o que querem conosco?
—Não estou escondendo nada — e se recriminou mentalmente, pois sim, ele estava escondendo algo. — E posso garantir, Zabinni: Caso soubesse quem está por trás disso, teria ido eu mesmo destroçá-lo. Tenho um esposo doncel grávido em Prince's House, além de um batalhão de hóspedes. Se não fosse Ronald Weasley, teria sido um massacre...
—Por que nos atacar? O que temos que possa interessar a alguém? Theo é o motivo do ataque de Nott? Não faz sentido, professor. Por que o pai de Theo se arriscaria tanto apenas para dar um susto no filho?
—Blaise, o professor Snape também não sabe... — Apaziguou Pansy. — Querido, preste atenção: nada do que fizéssemos poderia frear o ímpeto daquele lunático. Talvez para ele tenha sido divertido acabar com a lua de mel... Lembra como o pai do Theo odiava vê-lo feliz?
—Gustav tinha um ciúme doentio de Celina, a mãe de Theo. E acreditava que o próprio filho era um obstáculo entre ambos.
A revelação de Sophie não era nenhum segredo para Severus. Conheceu o lado mais sombrio de Gustav Nott... O lado que via Theodore como um inimigo a ser eliminado.
—Nunca foi possível comprovar, mas há fortes indícios de que Gustav matou Celina. Aconteceu há anos, quando Theo ainda era uma criança.
—Então não se sabe se ele realmente a matou?
—Ginevra, Celina simplesmente desapareceu. Nunca foi encontrado um corpo... E o testemunho de Theodore nem sequer foi cogitado como relevante, afinal, os Nott são uma tradicional família de sangue puro.
—Severus está correto. O corpo de Celina nunca foi encontrado, mas quem conhecia a vida íntima do casal, sabia que as agressões eram o pão de cada dia. Celina nunca aceitou calada e revidava. O ciúme de Gustav era doentio. Ele inteiro era doentio. Tratar mal uma criança, fruto do seu próprio sangue? Quando Celina descobriu que o cretino vinha torturando Theodore, ah, lembro-me tão bem! Ela correu para a minha casa com Theo desacordado nos braços. Celina estava furiosa. Cuidamos dele enquanto eu sentia que a minha amiga traçava um plano para se livrar de Gustav.
Sophie respirou fundo e tentou não deixar o próprio espírito decair mais. A perda da amiga ainda lhe gerava profunda dor.
—Mesmo eu sendo contra, Celina trouxe Theodore para cá, alguns dias depois de ter ido para a minha casa. Ela sabia que Gustav estava furioso e que estarem na minha casa era, como dizer, uma espécie de risco adicional para mim e para Blaise... Não que eu me importasse. Pedi tanto a ela que ficasse comigo, mas aquela mulher dificilmente era dissuadida. Combinei com ela que iria logo em seguida para Bristol, ao que anuiu reticente. Na verdade, a única forma de eu permitir que fosse embora foi fazer com me garantisse que, ao menor sinal de Gustav, ela fugiria... Inclusive enfeitiçamos um colar, transformando-o numa chave de portal.
—Por que voltar justamente para cá, a casa dos Nott?
—Ah, muito simples minha filha: Essa casa também é a casa de Theodore, portanto, ela também o protege. Entre as famílias mais antigas e nobres, há o costume de vincular a proteção da casa ao sangue de seus donos por direito. Creio que Celina tenha se utilizado desse tipo de artifício, para proteger o seu filho.
—Funciona melhor quando é feito por alguém que também compartilha do sangue da família. Por exemplo, eu, como sou a mãe de Blaise e senhora da minha própria casa, poderia invocar a proteção específica para o meu filho. Já Celina, bem... Ela não era uma Nott de sangue. Ela sabia que Gustav caçaria Theo até no inferno, então, resolveu se antecipar. Veio para cá, como pôde invocou a proteção, ainda que sem tamanha eficiência, e esperou.
—Essa proteção funciona de formas variadas. A mais elementar delas é um sinal, qualquer um... A casa sinaliza que o protegido corre algum risco. Em casos mais extremos e quando bem feita, a invocação impede que o potencial perigo adentre as barreiras de proteção. Eu mesmo não realizei tal proteção em minha residência, pois acreditava que o nome Prince Snape morreria comigo. Arthur o fez?
—Sim, há muitos anos. Contudo, como sabe, foi pouco eficaz contra ataques mais pesados... — E a mente de Molly se encheu com as imagens da invasão à Toca, quando do casamento de um de seus filhos.
A matriarca Weasley não via uma saída fácil para o novo problema que precisavam solucionar. Como encontrar um lugar mais seguro para o genro?
—O fato é que Celina queria que ele viesse. Ela desejava fervorosamente deixar o planeta livre de Gustav. Quando Theodore chegou a minha casa com a chave de portal... Ah, eu simplesmente soube! Acionei os aurores, mas já não havia mais ninguém para ser encontrado. Fiquei com Theodore por alguns anos, enquanto Gustav era processado pelo possível assassinato da esposa, mas nada foi provado. No fim, ele mesmo apareceu com um ordem judicial me obrigando a devolver Theodore. Nessa época, ele já estava mais velho, com quase 11 anos. Lutei judicialmente de forma feroz e usei todos os contatos que tinha. Consegui, no máximo, que Theodore ficasse comigo a cada 10 dias... Logo então veio Hogwarts e Blaise estava sempre por perto, contudo, algumas vezes nem ele nem eu podíamos manter Theo a salvo.
—Sophie realmente fez de tudo para protegê-lo, assim como eu. Sou chefe da Casa Sonseria e, apesar de não serem mais parte do alunado, sinto-me deveras protetor, quando o assunto é a integridade física e emocional de cada um de vocês. Desejava que Theodore contasse as duas esposas o que o pai lhe fez, mas...
—Gabrielle ia fazer isso hoje, professor. Ela acabou concordando comigo e com Blaise de que teria que usar sua magia veela para fazer com que Theo falasse... Não tivemos esse tempo.
—Seria melhor que Theodore falasse sozinho, mas conhecendo-o como conheço... Enfim, Ginevra, há toda uma vida obscura dos Nott que ele nunca pôde nos revelar. Em Hogwarts, Gustav costumava aparecer e levar Theodore com ele. Não se alongava muito, as vezes o devolvia a escola após um dia ou dois, mas no geral o fazia no mesmo dia. Sabíamos que algo se passava, mas Theodore nada nos contava e, apesar de eu ser capaz de utilizar minhas habilidades nele, não queria afastá-lo mais ainda de mim. Usar a leitura de mentes em alguém que não a autoriza é, no mínimo, doloroso. E Theodore protegia a própria mente de mim e dos amigos. Creio que ele tinha vergonha... Dumbledore e eu concordamos então em manter total atenção nele, em suas reações e em procurar fazê-lo falar...
—Mas ele nunca falou... Theozinho se tornou muito retraído, silencioso... Draco, Blaise e eu insistíamos para que conversasse conosco, que nos contasse o que fazia com o pai quando saíam, mas ele nunca disse uma palavra sequer. Até que... Draco descobriu que o pai o espancava. Não víamos nenhum dos machucados, pois o desgraçado era muito cuidadoso e não deixava marcas em lugares que podíamos ver facilmente.
—Mas isso é um horror! — Exasperou-se Gina.
As esposas de Theodore souberam, muito por alto, que o marido tinha um passado cheio de sofrimento, devido ao pai que o detestava, mas ser espancado? Por Merlin!
Gina sabia que as únicas pessoas ali bastante surpresas eram a própria mãe e ela mesma. Gabrielle não se sentiria muito diferente do que ela agora: um misto de frustração e inconformismo que dava ganas de quebrar a cara de Gustav, assim que tivesse oportunidade... E ah, ela não se chamaria mais Weasley, caso não o fizesse.
—Depois que Draco descobriu, tudo aconteceu muito rápido. Tínhamos enfim fundamento para solicitar judicialmente a emancipação de Theo. Lembro até hoje de Blaise desesperado entrando em contato comigo e pedindo a minha ajuda. E claro que eu fiz questão de ajudar. Por minha vontade, nunca o teria entregado a Gustav. E agora... — E todos perceberam os olhos resplandecendo toda a fúria que a belíssima Sophie trazia dentro se si. — Vivo! Ele está vivo! Dessa vez, eu o matarei com as minhas próprias mãos. Arrancarei a cabeça dele fora a dentadas se for preciso.
Snape se absteve de mencionar que a fila de desejosos por decapitar Gustav era bastante extensa. Precisava se deter em questões mais objetivas por agora.
—Sophie, vamos ultrapassar nossa raiva, ao menos por enquanto. No momento, creio ser melhor definirmos o local para o qual o Theodore irá.
—Temos nossa casa, professor. Theo queria que fôssemos viver na casa dele, em Londres, mas achamos melhor construirmos nossa casa, uma nova... Não é luxuosa, mas é bastante acolhedora e está apenas aguardando o fim da nossa lua de mel. Que dizer, nem sei se ainda podemos dizer que estamos em lua de mel.
—Não duvido que a casa de vocês seja acolhedora, Ginevra, contudo, precisamos de um local com proteções ancestrais realmente resistentes, o que está diretamente ligado ao tempo de conexão entre os bruxos e o lar que habitam. Quando os bruxos são vinculados, a magia se enraíza mais e mais, pois faz do lar no qual vivem a sua fortaleza. A conexão que mencionei se fortalece com a permanência no local e com o tempo. Como você mesma disse, é uma casa nova... E vocês três acabaram de se casar... De fato, nós nos casamos no mesmo dia. A sua nova casa e família construirão essa proteção para as gerações futuras, o que não nos favorece em nada agora. A casa na qual Theodore vive em Londres seria uma melhor opção, pois ele vivia ali até então, entretanto, qualquer residência dos Nott é perigosa no momento, pois Gustav possui a relíquia ancestral.
—Podem ir para a minha casa, Severus...
—Sophie, não creio ser o local mais adequado. Sua residência tampouco traz essa carga de magia ancestral e, de fato, quanto mais forte o elo familiar existente, mais forte o vínculo. Quanto a sua permanência nela...
—Mamãe raramente está em casa. Na verdade, faz uns três anos que não vai me visitar. Nós nos encontramos mais em hotéis, do que na nossa própria sala de jantar — revelou Blaise, sem conseguir deixar de soar ligeiramente magoado. — Talvez, senhora Weasley, a sua residência seja o local mais indicado. Família sólida, presente, antiga, de proteção ancestral...
—Mas com uma proteção que já falhou por mais de uma vez. Nas atuais circunstâncias, não creio que a minha casa seja o local indicado. Amaria ter meu genro e minha nora morando conosco, mas... A Toca foi invadida e presumo que nossa proteção foi fragilizada. E agora, pensando nas mudanças mágicas e físicas que Theodore está passando, a tropa de aurores que anda por lá será um problema. Não creio que seja o ideal para Theodore, tendo em vista o seu estado de saúde. A magia dele está instável devido à gravidez e, pelo conhecimento que tenho, ainda vai demorar um certo tempo para se reequilibrar – e ao que Gina arregalou os olhos, completou. – Oh, não, meu amor, não se assuste. Acontece com todos os varões na condição do seu marido. Justamente por isso não acredito que seja bom que fiquem na Toca, ao menos não por enquanto. A magia da casa, somada à magia protetiva do Ministério... Enfim, pode prejudicar mais que ajudar.
—Analisando o que disseram, creio que a minha casa também não está tão fortalecida quanto eu pensava. Apesar de eu ter a relíquia ancestral em meu poder, sou a única Parkinson por lá, além de ser solteira e de quase não passar tempo na minha própria residência – falou Pansy, a mente trabalhando numa solução. – Malfoy Manor tem uma proteção antiga e Draco possui a relíquia ancestral, mas o atual núcleo familiar é composto por Draco e Harry e eles são muito jovens, isso sem contar a infinidade de aurores e a proteção do Ministério que também foi estabelecida na mansão. Theozinho também seria afetado...
—Sobra apenas o senhor, professor.
Severus encarou Blaise, a mente ainda processando a sugestão.
—Quer que eu hospede, em minha residência, o trio? – Perguntou Snape arqueando a sobrancelha.
—Assim espero, professor. Sabemos que a sua casa também foi atacada, mas não foi invadida. E não há aurores bisbilhotando por lá – continuou Blaise. – Claro que, como o senhor tão bem relembrou, o casamento com o doncel Black ocorreu faz pouco tempo, contudo, o senhor sempre foi o dono do local, não é mesmo? E sempre passou tempo regular na sua residência...
—Estou hospedando no momento Remus Lupin. Ele foi atacado por um lobisomem. Ele está bem – afirmou em tom sério. – Temo que o Ministério mande aurores para colher o depoimento dele, assim que Remus acorde e possa relatar o que houve. De fato, a minha casa deve estar cheia de aurores nesse exato momento.
—Oh, professor – a voz de Pansy atingiu um tom mais elevado – e o senhor o deixou lá para ser...
Severus não queria ter dado a Lucius uma poção polissuco, ao menos não agora, pois o amigo ainda não estava completamente recuperado. Entretanto, não concordava com quela baboseira de "é melhor me revelar de uma vez", não mesmo. Por enquanto, o ideal seria manter o esnobe Malfoy bem escondido dentro de casa.
—Fique tranquila, senhorita Parkinson. Deixei meu assistente – e inclinou a cabeça levemente, cheio de significado – cuidando da segurança de Remus. Está tudo sob controle.
A loira respirou fundo e procurou se acalmar. Era um fato: a tensão dos últimos dias a cansou muito. Só de pensar em Lucius Malfoy sendo encontrado pelos aurores, por Merlin!
—Na verdade, os aurores estão passando por um grave problema. Azkaban foi atacada e todo o departamento está um caos. Molly, o seu filho realmente tem aptidão e competência para a carreira...
Molly sorriu agradecida pelo elogio. Ela sabia bem o quanto Severus era rigoroso e ouvir dele um elogio era, realmente, todo um acontecimento. Lembrou-se dos dias em que o via com mais frequência, aqueles tempos em que Sirius estava muito debilitado e ninguém sabia o que fazer para ajudá-lo. Todos viram o quanto Severus era, apenas, um ser humano sofrendo pelo parceiro. Foi revelador.
—A guerra acabou com a vitória de Harry Potter. Não deveríamos estar passando por isso, não agora – relembrou Sophie. – Lupin, Azkaban, a Toca, Malfoy Manor, Prince’s House, aqui... Há algo em marcha, Severus. Há algo muito ruim em marcha e está vindo direto para nós. Não quero parecer paranoica, mas Gustav poderia tê-lo matado hoje. Eu conheço aquele homem e sei bem que não perderia a oportunidade. Então, só posso imaginar que Gustav deixou Theo vivo por algum motivo sórdido...
—Mãe, por favor, tenha calma.
—Eu estou calma, Blaise, mas eu não vou deixar Theo sem uma sólida proteção. Não falo só pelo período em que a magia dele está se reequilibrando, falo por todo o tempo que for necessário, até que os aurores possam descobrir e solucionar todo esse tenebroso acúmulo de acontecimentos terríveis.
—Mãe, o professor Snape também só deseja proteger Theo.
—De fato, é o que farei, senhor Zabini. Sophie e eu sempre nos coordenamos para evitar que Gustav o ferisse, embora nem sempre nossos intentos fossem bem-sucedidos. Realmente, não há outra opção: até que possamos eliminar as ameaças, Prince’s House é o local mais indicado para que Ginevra, Gabrielle e Theodore vivam. A minha casa está um pouco tumultuada – ao que Pansy lhe lançou um olhar significativo, pois a loira sabia que além de Sirius, viviam lá Lucius, Esther, Frederick, Teddy e Lupin -, mas nada que não possa ser solucionado.
—Ótimo então. Quando partimos?
—Mãe, você não está se incluindo... Está?
Gina preferiu não prosseguir ouvindo mais ninguém. Sabendo para onde iriam, optou por cochichar para a mãe que a avisasse dos detalhes depois e subiu. Queria estar junto de Gabi e Theo. Precisava deles assim como eles precisavam dela. Era estranho e único o que tinham e nada nem ninguém feriria que o era dela.
—Certamente eu estou me incluindo.
—Não há mais cômodos livres. Remus está hospedado na minha casa Sophie e, tendo em vista o ataque que sofreu, tampouco penso em deixá-lo desprotegido. O filho de Remus também vive comigo, ocupando mais um quarto. E meu assistente dorme no outro – completou Severus, sabendo perfeitamente que não havia assistente algum, mas não querendo falar abertamente que não apenas Lucius Malfoy estava vivo, como também levara para morar em Prince’s House a sua nova mãe e filho postiço. – Acomodarei o trio numa sala que tenho no andar térreo, tendo apenas que...
—Severus, eu não vou deixar Theo sozinho nesse momento.
—Mãe, por favor, seja razoável. Você tem uma casa em Londres, lembra-se disso? É na mesma cidade, sabia? Estaria apenas a uma lareira de distância de Theo...
—Blaise, vocês estavam a menos do que uma lareira de distância hoje e veja só o que aconteceu... – Revidou Sophie, já se irritando.
—Bem, podemos pensar em construir mais um cômodo – sugeriu a loira, tentando apaziguar os ânimos. — Posso providenciar isso rapidamente, em uns dois ou três dias na verdade.
Snape respirou fundo e assentiu. Queria apenas chegar a casa e verificar como as coisas fluíram, afinal, pelo tempo que estava ali, os aurores já deveriam até ter voltado ao Departamento.
—Ótimo então. Eu cuidarei dos arranjos necessários – afirmou Pansy. – Logo, logo terei tudo pronto e o trio mais Sophie poderão ir para Prince’s House.
—Dois ou três dias? Não é arriscado Theo ficar aqui nesse tempo?
—Não creio, senhor Zabinni. Gustav não vai tentar entrar aqui novamente. E também não podemos mover Theodore daqui agora. Uma viagem de Bristol para Londres requer a utilização de muita magia, então está fora de cogitação. Vamos aguardar os dias mencionados pela senhorita Parkinson. Em três dias examinarei Theodore mais uma vez e, se tudo estiver bem, o levaremos imediatamente para a minha casa.
—Ótimo, Severus. Espero que meu quarto tenha um banheiro privativo, Pansy. Não é que seja contra compartilhar nada, contudo, gosto de ficar horas na banheira...
—Mamãe! – Ralhou Blaise, mas foi solenemente ignorado por Sophie.
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—Isso mesmo...
O som dos beijos molhados enchiam o quarto. Mal podia acreditar que estava em seu próprio apartamento, com aquele abusado e... Nossa, como é que ele conseguia fazer essa coisas com a língua?
—Ah... Adam... Espera...
—Não quero esperar, Andy... Quero aproveitar que te trouxe para bem longe das garras do senhor Malfoy.
O advogado o tinha como desejava: praticamente desnudo, excitado e ofegante. Nunca antes fizera uma loucura como aquela. Nunca nem ficou com caras. Acreditava ser total e completamente hétero, ao menos até conhece-lo.
Desde que o viu, lutou contra os sentimentos estranhos que cresciam dentro de si. Sabia o que Adam Taylor queria dele, ah, como sabia. A questão era mais complicada... Seria ele capaz de transar com uma pessoa e depois fingir que nada havia acontecido? Porque era isso o que Adam faria, certo?
Bem, ele não era mais nenhum adolescente, logo, era plenamente capaz de lidar com aquele tipo de relação. Além do mais, estudava psicologia, por Deus. Tinha que ser capaz de lidar com essas atitudes tão humanas...
—Espera... Não tire a minha... – E Adam o calou em mais um beijo fogoso, enquanto conseguia livrá-lo de todas as roupas.
O advogado já estava vestido apenas com a própria pele fazia tempo. Mal adentrou aquele recinto fugindo de um furioso Lucius Malfoy, percebeu que a fuga, de fato, lhe fora deveras favorável. Finalmente estava sozinho com Andreas... Ah, não iria mesmo desperdiçar tal oportunidade.
Agarrou-o com força e o prensou contra a porta, mal passaram por ela. Ele sabia que Andy o desejava, mas teria que forçá-lo a perceber isso. Beijou-o com gana, chupando-lhe os lábios carnudos e macios, enquanto o apalpava descaradamente. Com a maestria de quem fizera aqueles movimentos milhares de vezes, logo o tinha sem nenhuma roupa cobrindo a parte superior do corpo.
Conduziu-o até o sofá, ainda apalpando-o com vigor. Desfazer-se do cinto e da calça deu um pouco mais de trabalho, mas se ele era capaz de dobrar o mais astuto juiz, Andy não tinha chance alguma. Sussurrou-lhe obscenidades no ouvido, ao que a reação de excitação no trouxa foi imediata.
—O que vai fazer?
—É apenas um feitiço... Você vai sentir – e viu a pele bronzeada se arrepiar, a despeito do calor e das gotinhas de suor que brotavam dos poros de ambos. – Vai ajudar a te dilatar – e sem esperar, inseriu um dedo na entrada virginal que logo o receberia.
Andreas se contorceu com a contrariedade de sensações que o faziam suspirar, nos longos minutos que se sucederam. Estava excitadíssimo, duro mesmo, e quase desmaiava de prazer com a pressão dos lábios de Adam ao redor do seu membro, sugando-o, beijando-o, dando mordidinhas... Sentiu mais um dedo dentro de si e gemeu alto com a profundidade alcançada.
—Adam... Pare. Eu, eu não aguento...
Adam renovou o feitiço lubrificante e enfiou mais um dedo naquela entradinha rosada e apertada. Eram três dedos agora e o jovem que mantinha de pernas bem abertas diante de si já estava a beira do orgasmo.
—Você é divino, Andreas...
Taylor recebeu um olhar profundo e demandante de volta. Era impossível não endurecer mais e mais ao apreciar aquela beleza... Entrou nele com cuidado, mas não parou até estar por inteiro naquele canal apertado e sufocante. Andreas agarrou-se a ele, fincando as unhas nas suas costas. Todo um felino agressivo.
—Por Deus!
—Delicioso...
—Oh, Adam... Eu me sinto tão... AAAH!
As investidas tiraram toda a coerência do futuro psicólogo. Sentia-se pegando fogo... Sentia-se cheio... Sentia dor e prazer ao mesmo tempo... Nem se deu conta de que movia o corpo com força, indo de encontro ao de Adam. Queria-o!
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—Como eu disse, Remus ainda está dormindo. Enviei inclusive uma coruja para a doutora Morse perguntando se é normal dormir tanto e ela disse que sim. Disse inclusive que dormir é ótimo para recuperação dele. Devido aos últimos acontecimentos, ela virá amanhã apenas para revisá-lo.
Harry ouvia com atenção as palavras de Lucius Malfoy, já livre dos efeitos da Poção Polissuco. Tiveram umas três horas de grande tensão, com aurores indo e vindo. O ataque a Prince’s House foi considerado apenas uma sequela do ataque à Toca, pois, segundo os aurores, os atacantes seguiram Hermione ou então, numa outra perspicaz dedução, fizeram um ataque conjunto, pois também tinham interesse em atingir a Draco e a Harry.
Os aurores estavam tão assoberbados que, incrivelmente, demoraram para perguntar por Remus Lupin e, quando tentaram tomar o depoimento dele, Frank, o assistente de Snape, os impediu alegando o óbvio: “o senhor Remus ainda está sob o efeito de fortes poções no momento”.
Evidentemente, as brilhantes deduções dos aurores – e Ronald teve que concordar – os favorecia e ajudaria a manter Prince’s House fora do foco do Ministério, ao menos por um tempo.
—Contudo, ele não deverá dormir por muito mais tempo. Ronald, Hermione e a criança voltaram para a Toca, Severus está para chegar e mamãe servirá o almoço em alguns instantes, então, por que não vamos almoçar e depois, mais para o meio da tarde, quando Remus estiver desperto, não tomamos todos um chá juntos?
Os olhos do pai de Draco brilhavam de entusiasmo apenas pelo fato de falar sobre Remus. Harry se perguntava se o seu veela agia assim quando falava dele...
—Lucius está certo. Oh, por Circe... Eu nunca pensei que diria algo do tipo – completou Sirius que, embora devesse ter permanecido no próprio quarto para descansar o máximo que pudesse, estava ali junto deles.
—Black... Sempre tão agradável.
—Papai, deixe Sirius sossegado. Venha, Harry. Vamos descer e almoçar.
—Não estou sentindo muita fome...
—Ah, pois eu sim, Harry – interferiu Sirius, a mão acariciando a barriga bastante proeminente. – Esse bebê aqui é um guloso. Quer comer tudo o que encontra pela frente, em especial os doces de Esther...
—Deve ser bom poder comer o que tem vontade... Além de ficar escondendo coisas de mim, Draco me obriga a seguir uma dieta de coelho.
O veela mais jovem revirou os olhos.
—Não estou escondendo nada de você, Harry, por Merlin.
—Eu não sou idiota. Há algo estranho acontecendo. Foram dois ataques, Draco! Três se eu contar o que deixou Remus nessa cama... E você me diz que não está me escondendo nada?
Sirius compreendia bem os motivos que levaram o afilhado a reclamar. Ele mesmo percebia que Severus sabia muito mais do que havia lhe contado. Algumas horas antes, quando estava conversando com Harry e Draco, Severus irrompeu no quarto e explicou minimamente que não deveriam sair do andar de cima da casa, pois as barreiras mágicas haviam sido atacadas. Disse ainda que precisava sair rapidamente, mas que logo voltaria e que aurores do ministério não tardariam em chegar... E saiu, sem explicar o motivo de coisa alguma, tampouco para onde estava indo.
—Não sei o que motivou os ataques, Harry. Não sei por que estão nos ameaçando... Eu não estou escondendo nada.
—Está sim, Draco.
—Harry, amor... Eu só desejo proteger você.
—Eu sei me proteger muito bem, Malfoy – e saiu com muita classe porta afora, apesar de estar gigantesco com aquele barrigão.
—O seu esposo está muito irritado, meu filho. Creio que não anda cumprindo com suas funções de varão veela – e riu alto, acompanhado por Sirius.
—Ora, pai... Por favor! Quero ver quando o seu lobo começar a colocar as garras de fora, devido aos hormônios da gravidez.
Dessa vez, apenas Sirius riu. E ainda rindo rumou para o andar de baixo da casa. Desceu os degraus com muito cuidado, percebendo tarde demais que Severus estava na sala, ao pé da escada, com os olhos fixos nele.
—Sirius Black... Você não toma jeito. Por que está descendo a escada sozinho? – E o segurou pelo braço, ajudando-o a descer os degraus.
—Ah, Severus, não precisa se incomodar. Eu estou bem e estava descendo com bastante cuidado.
—Com você, meu amado esposo, todo o cuidado é pouco.
Harry acompanhava a interação do sofá e não conteve o sorriso. Era ótimo ver que o padrinho estava realmente sendo bem cuidado. Sustentou o sorriso quando o antes amargado professor ergueu Sirius no colo e o beijou com vontade para, logo depois, colocá-lo sentadinho no sofá ao seu lado. A face rubra do padrinho envergonhado valeu o sábado!
Poucos minutos depois, estavam todos almoçando a deliciosa refeição preparada por Esther. Apesar de Sirius, Severus e Lucius terem sido categóricos ao afirmar que ela não precisava nem deveria fazer tarefa alguma na casa, Esther gostava de cozinhar e era uma terapia poder investir tempo e dedicação na alimentação dos que, agora, já considerava família.
Adorava ver como Sirius e Severus se comportavam como o casal que eram, assim como ficou muito feliz ao poder conhecer o filho de Lucius e o belo esposo que tinha e que, segundo lhe contaram, era um verdadeiro herói, quer dizer, o herói que salvara o Mundo Bruxo de sei lá quem. Era um menino, na verdade os dois eram... Imaginava as provações que não precisaram superar.
—Frederick, alguma notícia de Andreas? – Questionou Lucius, quando já estavam na sobremesa.
—Não... Nada ainda.
—Andreas está com Taylor, então relaxem vocês dois – pediu Severus, os olhos fixos em como Sirius lambia a colher deixando-a livre de qualquer vestígio de chocolate. – Cachorro, solte esse colher ou vou devorá-lo aqui mesmo, na frente do seu afilhado – sussurrou bem baixinho, junto ao ouvido do animago.
A colher foi abandonada em instantes, acompanhada de um breve sorriso de Esther que imaginava o que Snape teria dito aos cochichos para o esposo. Ah, eles eram mesmo uma graça.
—Professor, para onde o senhor foi com tanta pressa?
—Harry, vamos acabar de almoçar primeiro, por favor.
—Não posso mais esperar, Draco. Depois vocês inventam outra desculpa e continuam a me ocultar fatos relevantes.
A tensão até então bem contida estalou na cara de todos. Severus deveria ter percebido que Harry não ter reclamado por não poder comer a sobremesa era, de fato, bastante significativo.
Por mais uma vez naquele mesmo dia teria que omitir certas informações. Precisava urgentemente conversar com Lucius e Draco. Não poderiam continuar mantendo o que lhes havia sido contado pelo ministro em segredo. Até porque, conhecia Harry Potter muito bem e não era nada saudável – para o próprio herói – deixá-lo na escuridão.
—Fui a Bristol, eu não disse? Pensei ter dito... Foi a urgência. Fui até à mansão dos Nott. Felizmente pude chegar a tempo.
—A tempo? A tempo de quê? – Curiosamente quem perguntou foi Draco, todo o instinto ofídio vindo a tona.
Draco era um bom leitor de pessoas, sempre o foi. Tal fato o ajudou a ser bom em legilimência... E ele conhecia Severus muito bem. Tinha longos anos de prática em interpretar até mesmo as mínimas variações de posição das sobrancelhas do padrinho. Quando ouviu: “Bristol” e “mansão dos Nott”, um alarme soou alto dentro de si: Theo! Algo acontecera com Theo!
—Calma, Draco. Theodore está bem, ao menos o bem que pode se estar depois de ter sido atacado pelo próprio pai, pai este que deveria estar morto...
—Gustav está vivo?
—Está, Draco... Ronald pôde ver os comensais e a máscara de um deles era a de Nott. Eu simplesmente soube que o covarde estava apenas se exibindo e que não perderia a oportunidade de nos ferir. Ele foi atrás de Theodore e, enfim... Foi uma sorte eu ter pensando rápido o suficiente. Gustav nocauteou as duas esposas e alcançou o filho no banheiro.
—Como ele está? – A voz de Draco era no mesmo tom duro e ríspido com o qual ralhava com Harry por ter feito algo perigoso.
—Como disse, estável. Não nego que Theodore ficou muito abalado... Tivemos que nos organizar para encontrar um local mais seguro para Theodore. E Sirius, desculpe por ter precisado decidir isso sem conversar contigo antes, mas concordei em trazer o trio para viver conosco por um tempo. As proteções aqui resistiram ao ataque e não há influência mágica do ministério... Não havia outra opção viável.
—Ora, sem problemas, Severus. Ele ficará bem, certo?
—Assim espero. Ah, claro: o trio e Sophie Zabini, a autoproclamada mãe de Theodore.
—Oh, por Merlin, Severus... – Sussurrou Lucius com uma expressão de quem não gostara nada da novidade. — Eles não sabem ainda de mim, não é?
—Não, mais contarei em três dias, quando eu deverei retornar a Bristol e avaliar Theodore.
—E vocês insistem em dizer que não há mais nada acontecendo? – Disse Harry num tom verdadeiramente indignado. O moreno ficou de pé, os olhos verdes faiscando e ao redor dele, até Frederick notou, pequenas centelhas mágicas explodiram. – Dona Esther, obrigado pela refeição. Estava mesmo maravilhosa. Eu vou verificar se Remus acordou.
Draco respirou fundo enquanto o esposo saía do alcance dos seus olhos. Ah, ele teria uma noite daquelas quando chegassem a casa.
—Seu esposo está tomando as poções, Draco?
—Está padrinho, contudo, como pôde perceber o gênio de Harry Potter não é tão fácil de controlar, logo, a magia fica instável...
—Você é um veela poderoso, Draco. Controle-o. A saúde dele está em risco e a dos seus filhos também.
—Falar é fácil, pai. Com Harry Trasgo Potter nada é assim tão simples.
—Lucius está certo, Draco. Caso Potter prossiga com a magia instável, pouco poderemos fazer para ajudá-lo. Use sua magia veela de forma mais eficiente. Theodore só está vivo porque a veela que tem por esposa age como a veela dominante que é.
—Mas eu não posso fazer isso, padrinho. O que você sentiria, Sirius, se o meu padrinho o tratasse como um servo sem vontade alguma?
—Ah, eu o morderia com vontade onde realmente dói – e sorriu um sorriso cheio de dentes, bastante ameaçador.
Esther tocou no ombro de Severus, num gesto de extrema compreensão. Ela sabia bem o que era lidar com o peso do mundo sobre as costas. Já Frederick riu alto, adorando aquelas alfinetadas.
—Bem, farei como o meu genro. Remus precisa acordar e se alimentar.
—Os elfos já deixaram a bandeja no quarto dele, Lucius. Eu mesmo pedi.
—Obrigado, Severus. Com licença... Mamãe, a senhora tem mesmo mãos de fada – e beijou a testa de Esther antes de subir os degraus rumo ao próprio quarto.
Draco ficou calado enquanto o pai se afastava. Sirius o observou com atenção e lançou um olhar significativo ao marido antes de voltar a falar.
—Eu não sou uma pessoa fácil, Draco e nunca serei um doncel submisso. Nem ao menos sabia que era um doncel. Tal como Harry, eu tinha uma perspectiva bastante diferente acerca da minha própria vida. E aí aconteceu tudo isso. Harry caiu da vassoura e eu também quase morri... Agora sabemos que somos donceles, mas nunca fomos criados para tal vida. Você precisa compreender o que ele deve estar sentindo. Não é nada fácil, sabe? E eu sei que há sim algo que vocês dois sabem, mas que não querem nos contar. Certamente, acreditam que ter conhecimento sobre bendita informação nos prejudicará. Severus deve achar que farei uma loucura qualquer – e riu-se, pois o marido assentiu de leve, concordando com ele de forma completa. – Já você deve achar que Harry vá reagir de forma impetuosa e heroica, arriscando a frágil saúde e colocando em grave perigo a própria gestação.
—É mais do que isso, Sirius. Compreendo bem o que me diz... Sei que deve ser mesmo difícil. Harry e eu conversamos sobre o futuro diversas vezes. O meu medo é mais palpável. A gravidez de Harry vem se provando um verdadeiro desafio. O simples fato de não poder comer doces o altera, fazendo a pressão se descontrolar. Eu só desejo protegê-lo.
Frederick encarou a avó. Foi exatamente assim que avó agiu com ele por anos, evitando contar como o pais realmente faleceram.
—Desculpe interromper... Não os conheço com profundidade, mas não posso deixar de pensar em mim mesmo quando os ouço. Ocultar fatos, por mais nobre que seja o motivo, nunca é a melhor saída. A pessoa se sente excluída, descartável, pouco importante, pouco digna... Ah, eu poderia ficar aqui por horas falando de como se sente quando, em nome de te proteger de algo, te deixam no escuro. É como viver numa mentira. Por mais dura que seja a verdade, ela é sempre melhor...
—Claro que é, Fred – concluiu Esther, sorrindo para o neto. – Venha comigo, querido. Vamos até o centro de Londres. Não há perigo algum para dois simples cidadãos sem magia, não é? E não se preocupe, Severus. Vamos usar a tal “trave de portal”.
—Chave de portal, vovó.
—Isso mesmo. Vamos... Ah, Draco, foi um prazer conhecê-lo.
Mal Esther e o neto os deixaram, Sirius prosseguiu.
—Esther é mesmo incrível, não é? Agora que ela saiu, despejem de uma vez: o que está fazendo com que comensais voltem a nos perseguir?
—Sirius, por favor...
—Sem esse de “Sirius, por favor”. Conte logo de uma vez, Sev, ou não vai ter diversão alguma — e usou um tom de voz bastante libidinoso — até esse bebê nascer.
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