Submisso
34 Capítulo 34 - Furioso
Notas iniciais
Finalmente Submisso! Desculpem o atraso, mas ando MUITO ENROLADA! Enfim, vcs não vão querer ficar ouvindo (lendo???) sobre os meus problemas, então vamos ao cap.
Espero que não me matem, nem matem o Draco!!!
Comentários? Amo-os... Mandem sempre, são o meu modo de saber se a fic tá indo para o caminho desejado (ou não, mesmo que alguns tenham vontade de me cruciar!).
Sem mais, FURIOSO!
Capítulo 34 — Furioso
Acordar entre os belos braços de Draco deveria ser listado como mais uma das maravilhas do mundo. Sentia-se renovado, bem disposto e deveras esfomeado. E foi com o estômago roncando que foi surpreendido pelo detalhe do seu maridinho mais que atencioso: uma belíssima bandeja, repleta de delícias matutinas.
Como sabia que não fora Dobby o responsável pelo café da manhã? Muito simples: o elfo teria acrescido sua primeira refeição de alguns doces e outras escapadinhas da dieta, a seu pedido, claro. Internamente, sabia que era errado, mais seus bebês tinham uma precoce obsessão por tudo o que tivesse MUITO açúcar...
Na verdade, a convivência com Draco lhe fez descobrir pedacinhos de informações muito relevantes sobre o loiro. Por exemplo, Draco era viciado em doces. Pior que uma formiguinha, devorava dos custosos chocolates suíços (seus preferidos), ao pote de açúcar (numa hora de necessidade extrema). Evidentemente, ele negava sempre. Um Malfoy se entupindo de doces e fugindo da dieta regrada? Não, claro que não... Bem típico dele: sustentar aquela pose de “eu sou perfeito e nunca fujo da dieta”, mas, na encolha, se fartar com os quitutes na cozinha. Logo, estava explicado o motivo da sua ânsia pelo açúcar: tinha dois mini-Dracos esfomeados dentro de si!
Já devia estar no terceiro pedaço de fruta, quando Severus irrompeu quarto adentro. Assustou-se tanto com o barulho inesperado, que derrubou um pouco de leite – é, o loiro não incluíra nem um cafezinho no seu desjejum – em cima da cama exageradamente grande.
_Desculpe por isso, Harry. Mas já estou esperando que acorde há um certo tempo. Temos assuntos urgentes para resolver no escritório de Adam Taylor – disparou e, aproveitando o momento, lançou um feitiço no colchão, limpando a bagunça. E, com muita intimidade, deixou a sal maleta no canto perto à porta – Dispõe de apenas vinte minutos para estar devidamente pronto. O ministro foi considerado o suficiente para nos encontrar diretamente no escritório. Claro que precisou quebrar um pouco o protocolo de segurança, não só o dele como o seu também... Mas, o que não se faz para o Eleito, não é mesmo?
Harry teve vontade de lhe dizer poucas e boas. O que aquele morcego narigudo estava pensando, afinal? Snape sabia perfeitamente que não concordava em nada com todo o favoritismo com o qual lhe tratavam.
_Potter, por que ainda está na cama, por Merlin? Já foi difícil despachar seu marido para longe. Tive que preparar bem o terreno para Draco ter um motivo para sair de casa. Vinte minutos, Potter!
Severus então, com toda a sua delicadeza, saiu porta afora, deixando o grifinório com mil impropérios não ditos, bem na ponta da língua. Miraculosamente, seus bebês deram uma folguinha nos enjoos matutinos e pode se aprontar a tempo de encontrar o pocionista dentro do prazo, curtíssimo por sinal, estipulado.
_Fez uso de tudo o que prescrevemos? Draco mencionou algo sobre não ter se sentido bem ontem.
_Sim, eu tomei todas aquelas coisas horríveis que vocês me passaram. Eu estou bem... Draco é um exagerado. Aliás, como conseguiu tirá-lo de casa?
_Como disse, meu afilhado é exagerado... Na verdade, eu diria que ele é excessivamente preocupado. Cheguei bem cedo em Malfoy Manor, com a desculpa de uma “visita informal”, veja só o que você me obriga a fazer, Potter, e então Draco me contou sobre a sua reação ontem após a provável quarta viagem via flu...
_Esses bebês não gostam mesmo dos transportes mágicos.
_Pode estar passando por alguma instabilidade na magia, mas nada para se preocupar. Assim que voltarmos, irei te examinar novamente. Aparatações estão fora de cogitação – e ao que Harry revirou os olhos em desacordo, prosseguiu. – Se você ficasse bem quietinho em casa, como um bom doncel grávido, não teria esse tipo de transtorno. Contudo, parece que você, assim como o seu amado padrinho, não são bons exemplos de donceles. Sirius queria vir junto, inclusive, mas Lupin conseguiu mantê-lo em casa. Bem, de qualquer forma, seu mal súbito foi bastante conveniente. Assim que cheguei, pensava em enviá-lo à Hogwarts atrás de Madame Sprout e de umas ervas, para um novo chá para você, o que levaria horas inteiras... Contudo, quando ele me contou o que ocorreu, pensei melhor, e refiz minhas articulações. Convenci Draco a ir conversar com Arthur Weasley sobre os tais carros trouxas... Arthur deverá entretê-lo por tempo suficiente com as suas esquisitices. Enviei outra coruja ao ministro, solicitando que deixasse Arthur Weasley em casa pela manhã, explicando a situação. Enfim, despachei Draco e prometi cuidar de você até que ele volte. Então vamos, não dispomos de muito tempo...
O moreno ficava sempre muito impressionado com a sagacidade do seu antigo professor de poções. Severus era mesmo um homem muito inteligente. E era mesmo curioso vê-lo com Sirius, especialmente porque conhecia o padrinho. O nobre Black podia ser a reencarnação da infantilidade quando queria. Ok, ok... Até quando não tinha a mais remota intenção.
Assim que entrou na lareira, procurou mentalizar as palavras de Fleur, seguindo suas indicações sobre como tentar minimizar os típicos probleminhas de uma gravidez veela. E foi ainda respirando com profundidade e tentando acalmar sua própria magia que, pouco depois, estavam já em companhia de Adam Taylor.
Evidentemente, seus bebês deixaram bem claro que não gostavam nadinha de ficar indo de um lado para o outro entre as lareiras, mas não se sentiu tão mal quanto antes. Pelo que percebeu, precisava de um esforço mental e físico para se concentrar apenas na respiração e na própria magia.
_Estou bem, professor. Fique tranquilo... Bom dia, senhor Taylor.
_Bom dia, Harry... E, por favor, sem tanto formalismo. Chame-me apenas de Adam. Nossa, como você está radiante! Sente-se aqui, Harry – e deu batidinhas no sofá, fazendo com que um moreno, vermelho de vergonha, se sentasse bem ao lado dele.
Snape suspirou resignado. Não conseguia mesmo fazer o advogado compreender o quanto um veela era possessivo. Apenas se sentou o mais perto que pôde, dedicando-se a ouvir atentamente as palavras de Adam sobre o caso.
_Dispomos de um tempo reduzidíssimo.
Segundo ele, caso o ministro não concordasse com o indulto, iniciariam todo o procedimento adequado para então enfrentar a Corte Bruxa. Agregou ainda que Kingsley Shacklebolt chegaria em alguns minutos. O que, de fato, ocorreu instantes depois.
_Bom dia, senhores.
“Bons dias” foram dados, ainda que Snape tenha apenas balançado a cabeça, em claro sinal de resposta ao cumprimento.
_Bem, vamos direto ao assunto?
_Certamente, senhor ministro. O simples fato de o senhor estar aqui, em meu modesto escritório, sendo tão atarefado...
_Desculpe-o, Kingsley, mas meu ex-aluno tem um pendão para o drama... Além do mais, é um advogado, por Merlin, o que só aprofunda a capacidade de adulação... Modesto escritório? Adam, poupe-nos... Nem você acredita nisso...
O ministro riu e Taylor, por mais que Harry esperasse uma reação negativa, não se mostrou em nada ofendido, ao contrário. Ele riu com gosto do comentário venenoso e ainda completou com um “ora, não podemos esquecer que, pelo menos, não posso ser taxado de verborrágico”... Até Snape riu.
_Prolixo ou não, senhor Taylor, o senhor é um advogado ardiloso... E muito bom mesmo, disso estou convencido. Agora entendo porque o senhor é, vez por outra, contratado pelos Malfoy. Quanto ao indulto...
Harry sentiu os músculos reclamarem devido à súbita tensão experimentada. Queria e não queria ouvir o que Kings estava prestes a dizer. Em seu coração, torcia para que tudo saísse de acordo com o desejado, que Lucius Malfoy fosse indultado logo de uma vez, para assim poder correr para os braços do marido e, sorrindo, contar a notícia que o deixaria tão feliz.
Kingsley, entretanto, nada disse. Apenas retirou das vestes um pergaminho selado e de aspecto oficial, passando-o às mãos de Taylor. O lacre e a pompa do pergaminho fizeram com que o doncel se lembrasse de uma coruja oficial recebida por ele mesmo, quando ainda vivia na Rua dos Alfeneiros, informando-o de que estava, irremediavelmente, expulso da escola de magia e bruxaria de Hogwarts, assim como o fez se recordar também de uma segunda coruja, recebida logo em seguida, suspendendo temporariamente a expulsão.
Adam pegou o pergaminho e, como se fosse algo muito habitual na sua rotina, rompeu o lacre do Ministério da Magia, passeando os olhos atentos por toda sua extensão. O sorriso vitorioso que lançou a Snape e a Harry foi suficiente para contagiá-los.
_Como bem explicitado, o pedido foi fundamentado de forma mais que adequada, não deixando outra opção a esse ministro... Inequivocamente, Lucius Malfoy colaborou com a Ordem da Fênix e contribuiu para a derrocada do Lorde das Trevas. Negar tal fato é negar a própria realidade. Portanto, Lucius Malfoy foi considerado, para todos os efeitos legais, inocente das acusações. Tudo o que foi alvo do arresto ministerial foi devolvido, assim como acrescido das correções necessárias e da indenização devida. O procedimento para o translado do corpo já foi iniciado. Já enviei uma cópia do indulto à Azkaban... Acredito que a notificação sobre o início do translado será enviada à Snape em breve, possivelmente hoje mesmo. Tomei o cuidado de solicitar que fosse enviada ao senhor, professor, algum problema?
_De forma alguma, ministro. Recebei a notificação e entregarei imediatamente a Harry.
Snape sorria, o que por si só era amedrontador. E Adam Taylor era o reflexo da satisfação. Mas nenhum deles estava mais radiante que Harry Potter. O moreno extravasa felicidade pelos poros, envolvendo-os numa inconsciente nuvem de sedução natural... Era simplesmente irresistível. A magia doncel e seu poder de atração magnetizaram a todos os presentes.
Tudo aconteceu muito rápido. Kings tentou se aproximar, afinal, como não beijar aquela boca tão carnuda e convidativa? Já Severus, mesmo meio tonto e afetado pela poderosa atração exercida pelo Eleito, conseguiu conter a si mesmo e, por sorte, ao próprio ministro. Contudo, não foi habilidoso o suficiente para evitar a ação sorrateira do corvinal que, num agir mais célere que um bater de coração, conseguiu aprisionar os lábios do grifinório, mordendo-os e exigindo passagem para a língua esfomeada.
Enquanto o indulto esvoaça até o chão, Harry lutou bravamente e teria conseguido se livrar sozinho do “ataque”, disso o professor não duvidava, mas veelas são mais que eficientes em conhecer tudo sobre os seus parceiros. Assim... A desgraça se abateu sobre o estabelecimento laboral de Adam Taylor.
Draco Malfoy aparatou bem na frente do “casal”, o habitual cinza relampejando de pura fúria destrutiva. A magia veela pulsava forte, fazendo a decoração refinada estremecer e os móveis balançarem em protesto. Com uma só das mãos, o loiro os afastou bruscamente, pouco se importando com o fato de o esposo ter cambaleado devido à força do movimento... A outra mão foi direto ao encontro do pescoço do rival, erguendo-o alguns centímetros com extrema facilidade.
Ah, Draco Malfoy via tudo vermelho. Os esforços de Adam foram em vão e ninguém conseguiu separá-los, nem o encorpado ministro. Os grunhidos de dor assustavam e o rosto do corvinal já atingia visíveis tons de roxo quando, para a surpresa e alívio – passageiro -, o próprio Draco o arremessou contra a lareira, o caos se instalando no escritório.
_Draco, controle-se! Você enlouqueceu? – Gritou Snape, os braços fortes agarrando o afilhado com todo o vigor do qual dispunha.
_Não encoste em mim! Eu vou matar esse miserável... ME SOLTA AGORA MESMO!
A magia veela queimava, mas o professor aguentou firme, enquanto Kingsley, numa presença de espírito surpreendente, correu até a lareira, sumindo com o advogado – ensanguentado e inconsciente – logo em seguida.
_NÃO ADIANTA ESCONDÊ-LO! EU VOU CAÇAR ESSE DESGRAÇADO! VOU ATÉ NO INFERNO SE FOR NECESSÁRIO!
Harry mal conseguia acreditar no que presenciava. O seu marido, o esnobe Malfoy, tinha perdido completamente a pose e descido do salto (de uma maneira deveras bizarra)! Snape permanecia empenhado em contê-lo e então, os olhos cor cinza encontraram os do Eleito, destilando raiva como se fossem delicadas lágrimas.
_VOCÊ PROCUROU POR ISSO, HARRY! – Gritou, a magia veela mais que descontrolada.
Severus deixou escapar um gemido de dor, ao mesmo tempo em que o veela se livrava de seu agarre. Em instantes, Harry já tinha sobre si o marido, cuja magia descontrolada mudara de foco e, ao invés de se projetar contra o pocionista, se voltava agora contra o ele mesmo: seu esposo, doncel e ligeiramente grávido.
_VOCÊ QUIS QUE ISSO ACONTECESSE, NAO É? VOCÊ QUIS SER BEIJADO POR ELE... MAS EU NÃO VOU DEIXAR! NUNCA VOU PERMITIR QUE MAIS NINGUÉM TE POSSUA – e o moreno sentiu a pele queimar, tal como acontecera com Severus. – VOCÊ É MEU, ENTENDEU? SÓ MEU! – E o beijou, sem qualquer vestígio de sutileza, fazendo Harry empurrá-lo e, literalmente, queimar as mãos ao tocá-lo, embora sem obter sucesso algum, pois Draco o segurou pelos pulsos, um sorriso nada feliz contorcendo seu rosto.
_AAAH! Merda! Draco... Seu idiota! Acha mesmo que eu quis ser beijado por ele? Eu vim aqui porque...
_CALE A BOCA! – E usou um tom de voz, um tom único, que nunca tinha usado antes com Harry. O tom de voz e a intenção da mesma gritavam: comando!
O grifinório se calou, ainda que desejasse berrar para quem quisesse ouvir que Draco Malfoy era um estúpido, ordinário, cretino, sem um pingo de educação. Por que se calou? Não fazia a menor ideia, mas havia algum tipo de influência sobre si, diretamente ligada ao tom da voz de Draco.
_Serei bem diferente agora, Harry – e inesperadamente, Draco se pôs a falar baixo... Oh-oh... Nada bom. – Nada mais de ser um marido moderninho, não mesmo. Usarei de todas as minhas prerrogativas de varão sobre você, meu doncel esposo.
_Mas eu...
_Disse para ficar calado. – E lá estava aquele tom de voz que não lhe permitia desobedecer.
Harry foi sacudido pelos pulsos e percebeu que Draco não admitiria – mesmo –nenhum tipo de contestação. Os olhos do marido refletiam decepção. É, era isso... O loiro estava decepcionado com ele. Mas por quê? Dessa vez, Harry Potter, o teimoso, encrenqueiro e deveras intrometido, não fizera nada de errado.
_Draco, controle a sua magia! Pode acabar afetando o seu esposo e os seus filhos.
_Ora, padrinho... Meu esposinho aqui é resistente. Afinal, ele teve força suficiente para sair de casa, sem a minha companhia, e vir até aqui, o escritório daquele abusado.
_Draco...
_Não quero mais te ouvir, Severus. Você também tem culpa nisso! Acertaremos a questão depois – e aparatou, levando o esposinho consigo.
Aparatar foi tão ruim quanto ter o corpo revirado ao avesso. O moreno mal pôde diferenciar o que era chão do que era teto. Draco não deu nenhum sinal de que iria usar desse tipo de transporte, logo, não pôde se preparar. Foi pego de surpresa e, só para variar um pouquinho, imaginou que morrer deveria ser fichinha perto do que estava sentindo...
Draco só se deu conta do que tinha feito quando, já em Malfoy Manor, quando o esposo, finalmente livre dele, se arrastou até o sofá, no rosto uma expressão nada saudável. Harry podia facilmente ganhar do barão sangrento num concurso de palidez, disso o loiro tinha absoluta certeza. Algo nele o fez sentir ainda mais raiva do grifinório, pois cada ação reprovável que vinha tendo nos últimos tempos sempre o tinha como fundamento.
_Harry, o que você... – Mas Draco nem conseguiu terminar a frase, pois foi interrompido por outra aparatação.
_Afaste-se dele, Draco – e ter a varinha do padrinho sobre si deixou Draco ainda mais irritado.
_Apesar de não me respeitar, Harry Potter é e vai continuar a ser o meu esposo. Tenho todo o direito de estar perto dele. Volte para casa, padrinho. Nunca imaginei que além de alcoviteiro, o senhor fosse inconveniente.
Snape espumou de raiva, mas optou por apenas agir antes que algo pior ainda acontecesse. De longe podia perceber que Harry não parecia mesmo bem. A pele estava mais alva que alabastro e o moreno beirava um desfalecer abrupto.
_Terá apenas uma chance de se afastar por bem, afilhado mimado. Não pense que não sou capaz de azará-lo, seu tolo. Conheço mais maldições do que você conhecerá em toda a sua vida esnobe. Agora, vá para o outro lado da sala, seu veela descontrolado. Aparatar foi uma péssima ideia.
Draco seguiu o olhar do professor e se assustou de verdade, pois em segundos, Harry parecia ainda pior. Podia estar com raiva pelo comportamento do esposo, mas sua necessidade de vê-lo bem era muito maior do que o gosto amargo da traição que queimava no céu da sua boca.
Percebendo que a sanidade retornara ao afilhado, ou ao menos um vestígio dela, Severus correu até Harry que, agora, vomitava sem cerimônia alguma. Foram minutos inteiros nos quais o pocionista nada pode fazer alem de ampará-lo. Magia instável... Ah, um sintoma muito ruim numa gravidez. Parecia que Harry Potter seria mesmo um causador de problemas, até no momento de gerar os primeiros filhos.
_Dói... Dói demais...
_O que está doendo? – Mas o moreno não respondeu. – Harry... Tente se acalmar. Faça o que fez mais cedo, antes de usar a rede de flu.
_Impossível... A minha cabeça... Dói como um inferno... E meu pescoço também...
O grifinório tinha os olhos marejados de lágrimas, quando encarou o antigo professor. Ah, estava sofrendo. Detestava se sentir daquele jeito, debilitado, mas o que piorava tudo era aquela estranha sensação de desamor, vinda de Draco. Era como afogar-se. Não aguentaria por muito tempo.
Por que sua cabeça doía tanto? Não fazia a mais remota ideia. Mas seu coração... Bem, tinha plena convicção do motivo do mesmo estar batendo tão fracamente, como se estivesse a ponto de morrer de tanto desgosto... Seu coração refletia os sentimentos do marido.
_Enfim... – Falou Snape ao acomodar melhor o corpo inconsciente de Harry sobre o sofá. – Faça alguma coisa útil e convoque a minha maleta, Draco.
O pedido foi atendido imediatamente, enquanto a varinha de Snape realizava feitiços de limpeza, para a sujeira produzida pelo moreno, e feitiços médicos, iniciando uma varredura completa no doncel.
_Seu esposo errou numa única atitude, Draco – recomeçou a falar o pocionista, já de posse de seus apetrechos retirados da maleta, cada ação sobre o corpo desmaiado no sofá era acompanhada atentamente pelos olhos acinzentados. – Harry se preocupou demais em não entristecê-lo. Mais que grandessíssima merda...
_O que foi? O que ele tem? – E não havia mais raiva alguma, todo o gosto amargo que trazia na alma arrefecera até desaparecer por completo, ante a clara constatação do padrinho de que algo na saúde do seu esposo não ia nada bem.
_A pressão arterial está alta... Perigosamente alta, eu diria. Não podemos deixar que se instale uma hipertensão, Draco.
O loiro se aproximou, ao que Severus o mirou com cautela. Não queria ter que lançar um desmaius no afilhado, mas o faria sem pestanejar, caso fosse preciso para salvá-lo da própria estupidez. Veelas eram difíceis de lidar, principalmente os varões. Eram sempre muito territorialistas e excessivamente possessivos... Todo um caos. Esperava que Taylor não estivesse muito machucado.
_Seu esposo foi apenas vítima da própria doncelaria, Draco. Recebemos uma notícia realmente fantástica, algo que Harry preparava para você, uma espécie se surpresa. Alertei o tonto grifinório sobre como você, desconfiado como é, poderia interpretar mal as conversas com Taylor, como teceria teorias infundadas... Contudo, ele é teimoso demais... Eu diria que, se fosse para traçar uma comparação, a teimosia de Potter cresce numa linha ascendente infinita, da mesma forma que a sua capacidade de ser convencido também só aumenta.
Mais feitiços e poções, com Draco acariciando o cabelo, agora nem de longe um ninho de pássaros, do esposo, e Snape finalmente se deu por satisfeito com os primeiros cuidados. Passou então a tratar dos danos externos. A magia veela era terrivelmente danosa... Pobre Adam. Devia estar com o pescoço em brasa.
_Como eu ia dizendo – recomeçou o professor, mais para distrair os olhos de Draco das queimaduras – bem reais – que o moreno trazia na palma das mãos, do que por ter vontade de seguir com o falatório. – A notícia foi a melhor possível, então Harry ficou muito feliz... Feliz? Não, feliz é um termo insuficiente para definir o que presenciei: exultante, radiante... É, são termos mais adequados. Ah, afilhado tonto, acredito que você, a essa altura, já sabe bem o quanto os donceles são únicos... A magia doncel é pura e extremamente magnetizadora e, confesso, irresistível. – E notou que, por mais que o veela o ouvisse com atenção, em nenhum momento desviou o olhar da maneira como cuidava das mãos do Eleito e como, em seguida, dos pulsos. – Harry vibrou de felicidade, até eu precisei me controlar para não beijá-lo.
Draco se sentou no chão, colado ao sofá. Ele sabia muito bem como o esposo era irresistível... Tinha profundo conhecimento nessa área. Como se odiou por ter dito tantas atrocidades a ele. Harry nunca o perdoaria. Deixou que seu veela ciumento saísse descontrolado, ferindo do advogado que, certamente, não teria mesmo conseguido se controlar, ao esposo inocente... O esposo que gerava seus dois filhos no ventre. Patético... Draco Malfoy era deveras patético...
_Por favor, afilhado... Não faça isso... Não desabe aqui, bem na minha frente. Ainda estou bastante irritado por ter me classificado de alcoviteiro inconveniente, portanto, não sei se serei capaz de ajudá-lo – completou com uma expressão ofendida nada convincente.
_Perdoe-me, padrinho... O senhor nunca seria alcoviteiro.
Snape sorriu de leve, ao menos tinha evitado que o loiro iniciasse um rio de lágrimas. Já teriam problemas suficientemente complicados de solucionar, quando Harry abrisse os olhos. Não queria, e nem podia, lidar com um veela depressivo no momento.
_Veja o que eu fiz... Eu não o mereço, padrinho. Nunca o mereci...
_Você o deixaria partir? Mesmo se ambos não caíssem em desgraça, o deixaria partir?
_Nunca! Eu o amo... Harry Potter é o meu parceiro ideal... Ele é...
_Certo, certo... Já entendi, afilhado apaixonado. Se nunca o deixaria partir, pare de dizer que não o merece. Como relembrou, você, e ninguém mais, é o parceiro ideal de Harry... Pobre Potter! Terá que lidar com um veela sem controle...
Terminados os cuidados, uma nova varredura mágica foi feita, mas o professor não demonstrou estar nada contente com o resultado... Optou por erguer Harry nos braços e levá-lo para o quarto, mas antes retirou um envelope das vestes e o passou a Draco.
_O que tem nesse envelope? Ei, padrinho, eu posso levá-lo para a cama!
_Não, eu o levo, pois ainda não terminei de examiná-lo. Você fica aqui. Precisa ler o que consta no documento dentro do envelope. Foi por isso que o seu esposo agiu tão sorrateiramente nos últimos dias. Espero que comece a pensar mais friamente, como um Malfoy, ao invés de se deixar ser dominado pelas garras do ciúme. É uma linha tênue, Draco... Não deve permitir que seu veela o controle dessa forma. Os resultados podem ser fatais, sabe disso. Bem, estarei lá em cima. Não suba até ter certeza de que seu veela esteja bem dominado.
Concentrou-se em deixar sua carga o mais confortável possível sobre a cama, para, em seguida, iniciar um exame mais apurado. A pressão arterial ainda o preocupava, mas os bebês estavam bem. Assim que se deu por satisfeito e se dispôs a esperar um pouco antes de verificar novamente como estava Harry, convocou um dos pijamas do jovem e o vestiu. O grifinório ainda apresentava uma palidez meio mórbida, mas nem se comparava à pele quase translúcida que vira nele ao aparatar.
Precisou aumentar a dose de poção para controlar a pressão, algo que não esperava fazer durante aqueles nove meses. Principalmente porque estava acontecendo rápido demais. Teria que pesquisar sobre donceles grávidos de veelas, o que por si só seria todo um desafio. Quando havia veelas envolvidos, eles, geralmente, tinham mulheres ou varões como parceiros (alguns, os dois ao mesmo tempo), nunca donceles. Esses últimos eram seres tão complexos quanto veelas, portanto, todo um drama os esperava, disso não restava dúvida.
Fazia mais uma varredura quando Draco adentrou o quarto. Só de olhar para o afilhado, Severus sabia que experimentava uma sensação rara num Malfoy: vergonha.
_Mais calmo? – Draco nada disse, fazendo Severus suspirar. – Harry está bem agora... E então, mais calmo?
_Sim, estou mais calmo. O que consta nesse documento... Meu pai foi realmente indultado? – E ao que o professor assentiu, continuou. – Como isso foi possível? Eu tentei desesperadamente... Nós dois, padrinho, nós dois tentamos tanto...
_Draco, quem iniciou o procedimento foi o seu esposo. O resultado positivo se deve à obstinação grifinória e ao exímio trabalho de Adam Taylor. Eu apenas ajudei como pude...
_Então, Kingsley foi até o escritório para entregar o indulto e...
_E Harry ficou tão feliz que inebriou a todos nós. Adam estava mais perto dele, mas suscetível aos encantos da doncelaria... Mas antes que Harry pudesse dar um soco nele, você irrompeu entre nós...
_Feito um ogro enfurecido.
Draco guardou o precioso documento antes de sentar na cama, junto a Harry. Dedicou-se a mirá-lo, analisando cada pedacinho de pele, esmiuçando cada recanto daquele corpo que sempre o fazia estremecer de desejo.
_Eu o machuquei, Severus, involuntariamente, mas ainda assim eu o machuquei. Senti minha magia queimando as mãos dele, mas não consegui me controlar... Tive que usar de toda a minha força de vontade para não decapitar aquele mequetrefe...
_Draco, esqueça isso. Entenda que nem mesmo Adam teve culpa... E se eu tivesse beijado seu esposo? Ou Kingsley?
O esnobe Malfoy nada disse, apenas rangeu os dentes. Severus riu com gosto da expressão do rosto do afilhado, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, uma coruja entrou pela janela, deixando cair nas mãos do professor outro envelope.
_Mais uma coruja do ministério?
_De fato, sim – começou Snape, abrindo o lacre e se dispondo a uma leitura atenta. – Oh, por Merlin! Isso não pode ser verdade!
A máscara de frieza de Snape fora destruída durante o simples ato de ler o documento. Fosse o que fosse, deveria estar anunciando mais uma guerra bruxa, ou então, numa possibilidade tenebrosa, o retorno do Lorde das Trevas. Nada mais deixaria o pocionista daquele jeito...
_Padrinho, o que aconteceu? O senhor vai hiperventilar!
_Draco... Draco... É impossível!
_Severus Snape! Sem pânico, por favor.
_Draco, é uma notificação de Azkaban. Lucius... O corpo de Lucius... Não está lá!
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“_Não, por favor, não...
_Retire, ou cortarei sua mão, por Merlin que corto.
_Não me resta mais nada, mais nada. Por favor... Deixe-me ficar com ele...
Difindo!
_O grito de terror que sacudiu o cômodo foi acompanhado por intensa gargalhadas.
Tão covarde... Tão traidor... O próximo não será desviado. Acha que sou tolo? Acha que desconheço os pormenores da magia mais antiga e da ancestralidade? RETIRE AGORA!”
_Acorde, acorde... Tenha calma, meu filho... Foi só um sonho... Só isso.
A voz dela sempre o acalmava, pois sabia que ali estava a salvo, minimamente a salvo, mesmo que sua mente confusa não fosse capaz de definir com clareza o porquê de precisar da proteção alheia.
_Como se sente hoje? Consegue se lembrar de alguma coisa? Do seu nome? – E ao que ele apenas balançou a cabeça negativamente, sorriu, acariciando de leve os cabelos curtos. – Não se preocupe, as memórias voltarão e, caso não voltem, pode permanecer aqui, conosco. Sabe, ainda me arrependo de ter cortado seus cabelos... Mas estavam tão cheios de nós...
Ele apenas sorriu... Como deixar claro para aquela bondosa senhora que o cabelo pouco lhe importava? Não ligava mesmo se estava careca ou não... O que ela estava fazendo por ele não tinha preço. E de pôr preço nas coisas e nas pessoas, bem... Algo lhe dizia que tinha certa experiência nisso. Quem iria acolher um desconhecido em sua casa e cobri-lo de cuidados?
Podia não ter muita certeza sobre o que o levara a vagar pelas ruas, mas tinha certeza de que poucos fariam o que aquela mulher fez. Ela era tão carinhosa e o tratava com amor, não podia duvidar dessa simples verdade. Sentia-se acolhido... Sentia-se protegido... E, em meio ao caos no qual se encontrava sua mente, tão confusa e cheia de incertezas, a figura daquela senhora, tão forte quanto a sua mãe fora, ah... Ela era a sua luz em meio às trevas, ela era a única certeza dentre os lampejos de acontecimentos que, vez por outra, lhe sacudiam, deixando-o cada vez mais preocupado por não saber se os mesmos eram fruto de um estranho passado ou não... Estaria enlouquecendo?
_Meu neto fez bem em te trazer para casa. Sabe, meu filho... Eu perguntei sobre você em hospitais e delegacias. Ninguém sabe nada sobre um homem, quarentão, tão bonito assim – e sorriu novamente. Ah, ela sempre sorria, por mais esquisita que fosse a situação – perdido. Uma pena, não é? Não encontramos nada que pudesse identificá-lo... Somente os farrapos que vestia, mas nada... Absolutamente nada. Nenhum documento, nenhuma foto, nem um relógio... — E ao perceber que o homem ainda muito debilitado ressonava, o acariciou mais uma vez. – Ah, parece que vejo novamente meu Frederick.
_Vovó, ele disse alguma coisa?
A senhora voltou os olhos para a porta, encontrando o neto, um jovem muito ativo e sagaz, que a pouco ingressara na universidade, todo um orgulho para ela que, a despeito de todas as dificuldades, o criara sozinha.
_Não, meu amor... Nenhuma palavra. Ele ainda está muito fraco. Verificou as roupas dele novamente?
_Duas vezes... Não há nada naquele pano de chão, ao menos nada além de muitas manchas de sangue e sujeira. Onde quer que ele estivesse antes, estava sofrendo muito. Tirando os trapos, é como se ele tivesse acabado de vir ao mundo. Temos que dar um nome a ele, vovó...
_Bem, escolha um então, Fred. Mais escolha um bem pomposo... Nosso hóspede tem um ar bem esnobe, não acha?
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