Submersa em ilusão
2 O delito
Notas iniciais
Seu comportamento imprevisível, senão fosse excitante, seria o meu maior motivo de irritabilidade. Aliás, eu estava irritada. Não com ele, é claro. Mas com o destino que parecia sempre encontrar imprevistos quando se tratava de nós dois. As horas não queriam passar. Os sinais das ruas principais estavam sempre fechados. Aquela contagem regressiva fazia meu estômago reclamar cada vez mais e, agora, de fome, talvez.
Não é segredo minha aversão às esperas e surpresas. Será que ele pretendia tirar-me do sério, de propósito só para achar graça depois? Não seria difícil ele conseguir isso. Eu não estava para brincadeiras. Mais cinco ou seis quarteirões, chegamos, depois de muito trânsito. Ele estacionou depressa na vaga supostamente reservada e descemos simultaneamente.
Ele, enfim, segurou minha mão. Sem pedir permissão, como geralmente evita fazer por educação. Só então eu pude sentir a paz de estar, de fato, com ele. A sua mão era tão macia que eu poderia deixar a minha embrulhada ali para sempre ou, pelo menos, por muito tempo, ou até a comida chegar mesmo. Eu realmente estava faminta! Contudo, aquela falta de diálogo estava torturando-me ainda mais que aquela inconveniente fome. Eu estava ficando neurótica.
Havia um simpático senhor na portaria. Era o divertido porteiro vestido formalmente como um marinheiro. Em sua frente, havia uma bancada. Provavelmente, em cima dela, ficava a lista referente às reservas.
Não pude evitar perder o olhar nos altos com a quantidade de andares daquele restaurante. Parece o Titanic de tão grande. É claro que eu já tinha conferido-o pelo Instagram. Todavia, nunca tinha sequer passado na frente dele antes. Tinha uma localização complicada e eu não cogitaria jamais em jantar em um lugar tão caro senão fosse a convite do Nicolas.
Estava ansiosa para mergulhar naquela imensidão de navio. Ou melhor, restaurante. Eu mal poderia acreditar que ele existia mesmo. Era demasiadamente estonteante para uma cidadezinha como a minha. No entanto, segurei-me para não apressar Nicolas e evitar qualquer constrangimento.
– Boa noite, senhores. A reserva está no nome de quem? – Perguntou o porteiro de sotaque diferente.
– Nicolas Abravanel, como o senhor bem sabe – Respondeu com um sorriso.
– Ah, é claro! – Confirmou o porteiro sorrindo de volta como se já conhecesse Nicolas há tempos – Sendo assim, sejam muito bem-vindos e bom naufrágio! – brincou espontaneamente distraindo-nos.
– Obrigada – agradeci apressada.
Entramos. A decoração era preta, branca e azul royal. Com alguns lustres que iluminavam apenas o suficiente para disfarçar a escuridão. As laterais eram painéis de enormes aquários com luzes neons! Com peixes diferentes e coloridos. E o mais surreal: eram todos de verdade.
Os painéis estavam divididos por colunas feitas de madeira e enfeitadas com rosas brancas. Era um restaurante extremamente romântico e harmônico. Ainda de mãos dadas, Nicolas me conduziu até uma escada em espiral. Ele nunca me contou que já conhecia aquele lugar. Todavia, percorria pelo restaurante como se já conhecesse cada centímetro dali.
Subimos e ele direcionou-me até a mesa 12. Era uma mesa alta e as duas cadeiras idem. A toalha que cobria a mesa tinha um bonito bordado branco. No centro, havia uma anotação feita a mão em um papel post-it brancos com os nossos nomes escritos com canetas nanquim preta. Eu quis guardá-lo dali direto à minha bolsa, como recordação. Mas é melhor deixar para depois.
Toda decoração, porém, perderam o sentido assim que eu vi a melhor parte da mesa: a entrada de torradas e um patê rosado. Meu estômago já começava a agradecer. Nicolas imediatamente puxou uma cadeira para eu sentar. Logo coloquei a bolsa no colo e enfim tirei uma torrada do prato e a misturei no patê. Assim que provei, pensei alto:
– Finalmente... – Sorri aliviada.
– Está mais tranquila agora? – Ele pergunta achando graça.
– Por que você ri da minha fome, seu Nicolas Abravanel? – Deixo a torrada de lado.
– Desculpa! – Dá uma gargalhada em seguida. – Pode continuar...
– Não. Acho que prefiro esperar pelo prato principal – digo constrangida.
– É você quem sabe – oferece-me um guardanapo insinuando que me sujei.
– Eu estou bem em esperar – tomo o lenço e limpo os cantos da boca apreensiva em borrar o batom.
– O que achou daqui?
– Mágico! – Respondi deslumbrada percorrendo os olhos por todos aqueles aquários e notando que não havia mais ninguém ali além de nós mesmos e os funcionários. – Mas, você não acha estranho como está tão vazio aqui?
– Deve ser porque hoje é sexta. – Argumenta mal. – As pessoas preferem baladas na sexta a ter um jantar romântico – brinca convencendo-me.
– Nicolas, por falar nisso, está na hora de eu te dizer algumas coisas... – Respiro fundo para tomar iniciativa.
– Não quer deixar para depois? – Sugeriu.
– Depois quando? – Questionei.
De repente, antes que ele pudesse dizer o que pretendia desde o princípio, fomos interrompidos por um som, vindo do andar de cima. Um som levemente agudo e rústico. Após, começaram idem sons de piano. Ah, sim... Eu reconheço um piano. Aqueles sons logo tomaram forma. Era uma música. Sons, silêncios... Mais sons e silêncios que traduziam sentimentos. Fechei os olhos para apreciar tudo aquilo com os ouvidos e o coração.
– Depois da dança. – Improvisou tirando-me daquela deliciosa distração.
– Eu não sei dançar. – Recusei.
– Que tal subirmos ao salão aonde estão os músicos?
– Claro. Vamos. – Aceitei entusiasmada, levantando-me.
Ele fez o mesmo. Segurou em minha cintura e sussurrou em meu ouvido:
– Eu estava morrendo de saudades de você... – desarmou-me.
Se aquilo fosse um pedido de paz. O acordo já estava assinalado e oficializado. O andar de cima tinha uma decoração mais alegre com tons de amarelo e mais iluminado. Não me era tão agradável quanto o ambiente com aquários, mas era confortável estar lá também. Chegamos no salão onde havia um pouco mais de iluminação. Era um pianista e uma violinista. Uma dose de clichê.
Lembrei da vez em que Nicolas convidou-me para assistir o concerto como pianista. Entusiasmada, fui a primeira a chegar no teatro aonde ele iria apresentar-se. Aproveitei para sentar na primeira fileira do centro, bem de frente para o palco. Logo depois as pessoas foram chegando e preenchendo as 700 poltronas do único teatro da cidade.
Estava ansiosa para assisti-lo. Estava com a câmera preparada em mãos para gravar as melhores partes. Ele havia passado o dia inteiro animado por aquele concerto a noite. Eu estava feliz por ele, por conhecer sua paixão pelo palco e pela música. Porém, eu sentia-me sozinha ali entre tantos desconhecidos na plateia.
Quando as cortinas verde-musgo deram sinal de que haveria mesmo um concerto, ao começarem a subir, eu pensei que fosse sentir-me menos sozinha ao assistir Nicolas. Eu enganei-me. Ele estava ao lado de uma violinista. Era Laura. A garota talentosa que ele elogiava assim que lhe era oportuno.
Era inegável como eles completavam-se no palco. Na primeira música, eu quis fugir dali ao deixar a minha câmera cair junto com o meu sorriso. Eles pareciam fazer muito mais que música quando estavam juntos. Todos queriam aplaudi-los ao fim de cada música enquanto tudo o que eu queria era algum divisor de águas entre eles.
Ela era bonita demais. Tinha um esteriótipo perfeito. Era sutilmente bronzeada com longos cabelos loiros e um sorriso encantador. Não era a toa que era a violinista requisitada da cidade. Ela completava Nicolas de um jeito que eu nunca seria capaz. Ela tinha beleza e a música – a coisa que ele mais amava entre todas as coisas.
Quando finalmente anunciaram a última música "My Heart Will Go On", eu pude sentir o meu coração ficar em paz novamente. Todavia, foi em vão. Eles envolveram-se tanto a com a música que, ao final da mesma, deixaram seus instrumentos e correram para um abraço seguido de um apaixonado beijo antes das cortinas fecharem.
Todos, no mesmo instante, levantaram-se para aplaudir aquela cena. Enquanto eu enxugava a primeira lágrima que deixei cair por. Naquela noite, eu percebi o quão apaixonada estava por ele. Foi quando comecei a perder o meu próprio rumo para seguir os seus passos tão certos de mistérios.
Eu nunca entendi porque o relacionamento deles não foi para frente. Eu poderia jurar que ainda havia paixão correndo por suas artérias. Contudo, eu estava com o coração na mão e não havia outra saída senão acreditar nas palavras dele, por mais que não passassem de uma ilusão. Afinal, ele negava qualquer envolvimento amoroso com ela. Era confortável mais ouvir isso do que acreditar nos meus dolorosos instintos.
Nicolas e eu éramos muito diferentes. Ele era alguém tão bom para mim que eu queria tê-lo por perto o tempo todo. Eu era egoísta e temia que ele notasse isso. Talvez, por isso, eu nunca quis envolver-me demais com a música e o deixava quase livre nos seus momentos com o piano. Aquele universo da música não era para mim.
Algumas vezes, eu pensei em tomar o lugar da Laura no palco com o Nicolas. Todavia, era um pouco tarde para aprender a tocar um instrumento e mais tarde ainda se esse instrumento fosse um violino. É óbvio que eu não gostava dela ao lado dele. Mas eu entendia que ela era importante para ele. Talvez, até mais que eu mesma.
Aquela súbita lembrança só estava deixando-me tensa e angustiada. Procurei dispersar-me dessas amargas memórias e naufragar, como diria o porteiro, nos sentimentos que cabiam ali entre eu, ele e a fascinante música que nos envolvia. Tínhamos uma música tocando ao nosso favor. Tínhamos os caminhos cruzados como benção de uma coisa que costumo chamar de destino. Eu não estava disposta a jogar tudo aquilo ao vento como se não fosse nada demais, não dessa vez. Aquilo, para mim, era tudo.
Chegando ao salão, ele abraçou-me inesperadamente e então insistiu:
– Por que não dança comigo?
– Eu não quero pisar nos seus sapatos tão limpos – observei.
– Eu posso tirar eles em troca de uma dança com você – apelou.
– Você não precisa – segurei seu rosto com uma de minhas mãos.
A respiração dele estava cada vez mais próxima da minha e eu não me incomodei. Com a outra mão, segurei sua nuca e aproximei-me. Eu pude sentir as batidas do seu coração próximas ao meu. Quase no mesmo ritmo, aceleradas. Eu oscilava entre o frio na barriga e o calor dos seus braços, a certeza do que eu queria e a incerteza se ele almejava o mesmo, a aversão ao beijo e o desejo de tê-lo.
Ele encostou os lábios nos meus e agarrou-me pela cintura com força. Aquilo era um beijo. O beijo que sempre negamos, desde crianças. O beijo mais perverso e doce de nossas vidas. Poderia ser o fim ou o começo. Não seríamos os mesmos depois daquilo. Eu estava delirando. Eu estava submersa. Eu não queria deixá-lo nunca mais até que ele soltou meus lábios com carinho e disse em tom de arrependimento:
– Eu gostaria de ter evitado isso.
– De verdade? – Entristeci.
– Não, – respondeu seriamente – mas eu deveria – acrescentou.
– Se você não o fizesse, eu o faria – confessei.
– O que você vê é a ponta de um iceberg, meu bem – acariciou meu rosto.
– Eu sempre soube disso!
– Você não me entende. E eu não pretendo ser muito claro.
– Eu gosto disso também – aproximei-me de seus lábios novamente e ele, por sua vez, relutou.
– Amanhã, pela manhã, você mesma vai lastimar o que aconteceu agora.
–Não diga uma coisa dessas! – Exclamei chateada e afastei-me imediatamente de seus braços – Aliás, isso depende do que você quer. Você quer que eu me arrependa disso amanhã? – Supliquei por uma resposta, qualquer resposta, enquanto torcia para que ele negasse, para que apenas a brincadeira mais idiota que ele poderia ter feito.
– Vamos deixar o amanhã para o próprio amanhã responder.
– Nada mais justo! – Exclamei indignada.
O clima tornou a ficar pesado como uma nuvem no temporal. Provavelmente, ele agiu rude assim por precisar de um tempo. Se ele quer um tempo para pensar em como gostaria que eu sentisse-me amanhã pelo nosso beijo, tudo bem. Desde que esse tempo não durasse a noite toda. A única certeza que eu tinha era que já fazia-se tarde. Eu já estava submersa em amor ou ilusão e não havia volta.
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