Submisso
56 Capítulo 56 - Famílias
Notas iniciais
Capítulo 56 — Famílias
O dia havia sido mesmo exaustivo para Ronald Weasley. Azkaban se mostrou ser o caos da organização. E estava mesmo feliz por não ter ficado lá o dia inteiro. Depois de deixar Nulan e Drake perdidos entre formulários e formulários, apressou-se para não perder mais tempo das aulas daquele dia. E então, após horas de infindáveis aulas teóricas acerca de feitiços reflexivos, pôde enfim chegar a casa.
Passou pelos aurores no quintal, acenando d eleve para eles e chegou à porta dos fundos. A Toca estava calma demais, algo que notou mal adentrou a cozinha. Não ouviu a voz da mãe que, sempre – e sempre mesmo – estava presente no ambiente, como se fizesse do lar. Pela hora (já havia anoitecido), o pai deveria estar sentado numa das poltronas, remexendo em algum artefato misterioso trouxa. Nem Madeleine não estava correndo atrás dos gnomos do jardim e a lareira jazia silenciosa, sem nenhuma mensagem dos irmãos... Estranho.
_Mãe?
Nada... Pronunciar “mãe” sempre resolvia todas as dúvidas dentro da Toca...
_Pai? Madeleine?
Nenhuma reação... Subiu a escada e só quando estava no segundo andas, pôde ouvir algumas vozes. Falavam, quase sussurrando, mas ele tinha bons ouvidos.
“Deveria ter contado ao Rony. Ele teria ido imediatamente.”
“Não quis preocupá-lo. Eu estou bem. O senhor Weasley nem precisava ter ido pessoalmente falar com os meus pais. Eu só vim aqui antes para contar à Madeleine”.
Enquanto se aproximava, as frases trocadas entre Molly e Hermione ficavam mais nítidas.
“Obrigada, tia Mione.”
“Ah, não me agradeça, meu amor. Ainda não pudemos ajudar muito, mas o faremos.”
Antes que pudesse chegar ao cômodo do qual provinham às vozes, o mesmo no qual Sirius ficou hospedado, a porta do mesmo se abriu, revelando uma menininha muito fofa, cujos cabelos cacheados se moviam com os pulinhos dados por ela. Crianças não andavam... Ou pulavam, ou corriam, fato!
_Olá tio Rony! – E as vozes dentro do recinto silenciaram.
_Olá, minha linda! – E já tinha a garota no colo.
Madeleine o beijou na bochecha e disse:
_Agora só falta você, tio. O meu papai é forte, mas precisa da nossa ajuda também.
Ronald a colocou no chão e a viu sumir escada abaixo. Resignado a ter que lidar com a misteriosa filha de Rita Skeeter, caminhou até a mesma porta e entrou no quarto.
_Boa noite, filho.
_Boa noite, Ron...
Hermione estava deitada na cama, o rosto visivelmente abatido. Molly sustentava uma expressão que ele reconheceria até de olhos fechados: preocupação.
_Boa noite... – E se aproximou da cama, sentando-se na beirinha do colchão, aproveitando para mirar bem de perto à namorada. – O que aconteceu? Por que está tão pálida?
A castanha nada disse e os olhos do ruivo faiscaram na direção da matriarca Weasley.
_Está tudo bem. Hermione só precisa descansar. Eu vou preparar o jantar.
A ruiva os deixou e a castanha respirou fundo.
_Hermione, o que aconteceu?
Sem ter como se evadir daquela conversa, começou a falar. Não é que tivesse algo a esconder do namorado, ao contrário. Contudo, conhecia-o bem. E o aspirante a auror poderia ser tão ou mais controlador que a senhora Weasley.
Enquanto falava, deixava claro que tudo foi feito com muita cautela. E o imprevisto veio e abarcou a todos, sendo muito mais problemático para o casal Black-Snape. Não poderia comparar o que estava sentindo (cansaço e languidez) com o estado no qual Snape se encontrava. O professor precisou usar de muita magia e, para deixar tudo ainda mais complexo, precisaria lidar com o esposo em recuperação.
_E Sirius?
_Ele está medicado e estável, mas eu gostaria muito de ir visitá-lo. Amanhã mesmo. Agora me conte... Alguma novidade sobre o caso? Eu não pude concluir minha análise da obra do professor Voronin... Estive pesquisando sobre o Suspensio Animae, mas há algo, Ron, sei que há e...
_Shiii... Chega por hoje, Hermione... Deixe as pesquisas e livros pra lá, só por hoje... Você deveria ter me contado o que tinha acontecido. Eu teria...
_Teria o quê? Ido a St. Mungus? Teria impedido que verificássemos se estavam ou não sob o feitiço? Ronald Weasley, não sou uma menininha frágil. Seu mais sobre feitiços do que os seus amados Nulan e Drake!
_Eu não disse que não sabia... Só me assusta... Não, me apavora a ideia de você se ferir, Hermione. Ainda tenho pesadelos com Belatr...
A castanha o beijou, impedindo que continuasse. Depois o abraçou, sussurrando um “eu te amo” bem ao pé do ouvido. Já Ronald apenas a abraçou mais forte, a mente trabalhando em todas as direções. Precisava contar à namorada sobre as últimas descobertas.
_Prometa-me, Mione... Prometa-me que não se colocará em perigo, desse jeito, mais uma vez.
Hermione sorriu. Ah, como aquele doce ruivo poderia ser tão incoerente?
_E é o que me pede o meu namorado que, vejam só, será auror em breve?
_Mione... Eu não vou permitir que nada te aconteça e...
_Certo, certo... Não vamos voltar a discutir sobre o que achamos que é perigoso ou não. Eu prometo que não farei nada estúpido. Prometo! Foi imprevisto Ronald. Não sermos mais tão inocentes. Estamos lidando com alguém poderoso e muito maquiavélico. Sinto que tudo caminha para algo bastante ruim... Temos que elucidar esses crimes e o motivo de estarem ligados a Draco e a Harry...
_Hermione, entenda... Eu não estou te subestimando, nem de longe... Contudo, só de imaginar você em risco, perco o ar... Você é tudo pra mim, é parte da minha vida, parte da minha família... Você é a minha futura esposa!
_Ron... – E sorriu, sábia e maliciosa. – Você acabou de me pedir em casamento!
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_O feitiço escudo foi rompido.
_Como? – Questionou bastante irritado.
_Como posso saber? – Respondeu de maneira ríspida. – Foi ontem. Soube faz alguns minutos... Sabe o que ocorrerá em mais algumas horas, certo?
A expressão irritada criou estranhos desenhos nas chamas que, naquele momento, compunham na lareira o rosto de um dos grandes manipuladores da opinião pública da sociedade bruxa.
_Era seu dever cuidar para que o feitiço fosse mantido.
_Escute bem... Eu fiz a minha parte. Não tenho culpa se vocês subestimaram o traidor – e interrompeu o contato, desaparecendo em seguida.
O ambiente estava claro e havia um leve aroma de café fresco no ar. Deixou-se envolver por ele, imaginando o que aquela notícia lhes traria de potenciais problemas.
_Ouvi vozes? Conversava com quem?
Ele apenas o encarou, os olhos frios e sem nenhuma felicidade.
_O feitiço escudo foi rompido pelo traidor.
_Maldito Snape. Eu deveria tê-lo matado... Ainda posso fazer isso...
_Não! Sabe que não podemos, não agora... Deixemos que tentem desvendar algo. Não há nada naquela mente vazia que possa lhes servir.
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Mais um dia se iniciava para Adam Taylor. A reunião com o ministro ainda ecoava em sua mente... Na verdade, nem de longe imaginou que voltar a ter contato com o professor Snape e os Malfoy pudesse ser tão complexo. A magnitude dos problemas nos quais os seus antigos clientes se envolviam era... Assustadora.
Pelo menos, e nisso poderia se apoiar, tinha um novo e delicioso objetivo entre os planos de vida... Certo moreno, de cabelos ondulados, toda uma gostosura. Vinha pensando há algum tempo... Ele já não era um adolescente. Estava na hora de sossegar e formar uma família. Ah, e imaginar ter Andreas só pra ele era, no mínimo, excitante.
Perdeu-se entre pensamentos nada pudicos com relação ao jovem de ascendência grega, além de se dedicar minimamente aos seus afazeres jurídicos... E já estava no meio da manhã quando foi surpreendido por algum potencial cliente (que não tinha marcado hora).
_Por Merlin, preciso mesmo contratar uma secretária – resmungou enquanto ia até a porta imaginado o porquê de ainda não ter resolvido essa questão antes.
As batidas na porta se repetiram e qual não foi sua surpresa ao vê-lo.
_Senhor Lupin?
Remus Lupin apenas o cumprimentou e, quando convidado, adentrou o recinto.
_Ora sente-se, senhor... Por que não usou a lareira? Teria sido muito mais cômodo...
_Oh, não se preocupe. Eu estive na residência dos Weasley. Meu filho Teddy quis ficar lá por mais alguns dias... Oh, isso não vem ao caso. Bem, depois fui ao Olivaras, a Floreios e Borrões... Enfim, tive uma manhã atribulada e bem longe de Prince’s House. E como estava aqui perto... Resolvi aproveitar a viagem. Severus iria me ajudar, mas preferi deixa-lo em casa...
_Deseja um chá... Um café?
_Ah, um chá, se não incômodo – e se sentou, tendo um chá em mãos poucos instantes depois.
Adam se serviu de um café e se sentou próximo ao lupino. Sentia que havia um problema (mais um) em vista!
_Diga senhor Lupin... O que o trouxe aqui? Em que posso ajuda-lo?
_Só Remus, por favor... E, bem. Eu preciso dos seus serviços profissionais. É algo urgente... E potencialmente problemático. Preciso me divorciar oficialmente e também ter a guarda plena do meu filho. Na verdade, segundo a minha ex, serei citado em breve...
_Bem, é uma questão rotineira para a justiça... Não é nada tão complexo assim, talvez apenas a guarda plena do seu filho, tendo em vista a tendência atual dos tribunais mágicos em priorizar os interesses da criança, ou seja, uma guarda compartilhada. Remus, acalme-se... Podemos pleitear sim, obviamente...
_Não creio que seja tão fácil quanto diz... Não quando envolve a cúpula do departamento de Aurores, meu caro...
O advogado apenas sorriu maroto, com visível felicidade, imaginando o que estava por vir.
_Não ria... Sabe com quem fui casado? Sabe com quem ela está se relacionando no momento?
_Ah, Remus... Evidentemente, eu não sei, mas... Adoro desafios!
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_Nossa, pensei que não fosse ter o prazer da sua presença no café...
As palavras do loiro foram dirigidas a certo moreno de olhos verdes que, com os cabelos ainda bagunçados, chegava ao jardim, local no qual Dobby, todo um bajulador sem fim, havia preparado um delicioso desjejum, especialmente para ele.
_Você nem trocou o pijama... Vem aqui, vem... – Pediu Draco, a mão esquerda estendida em na direção do esposo.
Meio aos tropeços, Harry se aproximou. A mão do marido o conduziu de leve, fazendo-o se sentar nas pernas firmes do esnobe Malfoy. Aproveitando o momento de sonolência, o abraçou e beijou sem vergonha alguma.
_Por que não em acordou? – Perguntou enquanto ajeitava os óculos.
_Eu tentei, Harry... Mas você estava tão cansado que, simplesmente, me ignorou.
Draco acariciou o ventre já volumoso do esposo. Lá estavam as suas preciosidades. Como pôde viver tanto tempo sem aquela felicidade? Não chamaria de viver o tempo sombrio no qual esteve sem aquele amor tão intenso... Não tinha explicações racionais... Sabia apenas que não permitiria nunca que o deixassem nas trevas, mais uma vez. Mataria por ele, por aquele amor. Faria qualquer coisa se o resultado fosse manter Harry junto a si, Harry e as suas princesas.
Harry sentiu a magia veela se conectar com a sua e com dos bebês. Era uma sensação única de completude. Era como se cada partícula do seu corpo soubesse que aquele ali era o seu lugar...
_Você está lindo, sabia? Nunca antes ver um doncel grávido me pareceu tão... Atraente...
Harry riu alto. Atraente? Ele estava se sentindo tudo, menos atraente. Tinha os mamilos doloridos e inchados (e por Merlin tinha que conversar com Hermione, pois suspeitava que não ficariam apenas inchados), o quadril ganhava mais contornos e a barriga já despontava... Como Draco poderia dizer tamanha bobagem?
_Atraente? Oh, por Circe... Você só pode ter batido a cabeça...
_Não entendi... Por que disse isso?
_Draco, eu não estou nada atraente. Estou gordo e...
_Gordo?
_É, gordo! Logo, logo vou estar maior que a tia Guida-balão!
O loiro não entendeu a comparação, mas decidiu ignorar e abraçar a sua família com mais força. Sim, família... Ali, entre os seus braços tinha a sua família: Harry e suas meninas...
_Não vai mais gostar de mim quando eu estiver feito uma bola de basquete! – E exasperou-se, porque, afinal, nem ele entendia o motivo de estar tão alterado. Era estúpido e fútil, mas não podia evitar.
_Amor, você não está gordo, está grávido... E mesmo que você estivesse gordo... E daí? É a você que eu amo, Harry Potter. E nunca, nunca mesmo, senti tanto desejo e amor antes, por ninguém. Você é a minha pessoa mais especial e importante.
Draco aproveitou para acariciar a barriga do esposo mais uma vez, deliciando-se com o toque, com a esfericidade que, sabia, abrigava com zelo as suas meninas.
_Você me tornou pai e marido. Não há como medir meus sentimentos por você, Harry Potter...
_Mesmo eu estando gordo?
_Ah, Harry... Você não ficaria gordo nem que quisesse muito... Faço questão de que queime as calorias comigo, todas as noites – e o beijou na nuca, o ponto fraco do doncel.
Harry se estremeceu. A prazerosa corrente elétrica se espalhou incontrolável pele abaixou. Gemeu sem pudor, mesmo que tentasse se afastar. Precisava conversar com Draco e, caso continuassem com aquele beijo, não seria capaz de concatenar palavra alguma.
_Draco... Espera... Não faz isso – e foi todo um custo se afastar da habilidosa língua do marido que, incrivelmente, já estava passeando pelos seus ombros.
_Ei, volta aqui!
_Não mesmo, seu pervertido – disse o doncel de forma bastante decidida, já sentado numa das cadeiras (numa distância segura do veela faminto).
Draco lançou alguns feitiços e diante do moreno surgiu o desjejum adequado para um doncel grávido – e com sérias restrições alimentares. Resignado, Harry nem reclamou dessa vez.
_Como está o seu dia hoje?
_Cheio, Harry. Empresa, Faculdade, aulas de direção... Farei o possível para almoçar contigo, contudo, não sei se conseguirei.
_Eu gostaria de visitar meu padrinho... E também ver o seu...
_Não! – E os olhos verdes o encararam, completamente confusos. – Não termine... Temos muita companhia, não acha?
O doncel resmungou algo como “não sou idiota, Malfoy”...
_Se eu não posso usar a lareira, nem aparatar... Então eu quero aprender a dirigir também.
_Como é que é?
_Ora, eu não consigo ficar dentro de casa, como se eu fosse um inútil, ou um prisioneiro... Quero ver os meus amigos, o meu padrinho. Estou me sentindo sufocado!
Os olhos cor cinza se nublaram com rapidez... A mudança foi tão brutal, que Harry se intimidou ante a transformação abrupta. Afinal, não entendia o motivo... Por que o loiro o encarava como se estivesse diante de um hipogrifo cantante?
_Por que está fazendo essa cara?
_Sob hipótese alguma permitirei que meu esposo doncel grávido saia por aí, sozinho e desprotegido, conduzindo um veículo trouxa!
_Ora e por que não?
_Por que não? Por Merlin, Harry! Você não pode estar falando seriamente...
_Você mesmo disse que é fácil...
Um Draco bastante furioso ficou de pé e se despediu com um “espero que você esteja mais coerente quando eu voltar”. E então, simplesmente, aparatou, sem deixar que Harry dissesse mais nada sobre as aulas de direção...
Depois de alguns minutos de surpresa, Harry ficou igualmente irritado. Mais alguns minutos e a irritação virou fúria... Outros minutos transcorreram e bateu a frustração por não ter com quem esbravejar... Mais um tempinho se seguiu e mergulhou numa decepção, sentindo-se realmente sozinho e infeliz... Precisa minimizar aquela sensação amarga que se instalara bem na ponta de sua língua...
_Dobby!
O elfo aparatou tão logo ouviu o chamado.
_Sim senhor... Oh, amo Harry... O que foi? Sente-se bem?
Harry não entendeu o motivo da pergunta até perceber que estava chorando... Malditos hormônios. Parecia uma debutante desvairada!
_Sim, estou ótimo... Por favor, Dobby, eu preciso de sorvete de chocolate.
_Não há mais nada com chocolate, senhor.
_Sem chocolate?
_Sem chocolate... Nem doce... Nem nada, amo Harry. O senhor deseja uma salada de frutas?
Harry recusou e agradeceu ao pequeno elfo. Sem chocolate? Ah, agora estava realmente decepcionado. Optou por voltar ao quarto... Foi dominado por uma estranha e inexplicável tristeza o que, evidentemente, não fazia sentido algum.
Estava mesmo irritado por Draco agir feito um machista troglodita, óbvio. Nem que ele fosse uma mulher, ora! Mas se sentir deprimido? Em minutos ir do céu ao inferno? Por Circe... A gestação era mesmo algo complicado. Esperava que o padrinho não padecesse dos mesmos problemas...
Perdeu o apetite, a paciência e o ânimo... Queria apenas voltar a dormir. E foi o que fez. Ainda descabelado e vestindo o pijama, em pouco tempo alcançara a cama. Cobriu-se com os edredons macios e ficou ali, apenas processando a maneira como fora tratado por Draco. Odiava-se por se sentir tão triste por conta das palavras ditas pelo loiro... O que ele pensava afinal?
Talvez o marido acreditasse que ele fosse se transformar, sei lá, numa dona de casa. Nada contra, claro, mas essa nunca foi a vida que imaginou para si... Na verdade, ele nem sabia mais qual era a vida que tinha imaginado pra si. Antes, quando vivia com os tios, só pensava no que não queria para a vida: não queria mais se sentir abandonado, não queria mais ser vítima de maus-tratos... Depois, quando ficou um pouco mais velho, pensava apenas em sobreviver às investidas de Voldemort e em salvar os amigos das garras daquele louco.
Foi vitorioso e sobreviveu à profecia. E então, eis que finalmente teve um tempinho para ser Harry Potter, só Harry Potter... Ignorou a proposta de carreira ministerial e foi jogar quadribol. Lembrar-se do tempo no “Harpias” era gratificante. Realmente gostava de jogar quadribol. Contudo, nada era fácil para ele... Mais uma reviravolta fez sua vida se transformar completamente. A doncelaria acabou com parte das expectativas que tinha sobre o futuro e, felizmente, criou novas possibilidades...
Não podia deixar de pensar que a sua vida sempre estaria marcada pela tragédia. Estava grávido de gêmeos, tinha um marido (um marido!), quando ele mesmo nem chegou a cogitar a possibilidade de namorar homens. E o que sobrara dele, Harry Potter? Nem sabia mais... Já teve essas dúvidas antes... E volta e meia elas o perturbavam, tirando-lhe a paz. Estava perdido...
Tempos depois, sentiu que mãozinhas pequenas o balançavam com cuidado. “Amo Harry... Suas poções”... Meio sonolento, deixou-se cuidar pelo leal amigo. “O almoço, senhor...” Ignorou o que mais Dobby dizia e caiu novamente num sono inquieto. Ficou mesmo chateado com o marido, o que se refletiu nos sonhos que teve.
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Remus adentrou a sala e logo retirou pequenos objetos do bolso. Comprara algumas roupas e livros mais cedo. E agora devolvia aos pacotes o tamanho normal. Demorou mais que o imaginado longe de casa, mas o resultado da sua ida ao escritório de Adam Taylor foi positivo.
Era inegável que tinha uma batalha e tanto pelo frente. “Não será tão fácil assim obter uma guarda integral”, alertou-o o advogado. Entretanto, estava mais leve... Sem dúvida alguma. Taylor verificaria se Tonks já tinha, realmente, entrado com o pedido de divórcio... E faria isso naquele mesmo dia. Segundo o próprio, era possível que a citação, caso Tonks estivesse dizendo a verdade, chegasse por esses dias...
Ah, não conseguia desligar a mente. Aulas, Teddy na nova escola, Tonks, Sirius... Sem mencionar a preocupação em pagar os caros honorários do ilustre advogado... É, não estava mesmo fácil.
_Posso saber onde esteve? – E a voz de Lucius o assustou.
O dourado encontrou o cinza e ambos permaneceram ali, conectados, por alguns eternos instantes.
_Perdoe-me por ser tão indiscreto, Remus. Apenas me preocupou bastante não saber onde estava toda a manhã – e Lucius se surpreendeu por realmente, ter ficado preocupado... Preocupado de verdade.
_Ora, Lucius... Imagina... Estamos todos vivendo um momento de muita tensão. É uma preocupação natural...
_Não... É mais do que uma preocupação natural, Remus...
Lucius nunca tinha realmente reparado em Remus Lupin como estava fazendo agora. Os cabelos eram de um castanho bem claro, com prematuros fios brancos. E os olhos... Ah, eram realmente bonitos e vibrantes. Estranhamente, não podia controlar sua imaginação...
Imaginava como seria a sensação de tocá-lo... Imaginava como seria o cheiro dele... Imaginava como seria beijá-lo... Imaginava como seria aquele corpo sem as vestes... Imaginava em como seriam os filhos de ambos... Oh, por Merlin! Como é que poderia estar tendo aquele tipo de reação?
De fato, desde que voltou a ter contato com o lupino, sentia-se envolvido. E não conseguia entender o porquê. Cissa... Mal tomara conhecimento da morte dela e... Ah, malditos genes veela! Sua magia, dotada de herança veela, desejava Remus. Oh, nada bom... Nada bom mesmo...
_Bom, é...
_Comprou livros? – Prosseguiu Lucius, mudando o foco da conversa.
_Sim... Comprei alguns para me atualizar. As aulas retornarão em breve e, bem, os alunos merecem o meu melhor empenho.
Não era mistério algum para o esnobe Malfoy que Remus Lupin era uma pessoa séria, racional e centrada, além de muitíssimo inteligente. Já era assim na adolescência. No pouco contato que tiveram em Hogwarts, costumeiramente o via com algum livro. Remus era um homem admirável, pois, mesmo sendo alvo de grande preconceito, sempre procurou ser gentil... Até com ele mesmo, que não merecia nem uma gotinha de toda aquela dedicação.
_Ah, eu... Bom, comprei algo para você também – e lhe enviou um pacote retangular e estreito.
Surpreso pelo detalhe, Lucius abriu o pacote e nele encontrou uma varinha.
_Comentei com o senhor Olivaras que pretendia presentar o seu filho com uma varinha parecida com a sua antiga varinha... Olmo e fibra cardíaca de dragão. Incomum, mas não tão rara, segundo o senhor Olivaras[1]. Depois que a guerra acabou, o senhor Olivaras se dedicou a produzir muitas varinhas... Ele está com um aprendiz agora... Enfim, tive sorte, eu diria.
_Remus, não tenho palavras para agradecer...
_É um presente, Lucius. Não precisa me agradecer – e sorriu.
_Mesmo que não ache necessário um agradecimento... – E Lucius já estava bem perto dele, os olhos reluzindo interesse. – Eu creio ser deveras importante. Obrigado, Remus. Sinto-me muito querido e lembrado... Agradeço sim, imensamente.
_Use-a com moderação, pois ainda está se recuperando.
_Dedicado, bondoso, valente, determinado, atencioso... –– Você não tem defeitos, Remus.
_Oh, Remus! Ótimo que já tenha chegado e... – Severus saía da cozinha e só ao chegar mais perto dos dois, percebeu que, provavelmente, havia interrompido uma conversa mais... Íntima. – Interrompo? – E o toque mordaz fez o loiro sorrir presunçoso.
_Severus, sempre tão... Preciso...
_Algo ocorreu com Sirius?
_Não... Apenas continua a ser Sirius. Esther está lá em cima com ele...
_É verdade... A manhã praticamente inteira... – Completou Lucius.
Remus não notou o leve tom de reprovação na voz do loiro. Só de ouvir “continua a ser Sirius”, estremeceu.
_O que ele fez agora?
_Não se preocupe tanto, Remus... Ele está bem. Contudo, eu preciso muito mesmo ir a St. Mungus. Hermione entrou em contato comigo há mais menos uma hora. E não queria deixar Sirius sozinho...
Lucius bufou. Sozinho! Ele estava na casa, não? Será que não era mais capaz de controlar um doncel grávido? Por Merlin!
_Como vê, Remus... Minha mãe e eu somos parte da mobília...
_Ora, Lucius. Sabe muito bem ao que me refiro... Esther é uma dádiva, mas só Remus consegue, minimamente, controlar Sirius. Você o estressa, sabe disso.
O loiro não pôde negar aquela grande verdade.
_Vá tranquilo, Severus. Não sairei mais de casa hoje... Teddy ficará na Toca e eu vigiarei seu amado esposo. Com licença... – E sumiu escada acima, deixando os dois sonserinos na sala.
Severus aguardou mais alguns instantes. Queria ter certeza de que ninguém mais o ouviria. Ninguém mais além de Lucius.
_Comece a recomendação, Severus, afinal, está sendo aguardado em St. Mungus, não?
_Sem zombarias, Lucius Malfoy. Conheço bem cada uma de suas artimanhas...
_E...
_Não ouse feri-lo. Não ouse usá-lo. Remus não merece ser tratado dessa forma.
Severus deu três largos passos, invadindo o espaço pessoal do amigo e sendo mirado com surpresa pelos olhos cor cinza.
_Ele é uma pessoa boa de verdade. Considero-o um amigo, um amigo muito fiel, tal como você, Lucius. Remus me ajudou num momento muito difícil... Esteve ao meu lado quando achei que mais ninguém estaria... Sinto por ele verdadeiro respeito. E mesmo te considerando um irmão, não vou permitir que o machuque.
_Fique tranquilo, Severus. Não causarei dor alguma a Remus, ao contrário. Amigo, estou sinceramente interessado. Tal como me senti com Cissa... – E a expressão que sustentou não deixou dúvida alguma ao pocionista.
_Oh, por Merlin, Lucius. Esse olhar não! Você não vai descansar até tê-lo, não é?
_Certamente. E você vai me ajudar, Severus. Agora vá encontrar Hermione... Pansy chegará em breve.
_O que Parkinson... Ah, esqueça. Depois conversamos.
[1] Parceiros e parceiras de empreitada! Eu realmente não me recordo se já tinha colocado essa informação aqui, quer dizer, o Lucius coma varinha. Pesquisei em minhas anotações, mas não pude confirmar. Algum leitor atento poderia me ajudar nessa? Agradeço! BJKS
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