Submisso
66 Capítulo 66 – Severa Fadiga
Notas iniciais
Capítulo 66 – Severa Fadiga
Lucius Malfoy abriu os olhos subitamente. Moveu-se com agilidade e logo estava de pé. Percebeu que fora deixado no quarto de Edward. Quando se lembrava do que o cretino do Adam Taylor lhe fizera... Ah, uma pena ele não estar por perto, mas tudo lhe indicava algo deveras interessante: ele se encontrava na mesma residência. Podia até sentir o cheio do mequetrefe!
O vínculo deixara todos os seus sentidos veelas ainda mais apurados... E tudo o que lembrava o vínculo, fazia sua alma se direcionar para Remus. Sabia que o lobinho também estava na mesma residência. Para ser mais preciso, seu parceiro se encontrava no quarto que definiu como sendo de ambos. Não havia mais cordas prendendo-o, tampouco veelas poderosos nocauteando-o com habilidades que ele mesmo jamais teria.
Com passos apresados, para não dizer desesperados, logo chegou até o alvo de sua devoção eterna. Tremia de ansiedade ou seria pavor? O que havia acontecido? Por que Remus tinha o tronco, os braços e o pescoço enfaixados? O bebê! Por Merlin, o bebê!
_Acalme-se, Lucius.
O loiro então se voltou para trás. Nem tinha notado a presença dele...
_Ele foi bem muito bem cuidado, mesmo que eu não queira admitir. Remus está estável e se recuperará logo. Ele é um lupino, mais resistente que qualquer um de nós.
_Estável... – E a voz de Lucius saiu como um rosnado cheio de dor. Estável nem de longe significava bem.
Ajoelhou-se ao lado da cama na qual Remus dormia, tocando-o com cautela. O seu veela procurava confirmar se tudo estava realmente melhor do que as aparências demonstravam, não só com o parceiro, como também com o bebê.
_Estável não é bom o suficiente. Olhe o estado dele!
A magia de Lucius se manifestava de forma instável, algo mais que aceitável diante do triste quadro que via. Doía... Doía um oceano profundo de sofrimento ver Remus ferido, esgotado e enfaixado.
_Lucius, eu não estou mentindo. Foi um ataque e...
_Um ataque que você e Adam Taylor me impediram de revidar! Eu teria...
_Você teria o que, seu tolo? Use os neurônios, Lucius! Quem você acha que fez isso? Quem teria sido capaz de atacar Remus, em plena luz do dia, no Beco Diagonal? Você teria apenas se revelado, se oferecido aos seus antigos captores, numa bandeja de prata.
Os olhos cinzas se arregalaram. O que Severus estava insinuando? Que os mesmos bruxos que o mantiveram cativo e enfeitiçado, por sabe-se lá quanto tempo, agora tinham tentado matar Remos?
_Eu arriscaria minha coleção de caldeirões favoritos nesse palpite – disse Severus, respondendo às dúvidas do loiro, antes mesmo que ele as verbalizasse. – E Remus nunca me perdoaria se permitisse que você se colocasse em risco dessa forma.
_Então Remus pode ser ferido e eu não?
A mão direita do pocionista ficava cada vez mais tensa ao redor da própria varinha. Conhecia Lucius Malfoy com inteireza, fruto dos anos de amizade que ambos travavam. Ele era um bruxo sagaz, contudo, também era um veela... Um veela que estava à beira do descontrole, devido ao estado de saúde do parceiro.
_Não deturpe minhas palavras! Eu nunca pensei algo próximo disso... Lucius – recomeçou Severus com a voz cansada –, por favor, controle o seu veela e volte à frieza Malfoy. Precisamos conversar seriamente sobre as implicações da brevíssima incursão de Remus em St. Mungus.
_O que aconteceu? É algo sobre a saúde dele ou a do bebê? Eu os sinto... O bebê está bem, mas Remus está fraco, tão fraco...
O que Severus tentava evitar parecia à beira de acontecer. Lucius Malfoy, a despeito de toda a pompa e empáfia, dava sinais de que cairia em prantos, ali mesmo, na frente dele.
_Não, não e não! – E nem o pocionista soube como se jogou tão rápido ao lado do amigo, sacudindo-o de leve, fazendo-o ignorar o veela e voltar à frieza Malfoy. – Eu não posso decidir sobre o futuro de Remus, não sozinho. Você é o alfa dele, então não comece a se lamuriar, não agora! Venha comigo – e novamente foi ágil, agora ficando de pé, um dos braços bem firme levantando Lucius junto consigo.
_Não vou abandonar Remus!
_Abandonar? Por Merlin, como vocês veelas são melodramáticos! Só vamos até o escritório. Por favor, Lucius. Não podemos conversar aqui no quarto. Perto dele você não dará atenção nenhuma ao que eu tenho a dizer.
_Não quero abandoná-lo...
_Somente alguns minutos!
Sem esperar por mais uma negativa. Severus o arrastou até o seu antigo escritório, visto que Lucius tinha se adonado daquele ambiente. Em seguida, fez com que o loiro se sentasse numa das cadeiras. Lacrou a porta com um feitiço, só por precaução.
_Severus, se você insistir em me afastar de Remus...
_Não estou te afastando dele, Lucius. Temos um grande impasse em mãos. E o problema envolve o seu amado ômega.
O professor então se sentou numa outra cadeira. Encarou o amigo com urgência. Ele precisava ter completa noção do que estava acontecendo
_Concentre-se em mim por alguns minutos apenas. Depois, eu não apenas devolvo a sua varinha, como também o ajudarei a cuidar de Remus.
_Severus, eu preciso ficar perto dele!
_Remus está estável, protegido e vigiado por nós. E você precisa se acalmar, ou a sua magia irá prejudicá-lo, ao invés de ajudá-lo, sabe disso. Então ouça com atenção e, por favor, espere que eu termine.
O loiro teve certeza: o assunto era deveras grave. Caso não fosse, Severus não estaria insistindo tanto para que se controlasse e o ouvisse. Resignado, assentiu.
_Remus foi atacado por um lobisomem. E não, o lobisomem não foi capturado. Não sabemos quem o atacou. Provavelmente, Remus pode reconhecê-lo. Devemos aguardar.
_Um lobisomem? Em pleno beco diagonal?
_Ouça, Lucius... Ouça... Esse não é, nem de longe, o nosso problema.
_Por isso ele está todo enfaixado? Ele foi ferido brutalmente, não foi? – E Lucius mordeu de leve os próprios lábios, relembrando da dor que havia sentido mais cedo, quando o vínculo lhe indicou o quanto o seu ômega estava sofrendo. – Por Merlin, preciso medir bem as palavras ao contar a Edward o que ocorreu com o pai dele...
_Posso prosseguir?
O veela assentiu mais uma vez, em silêncio.
_Remus foi bastante ferido e perdeu muito sangue, mas temos que nos focar no que é essencial agora. Teddy não sabe de nada ainda e só voltará para casa amanhã, logo...
_Como assim? Para onde você o mandou?
_Eu não o mandei a lugar algum, Lucius. Teddy está com a mãe. Ela esteve aqui há alguns minutos e o levou para passar a noite com...
_Por que isso? Ela não tem mais nada a ver com o meu filho, muito menos com o meu Remus!
_Seu filho? Não está falando de Teddy, está?
_É claro que eu estou! Edward é meu filho agora! Aquela auror desengonçada não pode entrar aqui e levá-lo!
A magia veela reverberou nos ouvidos do professor. Ah, por Merlin, estava começando a não gostar tanto dos veelas ciumentos.
_Nymphadora Tonks é, para todos os efeitos, a mãe de Teddy. Tivemos um impasse em St. Mungus e, sem ela, Remus ainda estaria lá, à mercê daqueles tolos de túnica. Foi toda uma epopeia entrar em contato com os aurores hoje. Tonks comentou por alto o motivo: Azkaban foi invadida, mas não quis, ou não pôde entrar em detalhes. Demorou um pouco, mas conseguimos entrar em contato com o Departamento de Aurores. E ela esteve no hospital para que pudéssemos trazer Remus para casa e...
_A metamorfomaga não tem mais nada a ver com o meu Remus! – Interrompeu-o o loiro, bufando, a invasão de Azkaban sendo ignorada completamente. Remus era mais importante que tudo para Lucius que, só permaneceu sentado na cadeira, porque Severus o conteve.
_Você pode ter usado de artimanhas sujas veelas para romper o vínculo mágico entre Tonks e Remus, mas ela ainda é a esposa dele, segundo a lei bruxa. Somente ela pôde assinar à alta, Lucius. Deixe de tanta infantilidade! Eu ainda nem consegui chegar perto do que tanto preciso contar, por Merlin!
Havia mais? Ora, por Merlin, o que poderia ser pior? O loiro procurou se controlar para ouvir Severus com a necessária atenção.
_A condição de Remus foi... Descoberta. Há uma medibruxa, Dra. Morse. Ela é especialista em “magos especiais”. A questão é muito simples, Lucius: a Dra. Morse fez exigências em troca de manter-se em silêncio acerca da condição de Remus.
_Ela não pode violar a privacidade dos pacientes dessa forma!
_Ah, nesse caso ela pode sim. A lei exige registro e acompanhamento de todos os varões gestando, da mesma forma que faz com os donceles, embora, saibamos, no caso dos donceles tudo é mais flexibilizado. Já o caso de Remus é ainda mais peculiar. Ele não é só um varão gestando: ele é um lobisomem ômega gestando. A tal Morse relembrou esse fato. Destacou que os registros médicos deveriam ser alterados, deixando explícita a condição de ômega... Consegue compreender a gravidade do problema?
_Claro que consigo... A Dra. Morse desparecerá, Severus – e estava mesmo furioso.
_Você está completamente fora de controle!
_Vou trucidar essa medibruxa! Devolva a minha varinha agora mesmo!
_Só se eu fosse um imbecil lufa-lufa! Acalme-se já!
Pelo menos a porta estava lacrada com um feitiço. Caso Lucius insistisse em “trucidar a medibruxa” teria que contê-lo, mais uma vez. Ah, nada bom, nada bom mesmo. Fez bem em pedir que Taylor permanecesse em casa.
_Não pude obliviá-la. Já nem creio ser possível agora, pois ela é tão ardilosa quanto nós dois. A tal Morse deve ter registrado toda essa informação nos instantes em que se manteve longe de mim.
_Como você permitiu tal coisa, Severus?
_Desculpe-me por não ter sido rápido o suficiente. Sou apenas um ser humano, Malfoy.
O loiro ficou de pé e se pôs a andar pelo escritório. Era mais que óbvio que não podia culpar o amigo, afinal, Severus sempre fez tudo por eles, o possível e o impossível. Contudo, a sensação de impotência lhe era tão frustrante que, infelizmente, não conseguia se conter.
_O que você sugere, Severus? – Perguntou Lucius, longos minutos depois.
Snape sabia que o simples fato de Lucius ter se rendido, era um mais que claro pedido de desculpas. Ah, como ele conhecia bem aquele esnobe emproado.
_Eu não tive tempo hábil para realizar uma ampla pesquisa, mas chequei alguns dados sobre a Dra. Morse. Ela é competente e toda uma sumidade na área. Sugiro que a deixemos cuidar da gestação de Remus. Reconheço uma boa pesquisadora quando vejo uma. A Dra. Morse tem interesse acadêmico no caso de Remus.
_Então, vamos deixar que Remus seja tratado como um bichinho de laboratório? – Perguntou indignado.
_Claro que não, Lucius! Nunca permitira tal coisa! Eu sou capaz de cuidar de uma gestação num doncel e num varão, assim como Pomfrey. Contudo, como Morse bem destacou, Remus é mais do que um varão grávido. Ele é um varão lobisomem ômega grávido. Eu não sou especialista nisso. Antes, há anos, aprofundei meus conhecimentos acerca dos lupinos, visando prejudicar Remus... Não penso mais assim. Hoje sei que tudo não passou de uma das armações do animago impulsivo que tenho como esposo, veja só a ironia... E mais: considero Remus um verdadeiro amigo. Creio que fazer uma parceira com Morse, nesse caso, será benéfico para o seu parceiro, Lucius. Além do mais, ou fazemos isso, ou ela usará a lei bruxa e tirará Remus de nossas vistas até que o bebê nasça.
_Ela não seria capaz.
Severus riu com cinismo. A quem Lucius tentava enganar? A medibruxa era tão astuta quanto eles.
_Severus, acha que essa medibruxa seja mesmo capaz de revelar a verdadeira natureza de Remus?
_Infelizmente, sim. Creio que ela cumprirá a ameaça.
_Como ela foi capaz de descobrir tão rapidamente, algo que Remus ocultou por décadas?
_Lucius, Morse é competente e inteligente, além de extremamente arrogante, devo acrescentar. Remus estava fragilizado e não pôde opor resistência. Foi cuidado por ela, pois, notoriamente, todos sabem que ele é um lobisomem. E então ela descobriu primeiramente o mais evidente: a gestação. Questionou sobre o fato de ele ser um varão e estar grávido, somado ao fato de ser um lupino. Só então ela o examinou mais uma vez. Foi tudo rápido demais, Lucius. Eu estava entrando em contato com Tonks, não pude evitar... Quando cheguei ao quarto, ela o examinara mais uma vez e... Bem, ela foi ousada e encontrou algo fantástico: um ômega.
_Essa cretina, intrometida... Devemos obliviá-la sim, Severus. Na verdade, fazê-la esquecer de tudo é a melhor das alternativas que passa pela minha mente, pode ter certeza.
_Eu não jogaria esse jogo, Malfoy. Não estamos em condições de arriscar.
O loiro voltou a se sentar na mesma cadeira que, instantes antes, havia abandonado. Esfregou o rosto com as mãos, só então notando que as mesmas tremiam de raiva contida. Estava cansado, preocupado e furioso, uma péssima combinação. Caso não se acalmasse, não seria de ajuda para Rermus.
O professor podia sentir as ondas de ódio emanadas por Lucius. O veela estava furioso. De fato, ele compartilhava o mesmo sentimento. Como não se sentir enraivecido e frustrado? Remus não só havia sido atacado por um lupino, como também havia sido exposto. Não insistiria mais... Faria o que Lucius quisesse, afinal, quem tinha autoridade sobre Remus era o veela (mesmo que o próprio lupino não aceitasse ou admitisse tal fato).
_Lucius, caso prefira, posso obliviá-la. É arriscado, mas eu compreendo o seu desejo e farei o que...
_Não, não Severus. Como você bem disse, ela é ardilosa. Já deve ter criado meios de se precaver, caso a façamos “esquecer” sobre a condição do meu parceiro. Estou de mãos atadas, certo?
_Sim, estamos de mãos atadas. Sou igualmente responsável por Remus...
_Severus, mais essa reviravolta... – E ficou em silêncio por longos minutos. Lembrou-se de respirar fundo antes de prosseguir. – Como devemos proceder?
_Eu devo entrar em contato com Morse até amanhã. Caso não o faça, ela alterará o registro de Remus.
_Entre em contato com ela, então. E traga-a aqui, o mais brevemente possível. Ela terá acesso a Remus, mas será de acordo com as minhas condições, entendeu?
_Trazê-la aqui?
Lucius sorriu cheio de maldade. Ah, a tal Morse ia perceber o quanto era perigoso desejar o que era de propriedade de um Malfoy.
_Lucius Malfoy, o que você pretende fazer? Conheço bem esse olhar... Por Merlin, não podemos nos envolver em mais problemas! Seu veela o enlouqueceu?
_Severus, eu nunca estive mais lúcido. Não vou permitir que nada mais afete a Remus. Eu terei uma conversa muito esclarecedora com a Dra. Morse.
_Você? – E Severus encontrou a expressão que mais detestava em Lucius: teimosia. – Lucius, não deveria conversar com Remus primeiro? Ele tem o direito de opinar, não?
_Não vejo necessidade. Não temos escolhas, temos? – E como Severus se calou, Lucius prosseguiu. – Pode, por favor, devolver a minha varinha?
Resignado, o pocionista fez o solicitado. Instantes depois, a porta havia sido desenfeitiçada. Lucius procurou normalizar a respiração, os olhos cinzentos brilhando ante o vindouro encontro com a cretina Dra. Morse.
_Bem, Lucius, volte para Remus agora. Seu veela agradecerá...
_Ora, Severus... Percebe o quanto eu estou irritado? – Severus assentiu, mudamente. – Eu preciso liberar essa raiva antes. Taylor está aqui ainda, não é?
_Lucius, não faça nada contra ele. Adam apenas ajudou a evitar uma catástrofe!
_Ele está lá embaixo?
_Lucius, não!
_ADAM TAYLOR – e a voz do veela ganhava o corredor, os passos rápidos chegando à borda da escada.
_Lucius, você deveria agradecer a Adam – continuava Severus, praticamente colado ao amigo.
A voz de Adam chamando por Andreas o alertou mais. Pelo som mais distante, o mequetrefe estava mesmo no andar inferior de Prince’s House.
_Ele está com Andy? Ah, eu vou fazer picadinho jurídico daquele canalha!
_Lucius, pare já com isso! – Pediu Severus mais uma vez, arrependido por ter lhe devolvido a varinha.
_ADAM TAYLOR!
_Lucius, onde está a sua educação? Por Merlin! Você está gritando demais!
A voz de Lucius irrompeu cozinha adentro, antes mesmo que o loiro abrisse a porta do cômodo.
_Você está exagerando, Lucius – e Snape pôde ouvir, enquanto descia os degraus com agilidade, o som de porcelana se espatifando.
_ONDE ESTÁ ESSE ADVOGADOZINHO MEQUETREFE?
Na cozinha, Adam primeiro se escondeu debaixo da mesa, toda dignidade de mago indo pelo ralo. Depois, com o avolumar do som de passos descendo, o advogado ficou ainda mais tenso. Lucius podia sentir o pânico vindo dele... E, sem dúvida, estava gostando disso. Nada melhor do que perseguir alguém para voltar ao bom humor desestressar!
_EU VOU ENSINAR A AQUELE ESTÚPIDO COMO É QUE SE INCAPACITA ALGUÉM!
“Andy... Vamos”, pôde ouvir o patriarca Malfoy, mal adentrou a cozinha de forma teatral! Instantes depois, toda a raiva se esvaneceu. Caminhou lentamente, sendo seguido pelo amigo professor. O loiro sorria maldoso, já Severus o recriminava fortemente com o olhar. Então o cretino esnobe esteve apenas, encenado?
_Adam Taylor é jovem, mas pode ter facilmente um ataque cardíaco. Deveria agradecê-lo por ter te impedido de sair, não assustá-lo.
Lucius convocou uma xícara e, já sentado na cadeira, se serviu de uma boa dose de chá.
_Ora, Severus, eu estou agradecendo... Afinal, ele fugiu, mas levou Andreas com ele, certo?
O professor arqueou uma sobrancelha, imaginando toda a perversão que um veela era capaz de armazenar na mente.
_Vocês veelas são...
_Somos o que somos, caro amigo. E eu sou muito menos veela do que Draco é, ou do que aquela bela francesa é... Ela me nocauteou mesmo. Sente-se, Severus. Vamos tomar um chá enquanto você me explica com calma como eu deverei cuidar de Remus. E, você disse algo sobre Azkaban, certo?
Severus convocou uma xícara e logo o bule. Estava esgotado... E ainda precisava verificar o que havia acontecido com Theodore. Por Merlin, precisava de férias. O que era ridículo, pois ele, para todos os efeitos, estava em seu período de férias.
_Houve uma invasão em Azkaban nessa madrugada, mas Tonks não entrou em detalhes. Ronald nos acompanhou e nos ajudou a trazer Remus, então, suponho que ele conheça os pormenores da dita invasão. Enviei uma coruja para ele, assim que foram embora... Teremos maiores informações mais tarde. Por enquanto, resta-nos aguardar.
_Invasão em Azkaban... Alguém fugiu?
_Não sei, mas não creio que tenha ocorrido uma fuga, ou Tonks teria comentado.
_Ora, e Remus é atacado no mesmo dia? Greyback!
_Talvez...
Lucius respirou fundo, enquanto sorvia mais chá. Realmente, os acontecimentos poderiam sim estar interligados.
_Não será necessário trocar nenhuma das bandagens de Remus hoje. Posso fazer isso amanhã.
_Eu mesmo cuido do meu ômega, Snape.
_Controle o seu ciúme, veela idiota. Eu tenho um doncel muito apetitoso me esperando lá em cima.
_Desculpe, Severus. É mais forte que eu – prosseguiu o loiro, os olhos expressando o mais cristalino arrependimento.
_O corpo de Remus se recuperará rapidamente. Tenho algumas poções já prontas que vão auxiliar no processo, mas não devemos ministrá-las hoje. Há uma poção para dor que será necessária, caso Remus sofra algum inconveniente. Tenho alguns frascos no meu quarto. Tome – e lhe passou as indicações médicas que lhe foram dadas por Morse.
O loiro leu com atenção, enquanto Severus ficava de pé. Lucius levantou os olhos para o amigo, o rosto cheio de preocupação. O que acabava de ler era bastante complexo...
_Tudo vai dar certo, Lucius. Apenas cuide para que Remus não faça nenhuma estripulia. Eu vou conversar com o meu esposo que, se bem conheço, deve estar enlouquecendo a pobre Esther. Possivelmente, terei que ir a Bristol ainda hoje.
_A Bristol? O que você precisa fazer em Bristol?
_Theodore foi internado. Preciso examiná-lo. Não confio em médico algum para cuidar da gravidez dele.
_Morse adoraria cuidar dele também, não? Imagina se juntarmos no pacote Harry e Sirius? Oh, essa cretina medibruxa nunca mais nos deixaria em paz!
_Ela não aparentou ter interesse em varões grávidos, tampouco em donceles grávidos. Agora, eu posso imaginar a estupefação dela quando, irremediavelmente, tivermos que contar que Remus é um ômega grávido de um veela.
Lucius ficou de pé e, em silêncio ante a bela análise do amigo, indicou a porta da cozinha. Ambos saíram, cada qual perdido nos próprios pensamentos. O loiro tinha todos os pensamentos voltados para Remus. Já Severus pensava em como faria Sirius entender que, mais uma vez, teria que sair de casa, naquele mesmo dia.
Quando chegaram ao andar superior, os dois pararam de súbito, pois precisavam acertar alguns detalhes. Era terrível ter que, sempre e sempre, lidar com acontecimentos tão tensos, acontecimentos esses que os deixavam preocupados com os seus entes queridos. Os dois gostariam, e muito, de um pouco de paz.
_Deixe que Remus durma o quanto for necessário. Quando ele acordar, peça aos elfos que lhe façam uma refeição leve. Caso ele sinta dor, ministre a poção. Eu vou conversar com Sirius. Contarei a ele tudo o que aconteceu hoje, portanto, é provável que ele deseje se certificar de como Remus está.
_Certo... Entrará em contato com a Dra. Morse hoje ainda?
_Possivelmente, quando eu voltar de Bristol. Quando eu retornar, conversaremos você, Remus e eu. Agora, eu preciso mesmo conversar com Sirius.
_Diga à mamãe que estarei no meu quarto, por favor – e se dirigiu ao referido aposento.
O pocionista estava realmente cansado, afinal, aquele era um dia que parecia não ter mais fim. Com cuidado, abriu a porta do quarto e encontrou seus ocupantes conversando, embora, ah ele podia reconhecer de longe, Sirius não estivesse muito satisfeito.
Esther e Frederick, sentados no colchão, falavam de forma descontraída, já Sirius apenas os encarava com leve interesse, mas os olhos claros volta e meia se direcionavam à porta. Numa dessas idas e vindas, encontrou as ônix do marido.
_Ora, finalmente! Posso saber o que andou fazendo hoje?
O tom de esposa ciumenta fez Esther sorrir. A senhora ficou de pé, acompanhada por Fred. Depois beijou a testa de Sirius e se dirigiu à saída, puxando o neto consigo. Severus apenas murmurou para Esther um “estão no quarto”, antes que o esposo prosseguisse reclamando.
_Vai me contar o que está acontecendo ou, assim como Esther e Frederick, esconderá informações de mim? Estou grávido, mas não estou inválido, Snape.
Snape! Ah, Severus sorriu com gosto. Só mesmo Sirius para fazer com que os muitos problemas parecessem de fácil solução.
_Também não sou estúpido, sabia? Há algo de grave acontecendo e você sumiu o dia todo! Já está quase na hora do jantar e me deixou aqui, sozinho.
_Você não ficou sozinho.
_Ora, cale a boa, Snape. O que sabe sobre como eu me senti hoje, hein?
O professor apenas caminhou até a porta do banheiro, ignorando a face de extrema fúria que o esposo sustentava.
_Não vai me dizer nada?
_Estou apenas seguindo o seu doce pedido de “cale a boca, Snape”. Precisa decidir se quer que eu fique calado ou não, cachorro.
Sirius o fuzilou com o olhar.
_Bem, enquanto se decide, vou tomar um banho. Estive em St. Mungus hoje e não quero me aproximar de você sem antes me limpar.
O animago ficou ali, com as palavras na ponta da língua, enquanto via o marido sumir banheiro adentro. St. Mungus, Snape dissera... O que teria acontecido para que ele precisasse ir ao hospital?
Tentou sair da cama, mas era óbvio que os feitiços do marido continuavam ativados. Sozinho ele jamais conseguiria deixar o colchão. E também continuava sem varinha. Pensou em gritar e exigir que Severus voltasse imediatamente e lhe contasse o que havia acontecido, mas não o fez.
O mesmo sentimento de frustração que sempre o acompanhava voltou com força. Por que sempre se sentia assim, deixado de lado pelo marido, quando racionalmente sabia que não era ignorado? Severus era um homem cheio de compromissos, além do fato de as pessoas solicitarem a presença dele, nas mais variadas situações.
Então, foi trazido de volta ao quarto e ao que o cercava, pelo toque gentil em sua face. Estava tão absorto em pensamentos, que não percebeu que Severus Snape, cuja atenção era disputadíssima, estava ali, ao lado dele.
_Por que está chorando, Sirius?
_Eu não estou chorando – e levou uma das mãos ao rosto, notando, enfim, que sim: ele estava chorando. – Oh, eu não percebi... Merda de hormônios!
_Sempre com essa boca suja, Black – e o sufocou num beijo exigente que, de fato, o deixou novamente sem palavras.
Como pôde, Sirius o abraçou. Não entendia a si mesmo... Por que tanta necessidade de Severus? Por que não conseguia agir como o adulto que era?
_Ei, calma... – Pediu o pocionista, ao sentir o corpo do doncel estremecer.
_Estou uma pilha, Sev. Não aguento mais ficar nessa cama, enquanto você me deixa aqui e some no mundo bruxo.
_Sirius, você está sendo muito dramático. Acho que a convivência com Lucius não está lhe fazendo bem.
_Eu estou grávido e quero ser mimado, ora – e fungou de forma tão doce, que Severus realmente se sentiu culpado por não poder ficar o tempo todo colado ao animago.
_Eu sei, Sirius. Desculpe-me – e o beijou novamente. – Mas aconteceram alguns problemas. O primeiro deles: Theodore se sentiu mal... Teve um princípio de aborto.
O animado arregalou os olhos claros, visivelmente preocupado.
_Oh, Severus… Como ele está? Ele não perdeu o...
_Não, não perdeu. Contudo, preciso ir até Bristol hoje ainda, para avaliá-lo. Ginevra me pediu para que o avaliasse e creio que eu mesmo deva examinar o meu ex-aluno. Conheço muito bem Theodore. Ele precisa de uns bons puxões de orelha de vez em quando.
_Então vá. Cuide dele... Pobrezinho, um princípio de aborto. Eu acho que morreria caso...
_Shiii... Não complete esse pensamento – pediu Severus, a mente lhe devolvendo as imagens do doncel ensanguentado no corredor de St. Mungus. – O segundo problema, bem, ocorreu um pouco mais cedo, com Remus...
_Remus?
_Sim... Ele está bem agora, então acalme-se. Remus foi ao beco diagonal hoje. Ele estava na Madame Malkin quando sofreu um ataque. Acreditamos que foi um ataque de lobisomem. Remus foi medicado e, no momento, encontra-se bem e descansando no quarto dele, portanto, mantenha o controle Sirius. Lembre-se do nosso filho e de que você também está em recuperação.
Era demasiado, não? Agora entendia o porquê de Severus estar sempre sendo solicitado em vários lugares diferentes. Será que nunca teriam sossego?
_Remus está mesmo bem? – E lá estavam as lágrimas querendo descer face abaixo, mais uma vez.
_Está sim, eu garanto. Remus está dormindo agora e o fará por um bom tempo.
_Sev, meu amigo está mesmo bem? Não está mentindo pra mim, está?
_Não mentiria para você sobre a saúde dele. Ele está bem, eu garanto. Não vou enganá-lo: Remus foi ferido com seriedade, mas ele é um lupino, em poucos dias estará feito novo. Lucius está com ele...
Assim que ouviu o "Lucius está com o ele", Sirius sorriu malandramente.
_Quando Remus acordar, terá que me explicar direitinho essa história... – E beijou Severus, desta vez mais calmo, apenas apreciando o delicioso sabor dos lábios em oposição aos seus.
_Sev... Eu senti saudade...
O austero professor não tinha como resistir ao doncel. Estava perdido, sabia disso. Nunca mais conseguiria ter uma vida tranquila como antes, não com Sirius ao seu lado. E que bom por isso, diga-se de passagem.
_Muita saudade...
Enquanto se deliciava com os lábios volumosos do esposo, inebriava-se no perfume natural dele. Era mais que convidativo. Não contribuía muito para o seu autocontrole o fato de Sirius abandonar os lábios e partir para o lóbulo da orelha mais próxima de seu alcance.
_Sirius... Assim eu não serei capaz de ir a Bristol – revelou o professor, toda a frase saindo como um gemido de prazer.
_Posso esperar você na sala? Eu já consigo andar sem sentir dor alguma e juro: não farei nada que possa prejudicar a minha recuperação.
Os olhos escuros se fixaram nos claros...
_Ora vamos, Sev. O que eu posso fazer sem uma varinha?
_Sem uma varinha, meu caro, você conseguiu, inclusive, fugir de Azkaban.
_Posso garantir algo: foi mais fácil fugir de Azkaban, se comparado à Prince’s House. É impossível me evadir daqui, Severus.
_É... Eu ainda me lembro de você tentando fugir.
_Eu tentei antes, quando não aceitava quem eu era, muito menos o nosso vínculo. Não mais. Na verdade, a cada instante se torna mais e mais difícil escapar daqui.
Severus nada disse, apenas deixou-se envolver pelos braços do doncel. O mero toque entre eles já o eletrizava. Beijou-o com desejo, abraçando de volta com o maior cuidado possível para não machucá-lo.
_É mais difícil devido aos feitiços que coloquei sobre vocês e sobre a casa?
_Não. Para me manter aqui, feitiços não são necessários...
_Não?
_Não... Eu não desejo mais fugir, Sev. Quero ficar contigo.
_É uma lástima eu ter que sair agora... – Reclamou o professor e a sua voz continha tal grau de decepção que o animago, irremediavelmente, se pôs a rir.
O riso solto foi sufocado noutro ósculo, agora, de fato, extremamente demandante. Sirius gemeu, ruborizou e se contorceu de prazer, tudo ao mesmo tempo.
Poderia ficar a vida inteira ali, apenas naquela dança frenética de línguas, com as mãos de ambos traçando delicadas carícias. Haviam encontrado uma sincronia ímpar, ninguém mais a tinha. Quando se separaram, o ar faltava e ambos estavam ofegantes.
_Eu realmente preciso ir a Bristol – reforçou Severus, enquanto acariciava a face do esposo, as testas coladas de forma verdadeiramente íntima.
_Então vá, mas pode tirar o feitiço que me restringe à cama, por favor, Sev? – E completou o pedido com olhinhos de cachorro arrependido. Ah, Severus não tinha imunidade alguma contra tamanha arma letal.
_Sirius, sabe que deve descansar e...
_Sev, por favor, eu não vou extrapolar, nem nada do tipo. E... Prometo compensar você mais tarde, quando voltar. Dou a minha palavra de bruxo.
_Sirius Black, você está empenhando a sua palavra de bruxo comigo? – E ao que o animago apenas assentiu, o pocionista concluiu. – Certo, feitiço retirado – e sacudiu a varinha com habilidade. – Pedirei aos elfos que fiquem atentos a você. Vou deixá-lo na sala.
Sirius sentiu o corpo ser levantado com muito cuidado do colchão. Ele mal conseguia acreditar que o marido carrancudo o estava liberando da clausura! Ah, ele tinha mesmo o morcegão nas mãos.
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