Suas Marcas
1 Único
Estava de frente ao espelho, as luzes do quarto apagadas e apenas o abajur aceso. Ela se olhou mais uma vez para o seu reflexo, mas não diretamente, apenas com o canto dos olhos, como se tivesse medo. Abaixou a cabeça e olhou para suas unhas. Pintadas de um esmalte preto que já estava saindo. Ergueu o olhar e olhou para seu corpo com apenas as roupas íntimas para impedir a nudez. Abaixou o olhar novamente, e uma raiva a tomou. Uma vontade de gritar veio-lhe na garganta, mas um grito interior veio antes
"Sua horrorosa!" — gritava uma voz dentro dela — "Feia! Ridícula! GORDA!"
Gorda...
Era isso que ela era. Uma gorda, imensa. Ninguém nunca dissera isso na sua frente, mas nem precisavam, via como agiam a sua volta. Desde pequena nunca fora a mais bonita da sala. Todas suas amigas, bonitas, certinhas, delicadas... Magras. Todos os garotos iam brincar com elas, todas conseguiam um "maridinho" para a brincadeira. Somente ela ficava como titia. A solteira. A baba que cuidava dos filhos das amigas...
Se esforçava para ser que nem elas, alisava seus cachos rebeldes em qualquer oportunidade e usou química neles estragando-os, fazia sua mãe encher seu quarto de objetos rosa e roupas da mesma cor sendo que odiava a mesma, infernizava a vida de seu pai para ganhar uma boneca mil vezes mais cara que a que tinha sendo que nem gostava de brincar de boneca. Tentava ser quem não era.
Quando resolveu dar seu basta, foi zoada por todos. "Ei, sua gótica!", "Aooo emo!", "E aê? Já se cortou, o revoltada?". Tudo isso porque tentava ser si mesma. Havia deixado o rosa e adotou o preto, uma cor tão linda e que ela amava, uma cor descriminada, uma cor que ninguém gosta. Uma cor "morta".
A merda que fez em seus cabelos já estava feita. Os lindos cachos agora não existem mais, estão feios e estranhos, e não consegue mais deixá-los soltos. Agora apenas presos em um coque, e as vezes em um rabo de cavalo baixo. Não acorda mais cedo que os pais para se maquiar, não se cuida com tanta intensidade. Maquiagem e chapinha nos cabelos apenas nas raras festas que é obrigada a ir.
Deixou as saias curtas, vestidos, shorts jeans no meio das coxas. Apenas calça jeans e tênis. Raramente arrisca um shorts e chinelo.
Ninguém a aceita assim. Até mesmo a própria mãe. Vive reclamando que essa não é a filha de criou, parece um moleque, mal cuidada, não se preocupa com nada, anti-social, mal educada.
"Seus pais não merecem uma filha horrorosa igual a você!" — a voz continuava a berrar — "Eles mereciam uma filha muito melhor que você! Você é um lixo! Nem pais merecia! Olhe só para você! FEIA! GORDA!"
As lágrimas grossas já escorrem por seu rosto. Estava acontecendo de novo, como toda noite. Estava doendo. Aquelas palavras doíam. Mas ela sabia que era verdade. Não passava de uma merda, uma bosta, uma imperfeição que merecia ser descartada. Ela merece isso tudo. Esse desprezo, esse inferno, essa vida. Merece ser castigada cada vez mais, e a dor que havia nela precisava sair, precisava descontar toda aquela raiva.
Sem pensar duas vezes, fincou as unhas na barriga, bem na altura de seu umbigo, e arrastou-as por toda sua extensão até a lateral do corpo. Afastou a mão e viu o vergão vermelho na pele pálida e amarelada, pela falta de sol.
Se afastou do espelho, com as lágrimas embaçando sua visão, até sentir a gelada parece contra suas costas. Arrastou-se para o chão e sentou-se ali mesmo. Agarrou as pernas a sua frente, enterrou o rosto entre os joelhos, e pois-se a chorar desesperadamente. Fincava as unhas em seus braços, coro cabeludo, coxas, busto... Mas seu foco era o abdômen.
Arranhava-se sem do, pensando no que já lhe falaram, pensando em sua vida, pensando no que já passou, pensando em seu amanhã trágico... Pensando em tudo que a faria chorar mais e fazê-la perder o controle total.
Parou quando já estava cansada de chorar e sua cabeça estava zonza. Sentia seu coro cabeludo formigando e as raízes dos fios capilares doendo, seus corpo inteiro ardia. Mal conseguia manter os olhos abertos.
Com esforço, se levantou debilmente. Colocou um braço na altura das costelas e sentiu algo melando-o. "Sangue?" — pensou, conseguindo manter os olhos um pouco abertos e olhar para o braço. Com a fraca iluminação, conseguiu ver um líquido vermelho. Abaixou seu olhar e viu dez vergões mais avermelhados, em meio a milhões. Os dez saiam na região abaixo dos seios, se dividiam (cinco para cada lado) na altura do umbigo e paravam na costura da calcinha.
Pegou alguns lencinhos de papel e limpou o sangue. Depois de limpar-se, procurou cegamente seu pijama. Vestiu a larga calça e o velho moletom. Caminhou debilmente até a cama e desabou. Assim que se cobriu e agarrou sua almofada, caiu num sono profundo, sem sonhos.
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Pegou sua bolsa, enquanto terminava de colocar sua blusa de frio, larga como todas as suas roupas, para não demonstrar seu físico imenso. Se preparava para sair de casa quando sua mãe a chamou
- A mesa está posta. Coma algo antes de ir para a escola — disse a mãe, autoritária
- Eu não vou tomar café! — respondeu ela, abrindo a porta e saindo, sentindo o vento gelado bater contra si
- Filha... — a mulher suspirou — Coma algo
- Já basta eu almoçar e jantar a força — murmurou
- Então va! Não coma direito! Quero ver só, quando ficar aí, doente! — a mãe gritou com ela
- Okay, mãe. Podemos ir agora? — ela disse calma
A mãe pegou sua bolsa e saiu da casa, passou pela filha e entrou no carro.
Ela suspirou ao ser deixada para trás pela mãe, voltou e fechou a porta da casa. Olhou bem os braços e o busto, arrumou bem a larga blusa e entrou no carro, pronta para mais um dia, com um único pensamento "É só mais um dia, você aguenta, você merece tudo isso".
Puxou as mangas, cobrindo as mãos e os pequenos vergões que escapavam. Seus vergões. Suas marcas.
Notas finais
Comente se quiser, se nn quiser, nn comente então
Cm já disse, é só isso
Adeus
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