Submisso
14 Capítulo 14 - Arrepender
Notas iniciais
Pensei muito se publicaria ou não esse cap. Acabei decidindo que sim. Não sei a qual caminho essa possibilidade vai levar, tenho apenas um vislumbre. Conto com as críticas, ok? Digam se rola ou não, embora eu não saiba ao certo o que meus planos irão trazer a história, mas eu simplesmente comeceia escrever e não consegui parar!!! KKKK
Sem mais, Arrepender!
Capítulo 14 – Arrepender
A raiva que sentia transbordava por todos os poros. Nunca fora tão ultrajada em toda a sua vida. Bem, talvez, se considerasse aquele lamentável episódio no qual fora, lamentavelmente, mantida em cárcere privado pela escrotinha da Granger... Ah, mas aquilo tinha sido sua culpa. Ela subestimara os fedelhos, sem contar que estava no território deles, a Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts.
Mas agora era diferente. Ela estava no terreno dela: tintas, pergaminho e suaves mentirinhas. Aquele era o seu mundo. Manipulava a informação com maestria, afinal, os anos de profissão não lhe renderam apenas cabelos brancos (todos bem camuflados com uma espessa camada de tinta capilar loiro intenso). Experiência era sobrevivência, em especial, no ninho de cobras onde trabalhava, o Profeta Diário.
O que faria agora? Na hipótese de jogar tudo para o alto e se afastar do Profeta, perderia a publicidade extra, essencial para a nova empreitada profissional: ser escritora. Mesmo que seu editor fosse o mesmo, Barnabás Cuffe sabia separar as áreas profissionais, ou ao menos sempre soube.
Aquela conversinha de “precisamos moralizar o jornal e a editora, querida Rita. Por isso, teremos que repensar a manutenção de algumas publicações”. Certo, certo... Era muito fácil falar com o bolso cheio de galeões, devido aos escândalos que ela noticiava, no jornal ou nos seus livros. Como ele tivera coragem de encará-la com aqueles olhos, em tons claros de chumbo, e afirmar que “a era da verdade chegava ao Profeta”?
Enfim, apesar dos pesares, perder o Profeta não era uma opção viável. Mas, por outro lado, aceitar as novas condições... Ah, era humilhante. Ela tinha um nome, uma imagem... Ela era Rita Skeeter! A colunista dos famosos, aquela que sempre sabe os pecadilhos das autoridades... Não podia acreditar que teria que abrir do que lutou com unhas e fala mansa para conseguir, passando por cima até do que um dia desejou para si mesma.
Receitas culinárias? Obituários? Informações verídicas? Ora, a verdade... A verdade sempre foi um ponto de vista. Ela só fantasiava a verdade, deixava-a mais atraente. Maldito esnobe ex-comensal... É, só podia ter sido Malfoy. Seu contato na recepção do Profeta a mantinha informada de tudo o que ocorria por lá. E a visita de Draco Malfoy não passaria despercebida, não mesmo.
O que aquele loiro metido esperava? Ora, o casamento dele com Harry Potter era assunto de interesse público! E não podia compreender que o deixara tão irritado, afinal, ela noticiou a verdade, certo? Os dois casaram e Potter era um doncel. Bem, ok... Todo o resto foi pura imaginação, mas para que ser tão preciso?
O editor do jornal queria a verdade, então ele a teria. Convocou sua pena de repetição rápida e a alterou para que não mais “fantasiasse” as informações ouvidas, depois se dispôs a falar sobre um dos últimos assuntos noticiados por ela no Profeta; os sequestros estranhos que vinham acontecendo nas duas últimas semanas. Minutos depois, dispôs-se a ler o pergaminho com as anotações literais. Ora, tinha ficado muito bom, afinal, ela jornalista por vocação. Só não era objetiva por convicções particulares.
Continuou a falar ainda num tom laboral, a pena registrando cada pedacinho de informação. Dedicava-se agora a apontar o que, segundo os seus contatos, poderia ser o seu próximo grande furo. “Sombras no Ministério”, assim classificava a possibilidade de corrupção entre os doutos ministros do Mundo Bruxo. Pegou o bloquinho e a pena e releu com atenção. Ora, a velha Rita dos tempos da Universidade teria ressurgido? Estava bom, estava muito bom... Ah, mais nada disso importava agora – e apertou bem firme nas mãos a pena e o bloquinho.
Segundo Cuffe, todos os jornalistas do Profeta fariam cursos de qualificação, pois a proposta do jornal foi alterada. “Compromisso com a verdade, Rita querida. Esse é o nosso lema para a próxima geração”... Certo. Nem ele acreditava nisso! Era mais fácil o fogo, que agora queimava a lenha na lareira, congelar sem feitiço algum, que Barnabás ter algum vestígio de integridade.
Olhava para os seus livros publicados adornando a estante da sua sala, um dos cômodos que mais gostava da sua aconchegante casa. Morava num bairro bruxo, não muito distante de Londres. No momento, morava sozinha. Sua filha Madeleine, uma adorável garotinha de oito anos, e seu ex-marido, um bruxo meio careca de 42 anos, moravam na Londres trouxa, mas a menina a visitava com frequência. Era comum vê-la por ali, correndo pela sala ou desenhando num grande bloco de papel.
Madeleine, para a sua desgraça, era mais uma daquelas raras criancinhas que tinham personalidade forte, com gostos bem definidos. Um bom exemplo era a adoração que a menina tinha pelo Trio de Ouro. Merlin, como ela sofria com essa “mania” da pequena... Evidentemente, Harry Potter era o preferido dela.
Certa vez, a menina chegou a chorar porque não tinha uma “tatuagem” igual a do Eleito. E lá foi ela explicar que, na verdade, Harry Potter não tinha tatuagem alguma (maldita convivência com as crianças trouxas), que era uma “marquinha” de um machucado já curado. Precisou ficar muito atenta a filha depois disso, pois bastava bobear e lá estava Madeleine caindo, sem querer, para se “machucar” e ficar com uma marquinha, como a garota denominava cicatrizes, igual à de Harry Potter.
Assim que ela aprendeu a ler e começou a fuçar nos exemplares já gastos do Profeta, praticamente brigou com a mãe, já que, nas palavras da própria Madeleine, ela estava “falando mal de Harry Potter!” “Ele é uma boa pessoa, um herói, mamãe!” Ah, pensar na menina era tão bom. Já estava com saudade, mas com a divisão da guarda entre ela e o pai, precisava respeitar o espaço do ex-marido. Contudo, a saudade não respeitava decisões legais, não é mesmo?
A separação de ambos não foi conflituosa, nem nada do estilo. Ela e Ivan, seu ex-marido, simplesmente perceberam que a relação não funcionava mais. Eram muito diferentes. Bem, na verdade, sempre foram diferentes em tudo, mas, no começo, isso dava um gás à relação de ambos. Agora não mais.
Respeitavam-se sim, sem dúvidas, mas o sentimento que os uniu no passado deixara de existir. E Rita sabia que era por culpa dela. Ivan e Rita se conheceram na Universidade de Letras Mágicas, ele cursava Latim Encantado, com habilitação em Feitiços Complexos e ela Letras Ordinárias, com habilitação em Jornalismo Bruxo. Desde então, não se separaram.
Mesmo com ideais opostos – Ivan queria se dedicar a teoria pura da elaboração de feitiços, Rita queria a prática, fazer um jornalismo transformador do mundo – o namoro engrenou e os levou ao altar. Bem, aquela era uma Rita que, com os anos, deixara de existir. Ela foi endurecendo com o mundo caótico e em guerra, foi vendo atrocidades sendo cometidas e ninguém fazendo nada para resolver os problemas... Ela se frustrou tanto!
Por mais que as escrevesse em letras garrafais, suas denúncias pouco (ou nunca) eram lidas com a seriedade necessária. Ninguém parecia se importar. Quando foi mesmo que começou a “fantasiar” as informações? Nem se lembrava... Ela simplesmente desistiu daqueles ideais gastos, entregando os pontos. Foi aí que começou a perder Ivan.
A sua desistência de lutar para transformar o mundo, ironicamente, a transformou em outra pessoa. E daí em diante, as diferenças começaram a pesar muito, tornando-se impossíveis de sustentar. Arrependia-se sim de ter desistido. Arrependia-se de ter perdido Ivan... Mas nunca se arrependeria de ter tido Madeleine. Ela era a sua luz particular, a sua pequena artista, a sua única pessoa importante na vida!
A garotinha era a sua esperança. Via nela, a cada dia, aquela paixão pelo mundo, aquela ingenuidade (que em nada tinha a ver com a idade) em acreditar que sim, que o mundo mudaria para melhor. As novas gerações voltaram a acreditar na felicidade e na transformação positiva da sociedade. Via isso em sua filha, viu isso em Harry Potter e seus amigos.
Mas, ela já estava velha demais para mudar, não é? Sua alma agora pesava, enegrecera com os anos de bagatelas, esparrelas, armações e falácias... A antiga Rita teria nojo da atual... Ou será que conseguiria voltar a ser a antiga Rita: romântica, idealista e de alma leve, determinada em fazer o que era certo?
Como se fosse uma transmissão de pensamento, a cabeça de Madeleine surgiu entre as chamas. Mas algo estava errado, ela sentia isso, ela sabia disso. Madeleine, pela hora, deveria estar na aula de dança numa academia trouxa. E estavam se comunicando por flu?
_Mamãe! – O tom de voz era desesperado. E sabia que a filha estava chorando. A pena e o bloco foram arremessados para longe, toda a atenção voltada para a lareira.
_Madeleine, o que foi? O que... – A pergunta não foi concluída. Uma varinha! Tinha uma varinha apontada para o pescoço da sua preciosa Madeleine!
A imagem de Madeleine foi então substituída pela de outra pessoa. Um homem, disso podia ter certeza. Mas era só o que podia identificar.
_Permita a minha entrada a sua residência, Skeeter. Ou a garotinha aqui sofrerá as consequências. – E Rita pôde ouvir o grito abafado da filha. Oh Merlin! Onde estavam os aurores quando se precisava deles?
Ela apenas assentiu e sacudiu a varinha. Não permitiria que sua filha sofresse qualquer dano. Se quisessem, poderiam até matá-la, pouco importava, afinal, o mundo não perderia nada se ela, Rita Skeeter, desaparecesse, não é? Mas com Madeleine era diferente. Ela era doce, linda, genial, toda uma artista... Ela tinha que ficar a salvo, protegida.
Instantes depois, um homem que nunca vira na vida adentrava seu apartamento, arrastando com ele uma menina alta para a idade que o rostinho dizia ter, com fartos cabelos castanhos e de olhos escuros, a cópia em miniatura do pai.
_Quem é você? Solte a minha filha!!! – E avançou na direção dele como uma leoa, mas foi paralisada pelo gemido de dor de Madeleine ao ter o cabelo puxado.
_A varinha, Skeeter.
A jornalista entregou a varinha, a vontade de estapeá-lo se fortalecendo a cada instante. Não era possível identificar o rosto do desgraçado. Algo impossibilitava que as feições pudessem ser vistas com clareza. Talvez fosse algum tipo deturpado de glamour. Mas os olhos, ah, esses ela podia ver com clareza. Eram olhos acinzentados e profundos.
_Para que esse glamour? Não quer que eu te reconheça?
_Ah – outro puxão no cabelo de Madeleine, que deixou mais lágrimas escorrer face abaixo.
Rita xingou baixinho o desgraçado. Não podia se descontrolar, não agora.
_Mamãe!
_Silêncio, criança – e a empurrou de encontro à jornalista. Depois guardou a varinha de Rita no bolso das próprias vestes.
_O papai... Ele... Ah. O papai! – um tremor inumano sacudia a garota.
Rita se agarrou a filha, o pensamento rápido se projetando em todas as direções, tentando abranger as possíveis situações que levariam Madeleine a ter aquela expressão de choque e falar do pai... Ah, daquele jeito! Não, não... Ivan não! Ele era uma pessoa muito melhor do que ela. Se alguém tivesse que sobreviver e ficar com Madeleine, esse alguém tinha que ser Ivan. O terror nos olhos da pequena só a deixava mais desesperada.
_O que você fez, seu desgraçado? O que você fez com Ivan?
O homem riu alto e se aproximou das duas, Rita rapidamente colocou Madeleine atrás de si.
_Eu faço as perguntas aqui, Skeeter – e logo ela sentiu uma dor excruciante que a levou ao chão. Ouvia os gritos dela e de Madeleine enchendo a sala, ambos pontuados pela gargalhada do homem.
Quantos crucius recebeu? Não fazia ideia. Oh, Madeleine... Ela só podia pensar em Madeleine. A garotinha parara de gritar quando o sangue começou a sair de seu corpo. “Filha, filha, calma... feche os olhos. Tudo vai ficar bem”, pedia entre um crucio e outro. Mas Madeleine não caía em conversinhas como aquela. E nem fechava os olhos que transbordavam, lavando o rostinho pequeno e meigo.
_O que... O que quer? Eu... Eu faço qualquer coisa. Mas, por fa-favor... Madeleine... Madeleine longe... longe...
O homem sabia que conseguiria o que desejava dela, então decidiu afastar a menina. Com uma imperius, a mandou para outro cômodo. Depois cuidaria dela. Abaixou-se e se posicionou bem perto de Rita, que arfava no chão da sala.
_Conte-me tudo sobre certo “casamento do ano”, Skeeter. Tudo mesmo. Como obteve as informações, as suas fontes...
_Por que que-quer saber?
_Isso, Skeeter não é da sua conta – e contorceu as mãos, com raiva. – Não esqueça nada, ou eu me lembrarei de visitar a sua filha, antes de ir embora.
Sem opções, a jornalista cantou toda a ópera. Explicou que seus contados no Quadribol lhe informaram sobre o repentino afastamento de Potter. Em St Mungus soube da indefinição do diagnóstico, mas que foi apenas no cartório de registros mágicos que as informações começaram a se juntar. Lá constava a documentação sobre o casamento entre Draco Malfoy e Harry Potter, assim como a alteração do registro do Eleito, de varão para doncel, como exigia a legislação bruxa. Todo o resto (Ilhas Canárias, festa e supostos namoricos) era pura invenção.
_Ora, ora, Skeeter, até que você teve alguma utilidade no final das contas – disse o homem, o rosto indefinível bem perto dela.
Os olhos dele, ah... Ela vira assassinos demais na vida, para não ter aprendido a identificar um deles em potencial. Aquele olhar glacial, sem emoção alguma... Ela sabia. Sabia que o estranho homem não a deixaria viva. Nem Madeleine escaparia. Oh, Merlin! Sua doce menina morreria antes de ir a Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, antes de viver de verdade.
Não! Não! Não! Recusava-se a aceitar que a vida da filha terminaria daquele jeito, pelas mãos de um homem cujo rosto desconhecia. Precisava fazer alguma coisa, qualquer coisa. Ele estava ali, tão perto. Como queria ter forças para matá-lo com as próprias mãos... Talvez, talvez houvesse uma maneira.
_O que... O que fez com I-Ivan, seu porco? – Perguntou reunindo todas as forças que lhe restavam, a pouca lucidez concentrada na última ação que poderia salvar Madeleine.
_Porco? Ah, Skeeter, você me surpreende! – E a ergueu do chão com força e sem nenhum pingo de delicadeza. – Fiz com o seu “Ivan” o que vou fazer com você e com a sua filha.
Skeeter se agarrou a ele, o corpo meio mole devido aos cruciatus. A dor era insuportável, ao sentir cada osso do corpo arder em protesto com o movimento brusco.
_Sabe, eu vou gostar de matar você – e lhe lançou um feitiço, ao mesmo tempo em que sentiu uma leve pressão no bolso das vestes, seguida da voz de Rita: “Bombarda!”. Ah, foi atingido em cheio. Maldita mulherzinha!
A onda de choque produzida pela explosão levou toda a sala inteira pelos ares, não restando mais nada que pudesse sequer se aproximar do aconchego anterior. Pouco depois, Madeleine voltava ao que antes havia sido a sala, o corpo liberado da imperdoável. “Mamãe, mamãe!” era só o que gritava. Não conseguia ver absolutamente nada devido à nuvem de poeira, então se agachou.
Engatinhado pelo chão e tossindo, identificou o cabelo loiro da mãe. Foi até ela o mais rápido que pôde, sacudindo-a em seguida, chamando por ela desesperadamente.
_Mamãe! Acorda! Por favor, MÃE!
Rita abriu os olhos com muita dificuldade. Fosse o que fosse que aquele maldito lhe lançou, sabia que a levaria a morte. Pelo menos seu plano dera certo. Os aurores logo viriam e protegeriam Madeleine.
Tentou guardar consigo as feições da garotinha, ao mesmo tempo em que tentava imaginar como ela ficaria em alguns anos, como seria ainda mais bela e inteligente, como ficaria feliz quando entrasse na escola, como seria o primeiro namorado dela, a faculdade, o casamento...
Ah, chorou por tudo o que não veria... Chorou por tudo o que não compartilharia. Arrependeu-se por saber que seus atos levaram àquele trágico momento e que, no fim, quem sofreria era a mais doce criatura que conhecera: sua própria filha. Esforçou-se o máximo que pôde e acariciou o rosto dela.
_Eu te amo, meu amorzinho. Nun-Nunca se esqueça disso.
_Também de amo, mamãe – e chorava, detestando o tom de despedida que a mãe colocava nas palavras.
Rita sorriu e fechou os olhos, sentindo ainda, mais uma vez, o corpo quente de Madeleine a abraçar.
_MAMÃE!!! MAMÃE!!!
Nada. Nada mais. Nenhuma reação vinha de Rita Skeeter. E Madeleine chorou desesperada. Primeiro o pai, depois a mãe.
_AURORES DO MINISTÉRIO DA MAGIA!
Notas finais
XD
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