Subaquático
11 Aperto no peito
Notas iniciais
A sexta-feira de outono amanheceu chuvosa, e o mar estava levemente agitado. Dentro do recife, porém, as coisas continuam as mesmas: a água em uma temperatura agradável, suavemente iluminada pelas pedras brancas espalhadas por todo canto, e uma corrente fraca que balançava as algas presas nos corais.
—- Minha mãe morreu.
Kageyama prende a respiração por vários segundos, olhando firme nos olhos de Hinata – estavam tristes, um pouco inchados, sem o usual brilho animado que sempre têm.
—- No pânico causado pelo barco pesqueiro ela levou uma ferroada de uma das arraias bem no peito.
—- Eu não sei nem o que dizer – Kageyama admite, mordendo a boca.
Hinata ergue o olhar para ele, vendo tudo meio embaçado por causa das lágrimas. Seu queixo treme e ele mal consegue respirar. As escamas de sua cauda estão pálidas, e até o cabelo ruivo parece ter desbotado um pouco.
-- Vai ficar tudo bem, Hinata.
A voz suave de Kageyama faz o menino ruivo derramar todas as lágrimas que segurava. Elas escorrem, quentes, pelo rosto de Hinata e ele soluça alto. Kageyama passa o braço por seus ombros e o afaga de leve. O sereiano vira-se e se espreme no peito do menino, abraçando-o com força.
-- Promete?
-- Sim, prometo.
Hinata ergue a cabeça com um sorrisinho triste, cílios úmidos. Kageyama pisca seus olhos azuis na direção dos lábios de Hinata, e o olhar do ruivo também cai. Segurando gentilmente no pescoço de Kageyama, Hinata junta a boca na dele.
-- E-Eu... – Hinata gagueja, ouvindo o coração pulsar em seus ouvidos. Kageyama tem o rosto quente e as orelhas vermelhas – Queria que você pudesse ficar comigo pra sempre.
Quando os olhos deles se encontraram de novo, Kageyama prometeu a si mesmo que faria o possível para nunca mais sair do lado de Hinata.
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-- Aqui é o jardim, onde a gente planta todas as algas. A produção não é muito grande porque a maioria dos sereianos aqui é carnívora, e as algas são mais como complemento da dieta e tal.
Suga aperta a mão de Daichi e seus olhos brilham com força. Realmente parecia um jardim, como naqueles filmes que Suga assistira com Daichi: uma grama de algas verdes que balançava com a maré e outras algas marrons compridas, que subiam dezenas de metros, cercadas por montinhos de algas vermelhas por todos os lados.
-- Nossa, elas são tão altas! – Suga ri, absorvendo tudo ao redor de si.
-- O pessoal que cuida do jardim usa um fertilizante natural pras algas crescerem mais rápido – Asahi sorri e passa os dedos entre as folhas marrons.
-- Fertilizante natural...? – Suga pergunta baixinho no ouvido de Daichi.
-- Cocô – Daichi responde e segura uma risada.
-- Oh!
Daichi olha para Kageyama e Hinata, que parecem bem quietos. Hinata solta algumas bolhas grandes de vez em quando, e segura firme na mão de Kageyama enquanto o pequeno grupo passeia por Nerida.
-- E ali, depois daquela pedra, fica a escola das crianças.
-- O que é escola? – Hinata pergunta, tombando a cabeça.
-- Escola é o lugar que as crianças vão pra aprender mais sobre o mundo e a sociedade – Asahi praticamente brilha de empolgação. – Querem ver?
Os cinco nadam até um círculo de areia no chão e se apoiam na pedra para verem quatro sereianos crianças sentados abraçando suas caudas, olhos atentos no moço com rabo de cavalo-marinho e uma cicatriz nas costas.
-- Aquele é o Hippo, acho que ele tá explicando sobre o oceano pacífico.
Daichi levanta sua GoPro e tira uma foto da escolinha, e uma do rosto alegre de Suga. Suga olha para ele e abre um sorriso enorme, causando um dolorido aperto no peito de Daichi. Ele sorri de volta.
Depois de assistirem à aula por alguns minutos, Asahi os leva por um caminho cheio de curvas até a Ponta.
-- Ponta? Por que “Ponta”? – Kageyama perguntou, confuso.
-- É porque é na ponta do recife – Asahi soltou uma risadinha – Lá é bem legal, acho que vão gostar.
E eles realmente gostaram. A Ponta parece um mirante para o resto do oceano; da pedra escura eles veem aquela redoma transparente descendo mais algumas centenas de metros, longe da luz do sol. Mais ao longe fica difícil de ver com clareza, e tudo parece imensamente vazio. Um ou outro peixe solitário passeia mais próximo da superfície, e a escuridão abaixo é um pouco amedrontadora. Daichi aperta os dedos de Suga.
-- É... lindo – Daichi diz, soltando o ar pesadamente.
E realmente é: é possível ver os raios de sol penetrando a água até metade do caminho, e depois sumindo; aquela imensidão azul na frente deles é reconfortante e pacífica, e as veias de pedra branca na escura iluminam suavemente ao redor. Daichi tira várias fotos para poder se lembrar depois, focando também nos outros três garotos.
-- A água aqui é mais quente ou é impressão minha? – Suga pergunta, olhando para as próprias mãos.
-- É sim – Asahi responde – É porque estamos mais perto do vulcão que fica debaixo do recife.
A carinha de Hinata se ilumina.
-- Podemos ver?!
-- N-Não é proibido ou algo do tipo...? – Daichi pergunta só para ter certeza.
-- Nada aqui em Nerida é proibido. – Asahi sacode os pés – Qualquer um pode fazer o que quiser, mas óbvio que não é recomendado ir pra perto do vulcão...
-- Você já viu, Asahi? – pergunta Suga.
-- Já. Passei alguns dias estudando o efeito dele nos corais e na vida marinha aqui do recife – sorri – Querem ir?
Todo mundo concorda animadamente. Voltando pela fenda que leva à Ponta, eles movem algumas algas compridas que cobrem uma rachadura.
-- Oi, Asahi! Quanto tempo!
-- Olá, Noi! Verdade, né? Depois deixa eu te levar pra um passeio!
Asahi aproxima-se da parede para conversar com um ouriço preto. Ele balança alguns de seus espinhos alegremente, e os dois conversam por breves minutos.
-- Tenham cuidado lá embaixo, ok? O vulcão anda meio agitado. – aconselha Noi.
-- Obrigado! Vamos ter cuidado sim! – Suga abre um sorrisão e agita a cauda.
Eles descem algumas dezenas de metros por um túnel apertado e meio escuro. Daichi e Kageyama começam a sentir calor, e suam dentro das bolhas ao redor da cabeça.
Asahi também respira com um pouco de dificuldade. Ele vai na frente, guiando os meninos, e afasta uma pedra. Luz alaranjada explode para dentro do túnel, e eles são banhados por água quente.
Do buraco na parede eles veem uma piscina alaranjada e vermelha. De algumas fendas, lava escorre pelas paredes até o fundo. É difícil de enxergar por causa da quantidade de bolhas que sobe do contato entre água e lava.
-- Nunca vi nada parecido... – Hinata sente as escamas se arrepiando.
-- É tão quente, mas tão legal – completa Kageyama, parecendo embasbacado. Asahi solta uma risada.
-- É sim, mas melhor irmos embora. – ele passa a mão na testa – Estamos desidratando muito rápido aqui, e a água é um pouquinho tóxica hehehe vamos voltar pra biblioteca e lá a gente conversa.
Daichi chama Suga e tira uma foto dele quando ele olha. Suga está bonito na luz quente, e seu cabelo claro reflete as cores da lava. Daichi também tira fotos do vulcão e dos túneis.
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Uma das sereianas da noite anterior, a com rabo de golfinho, foi até a biblioteca para criar uma bolha de ar no fundo para os meninos humanos.
-- Obrigado, Aouli. – Asahi sorri e senta na areia, respirando fundo – Ficar com essa bolha na cabeça cansa.
-- Imagino. – o sorriso dela é bonito, e Kageyama fica corado nas bochechas – Vocês vão estudar?
-- O Daichi pediu que eu explicasse algumas coisas pra ele. Você pode ajudar na parte técnica se quiser.
-- Oba!
Ela atravessa o paredão de água e cai na areia junto com os outros meninos. Daichi tentar ao máximo manter os olhos longe dos peitos dela.
Ele espia na direção de Asahi e ele balança a cabeça lentamente, como se entendesse a dificuldade de Daichi. Um laço nasceu bem ali.
-- Como você fez isso? – pergunta Suga, esticando as mãos para o alto.
-- A bolha? – ela solta uma risadinha fofa – É magia!
-- Claro, ok – Kageyama cruza os braços.
-- Não, é sério. – Asahi arregala bem os olhos – É magia mesmo. Magia e um pouquinho de ciência. É uma coisa tão antiga que não tem registro nos livros, e que eles passam entre gerações.
-- Sim. As ondas do mar dão uma espécie de energia pra gente. Aí só combinamos com química, física e matemática pra realizar as coisas!
Ela sorri como se tivesse dito a coisa mais simples do universo, e Hinata abre a boca.
-- Por exemplo: a bolha que eu fiz... – ela coloca as mãos de volta na água – Se eu faço um movimento rápido assim, eu formo um vácuo, tá vendo? – ela junta as mãos e as separa rapidamente – E aí pra fazer uma bolha eu só tenho que separar as moléculas de oxigênio das de água e coloca-las nesse vácuo. Assim. – ela repete o movimento e uma pequena bolha surge no lugar – Aí se vocês forem ficar dentro delas, como o Asahi sempre fica, tem que pedir pra água deixar o oxigênio na bolha e tirar o gás carbônico, e aí podemos respirar de boa!
-- P-Pedir pra água...? – Daichi sente-se confuso.
-- É! – Aouli agita a cauda animadamente – Se a gente pede com jeitinho, ela obedece.
Todo mundo olha para Asahi.
-- Não sei exatamente como isso funciona no aspecto científico, mas os sereianos têm uma conexão muito profunda com o oceano.
-- Você sabe fazer isso, Hinata? – Suga pergunta.
-- Eu entendo a teoria e os conceitos químicos, mas não sei fazer... – ele coça a cabeça – Não pude praticar quando criança.
Daichi e Suga estão encantados. As escamas de Suga estão arrepiadas e ele espreme a mão de Daichi com entusiasmo. Os dois quase saltitam de empolgação.
-- Ah! Eu te ensino! – Aouli bate palmas e sorri – Você pode vir também, Suga! Me falaram que você nunca teve nenhum tipo de contato com a gente, então pode ser um pouquinho mais difícil de aprender... Mas não se preocupe! Sou uma ótima professora! – ela ri e solta um apito agudo.
Suga olha para Daichi de boca meio aberta.
-- Isso parece tão legal! – Daichi sorri e sacode a mão de Suga – Vai, vai!
Suga abre o maior dos sorrisos e aceita ir com Hinata e Aouli. Eles se despedem, prometendo se reencontrar na hora do almoço. Os três se afastam enquanto nadam felizes para fora da biblioteca.
-- Tenho que admitir que tô com um pouco de inveja – Daichi coça a nuca.
-- Essa conexão deles é uma coisa que acho que nunca vou entender... – Asahi olha para a parede de água ao seu lado e a toca com a ponta do dedo.
-- Asahi-san, você é tipo um cientista? – Kageyama abraça os joelhos.
-- Minha história é um pouquinho complicada – ele solta uma risadinha. – Posso contar se vocês quiserem.
-- Por favor.
“Eu sou formado em Oceanografia. Isso quer dizer que eu até que sei bastante coisa sobre o mar e tal. Na faculdade conheci um grupo de ativistas da causa sereiana, e me juntei a eles. A gente normalmente briga judicialmente com as pessoas que mantêm sereianos em cativeiro e até ajudamos alguns a escaparem. Ilegalmente, é claro.
“Um dos sereianos que salvamos acabou se tornando muito amigo nosso. Ele compartilhou alguns segredos com a gente, e ficamos sabendo de Nerida. Como somos um grupo bem pequeno e restrito, ele nos guiou até aqui e nós conhecemos a comunidade do recife. Faz uns anos isso já.
“Como eu era o único formado em Oceanografia do grupo, eles perguntaram se eu queria ficar um tempo aqui pra aprender um pouco mais e escrever as coisas importantes que descubro. No começo todo mundo ficou meio apreensivo, mas os sereianos são sociáveis por natureza e me acolheram muito bem.
“A maior parte da bibliografia sobre os sereianos é muito restrita, então estou dedicando meu tempo a escrever artigos científicos sobre eles: fisionomia, alimentação, participação no ecossistema, as características da sociedade, interação interespécies, processo de reprodução e tal. Além de, claro, pesquisar mais sobre o oceano em si, já que os sereianos têm uma literatura extensa sobre a vida no mar, como vocês conseguem ver.
“Tô aqui no recife já faz um ano e meio e escrevi centenas de artigos. Eles não são publicados porque acredita-se que os sereianos são uma espécie extinta na natureza, mas quem sabe um dia?
Asahi sorri e pisca seus olhos castanhos.
-- Então sim, sou meio que um cientista.
-- Que legal.
-- Tem alguma coisa em específico que vocês querem saber? Eu posso tentar explicar se vocês quiserem.
-- Talvez a fisionomia – Daichi responde.
-- E como diabos eles conseguem respirar tanto pelas guelras quanto pelos pulmões. – completa Kageyama.
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Uma pilha de livros está jogada na areia na frente deles. Asahi folheia um livro atrás de alguma coisa, e Daichi e Kageyama passam os olhos pelo conteúdo dos demais.
-- E isso daqui foi tudo eles que escreveram?
-- Sim... É tinta de polvo e uma alga especial. Alguns desses livros têm milhares de anos!
-- Uau... E você consegue ler? – Daichi observa o tanto de linhas e pontos que preenchem as páginas.
-- Hippo fez um dicionário pra mim, mas agora eu consigo entender quase tudo sozinho. O dialeto infelizmente se perdeu, mas eles continuam escrevendo assim; todo o conhecimento da espécie foi relatado em livros, é uma pena que quase todos eles tenham sido perdidos naquele bombardeio... Ah! Achei!
Asahi rasteja para perto de Daichi e Kageyama e apoia o livro no chão. Ele pega um pedaço de papel que estava dentro e o estica, revelando uma série de enormes desenhos: era possível ver os grupos musculares de um lado, o esqueleto do outro, o sistema circulatório e até o trato digestivo.
Os desenhos são muito técnicos e verossimilhantes.
-- Aqui vocês podem ver que o esqueleto e os músculos são uma mistura de humanos e animais aquáticos. Na página 460 a autora ressalta que não se sabe como a mistura ocorreu, mas que provavelmente foi do ancestral em comum do mamífero que evoluiu para sair da água. Ela estima que, enquanto uma parte evoluiu e saiu do oceano para sempre, outra pegou algumas dessas evoluções e voltou para o oceano, adaptando-as para a vida na água. Aqui nesse desenho da estrutura óssea vemos que alguns ossos, como os da caixa torácica, são mais espessos, e que as caudas dos sereianos dobram porque têm uma articulação parecida com um joelho bem aqui.
Ele coloca o livro de lado e pega outro, abrindo bem no meio.
-- Nesse livro, o autor fala de algumas vantagens evolutivas que os sereianos têm na água em comparação com os humanos. Acredito que esse livro foi escrito lá pelos anos 1200. Ele diz que a pele é muito mais grossa para suportar a pressão da água, e que a retina capta toda a luz do ambiente mais ou menos como os felinos e os crocodilianos. Além disso, os sereianos têm uma membrana que tampa o ouvido quando eles estão debaixo da água para proteger o tímpano da pressão, e que provavelmente foi um resultado do acasalamento entre tubarão e um ancestral sereiano que fez com que toda a pele do corpo deles fosse coberta em sensores que detectam as mais sutis mudanças de temperatura, pressão, salinidade, campos elétricos e vibrações na água. Infelizmente o olfato e a visão dos sereianos não são tão aguçados, mas eles até que conseguem enxergar bem – mais ou menos uns 30 metros de distância e baixa luminosidade – e o olfato é ok também, localizando coisas a dois quilômetros.
Asahi pega um livro menorzinho e o coloca por cima, apontando para os desenhos na página.
-- Aqui, a autora fez um estudo extenso sobre a reprodução. Como dá pra ver, os machos têm um bolso interno para guardar o pênis enquanto não usam, desse modo ele fica protegido de eventuais ataques e ajuda na aquadinâmica do corpo. As fêmeas não têm um bolso interno exatamente, é mais como uma película que cobre a entrada da vagina. Uma coisa interessante é que os sereianos não conseguem ter filhotes se uma das partes não quiser... Parece que tem algo a ver com os hormônios que controlam os gametas. Então um casal pode acasalar quantas vezes quiser e não ter filhotes até quando decidirem. Meio que nem a gente com camisinha, mas com eles é natural. Maneiro, né?
Asahi sorri, empolgado, observando o rosto vermelho de Kageyama e as orelhas coradas de Daichi. Ele resolve ignorar e continuar a explicação.
-- Além de machos e fêmeas, existem sereianos intersexo e os que não têm órgãos sexuais. Os intersexo têm tanto pênis quanto vagina e podem ter e fazer filhotes, enquanto os outros não possuem nenhum dos dois. Pelo o que eu pude observar na literatura mais recente, parece que a taxa de sereianos sem genitais de qualquer tipo tem diminuído e os intersexo têm aumentado em quantidade, e eu particularmente estimo que deva ser por causa das baixas nos números de indivíduos por causa da caça e tal. Aí talvez os intersexo sejam mais comuns justamente pra poder elevar as taxas de nascimento. O que vocês acham?
-- Faz sentido – Daichi coloca a mão no queixo – Se dois sereianos intersexo ficarem grávidos, nascem dois bebês, e não só um como aconteceria em um casal de macho e fêmea.
-- Exatamente! Penso também que os sem genitais se devam por causa das mudanças de temperatura, acidez ou salinidade (ainda não estudei muito sobre isso) na água, igual a temperatura dos ovos em alguns répteis que causa nascimento de mais fêmeas ou mais machos dependendo da variação. E semelhante aos humanos, os sereianos normalmente têm um bebê por vez, mas pode vir mais de um no caso de gêmeos ou trigêmeos, mas é bem raro. Os bebês nascem respirando pelas guelras e se alimentam de leite materno até um ano de idade, e por volta dos seis meses conseguem introduzir peixe na dieta. Os sereianos mais jovens alimentam-se exclusivamente de carne porque não têm clorofilase no estômago ainda, mas por volta dos três anos já podem começar a comer algas. Ah! – Asahi estica o braço e abre outro livro, colocando-o no colo de Kageyama – A autora desse livro acredita piamente, e alguns outros autores talvez tenham apoiado essa tese, que em alguma época da História os sereianos e os humanos conviveram juntos, e que foi por causa dos acasalamentos daquela época que os sereianos de hoje têm tanta semelhanças físicas com humanos! Antes, ela diz, os sereianos pareciam mais com golfinhos, mas que a reprodução com humanos deu características fundamentais para a prosperidade dos sereianos no oceano.
Kageyama nem sequer consegue articular alguma coisa para falar, e Daichi ouve a tudo com muita atenção, surpresa e curiosidade. Asahi realmente tinha feito uma intensa pesquisa sobre o assunto, e ele provavelmente era o humano com maior conhecimento em sereianos do mundo.
-- Posso perguntar uma coisa? – Daichi ergue a mão.
-- Claro!
-- Por que vemos tantas variedades de caudas? Por exemplo, a do Suga parece de peixe, a da Miria é de polvo, a da Aouli é de golfinho e o Hippo é de cavalo-marinho. De onde veio isso?
-- Hm... – Asahi apoia o queixo na mão e semicerra os olhos, pensando – Ainda faltam vários livros pra ler, mas até agora só um tratou desse assunto. O autor diz, e eu concordei com ele, que logo no início aquele ancestral acasalou com as mais variadas espécies e deixou descendentes pelo mundo inteiro. Aí, com o passar dos anos, as características foram se perdendo, mas ainda permaneceram no DNA. Então quando um sereiano com predominância de genes pra cauda de peixe acasala com outro do mesmo tipo, nasce um bebê com cauda de peixe. O autor não chegou nessa parte, mas eu suspeito que se os parceiros não tiverem genes predominantes parecidos, alguma coisa como genes dominantes e recessivos deve atuar. Infelizmente, você sabe, até nós não entendemos perfeitamente toda essa coisa de DNA e RNA e genética, então imagino que os sereianos não tiveram tempo de estudar tudo isso antes de serem caçados.
Daichi balança a cabeça como se estivesse pensando bastante sobre o assunto. Asahi olha para Kageyama, que parece bobo com a quantidade de informações.
-- Você perguntou das guelras e dos pulmões, não foi?
-- F-Foi...
-- Na verdade é bem interessante! As guelras, como eu falei, vêm da reprodução com animais marinhos, enquanto os pulmões vêm dos traços humanos e dos animais mamíferos do oceano. Parece que manter os dois foi uma bela duma vantagem evolutiva, porque permitiu que os sereianos vivessem embaixo d’água e passassem parte do tempo do lado de fora, aproveitando a luz direta do sol e se envolvendo também com outros animais terrestres. Quando mergulham, os pulmões dos sereianos enchem de água pra se equilibrarem com a pressão da água, assim eles podem mergulhar bem fundo. As guelras funcionam como nos peixes: são umas mucosas cheias de vasos sanguíneos que trocam os gases entre o sangue e a água. Nos sereianos, elas também filtram a água do mar pra manter a hidratação do corpo. Por isso que a maioria das guelras fica perto de grandes veias ou artérias, como no pescoço ou no peito. Então quando eles estão debaixo da água, é mais ou menos como se estivessem recebendo oxigênio e soltando gás carbônico automaticamente; pra gente seria como se com uma narina estivéssemos puxando o ar, e com a outra soltando! – Asahi até se ajeita no lugar – Os sereianos também filtram o sangue nas guelras, que nem os rins, mas elas controlam principalmente a quantidade de cloreto de sódio, ou sal, no sangue. As guelras também têm muita terminação nervosa e são muito sensíveis. Deduzo que, por não terem clitóris ou próstata, as guelras adotaram esse papel de “centro de prazer” e muitas vezes são usadas na masturbação entre parceiros.
Daichi engole em seco e abaixa o olhar, curiosamente investigando uma conchinha branca perto de seu pé. Asahi olha para ele e, vendo como seu rosto parecia um pimentão, engasga-se levemente e cora nas bochechas.
—- Os pulmões! O p-pulmões, ahn... C-Como eu falei, eles se enchem de água quando um sereiano está submerso. Quando vão à superfície, a água sai por um canal que conecta os pulmões às guelras quase que automaticamente. Aí eles podem respirar ar normalmente. Quando os bebês nascem, seus pulmões estão comprimidos dentro do peito, e aí é dever de um dos pais levar o bebê pra superfície pra que ele possa expandir os pulmões. Dizem que é um processo bem dolorido. E não sei se vocês já notaram, mas os sereianos soltam apitos que nem os golfinhos para se chamarem debaixo d’água ou passarem recados rápidos, e também ronronam como gatos. Uma autora disse que achava que esse ronronado vinha desses canais entre as guelras e os pulmões quando passa ar extra por eles, mas disse não ter certeza absoluta. Será que eu respondi sua pergunta, Kageyama?
—- R-Respondeu, sim...
—- Que bom!
Logo mais, Noya e Tanaka chamaram os garotos para comer alguma coisa, dizendo que Suga e Hinata já estavam esperando por eles.
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Suga enfia mais bolinho de alga na boca e mastiga. O dia lá fora estava chuvoso, e ele conseguia sentir as vibrações das gotas de chuva caindo na superfície do mar.
—- Como foi com a Aouli? Conseguiu aprender algum truque legal? – Daichi empurra o ombro dele gentilmente com o seu, sorrindo.
—- Não... Ela disse que minha conexão com o oceano é bem fraca porque nunca pratiquei, então ela disse que precisamos trabalhar nisso e que preciso aprender um pouco mais sobre os processos químicos.
—- Da próxima vez que você for lá pra fora, te compro um livro de Química, ok?
—- Valeu.
Asahi começa a tossir loucamente, batendo com força no peito e tentando puxar o ar. Kageyama e Nishinoya pulam em cima dele, batendo em suas costas com força e tentando ajudá-lo de qualquer jeito. Asahi, então, cospe um pedaço de peixe e toma grandes golfadas de ar, completamente vermelho do pescoço para cima.
—- QUÊ!!!!!
—- ... Ahn? – Daichi ergue as sobrancelhas – Você tá bem?
—- COMO ASSIM “DA PRÓXIMA VEZ”???? LÁ PRA FORA???
Suga fica branco como uma folha de papel e aperta a mão de Daichi.
—- U-Um dia eu comi u-uma alga preta e ela me deu p-pernas...
—- Aí ele passou uns dias em casa...
—- DO LADO DE FORA? DIAS?
—- S-Sim...? – Daichi sente os olhos de todo mundo sobre si e se sente envergonhado.
-- AI MEU DEUS É VERDADE!! A ALGA PRETA! PUTA MERDA! – Asahi levanta do chão e começa a andar de um lado para o outro com a mão na cabeça e murmurando coisas para si mesmo.
-- Claro que é. Vossa mãe disse que era rara, mas achou um pouco pra mim...
-- VOSSA MÃE?! – Asahi, Tanaka, Noya e Aouli gritam ao mesmo tempo.
Daichi e Suga se encaram, preocupados e aflitos.
-- AI MEU DEUS ELA TÁ VIVA??? – Asahi quase puxa os próprios cabelos.
-- ELA TÁ VIVA! ELA TÁ VIVA! – Aouli, Tanaka e Noya nadam em círculos cantarolando animadamente.
-- Onde?? – Asahi agarra os braços de Suga.
-- Ela mora perto da minha casa. Ela disse que estava escondida por causa de um grupo de tubarões do sul, e mora em uma caverna bem funda.
Asahi agita os braços sem parar.
-- Já terminaram de comer?! Vamos pra biblioteca, tenho que mostrar uma coisa!
Então os oito nadam rapidamente pelo recife até a biblioteca, onde Tanaka faz uma bolha de ar no fundo e todos sentam na areia. Asahi traz consigo mais alguns livros e os joga no chão, vasculhando o maior deles.
-- Ok, ok. Deixa eu explicar. – ele folheia o livro sem parar – Vossa mãe é um dos seres mais importantes dessa parte do mundo! Seres como ela são essenciais para a manutenção do ecossistema marinho! Achei! – ele para em um desenho bem semelhante àquele polvo gigante que aparecera na praia meses atrás – Vossa mãe e outros desses seres moravam com os sereianos na cidade subaquática de Lir, a maior entre elas. Acredite se quiser, mas vossa mãe deve ter entre 2 ou 3 mil anos! Ela é mencionada em muitos dos livros que eu li e tem extenso conhecimento da vida dos sereianos e dos mares. Se ela está viva... Pode ser que ela tenha conhecimentos que nenhum de nós jamais tenha sequer imaginado...
-- Além disso ela é uma fofa! – Aouli junta as mãos – Ela sumiu quando bombardearam Lir, eu lembro dela brincando comigo e com as outras crianças na cidade.
-- Os polvos ficaram meio perdidos depois que ela se foi – explica Noya --, e isso comprometeu um pouco a vida marinha. Seria bom tê-la de volta.
Enquanto todos os outros conversam sobre vossa mãe e seus impactos na natureza, Kageyama mantém os olhos fixos em Hinata. O ruivo está mais alegre e parece melhor, mas as palavras dele ainda estão tatuadas no cérebro de Kageyama.
“Queria que você pudesse ficar comigo para sempre.”
Kageyama lembra de quando conheceu Suga e Daichi; Suga tinha pernas e parecia bem humano, tanto que quase enganou Hinata. E ele dissera que fora por causa da alga preta que vossa mãe tinha encontrado.
E se existisse uma alga que faz justamente o contrário? Faz um humano virar sereiano?
—- Asahi-san, tem algum livro aqui sobre os tipos de algas e pra que elas servem? – Kageyama pergunta como se não quisesse nada.
—- Tem sim, Kageyama. Tá em cima da minha cama, pode pegar. – Asahi mal tira os olhos de Suga para responder, mas logo volta a tenção -- Então quer dizer que depois todos os polvos do recife encontraram vocês na praia e te levaram pra caverna?
Kageyama olha para Hinata e estica a mão, pegando na dele. Os dois vão até a parede de água pulam para fora. Hinata leva Kageyama até o topo da caverna e o ajuda a subir na plataforma. Poucos segundos depois, Kageyama está de volta com um livro de capa verde. Ele e Hinata sentam na beirada da plataforma lado a lado.
—- O que você tá fazendo? – o ruivo pergunta.
—- Pensa comigo, Hinata. – os olhos azuis de Kageyama prendem nos de Hinata com determinação – O Suga comeu uma alga e criou pernas. E se existir uma que faz o contrário?
—- Quer dizer uma que transforma pernas em caudas?
—- Isso. Olha. – Kageyama abre o livro – Ah, que bom, o Asahi-san traduziu. Vamos ver.
Eles começam a ler sobre as algas. O livro tem alguns capítulos e fala das algas verdes, das marrons e das vermelhas com incríveis detalhes anatômicos e até microscópicos. Em outro capítulo, o autor fala das algas bioluminescentes que vivem em algumas cavernas e outras que aparecem em praias de vez em quando, explicando todo o processo bioquímico por trás daquela luz azulada bonita.
No último capítulo, o autor nomeia algumas algas mais raras e não fornece tanta informação por causa disso. Ele menciona a roxa, que é rica em nutrientes; a rosa, que ajuda na cicatrização de machucados; a amarela e preta, que atrai certos tipos de peixe. Nos últimos parágrafos ele fez anotações rápidas:
“A alga preta é muito rara e só cresce em tipos específicos de solo (não especificados) e temperatura, preferindo ambientes mais quentes. Juntando a energia do mar de alguma forma que ainda não descobri, ela permite que um sereiano transforme-se em humano por certo tempo dependendo da quantidade ingerida. Não se sabe quais são ou se existem efeitos colaterais, e a mudança que ela provoca no corpo ainda não foi estudada profundamente.
A alga branca também é muito rara, e por sua vez prefere ambientes mais frios, crescendo somente sobre pedras de riólito. Ela junta a energia do mar com a vulcânica e permite que um ser humano transforme-se em sereiano por certo tempo dependendo da quantidade ingerida. Como a ingestão dessa alga só foi presenciada uma vez, seus efeitos colaterais, assim como duração do fenômeno e possíveis riscos à saúde, não foram estudados devido ao falecimento do objeto de estudo.”
Kageyama mal consegue acreditar no que lê. E Hinata, observando a expressão do rosto do outro, consegue interpretar exatamente o que Kageyama pensava:
“Eu vou comer essa alga e nós vamos ficar juntos”.
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