Suaren Dantza

1 Suaren Dantza


Notas iniciais
One shot que escrevi do dia 27/05/14 ao dia 25/06/14. Preferi deixar o texto propositalmente com pontos soltos em algumas partes e ele tem glossário próprio. Caso desejem saber, entrem em contato pelas reviews ou email: blackholedsunny@gmail.com. Não esqueçam de comentar caso gostem :) boa leitura.

Há muito tempo, por volta do século XVI, na vila de Zugarramurdi, vivia nas profundezas de uma caverna – a que chamavam Sorginen Leizea (ou Caverna das Bruxas) – a ninfa Sutea. De admirável beleza e sabedoria, era ela a lâmpade guardiã do fogo e do clã Askatasuna, para o qual retornaremos mais adiante.

Sutea deixava sua habitação apenas durante a noite – ora porque liderava rituais, ora porque a melancolia e serenidade noturna a agradavam – carecendo manter segredo de sua existência. O clã que estava sob sua guarda era composto por mulheres que buscavam a liberdade. Queriam pôr fim às imensas execuções movidas por acusações de bruxaria. A ninfa tinha por dever ensiná-las a lutar, defender-se e protege-las com seu místico e envolvente fogo. Nos rituais que aconteciam em noites intercaladas para que não levantasse suspeita, o Askatasuna adquiria conhecimentos e era embebido na sensação de segurança. Era composto por sete mulheres.

Itxaro era uma moça jovem, otimista e esperançosa. Trazia de volta a força às outras que acreditavam a haver perdido. Era doce e delicada em suas ações e intenções.

Aintza era marcada pela experiência, ambição e tremenda força física. Uma luz gloriosa irradiava de seus olhos negros e profundos. Era agressiva e pouco autocontrolada, mas muito protetora de suas companheiras.

Nekane trazia em seu semblante muita dor e escuridão. Muito taciturna, de alma fechada, a face marcada pela violência que sofria de seu marido, Aitor. Perdera o filho Kemen precocemente, e desde então carregava no peito um sofrimento secreto que ninguém tinha conhecimento além de sua alma sofrida e conturbada.

Bihotz era uma jovem que vivia uma identidade dupla e nutria um amor por outra mulher. Tinha o desejo de liberdade para assumir sua identidade considerada impura e herege. Sofria a cada dia por ser impossibilitada de ser quem era, e direcionava isso ao amor por suas irmãs de clã e a cada ser que a cercava. Era muito bondosa e seu coração regozijava-se na compaixão.

Ametz inebriava-se em seus grandiosos e doces sonhos. Fantasiava com um mundo sem castigos, sombra e padecimento. Um mundo com mais tolerância, onde pudesse obter o alívio para dormir em paz. Encontrou em Sutea o caminho para fazer disto uma realidade.

Amaya impressionava por tamanha frieza e furor de sua cólera. Louca por vingança, extremamente flagelada pela vida. Isto a transformara em uma criatura com ardente malignidade no olhar. Ansiava pelo fim de seus tormentos e o desaparecimento dos fantasmas de seu passado.

E por fim, havia Zorione. Ótima estrategista e muito contida, equilibrada e racional, tinha a incrível capacidade de esconder seus medos e focar-se apenas na felicidade que alcançaria após o fim da luta. Lutava para sempre mostrar felicidade, pois acreditava que todas já estavam cercadas – e fartas – de sentimentos negativos. Tinha paciência e jurava a si mesma que prosseguiria até o fim em sua luta.

Já longe da caverna, além das florestas caducifólias, nos mansos prados de Zugarramurdi, viam-se as casas modestas e plantações camponesas. Uma vila em sua perfeita normalidade, apesar de cercada por constantes ameaças de bruxas e rituais pagãos que prometiam corromper as boas almas dos cidadãos tão pacatos deste local bucólico.

Dentre vários agricultores estava Argi, rapaz órfão que era constantemente caçoado por sua aparência pouco viril. O corpo magro, rosto delicado e sem pelos e cabelos esvoaçantes. Via-se constantemente inferiorizado. Possuía apenas um amigo, Ekaitz, que fora enforcado em praça pública sob a acusação de sodomia. Ameaças de que teria o mesmo fim de seu amigo por sua aparência e pelo fato de não ser casado ou se interessar por mulher alguma o perseguiam constantemente.

Tomado pelo medo, fazia questão de engrossar a voz e ser o mais violento que podia. Frequentemente ia a expedições de caça de javalis, se mostrando o mais sanguinário dos caçadores. Fora isto que provavelmente o salvara de ser condenado.

Era extremamente inseguro e solitário. Sonhava com o amor e uma vida sem perigos e fantasias sobre seu corpo. A noite era seu conforto. Poderia pensar livremente no silêncio soturno. Frequentemente era engolido por um pranto forte e soluçante.

Até que numa noite fora atingido por um raio cintilante de coragem e decidira percorrer a floresta. Em seus primeiros metros de caminhada, sentira prender-se nos enlaces de seu próprio medo. Após respirar fundo, começara a evocar uma canção de sua infância sobre uma velha lenda de Navarra:

-Cuanto más he de esperar? Cuánto más he de buscar? Para poder encontrar la luz que sé que hay en mí?

Os sons da floresta o assustavam. Sentiu-se pungido por forte agonia. Então cantou os versos seguintes mais alto:

-He vivido en soledad, rodeado de multitud, nunca he conseguido amar, pues no me quiero ni yo.

Uma estranha onda de alegria o invadiu. Então rompera uma longa distância enquanto cantava em voz muito mais alegre:

-Cuando veas una estrella fugaz, guárdala en tu corazón. Es el alma de alguien que consiguió dar a los suyos su amor.

Até que a cantoria cessou. Fora surpreendido por uma forte luz a poucos metros de distância. Ficara estático. Não conseguira esboçar reação. Sem controle dos próprios pés, fora em direção ao ponto de luz que mudaria toda sua vida.

Era uma iluminação aconchegante, forte, que enchia os olhos. A mesma citada na lenda da lâmpade guardiã das bruxas. Como nunca haviam visto? Como nunca haviam descoberto?

E então, tivera a visão. Sutea em uma belíssima dança, irradiando seu brilho de fogo. Encontrava-se absorta em seus suaves movimentos, até que o crepitar de galhos no chão causado pelo desejo do camponês de aproximar-se fê-la despertar do transe num estalo. Abafara um grito de horror e escondera-se.

Argi desconsolado ao vê-la se afastando mata adentro, gritara:

-Por favor, volte! Não quero causar-te mal!

A luz fora esvanecendo. Logo se viu em escuridão completa. Lágrimas quentes de medo escorreram por sua face. A luz das estrelas, o som da floresta, o sopro do vento, tudo o aterrorizava. Despido de toda a razão, encolhera-se a suplicar:

-Por favor... Estou só! Tenho medo!

Ao não obter resposta, soluçou mais. A fim de amenizar o pânico, cantarolou novamente a canção. Ao fim da terceira estrofe, um brilho ofuscante lhe feriu os olhos. Sutea encontrava-se atrás de uma árvore, que lhe servia de barreira contra o rapaz. Olhando de esguelha, perguntou-o:

-Quem és tu?

O som da macia voz penetrou-lhe os ouvidos e lhe arrepiou todos os pelos do corpo. Então respondeu, com a voz entrecortada e a cabeça baixa:

-Argi... Morador de Zugarramurdi... Simples... Agricultor.

-Que fazes aqui?

-Vim para caminhar... Perdi-me...

-Tu deverias ir para casa.

-Por favor, não se vá, não me deixe tão sozinho! Exclamou indo até ela buscando impedir que fosse embora outra vez. A ninfa recuou.

-Afasta-te. Não deves ver-me. Disse, coberta pela folhagem da árvore.

-Por que, ó deusa? A lenda é verdadeira?

Houve um longo silêncio. E então Sutea se manifestou:

-Como chegaste aqui?

-Estava só a vagar pela mata. Senti mui medo... Pus-me a cantar... Até que me achei aqui.

-A lenda de Navarra? Ouvia-se certo terror nessa pergunta direcionada ao vento.

-Sim, ó divindade... A lenda e canção de Navarra. Respondera, apesar da questão não ter-lhe sido direcionada.

-Não te eras proibido entoar esta canção?

-Sim, é uma música pagã. Mas estou farto da Igreja, não mais aguento tanta matança. Sou de alma livre, e há em meu coração somente o amor.

-Então... És tu! Sutea, lívida, saíra detrás da árvore que servia de abrigo.

-Perdão, mas não tenho ideia de quem sou além de um simples camponês. Mas ofereço minha fidelidade a ti.

-Em tua alma, que se passa? Indagou. Havia um estranho lampejo de esperança nos belos olhos místicos. Eram de um alaranjado suave e hipnotizante.

-Não quero mais viver neste mundo. Cansei-me de viver cercado por este massacre. Perdi meus pais em tenra idade para a Inquisição. Passei a viver me escondendo desde então. E perdi meu único amigo para o mesmo mal, injustamente. Não quero fazer parte deste banho de sangue. Um suspiro torto e logo será a minha vez. Não iriam crer em minha identidade. Desejo de todo o coração que criatura alguma sofra com isso. Argi se punha a chorar novamente.

-És tu. Disse, abrindo um sorriso de alívio. Belíssimo.

Pela primeira vez, Argi tivera a coragem de olhar Sutea nos olhos. E então percebera o quão bela ela era. Sentiu o corpo todo estremecer e o tempo desacelerar. Os detalhes daquele rosto ficaram gravados em sua mente. Finalmente sentira o amor tão ansiosamente aguardado. Finalmente poderia cantar a mais bela canção de amor que conhecia, reservada a quem a merecesse. E o fez, em voz sussurrada:

-Dame mimos, dame tu calor. Te los devolveré en forma de flor, recibirás por cien multiplicado lo que me des. Si me apartas, no me integraré. Si me abandonas, yo me perderé. El rechazo es mi condena.

A lâmpade afastou-se novamente. O breu da noite estava sendo aos poucos amenizado pelo suave laranja do amanhecer. Então retornara à sua postura firme:

-Tu deves ir agora.

-Deixa-me ficar.

-Tu não pareces entender-me. Vá. Está amanhecendo.

Argi assentiu, olhando para o chão. Quando erguera sua vista para um último olhar naqueles aconchegantes olhos, ela sumira.

A caminhada de retorno até a vila demorou mais do que ele se lembrava. Seria o efeito do medo que o fizera andar tão rápido da outra vez? Seus pés já lhe doíam quando chegara. Os raios de sol já coziam o céu e trouxeram brilho ao orvalho. Assobiavam os pássaros a suave melodia que o camponês pensou ser a canção proibida de Navarra. No fundo sabia que não se enganara.

Zugarramurdi já havia despertado. O rapaz, em esperança de que não fosse visto, caminhava silenciosamente. Ao adentrar a pequena casa que habitava nas largas plantações de seu suserano, se surpreendera ao ver Jakintsu. O susto o emudecera. Após alguns minutos em silêncio e os olhares fixos um no outro, Jakintsu pontuara calmamente:

-Eu sei onde tu estiveste. E não tenhas medo. Acrescentou ao perceber que o jovem suava frio. E então continuou:

-Só há coisas que é necessário saberdes.

Argi chocara-se. Jakintsu era a pessoa mais velha da vila, sempre mui respeitado por todos. Tinha imponente barba e olhos encovados, causava medo nos mais jovens e menos valentes. Mal poderia imaginar que seria um pagão e que escondia no semblante os muitos segredos do mundo.

-Tu a viste, não? Diga-me se não é encantadora! Exclamou num sorriso jocoso.

-Sim. É perfeita. Suas bochechas eram rubras como morangos selvagens ao pronunciar a frase em longas pausas.

-Acalma-te. Se te é familiar a lenda, saberás que não há o que temer.

Ao ver no olhar de Argi intensa confusão, perguntara:

-Não conheces a lenda, estou certo?

-Apenas a canção. Respondeu-o, com a face mais intensamente avermelhada.

-Pois te senta. Hei de contar-lhe tudo.

A história que Jakintsu narrara assim seguia:

“Haverá, num dia, um homem de bom e oprimido coração em Navarra, que ao entoar sua canção, descobrirá um valioso segredo, precioso para a perpetuação da harmonia da raça humana, que aliviará suas dores. A entidade Unibertso poria na Terra uma nova esperança, um sinal de luz, que iluminaria as pessoas oprimidas. Tomar-se-ia então a luz a forma de ninfa, e destinar-se-ia a proteger e educar as pessoas semelhantes. O homem que tivesse o sinal de tal luz em seu coração iria descobrir e revelar a existência da luz ao mundo. Isso gerará uma sangrenta batalha, que presidirá muitas outras até que não sejam mais necessárias. E então a paz será alcançada.”.

-É necessário que tu sejas discreto. A vida das mulheres e as nossas próprias dependem de Sutea. Não deixe que ninguém tome conhecimento. Unibertso se encarregará de cumprir as palavras em seu tempo.

-Então irei não só presenciar como estar em um banho de sangue?

-Esta luta te libertará. A mim, a ti e a todos que são como nós.

-Como sabes tanto sobre mim, quando ninguém mais sabe? E como estaremos em tal luta?

-Já disse que sou como tu, não? Também travo guerras internas e tenho medo do que possa me acontecer.

Jakintsu apertara sua mão e se fora. Só então percebera que estava exausto. Caíra pesadamente sobre a cama e mergulhara em profundo sono. Em seu sonho, vira Sutea. Sorria, dançava e embebia seus sentidos em doce perfume. Visualizara seu lancinante e apaixonante olhar, que o atingia no coração como brasa. Quando estava prestes a sentir os ardentes lábios em contato com os seus, despertara. O sol anunciava o crepúsculo. Suas vísceras corroíam-se em dor – era fome.

Pôs-se a andar pela floresta sob o pretexto de caçar animal que lhe servisse de alimento. Aproveitaria para esperar por Sutea. Abatera um javali como sempre fazia, acendera uma fogueira numa clareira e aguardou pacientemente o breu do anoitecer enquanto saciava sua fome.

Pusera-se então a refletir. Viera a este mundo para padecer por não ser como os outros. Para ter sua liberdade e identidade tolhida caso tomassem conhecimento de seu segredo. E então se tornara alguém essencial na libertação de todos que se sentiam assim. Mas por que ele? Por que motivo fora selecionado para tanto sofrer? Não podia ter nascido como qualquer outro, estando longe de si todos os riscos?

E então, contemplando o céu, obteve todas as respostas. Dava-lhe repulsa imaginar-se como os cidadãos comuns. Cidadãos que julgavam, assassinavam, reprimiam, sufocavam. Ser vítima de brutais torturas com a alma limpa lhe era muito mais digno e honrado. Não deveria e não iria render-se.

Surgiram então em sua mente as imagens de todos que se foram. Seus pais, Ekaitz... Ele não era o único destinado a morrer pela opressão. Era então felizardo por ter a chance de mudar toda a cruel realidade que o cercava.

A escuridão já havia engolido a luz. Pôs-se a andar para encontrar o lampejo de luminosidade que tão afoito queria ver. Caminhava o triplo da distância da expedição anterior, até achar uma caverna. Aproximara-se com cuidado para observar o que lá ocorria sem ser visto.

-Mas como estamos tão perto de nossa batalha? Tenho medo! Estamos realmente prontas? E se uma fatalidade a nós ocorre? Era a voz de Itxaro.

-Acalma-te. Dou minha palavra: protegerei a ti e a todas nós. Este era o tom tranquilizador da voz de Aintza.

O resto da argumentação das sete mulheres fora incompreensível, tamanhos o volume e a mistura de vozes. Até que a lâmpade cessou o burburinho:

-Paz em vossos corações! Unibertso nunca erra, devemos preparar-nos. Não confiam no que vos ensinei?

Todas então assentiram por baixo de suas capas pretas. Os capuzes eram sua identidade e sua proteção.

E então Argi ouvira uma exclamação colérica que fez gelar seu sangue:

-Um homem! Um homem! Fora Amaya, que quase espumava pela boca e sangrava pelos olhos. Todas ergueram suas armas, mas antes que pudessem dar um passo, foram interrompidas pela ninfa:

-Parem. Não ataquem. É um homem sim, mas alguém como nós.

Sutea aproximou-se e apertou sua mão:

-Prepara-te. Em pouco tempo entraremos em batalha.

Parecendo tudo entender, voltara para sua habitação. O medo o fizera derramar lágrimas corrosivas. Desabou em sua cama quando chegou e adormeceu em segundos. O pavor impediu-o de trabalhar normalmente. Se por acaso soubessem de seu segredo e a luta falhasse, morreria. Não queria pensar nisso, queria apenas embriagar-se na taberna, ponto certo de encontro dos Alpha Otso, os inquisidores. Os tão temidos por sua família, por ele e por seus amigos. Engoliu todo seu tormento enquanto mais uma vez os homens bêbados enfatizavam o quanto ele parecia com uma mulher e acariciavam seus cabelos como lobos famintos esperando a próxima vítima. Esperavam por qualquer indício mínimo para executá-lo. Então não aguentou mais as provocações e decidiu enfrenta-los. Decididamente fora a pior decisão que já havia tomado. No ápice da briga, quando fora atingido por uma adaga em seu braço esquerdo – o agressor pretendia acertar seu peito – sentira um puxão em seu outro braço. Era Jakintsu, que logo o arrastou para fora.

-Perdeste o juízo? Morra e todo nosso destino será a tortura e assassinato cruel! Vamos até Sorginen Leizea. E fique quieto, não quero que nos percebam.

Parando apenas para fazer um torniquete em sua ferida, Argi acompanhou Jakintsu mata adentro. Mal perceberam que alguém os observava. E os seguia.

Os Alpha Otso eram compostos por seis homens. Aitor, o mais velho e experiente, era marido de Nekane. Ensinava os companheiros como dirigir e formar uma boa família, apesar de nunca ser percebido em seus traços saudade ou tristeza pelo filho que perdera, Kemen.

Barajaun possuía um corpo com baixa estatura, mas força admirável. Asqueroso e grande conhecedor da floresta, sua frustração fora nunca encontrar a caverna ou a ninfa lendária.

Gaizka era extremamente narcisista e tinha pose de herói, apesar de não possuir tantos traços físicos para tal. Queria queimar as bruxas a todo custo para livrar Zugarramurdi do paganismo.

Sendor era o mais forte do grupo e também o melhor estrategista. Disputava com Aitor o cargo simbólico de líder e sempre desconfiava de tamanha frieza em relação ao próprio filho morto do outro.

Zigor era pai de Amaya. O mais sanguinário e violento de todos, sentia prazer supremo em causar sofrimento físico a todos que desviassem do caminho correto – sendo assim, merecedores. – Era bem visto e respeitado por todos do vilarejo com mais vigor que os demais.

Itzal era o mais jovem. Sombrio e de olhos vazios, era mestre em dialética, manipulação e terror psicológico. Muitos confessavam após serem confrontados por ele, tamanha era a sua habilidade.

Era ele quem seguia Argi e Jakintsu. Sem dificuldade, por ser furtivo e silencioso, chegara a Sorginen Leizea, e continuou a observar o que acontecia. Tivera imenso encanto por Sutea. Um encanto da pior natureza. Um fulgor dominador e doentio, que só fazia aumentar conforme a ouvia discursar:

-... É a nossa hora. A lenda não deve demorar a se cumprir. Deves ir.

Outras sussurradas palavras lhe foram inaudíveis. Depois de longos minutos onde apenas conseguira captar poucos trechos do diálogo, vira Argi deixando o lugar demonstrando medo intenso. Lá estava uma presa tão frágil e desprotegida. Itzal espumava como um lince faminto. Agarrando-o pelo pescoço e encostando a fria lâmina de sua adaga no pescoço do rapaz, sibilou:

-Achou que poderia escapar? Sempre tive extrema desconfiança, sabia que estavas a tramar e esconder algo! Dá-me pena a tua imbecilidade. Irás arder no inferno, com todos ali. Sua risada fez o corpo de seu prisioneiro tremer. Ao tentar escapar, fora agarrado com mais força pelos cabelos.

-Não ouse mover-se, ou será morto por minhas mãos.

Sutea, sabendo o que o destino reservava, estava em palpitante ansiedade. Adentrara a caverna com as mulheres e Jakintsu, todos uniram as mãos e então ouviram sua anunciação:

-É hora. Em poucos minutos a batalha começará. Quero que se lembrem do motivo de estarem aqui. Pode ser nosso fim ou nosso novo começo. Digam-me!

Aintza começou:

-Estou cansada de ser subjugada. Tenho força e posso lutar por mim mesma!

Itxaro:

-Quero viver sem repressão e sem medo de ser condenada a qualquer momento.

Bihotz:

-Quero ser quem sou. E ser livre para amar.

Ametz:

-Quero que todas possam amar-se e construir um mundo diferente do que vejo agora.

Zorione:

-Quero alcançar o conhecimento que me é negado.

Nekane:

-Sou agredida diariamente por meu marido, que também matou meu filho de muitos golpes por ser excessivamente carinhoso e se recusar a praticar qualquer tipo de violência.

Amaya:

-Fui abusada inúmeras vezes por meu pai. Todos me veem como culpada e o idolatram pelos seus crimes.

Jakintsu:

-Poder exercer minha identidade e garantir que ninguém mais morra por toda essa ignorância.

Todas as pessoas então deram as mãos e entoaram a prece:

-Que Unibertso nos guarde e ilumine. Que todos sejam livres para simplesmente ser. Que nossa luta não seja em vão. Resistência! Askatasuna!

Enquanto isso, Itzal vibrara em sádica satisfação. Aos berros, anunciava a seus companheiros:

-A lenda finalmente se provara verdadeira! A hora do extermínio finalmente chegou! Sigam-me, amigos! Nosso triunfo nos aguarda!

Em risos empolgados e estrondosos, o Alpha Otso, sedento por sangue, seguiu Itzal. Haveria um massacre naquela noite, e finalmente poderiam se livrar do povo herege e da bruxaria que tão ameaçava o bem estar dos homens de bem e moral limpa. Todos uivavam de satisfação. Argi fechara os olhos para escapar da perturbação e tormento. Em contorções de dor, entoara novamente a canção proibida.

- Cuanto más he de esperar? Cuánto más he de buscar? Para poder encontrar la luz que sé que hay en mí?

O pavor consumia-o e sufocava sua voz:

- He vivido en soledad, rodeado de multitud, nunca he conseguido amar, pues no me quiero ni yo.

Suas pernas não mais o sustentavam em pé.

- Cuando veas una estrella fugaz, guárdala en tu corazón. Es el alma de alguien que consiguió dar a los suyos su amor.

E então, toda a floresta se calara. A cintilante luz inundara todo o local. Askatasuna estava a postos. Um barulho ensurdecedor irrompera. Crispar de espadas, gritos e muito jorrar de sangue.

Um a um, os Alpha Otso eram abatidos. A comprida espada de Barajaun atingira Jakintsu. Num grito de horror, Argi fechara seus olhos aguardando seu último suspiro. Sentira algo esmaga-lo. Vira Aintza, suja de sangue inimigo. Era o corpo do senhor das florestas que caíra sobre si.

Nekane, sobre o cadáver fresco de Aitor, arrancara o coração do marido.

-Por Kemen, seu maldito desgraçado! Urrou com o órgão quente em suas mãos.

Uma exclamação de dor em voz feminina alertara as bruxas. Amaya era quem gritava. Zigor proferia, com o corpo sobre ela, em cuspes de ódio:

-Minha filha, uma herege suja! Bruxa, puta incorrigível! Quando a alma é corrompida não há castigo que a higienize!

-Tu abusaste de mim! És um monstro!

-Pois deveria ter abusado mais! Teu fim está aqui!

Num rugido ensurdecedor, ouviu-se Sutea:

-Errado! Teu fim que há chegado!

Um clarão envolvera toda a área. Não se enxergou nada por alguns segundos. Quando enfim extinguiu-se, estava à frente somente o caos. Alpha Otso fora transformado em cinzas. Jakintsu e Amaya jaziam no chão gozando de seus últimos segundos de vitalidade. Argi amparava a pessoa mais sábia de Zugarramurdi:

-Por favor, não te vás! Pranteava.

-Acabou. Vencemos. Terminou. Disse, com a voz entrecortada, antes de seu último suspiro.

A poucos metros, Amaya era amparada pelas bruxas:

-Eu só queria que nada disso houvesse ocorrido comigo.

Todas compartilhavam do sentimento.

-Agora sou livre... E vocês, nunca desistam. Nunca.

Bihotz então se aproximara:

-Amo-te. E jamais te apagarei de minha mente.

Amaya sorriu. Bihotz se inclinara e a beijava, sugando o último gole da seiva de vida da garota. As almas dos mortos estavam por fim libertas. Num belíssimo ritual de envio, fora possível visualizá-las indo em direção ao céu e dissipando-se no ar. Restava no vazio apenas o eco de todas as dúvidas. Como prosseguir? É mesmo o fim? Que virá?

Orientados pela ninfa, o Askatasuna (do qual Argi agora fazia parte) migrava para outro lugar, para que pudessem continuar o trabalho do clã. Recolheu-se Sutea na caverna agora vazia. Sua luz brilhava suave e Argi aproximou-se.

-É assim que tudo se encerra? Sussurrou.

-Não. Ainda há muito que se fazer. Muitos séculos virão, e minha luz ainda será necessária.

-Quero apenas que saiba. Eu a amo.

Trocaram um delicado beijo, carregado de melancolia.

-Não precisas mais de mim. Podes seguir teu caminho com o clã. Askatasuna irá continuar o meu trabalho enquanto guardarei outros. Suspirou em resposta.

-Nunca mais te verei?

-Quando sentirdes solidão, estarei contigo. Meu amor nunca te abandonará. Nunca estarás realmente só. Lembre-se desta canção.

Envolvido nos braços dela, fechara os olhos e deixara-se embalar pela doce voz e versos igualmente doces:

- Y que mi luz te acompanhe, pues la vida es un jardín donde lo bueno y lo malo se confunden y es humano, no siempre saber elegir. Y sí te sientes perdido, con tus ojos no has de ver. Hazlo con los de tu alma y encontrarás la calma, tu rosa de los vientos seré.

Quando abrira os olhos, ela ali não mais estava. Seguira calmo então o seu caminho com o Askatasuna para outro lugar. Haveria de encontrar muito mais perigos, mas agora seu coração se fortalecera. Carregava Sutea dentro de si. Por várias vezes ela o visitou. Cumprira sua promessa de nunca deixa-lo só. Até o fim de seus dias, ela sempre esteve lá.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!