Submersa em ilusão
7 Segredo?
Notas iniciais
O portão de casa estava escancarado. Entrei e fechei correndo. Meus olhos estavam enchendo-se de lágrimas. E não tinha problema nenhum porque não havia ninguém mais ali. Afinal, se minha mãe estivesse em casa, ele jamais teria gritado comigo daquele jeito. Aliás, jamais teria gritado, fumado ou embriagado.
Subitamente vejo outra sombra. Era Nicolas.
– Você já pode ir embora – avisei ignorando a presença dele ali por mais algum tempo.
– Você não está bem, Mel. Me deixa ficar com você. – Pediu partilhando da minha dor.
– Eu não preciso de você para ficar bem. – Ignorei.
Ele deu um passo para trás, propondo sua retirada.
– Você tem certeza? –Perguntou e eu dei de ombros. Ele deve ter feito o mesmo em seguida e logo foi embora.
Eu não lembro de muitas coisas do meu pai antes dele ir embora, quando eu era menor. Mas lembro de como ele e minha mãe brigavam. Por isso, ela dava-me tanta permissão para passar os finais de semana na casa do Nicolas e fazer cursos a tarde. Eu sempre pensei que ela fazia isso por não gostar muito de mim por perto, mas algo no meu coração dizia que era para o meu bem. Eu não podia odiá-la. Afinal, eu sabia que ela era a única pessoa que jamais deixar-me-ia nem na pior das hipóteses.
De qualquer forma, entrei em casa procurando por ela.
– Mãe? – Chamei e ninguém respondeu.
O celular dela estava na bancada. Deve ter esquecido. Mas eram quase 23 horas. Onde ela poderia estar sozinha aquela hora sem celular? Fui para o meu quarto, pensar em como eu deveria contar a cena que vi em frente de casa. Eu não tinha muito tempo para pensar. Eu precisava dormir logo para acordar disposta a conversar com os pais do Nicolas.
A noite foi longa. Eu virava de um lado para o outro, agoniada. As horas passavam e eu só conseguia pensar em Nicolas, como se fosse ele o maior dos meus problemas. Definitivamente, ele era o maior motivo das minhas pertinentes insônias. Antes de dormir, eu costumava imaginar ele e mim daqui uns anos. Imaginava ele com a barba por fazer e um terno. Eu não conseguia imaginar como eu seria daqui uns anos porque, bem, eu quase nunca reparava tanto em mim.
Fiquei um pouco arrependida de não ter deixá-lo ficar. Lembrava do nosso beijo. Foi mágico. O passe de mágica mais ligeiro que conheci na vida. Ele só estava tentando conquistar-me para convencer-me de fugir com ele. Que bobo! Todavia, ele quase conseguiu. Se eu tivesse uma lâmpada mágica agora em mãos, meus três pedidos se resumiriam em viver aquele beijo mais uma vez.
Aliás, Nicolas era o único garoto que eu já havia beijado. Quando nos reencontramos no cursinho para o vestibular, ele fez a proposta de ensinar-me algumas coisas sobre o que os namorados fazem. Foi a pior proposta que já aceitei dele. Eu morria de curiosidade e não era nada experiente. Por um tempo, pensei que iríamos namorar. Até os pais dele pensaram. Foi então que fui obrigada a desistir da ideia. Porque: ou seríamos amigos ou seríamos nada. Eu não era judia.
Se não estivesse tão tarde, eu ligaria para ele e pediria para que ele voltasse. Sei lá, talvez eu também aceitasse fugir por um tempo – se eu tivesse esse tempo. Mas semana que vem tudo começa a mudar. As aulas começam, vou procurar um emprego e conhecer pessoas novas. Não pretendo esquecer Nicolas, só pretendo não fazê-lo o motivo das minhas insônias. Estava farta de querer algo que eu não poderia tocar.
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