Sua vida
1 Único
Jeffrey acordou com o som irritante de batidas na porta de seu apartamento aparentemente abandonado. A única pessoa que sabia onde ele morava era seu melhor amigo Ben, um pequeno garoto de cabelos loiros e vestes verdes.
Ele abriu as poucas partes das pálpebras que possuía e levantou furioso do colchão velho no qual dormia todos os dias.
– O que foi? – indagou Jeff, tentando parecer o menos rude possível. Ben, por outro lado, não estava muito pior. Parecia ter corrido uma maratona.
– Jeff, a Rosalie... – porém, antes que completasse a informação, o anfitrião fechou a porta na sua cara. Não queria saber daquela mulher, a única na qual teve um envolvimento romântico na vida. Estava feliz com a situação que já perdurava por nove meses, onde um não mantinha contato com o outro.
Achou que poderia voltar a dormir, mas Ben gritou do lado de fora. Pelo jeito, o assunto era extremamente importante.
– A ROSALIE MORREU!
– E EU COM ISSO? NÃO GOSTO DE FUNERAIS, EU CAUSO FUNERAIS.
– ELA MORREU NO PARTO DA SUA FILHA, SEU IMBECIL!
A porta foi reaberta por um Jeff apavorado:
– O quê? Isso é algum tipo de brincadeira?
– Infelizmente não. – temendo que fosse enxotado de novo, o garoto menor adentrou o apartamento cheirando a mofo. – Ela me achou, sendo a mulher esperta que era. Estava com um barrigão de grávida e disse que se encontrava numa gravidez de risco... E que o filho é seu. Quero dizer, filha. É uma menina.
O assassino ponderou por um minuto, parecendo voar longe em pensamentos e lembranças. Tentando achar uma desculpa que dissesse que não era seu problema, em vão.
– A menina praticamente acabou de nascer, com o nome de Mariana. Está no berçário do hospital onde vocês se conheceram. Escuta, se quiser ficar com ela é só se apresentar como o pai da criança, o que você obviamente é. Se quiser ser um babaca e não assumir, o pessoal do hospital vai bota-la num orfanato.
– Você veio aqui com a esperança de que eu a crie? EU?
– É o que seria sensato.
– Olha para mim, Ben. Eu sou um assassino, uma lenda, uma aberração. Mesmo que eu a pegasse, ela terminaria morta.
– Bom... Concordo com a primeira parte... E assumo que esse apartamento não é o melhor ambiente para uma criança... No entanto, eu tenho certeza de que quando olhar no rosto da sua filha vai querer mudar tudo. Será um novo homem.
– Ok, pare de dizer besteiras e vá embora. – Jeff apontou a saída.
Ben suspirou, derrotado. Saiu rezando para que seu amigo mudasse de ideia.
Dentro do apartamento, o garoto de 18 anos sentou no colchão, incapaz de voltar a dormir após tal informação. Rosalie poderia muito bem ter se envolvido com outro homem após terem se separado.
Então, uma faísca de ciúmes apareceu em seu coração. De repente, saber se era realmente sua cria pareceu uma desculpa formidável para ir até o hospital.
Saiu de casa portando uma máscara cirúrgica e óculos escuros: alegaria estar com conjuntivite. Deixou para trás o edifício vertical que morava. Tempos atrás possuía uma coloração branca uniforme e pessoas costumavam hospedar-se, costume que foi deixado há três anos. Agora era apenas uma construção velha que servia de refúgio para ninguém mais do que Jeff The Killer. Resolvera sair da casa do tio, Slender, porque dentro da floresta não seria capaz de fazer o que mais gostava: matar.
O coração palpitou quando faltava menos de dez passos para adentrar o berçário. Nem quando matava sentia o coração palpitando, então não conseguiu distinguir se era algo bom ou ruim. O enfermeiro ao seu lado tocou em seu ombro e indagou:
– Está pronto para conhecer sua filha?
Jeff maneou a cabeça afirmativamente, sem ter segurança da veracidade de sua resposta. O enfermeiro entrou na sala e voltou com um pequeno embrulho nos braços, uma manta amarela com o nome “Mariana” costurado.
O garoto pareceu tão confuso que demorou alguns segundos para perceber que deveria pegar a menina dos braços do homem e quando pegou, sentiu um choque desfibrilar o próprio coração.
Não tinha dúvidas: Era sua filha.
A pele pálida, os cabelos negros, o queixo saliente, o nariz pequeno. Ela era uma versão feminina e imaculada de Jeff, um anjo que repousava nos braços trêmulos do pai. Quando menos percebeu, ele soube que jamais conseguiria abandonar aquela criança ou deixa-la à mercê de estranhos. Não, Mariana era sua. Seu bebê, sua vida, um presente que Rosalie morreu para que pudesse lhe dar. Como o pai, ela era fruto da morte e talvez isso tenha intensificado a relação dos dois naquele momento.
Seus olhos quiseram lacrimejar, nunca havia visto um ser tão belo, frágil e ao mesmo tempo puro como aquele. Seu peito pela primeira vez quis explodir de amor e pensou que Ben acertou em uma coisa: seria um novo homem.
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