Submisso
68 Capítulo 68 – Faltarão Torres
Notas iniciais
Capítulo 68 – Faltarão Torres
Snape não teve dificuldades para abrir a porta do quarto, mesmo carregando o esposo nos braços. Com cuidado e precisão, acomodou o doncel sobre a cama. E em nenhum momento permitiu que o sono dele fosse perturbado, ao contrário: o belo gestante continuava a dormir, embora agora procurasse de forma quase instintiva pela fonte de calor que antes o envolvia.
Deixando-o ressonar sobre o colchão, Severus lançou sobre Sirius um feitiço higienizador e caminhou em direção ao banheiro. Estava tenso, com milhares de ideias na cabeça. Seus pensamentos sagazes iam de acontecimentos passados à projeções futuras, numa vertente louca que, caso não tivesse uma mente disciplinada, o deixaria enjoado.
Azkaban vertida num banho de sangue, Lupin atacado, a chegada do ministro russo e três veelas com prole em desenvolvimento... É, estava fortemente inclinado a acreditar nas próprias conjecturas, embora não quisesse... Parecia que sim, mais uma vez, o destino os levaria ao extremo. Esperava não chegar tão próximo da morte, não dessa vez.
Agora tinha motivos para querer viver, mais precisamente dois motivos, que juntos completavam uma família, a sua própria família. Justamente por isso, a incerteza quanto ao que os aguardava gerava em si um profundo desgosto. Como protegia seus entes queridos baseados em suposições. Antes já o fizera e suas ações levaram Voldemort até o casal Potter.
No mais, tinha apenas as suas próprias conjecturas. Embora, com os mais recentes acontecimentos, precisasse respirar fundo e aceitar: havia sim mais que meras suposições. Dúvidas e dúvidas se multiplicavam em sua mente, enquanto sentia a pele enrugar. Quem estaria por trás dos ataques? Quem seria o mentor que estava tornando viável aquela possibilidade tão terrível?
Ronald falara algo sobre algumas listas de comensais que estavam sendo investigadas com prioridade pelos aurores... Talvez houvesse alguma informação nelas que mentes pouco sagazes não poderiam vislumbrar. Não é que se achasse o suprassumo da inteligência, não mesmo. A arrogância nunca lhe trouxera nada de bom...
Evidentemente, ele não desmerecia o próprio cérebro privilegiado que tinha. A questão, portanto, era muito simples: sua mente vivenciou a vida de comensal. Ele sabia como agiam, conhecia todos os meandros, a vilania e a falta de humanidade dos seguidores do Lorde, logo, mesmo que os aurores fosse competentes e aptos à realização das investigações, nenhum deles compartilhava do seu olhar e da sua experiência.
Indo por essa linha de pensamento, um simples detalhe poderia ser a diferença entre a vida e a morte dos seus entes queridos, o que reforçava a sua necessidade em falar com Ronald. Era imperioso que tivesse acesso a todas as informações, até porque, depois do que ocorrera a Lucius, o Departamento de Aurores cheirava à traição.
_Severus... – E sentiu o toque delicado na bochecha. – Assim você vai acabar virando peixe. Pretendo viver na banheira?
_Sirius?
_Não, sou a fada madrinha...
Snape o observou com cuidado. Demorou certo tempo para se lembrar de que ele mesmo, mais cedo, havia liberado o esposo do feitiço que o restringia à cama. E lá estava o belo doncel: o rosto sustentando claros vestígios de sono, o pijama amarrotado e os cabelos numa deliciosa bagunça.
_Sev, você está aí dentro há mais de uma hora. Vai dormir debaixo d'água?
_Claro que não, Sirius. Por que se levantou? Está sentindo algum incômodo?
_Ah, sim, com certeza – começou o animago, enquanto estendia ao marido uma toalha. – Estou sentindo a sua falta. Já estou ficando com ciúme da banheira.
_Você é um exagerado, cachorro – e sorriu, enquanto, já de pé e longe da água, secava o próprio corpo sob o olhar atento do esposo.
_E Theodore?
_Estável, dentro do possível. Os problemas de Theo são antigos... Ele teve uma vida difícil e enquanto não superar os problemas pessoais, temo que permanecerá sobre severa intervenção médica. O pai dele era um monstro. Faria um belo par com a sua mãe.
Sirius ouviu com atenção as palavras do marido. Não suportava nem se lembrar do passado, pois ainda sentia na pele as consequências do mesmo.
_E se eu conversasse com Theodore?
_Como assim? – Questionou Severus enquanto se enrolava na toalha.
_Talvez se ele e eu tivermos uma conversa sobre como sofremos nas mãos de quem deveria zelar por nós, não sei... Talvez o ajude a superar o mal que lhe fizeram. Lembrar, aceitar que não foi minha culpa e compreender que não poderia me prender aos tenebrosos momentos que meus pais me fizeram passar, bem, foi fundamental para não ter enlouquecido.
O professor sabia exatamente a que o animago se referia, afinal, ele também estava lá, sendo usado por Walburga e Orion Black.
_Estaria disposto a fazer isso?
Sirius sentiu a proximidade dele e, em seguida, o toque daquelas mãos grandes sobre si, puxando-o com delicadeza para um beijo gentil e curto.
_Faria mesmo isso, apesar de ser tão penoso se lembrar?
_Certamente – respondeu o animago, ainda nublado pelo gosto de Snape.
_Creio que esqueci de pegar um pijama.
_Você não vai mesmo precisar de um, Sev...
O animago iniciou outro beijo. O ósculo agora era necessitado, cheio de pedidos mudos e desejos para nada camuflados.
_Ah, Sev... Essa gravidez deve estar me tornando um imbecil sentimental, mas... Não acredito que vou dizer isso... Tô com saudade – e como pôde agarrou-se ao marido que, com agilidade, o ergueu nos braços, tomando todo o cuidado para não machucá-lo.
_Não pule desse jeito, almofadinhas. Você é mais um que deveria estar sobre severa intervenção médica.
_Só aceito se for a do Severus... – E o escalou com habilidade de quem já tinha feito aquele movimento milhares de vezes. – Sev, me fode bem forte...
Os olhos negros do professor se arregalaram em surpresa, pois o esposo não só estava se esfregando nele, como também ignorava de forma completa que poderia voltar a ficar seriamente ferido.
_Sirius, você enlouqueceu? Pare já de se mexer assim – e o segurou entre os braços fortes, impedindo que prosseguisse com os movimentos sinuosos de antes.
_Seja gentil então, só não me deixe sem te sentir. Preciso de você, meu marido... – E com o braço bom o puxou pelos cabelos negros, aproximando os próprios lábios do lóbulo mais que convidativo. – Sou seu cachorro, Sev. Só seu... Todo seu.
Instantes depois, Sirius fora reposicionado sobre a cama, com um Severus se agigantando sobre ele. A toalha havia sido arrancada pelo próprio animago ainda no banheiro. Agora o professor se preocupava em despi-lo da forma mais gentil e rápida que podia.
A cada peça arrancada, beijava a pele doce de Sirius que era descortinada. Não havia imperfeição alguma e, apesar de ter que se lembrar dos ferimentos causados pela inépcia do próprio esposo em ficar bem quietinho em casa, sabia que não restaria qualquer marca.
O doncel era a encarnação da perfeição. E era dele, todo dele. Se Sirius destacou que era o seu “cachorro”, ah... Então ele iria sim assumir de vez que ele, Severus Prince Snape, era o dono de Sirius.
_Tão lindo... Tão desejável. Ah, Sirius... Você não faz ideia do quanto me impele a tomá-lo.
Sirius já não tinha nenhum vestígio de tecido sobre o corpo. E como desejava que o marido cessasse com o joguinho de lambe-morde-beija e o penetrasse de uma vez... Sentia-se estranho nos últimos dias. Era como se a mera proximidade de Severus acendesse nele um calor abrasador.
Os toques lhe queimavam gostosamente a pele... A maciez dos lábios era uma imensurável carícia... E a cada vez que o brilhante pocionista se posicionava sobre si, o leve roçar dos cabeços negros o levava ao delírio. Não compreendia essa hipersensibilidade. Talvez fosse algo típico da gravidez, talvez não... Só o que sabia com certeza é que se sentia a ponto de desfalecer de prazer.
_Severus... Mais...
Com o conhecimento de quem se assenhorara daquela pele, Severus direcionou seu labor para os mamilos do esposo. Mordeu de leve o botão rosado, enquanto apertava o outro entre os dedos. Não ousava machucá-lo, mas exercia uma leve pressão para que Sirius pudesse compartilhar da intensidade com a qual o queria.
Sirius tinha pernas bem marcadas e fortes. Na verdade, o animago não era tão frágil quanto aparentava e disso ambos sabiam. O mais problemático nele era a impulsividade. Severus tentava controlá-lo, contudo, qual ser humano conseguia limitar a devastação de um furacão poderoso? Nenhum, nem Voldemort o teria feito. E ele, o austero professor de poções, estava casado com uma impetuosa força da natureza.
Erguer o braço imobilizado do esposo com cuidado ainda fazia seu coração se apertar. Considerava-se culpado por aqueles ferimentos... Antes, quando o penetrou com vigor na banheira, repreendeu-se. Sabia que a recuperação completa seria lenta, mas como resistir aos encantos do doncel? Porque sim, apesar de Sirius negar veementemente, ele era a conjunçao de tudo o que existia de mais encantador sobre a terra.
Não deveriam estar tão juntos, grudados e mesclados, sendo impossível determinar onde um começava e o outro terminava. Pele contra pele... Boca contra boca, pois abandonara o mamilo e se perdia num ósculo selvagem. Queria degustá-lo com profundidade. Nossa, queria tudo de Sirius!
_Ah, Sev! – E as ônix encontraram as pupilas claras, reconhecendo imediatamente o que o doncel tanto queria.
Desceu as mãos pelas laterais do corpo de Sirius até chegar à articulação do joelho. Sirius tinha pressa. Encontrava-se desesperado para ser preenchido por Severus.
_Mais rápido!
_Onde está a sua educação refinada, almofadinhas?
_Me foda de uma vez, seu cre... Aaaah!
Severus se enfiou nele com firmeza, calando-o no processo. Sentir-se sufocado pelo canal apertado do esposo era mas que a glória. Era maravilhoso poder compartilhar o momento com ele. Nunca imaginou que ficaria tão viciado num perfume, quanto ficou no doce aroma com o qual o doncel o envolvia inconscientemente.
Donceles eram seres únicos e Sirius Black fora elevado ao patamar de "divindade particular de Snape". Evidente que evitava alardear essa informação, afinal, o animago já aprontava muito mais do que devia sendo apenas o "pacato esposo de Snape". Sirius não precisava de mais estímulo para as suas sandices, precisava de freio, algemas, barras de ferro e se voltasse a aprontar das dele, cogitaria o completo cárcere privado.
O toque dos lábios e as mordidas no queixo levaram o professor de volta ao ato carnal que encenavam. Como pôde, Sirius rodeou o marido com as pernas, ao que Snape aproveitou para se acomodar melhor, indo mais fundo ainda, imergindo a Sirius e a ele mesmo nas profundezas prazerosas que conseguiam criar só com o mais leve roçar de peles.
_Sev! Mais rápido!
Ah, o professor não atendeu a esse pedido, mantendo o ritmo lento e firme. Não queria provocar nada além de deleite no esposo, portanto, sustentou aquela dança de movimentos repetitivos, embora sempre únicos.
_Por Merlin!
Sirius entendia o motivo daquela tortura enlouquecedora, mas estava a ponto de colapsar. Sentir o falo duro do marido tomando-o com estocadas precisas, direto em sua próstata e, ao mesmo tempo, perceber como ele adiava o clímax para evitar que sentisse qualquer dor... Como não amar aquele homem?
_Sev, por favor... Por favor...
Não demorou muito mais para que Severus se derramasse dentro dele num jorro quente e molhado, que levou o doncel a gozar em igual intensidade, agarrando-o e marcando-o com as unhas.
Cada vez que se uniam daquela forma pensavam em como era injusta a vida. Por que todo aquele prazer era tão efemeramente ensandecedor? Por que aquele fogo não os consumia de uma vez? Afinal, as cinzas de ambos teriam muito mais facilidade em se misturar, para sempre, de uma vez por todas.
_Está bem, Sirius?
Um murmúrio positivo foi tudo que ouviu. Acomodou-se com cuidado e logo o esposo o fazia de travesseiro. Caiu no sono em seguida, a mente enfim desconectada dos problemas, inebriada pelo perfume que tanto amava e no qual já estava, irremediavelmente, viciado.
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_Lucius, por que você não dorme um pouco?
_Eu não consigo conciliar o sono, mamãe. Vendo-o assim... Ainda não controlo bem meus próprios medos. Temo perdê-lo. Temo que Remus desapareça da minha vida, tal qual Narcisa.
Esther conhecia aquele sentimento com a propriedade de quem o havia experimentado mais de uma vez. Ela havia planejado ir dormir cedo, pois no dia seguinte, seguindo lhe fora dito, conhecia o filho de alucius e o esposo, mais um homem grávido. Quem poderia imaginar? Há alguns meses atrás, chamaria de bêbado, drogado ou vagabundo quem tentasse lhe convencer de tal absurdo. Já agora, estava era mesmo bastante animada ante a possibilidade de, enfim, ter contato com eles.
Frederick fora deitar logo depois que ela desceu as escadas, em direção à cozinha. Decidiu ela mesma preparar um chá para Lucius. Quem sabe assim ele não conseguiria relaxar um pouco? Entretanto, o chá pouco efeito fez e lá estava o loiro contando seus medos, enquanto acariciava uma das mãos de Remus.
_Escute com atenção, filho: eu entendo o que está sentindo, mas Remus está aqui, não tão bem quanto deveria, mas vivo e em recuperação. Quando os pais de Frederick faleceram, fui tomada por emoções desconcertadas, como as suas agora. Eu velava o meu neto, dia e noite, mal cuidando de mim mesma. Eu, tola então, acreditava, assim como você agora, que meu neto precisava da minha atenção 24 horas por dia, pois algo terrível poderia acontecer a ele também e então... Então eu não teria mais nada.
O esnobe Malfoy apenas assentiu. Ah, aquela mulher realmente fazia eco ao seu próprio coração temeroso.
_Um dia, Frederick se rebelou. Meu Fred sempre foi uma criança tranquila, mas eu o estava sufocando. Compreendi que, por mais que amemos as pessoas, elas não são nossas, Lucius. Não prendemos os outros com o sentimento de posse, é o amor que os vinculará. Compreendi que Frederick nasceu para experimentar o mundo, assim como você e eu.
_Entendo... Contudo, não muda o fato de que Remus pode sofrer outro ataque, ou algo pior.
_Sim, pode... A imprevisibilidade faz parte da vida. E você fará o que com o seu parceiro? Não o conheço tão bem, mas pelo pouco que pude avaliar, Remus me parece ser um homem independente e que não aceita ser subjugado. Você fará o que então: prenderá Remus numa torre? Acha que ele aceitaria? Ora Lucius, isso é antiquado até para mim que já estou dialogando com a morte.
_Mamãe... Não gosto quando fala assim...
_Certo, certo... Mas sei que foi capaz de compreender o meu ponto de vista.
Lucius apenas sorriu, voltando os olhos tempestuosos para o lupino mergulhado num sono profundo.
_Sabe mãe, a tal torre é uma sugestão deveras convidativa.
_Não seja possessivo, meu querido. Tratar seu parceiro como se fosse sua propriedade aniquila qualquer relação. Possessividade é tão maléfica quanto o desprezo. Bem, vou me deitar. E você, por favor, durma. Amanhã seu filho virá e creio que terão muito o que conversar.
Esther se despediu com um beijo, enquanto Lucius absorvia as palavras trocadas naquela estranha conversa. É claro que ele sabia que Remus nunca aceitaria ser tratado como uma mera posse... Contudo, Remus teria que aceitar seus cuidados. Caso não o fizesse, não teria outra opção além de realmente aprisioná-lo numa torre.
Alheio aos debates intensos sobre seu (quase certo) destino, Remus nem ao menos sentiu a noite passar. O poder dos medicamentos o manteve num torpor profundo, levando-o simplesmente a acordar no dia seguinte, ao nascer do sol.
A dor o atingiu como ferro em brasa, mas o desconforto maior durou apenas alguns segundos. Fato: ser um lupino tinha lá as suas vantagens. Uma delas era estar acostumado com a dor, fosse a moral, por ver-se refém de uma maldição que o acompanharia até a tumba, fosse a física, tendo em vista a brutalidade das etapas zoomórficas, até verter-se num lobisomem completo.
Enquanto via a luz do sol se fortalecer janela afora, a mente lhe mostrava fragmentos do que julgava ser o dia anterior. Refazendo os acontecimentos passados, o dia começou com a constatação de que Lucius Malfoy era um controlador deveras abusado. Teve uma conversa mais acalorada com ele, devido às roupas luxuosas que, agora, era o que tinha para vestir.
Depois, assim que descobriu aquele absurdo, mal pensou sobre a maneira como estava atuando. Agiu de forma impulsa, tal qual o amigo Sirius. Logo estava no beco diagonal, com ganas de fazer Madame Malkin engolir cada um daqueles estúpidos bordados. Então surgiu a primeira falha... Não pôde definir ao certo qual foi o real caminho que tomou. Ficou tudo meio nublado...
Já a imagem de um jovem ruivo e de muitas roupas em araras o convenceu de que sim, havia chegado ao ateliê da modista. Ah, era um dos filhos de Arthur. Encontrou-se por acaso com o filho mais velho de Arthur na Madame Malkin e então... E então veio a lembrança amarga da dor. E o seu corpo se estremeceu.
Era como se pudesse sentir novamente as potentes garras rasgando-o. Ah, sim, eram garras. Ele melhor que qualquer outro bruxo sabia como identificar garras. E o cheiro não lhe deixava dúvidas: um outro lupino o atacou. Quem era? O cheiro não lhe era de todo estranho, mas estava há séculos afastado dos demais de seu tipo. Não tinha certeza. Vira sim parte de um rosto, mas será que era possível?
_Ele está aqui. Compreenda doutora Morse, seu acompanhamento será profissional.
Era a voz de Lucius. O loiro falava do lado de fora do quarto, e só então notou que estava sobre a cama do esnobe... Ergueu-se como pôde, sentando-se dolorosamente, o rosto se contorcendo numa breve careta.
_Creio que a doutora compreendeu muito bem todas as implicações... Caso mencione algo, qualquer pedaço de informação...
_Os senhores foram tão claros quanto água.
O som estava muito próximo agora. E essa terceira voz, a feminina? Ele não faz ideia de quem era...
_Cláusula profissional de absoluto sigilo, acarretando a perda da licença para clinicar por 5 anos, combinada com um voto perpétuo acerca da identidade do progenitor alfa e sobre a condição de ômega do gestante. Realmente, vocês serpentes não brincam em serviço.
_Ora, nem a senhora. Sua proteção mental é prodigiosa. Uma das melhores que encontro em anos, devo acrescentar – e Remus notou algo fantástico: Severus fez um elogio verdadeiro!
A porta se abriu e o quarto foi invadido por três pessoas. Uma delas, a mais esnobe, logo reclamou.
_Por que, por Merlin, você não permaneceu deitado?
_E por que, por Merlin, você está se revelando dessa forma?
Os olhos tempestuosos se voltaram para a medibruxa. Aproveitou para sorrir maldosamente antes de responder ao noivo.
_Não se preocupe, Remus. Informação alguma sobre a minha existência saíra dessa casa. Agora, por favor, volte a se deitar. Os ferimentos podem se abrir...
_Isso não vai acontecer. Devo estar completamente curado até amanhã.
_Remus, por favor, faça o que estou pedindo.
_Lucius, eu já passei por coisas piores – rebateu Remus como se avaliasse o clima.
Snape e Morse de entreolharam e decidiram manter silencio enquanto o casal interagia, ou melhor, debatia... Ou seria, discutia?
_Remus, não ouse ignorar a gravidade disto – e agora o loiro já estava sentado ao lado do lupino. – Deu-me um susto de morte.
O tom de voz cheio de sofrimento fez a irritação nos olhos dourados arrefecer. Acariciou as mãos do veela, sentindo a magia selvagem penetrar-lhe com calma e cuidado.
_Oh, fantástico! Simplesmente fantástico e único! As magias se conectando dessa forma... Nunca antes vi algo parecido.
_Remus, essa é a doutora Morse. Ela cuidou de você em St. Mungus. E após verificar a sua condição e o seu estado, muito gentilmente nos pediu que pudesse cuidar da sua saúde.
O lupino encarou a mulher, o coração acelerado com o que ouviu de Severus. Se havia entendido bem, a tal medibruxa sabia da sua condição... Toda uma grande merda!
_Como assim, após verificar a minha condição e o meu estado?
_O que Severus quer dizer é que após você brigar comigo, sumir e ser atacado por um lobisomem, quem salvou a sua vida e a do nosso filho foi a doutora Morse.
Era impressão sua, ou Lucius ficou agitado? Ora, o que o loiro pretendia ao defender a medibruxa? Havia algo estranho no ar.
_Lucius, talvez seja melhor que eu prossiga com as explicações. Remus, eu tenho conhecimento suficiente para acompanhar a gestação de Harry e Theo, mas não ouso dizer o mesmo sobre a sua. O seu caso ultrapassa o incomum e eu me preocupo tanto contigo, meu amigo... Não posso deixá-lo desamparado, sem os cuidados necessários de que tanto precisará. A doutora Morse é especialista em magos mesclados às criaturas mágicas. Ela foi capaz de descobrir a sua condição de ômega em poucas horas... Creio que esse pequeno fato seja suficiente para que perceba o quanto ela é competente.
_Saiam, por favor – pediu Remus, sem nem ao menos deixar que o prometido falasse. – A senhora, por favor, fique.
A medibruxa assentiu com rapidez, afastando-se da porta. Já Severus nada questionou, anuindo também, aproveitando para lançar a Lucius um olhar significativo.
Demorou alguns segundos, mas o loiro finalmente ficou de pé e saiu do quarto, sendo acompanhado bem de perto pelo pocionista.
_Por favor, sente-se, doutora Morse.
_Apenas Amanda, por favor.
Remus acompanhou os movimentos dela pelo quarto em silêncio.
_Seu parceiro veela é bastante possessivo, se me permite dizer – recomeçou a medibruxa, já sentada numa cadeira próxima a cabeceira da cama. – Bem, creio que qualquer parceiro seria.
_Quem sabe... Então descobriu algo que venho escondendo a vida inteira...
_Senhor Lupin...
_Remus, pode me chamar de Remus. Nada de Lupin e dispenso o senhor, não se preocupe.
_Bem... Remus, eu não vou mentir, pois pretendo, de verdade, acompanhar sua gestação e a relação entre medibruxo e paciente somente se estabelece com confiança.
A mulher tinha estatura mediana, era magra e de os cabelos castanhos de longe lembravam o tom dos de Hermione. À primeira vista, parecia inofensiva, mas algo o incitava a ultrapassar a superfície, por assim dizer. Os olhos dourados se apertaram, analisando-a com todos os seus sentidos lupinos.
_Eu o atendi ontem mesmo, em St. Mungus... O seu caso foi redirecionado para a ala específica do hospital, ala da qual sou parte. Eu chefio o Departamento de Magos Especiais. Sou especialista em veelas, lupinos, metamorfomagos, enfim, estudei os mais diversos tipos de entrelace entre bruxos e criaturas mágicas.
Ele conhecia aquele departamento. Quando criança, seus pais tentaram de todas as maneiras livrá-lo da maldição. Recorreram inclusive ao dito departamento, contudo, como era óbvio, todas as tentativas resultaram uma grande perda de tempo. Só o que desejava saber era onde a tal Morse pretendia chegar?
_Fiquei muito surpresa ao descobrir a sua gestação, pois, segundo os registros médicos antigos...
_Sei, sei... Para os registros médicos sou apenas um varão completo que, infelizmente, foi contaminado por esse mal das trevas.
_Exatamente. Pode imaginar então como perceber que tinha como paciente um varão lobisomem grávido foi impactante. Creio que foi mais inacreditável ainda depois que fiz outros alguns exames, atentando para uma possibilidade bastante incomum.
_E assim o meu segredo foi descoberto, certo?
Amanda sorriu e Remus sabia que não havia maldade alguma, ao menos não naquele sorriso.
_Sim, eu descobri. Por favor, compreenda minha posição. Sou uma profissional competente e estava diante de um paciente em estado grave, gestando, enquanto os registros indicavam que ele era um varão. Então, procurei encontrar os vestígios das poções e feitiços específicos que alguns varões usam para engravidar, mas nada foi encontrado. Refiz os testes... Imaginei então que poderia estar diante de um caso ainda mais complexo, pois alguns bruxos com ascendência mágica podem engravidar parceiros, sejam estes varões ou não. Mas aí, em seu registro constava “casado” e “cônjuge: Nymphadora Tonks”. Admito que fui um pouco além dos limites, mas era uma possibilidade tão incrível que, desculpe-me, não pude me conter.
O grávido em questão acompanhou em silêncio as palavras da medibruxa. Estava perplexo. Por Merlin, ela era mesmo tão sagaz quanto Severus e Lucius.
_Senhor Remus, quer dizer, Remus, eu ficaria extremamente feliz e honrada por poder acompanhar a sua gestação... Fiquei ainda mais fascinada com o seu caso ao saber que o outro pai é um veela. Não há nada parecido em toda a nossa área de estudos científicos...
_Do jeito que fala, sinto-me um bicho raro – ralhou o lupino, ao que Morse riu com entusiasmo. – É sério... Sabe, ômegas não são assim tão raros quanto imagina. Nas matilhas com as quais cruzei, encontrei alguns. É claro que esses se mantém em sigilo. Outros fogem, antes que os escravizem... Contudo, concordo. Somos poucos, muito poucos.
_Eu, infelizmente, nunca tive a chance de ajudar nenhum desses ômegas. Sabe, certa vez, numa viagem ao Nepal, eu encontrei uma jovenzinha fruto de uma mescla curiosa. Ela era meio bruxa e meio ninfa. Dona de uma beleza estupenda e, por isso, a utilizavam das maneiras mais vis imagináveis. Enfim, eu consegui ajudá-la a sair do Nepal e fiquei muito feliz por conseguir salvá-la da vida de exploração que levava. Eu não vou mentir...
_Já disse isso, doutora – relembrou Remus, sorrindo de forma simpática, pela primeira vez. – Temo apenas pelo futuro. Ser ômega talvez seja ainda pior do que ser “meio bruxa, meio ninfa”... Sabe o que vi alfas fazerem, com machos ou fêmeas? Tem ideia do que pode acontecer caso esse informação se espalhe? A senhora tem um dever comigo: manter o sigilo profissional. Não admito que minha condição se torne pública.
Houve uma pausa na conversa e ambos ficaram apenas se medindo com o olhar. Geralmente, Remus era pacífico e bondoso, mas quando se sentia acuado, ah... O lupino que tanto ocultava saía sem demora, rosnando enfurecido contra quem quer que fosse.
_Eu não sou um monstro, Remus. Não sou mesmo, apesar de, em alguns momentos, também mostrar as minhas garras. Admito: relembrei que a sua condição de ômega deveria constar do registro médico, por simples exigência ministerial.
_Não pode fazer isso!
_Calma, eu não o fiz... Agora, menos ainda o faria. Como disse, não sou um monstro, mas sou muito determinada. A minha amiga “meio bruxa, meio ninfa” está viva graças a essa determinação. Sabe, o senhor gostará de conhecê-la. Ela trabalha comigo, em meu consultório particular. Enfim, estou perdendo o foco... Ontem, quando o senhor Snape tentou impedir que eu cuidasse do seu caso como se deve, confesso, agi ferozmente e usei todo o repertório do qual dispunha, em especial algumas desagradáveis ameaças, para manter-me como sua medibruxa.
_Ah, então foi por isso que senti tamanha inquietação vinda de Lucius.
_Lucius Malfoy... Eu quase desmaiei ao vê-lo. Seu parceiro veela é um varão bastante controlador, mas não creio estar dizendo nada que o senhor não saiba. Enfim, tirando o fato de que o seu parceiro, que está morto segundo o Profeta, está mais vivo e é mais ardiloso do que qualquer outro varão normal, ele e o senhor Snape tomaram providências para que seu segredo se mantenha enquanto tal. Portanto, Remus, não se preocupe. Ninguém conhecerá sua real condição. Um varão grávido não é, de fato, nenhuma novidade no Mundo Bruxo e é assim que o seu caso será tratado.
_E se eu não aceitar a senhora como medibruxa, doutora?
_Bem, eu me comprometi a não revelar seu segredo. Entenda como um passo rumo à consolidação de uma relação de confiança entre nós, Remus. Sou determinada a conquistar conhecimento e não vou esconder: tenho profundo interesse em seu caso. Não apenas por motivos acadêmicos, como também porque sei que sou capaz de ajudá-lo. O senhor Snape é extremamente habilidoso e mais que reconhecido pela forma única com a qual conduz um laboratório de poções, entretanto, o seu caso exige muito mais e eu sou capaz, plenamente capaz, de fornecer todo o apoio do qual o senhor necessitará.
_Colocando dessa forma, não vejo outra saída a não ser permanecer sob os seus cuidados...
Amanda Morse sorriu.
_Agradeço muito, Remus.
_Não precisa agradecer... Imagino o que esses dois fizeram para que permitissem que chegasse até aqui.
_Eu tampouco contribuí para que agissem feito cordeirinhos – e agora sustentava uma face mais sacana.
_Já que é minha medibruxa oficial, poderia, por favor, retirar essas bandagens – pediu Remus, referindo-se, em especial, aos curativos que lhe cobriam parte do rosto. – Tenho um filho pequeno e caso ele me veja assim, ficará bastante assustado.
_Certo. Proponho o seguinte: farei uma análise completa do seu estado e dos avanços da recuperação dos ferimentos, depois usarei um truque ou outro para melhorar o aspecto do seu belo rosto, Remus. Sabe, compreendo a possessividade do senhor Malfoy,
O lupino não estava acostumado com elogios. Apenas balançou a cabeça positivamente, tentando ajudar o máximo que podia na avaliação da doutora. Não é que estivesse caindo rápido demais na lábia da medibruxa, mas se ela havia passado pelo crivo de Lucius e Severus, não havia perigo algum.
_Os registros dos seus exames médicos serão todos confidenciais, pode ficar tranquilo quanto a isso.
Mais de uma hora havia se passado quando ouviu o toque na porta. E ele sabia muito bem quem era: o loiro controlador abusado e esnobe, ou seja, Lucius Malfoy.
_Tudo bem?
É claro que Lucius não esperaria pelo seguinte ato ao bater na porta, ou seja, um “pode entrar”. Ele simplesmente entrou e Remus percebeu a inquietação nos olhos cinzas.
_Tudo bem, senhor Malfoy. O seu companheiro está se recuperando com rapidez. Os curativos do rosto já não são necessários, mas os do tórax precisam ser trocados hoje e amanhã. O professor Snape poderá realizar esse procedimento com perfeição. Coletei algumas amostras. Terei os resultados em dois dias, tempo suficiente para que os ferimentos se cicatrizem. Volto em dois dias, certo?
_Certo, doutora – concordou Remus, bem mais relaxado por não ter o rosto vendado como se fosse uma múmia. – Ah, traga a “meio bruxa, meio ninfa”. Fiquei curioso...
_Farei como deseja então... Até breve, Remus. Toem as poções indicadas, nada de movimentos exagerados e esforço demasiado. Repouse bastante e logo, logo estará novinho em folha. Senhor Malfoy, até breve, não precisa me acompanhar – e saiu tão rápido, que não deu a Lucius a chance de se despedir.
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