Subentendido
23 Capítulo 23
Notas iniciais
– Lar, doce lar – Ronaldo comenta se espreguiçando, entrando no casarão, enquanto os outros membros da casa se empurram em direção a geladeira. Vera tenta contornar a situação, pedindo calma para os filhos. Vitor e Giovana parecem estar prestes a se matar por um pacote entreaberto de biscoito recheado. Ben e Pedro parecem estar conversando em um canto mais afastado. O mais velho mostra algumas fotos para o pequeno, que sorri, parecendo inerte a todo aquele fuzuê. Sofia observa os irmãos por alguns segundos, e um sorriso aparece em seu rosto, antes de se sentar no antigo sofá e fechar os olhos por alguns segundos. Sente algo quente e peludo e ao abrir os olhos se depara com fulano, aos seus pés.
– Você sentiu minha falta? – ela sussurra baixinho. Fulano apenas levanta a cabeça e olha diretamente em sua direção por alguns segundos, antes de esfregar a cabeçorra em suas pernas. Depois seus olhos se prendem ao dono e ele corre até o caçula do casarão, dando uma lambida no rosto do pequeno, que lhe faz um afago na cabeça e ri. Odiava admitir para si mesma, mas havia sentindo tanta falta disso.
– Parece que o Pedro tem um bom poder de convencimento – Ronaldo fala de maneira indireta, e observa de relance a garota por alguns segundos. Os pés propositalmente encostados no apoio da mesa, enquanto foleava o jornal do bairro sem muito interesse.
– Eu faço qualquer coisa pelo Pedro, até voltar pra esse muquifão – Sofia responde olhando o padrasto, que por de trás do jornal, sorri, sabendo que por de trás de toda aquela marra, a enteada havia sentindo saudades do lar, mas nunca admitiria. Ele baixa o jornal e seus olhos encontram os da loira.
– Bom saber disso Sofia, o Pedro tem um apreço muito especial por você... E – ele coça a barba rala do queixo – Não só o Pedro, todos nós dessa casa amamos você, alguns mais, outros menos, mas você faz parte dessa família. Pensa nisso! – ele termina por fim, dando um sorriso breve, deixando a loira sozinha, perdida em seus pensamentos.
Não conseguia imaginar alguém, além da sua mãe e Pedro que a amasse naquela casa, mas algo nas palavras de Ronaldo a deixaram em dúvida. Ela franziu a testa pensando em tal possibilidade de Giovana e até mesmo Vitor nutrirem algo de bom por ela. Parecia ser uma ideia absurda, ela sorriu para si mesma, um sorriso amargo e irônico... Pensou em Ben e Anita. Esses mesmo vão me odiar por resto da vida, ela refletiu, fitando a família sentada a mesa, ainda brigando por comida. Aquele definitivamente não era o lugar dela.
– Ei Sofia – Pedro a chamou, vindo em sua direção, correndo.
– Pedro, meu filho, não corre, você ainda tá em recuperação – Vera repreende o pequeno, que suspira e revira os olhos para mãe, andando a passos lentos até a irmã.
– Vem – ele puxa a irmã pela mão – O Ben tá me mostrando umas fotos incríveis de uma viagem que ele fez com a mãe dele pro Egito.
Ela deixa se levar pelo irmão, a contragosto, mas sem querer decepcionar Pedro.
– Egito? Sua mãe viajava bastante para quem era ilegal nos Estados Unidos – a loira discursa irônica se aproximando do moreno, que sorri para o álbum.
– Ela não era ilegal... Ela conseguiu se casar com um americano, por isso tenho dupla cidadania – Ben responde fitando os olhos da loira.
– Isso foi antes do Hernandez?
– Foi – ele respondeu categórico.
– Sua mãe não perdia tempo hein!
– Ele era um amigo, eles não tiveram nada – Ben fala convicto revirando os olhos – Depois a minha mãe conheceu o Hernandez e se apaixonou por ele, e o Brian, que é o nome desse cara que casou com a minha mãe, precisou se mudar para Nova York – ele parou parecendo pensativo — Ele foi um cara incrível, ajudou muito a gente quando chegamos lá.
Um silêncio perdurou por alguns segundos. Sofia sabia por cima que Ben e a mãe haviam passado necessidades quando foram morar nos Estados Unidos, mas ele nunca tocava muito no assunto. Ela se sentou ao lado de Pedro, e por fim disse.
– E ai, vão me mostrar as fotos ou não?
Pedro sorri e pega o álbum das mãos do irmão. Sofia observa a primeira foto, de um garoto com aproximadamente 10 anos com uma camiseta do Brasil, em cima de um camelo, sendo bem segurado por uma mulher loira e sorridente. Os cabelos castanhos cacheados quase cobrindo-lhe os olhos, um sorriso arteiro no rosto.
– Ai meu Deus, você era tão fofo Ben – Sofia fala sem pensar, enquanto Pedro sorri – E essa é a sua mãe? Caramba, ela era bonita. E olha essa bolsa, é uma Louis Vuitton, eu tenho certeza e foi a mesma bolsa que a Audrey Hepburn apareceu em um première na década de 60, que, obviamente sua mãe comprou no relançamento da coleção no início de 2000.
– Essa é sim a dona Cícera – Ben fala parecendo reservado – E como você pode perceber, ela era bem deslumbrada e fútil também.
– Só porque ela tinha bom gosto para bolsa? – Sofia retruca encarando os olhos de Ben, magoada. Sabia que aquele “também” havia sido destinada para ela.
– A bolsa parece ser legal – Pedro comenta tentando apaziguar a situação entre os irmãos – Sabia que o Ben está em frente a esfinge com a pirâmide de Quéfren ao fundo, uma das sete maravilhas do mundo? – Pedro indaga extasiado – Esse lugar é incrível. Essa pirâmide tem 146 metros de altura, equivalente a um prédio de 50 andares, sem falar na esfinge, você sabia que o corpo dela é de um leão?
– Parece ser legal? – Sofia pergunta sarcástica ignorando a fala pregressa do irmão — Essa bolsa é uma relíquia Pedro, qualquer pessoa em sã consciência reconheceria isso – seu olhar vai para Ben, que revira os olhos, emburrado.
– Para mim isso é só uma bolsa, que representa uma futilidade mediante a toda a desigualdade que existe no mundo!
– Ah, claro, esqueci que estava falando com o embaixador da UNICEF e do Greenpeace – Sofia sorri, de modo irônico – Essa moda que você acha tão fútil emprega milhares de pessoas ao ano.
– Ah claro, trabalho escravo né, em países subdesenvolvidos – Ben franzi a sobrancelha – É esse tipo de trabalho que essa sua bolsinha aí representa.
– Nisso eu vou ter que discordar de você Ben – Pedro fala encarando os irmãos – Existem muitas empresas que se preocupam com seus funcionários, bem como com responsabilidade social, ecossistema.
– Mas não são todas Pedro, a grande maioria explora mão-de-obra barata e isso também não dá o direito de eles cobrarem rios de dinheiro por uma bolsa.
– Deixa Pedro não adianta tentar falar com esse aí – Sofia discursa cruzando os braços e virando a cara – Ele acha que é o Che Guevara do Grajaú e que suas ideias vão mudar o mundo.
– Eu não acho que eu sou o Che Guevara do Grajaú, da onde você tirou isso? – Ben gesticula a cabeça em negação, olhando de relance para a loira – Olha eu desisto.
– Crianças, venham comer! – Vera grita, se direcionando a Ben, Pedro e Sofia – Vem Pedro, Sofia, Ben!
– Cara, eu tô morrendo de fome, aquela comida do hospital é horrível... Ben – ele faz um movimento para o irmão com os olhos. Ben o fita sem entender e sendo pego pelo olhar astuto da irmã, ele sai correndo em direção a mesa e abraça a mãe. Sofia observa Anita encarando os dois de longe, até ser chamada por Giovana.
– Olha, eu não queria falar nada daquilo – Ben começa, sem jeito – Não de você.
– Não foi o que pareceu – Sofia fala sem se dar por vencida – Você me chamou fútil, mais uma vez.
– Olha, eu só fiquei mexido de ver essas fotos, a minha mãe não dá notícias há semanas – ele fala com o olhar perdido – E apesar de ela já ter feito isso antes, eu sinto que essa vez é diferente, como se alguma coisa ruim estivesse acontecendo.
– Você já tentou falar com o Hernandez?
– Já, mas ele também não sabe de nada – ele encara os olhos da loira a sua frente – Só não comenta com ninguém aqui de casa, todo mundo aqui já está com a cabeça com coisas demais.
– Vem cá, agora além de fútil eu sou fofoqueira também? – Sofia retruca, enquanto Ben comprime os lábios e revira os olhos. Sua mão toca na da loira, que o fita nos olhos.
– Eu só tô querendo dizer que você é a primeira pessoa que eu contei isso e eu não quero que nossa família se preocupe comigo – seus olhos se perdem por alguns segundos nos olhos da loira.
– Sofia, Ben, vou ter que chamar de novo? – a voz enérgica da matriarca da família ressoa no ouvido dos dois, que “despertam”, sem jeito – A janta tá esfriando – ela se aproxima dos dois que ainda parecem desconfortáveis na presença um do outro – Vem filha, você precisa se alimentar, não vi você comendo nada naquele hospital – Vera puxa Sofia pelo braço e Ben levanta, as seguindo. Na mesa, Pedro está contando alguma coisa e Ronaldo e Anita estão rindo. Giovana está sentada no sofá, com os fones de ouvido, inerte a conversa, a cabeça balançando ao ritmo da música. Vitor, grita, descendo as escadas, procurando um dos seus pesos, porque precisa malhar. É só mais uma noite rotineira no casarão, mas com um diferencial importante... A patricinha da Barra voltou para a Grajaú.
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