Notas iniciais
E nesse aqui tem de tudo. Tem até Tiva para quem gosta. Se divirtam!!

Eu tinha planejado soltar a bomba no jantar de segunda, porém o Agente Especial Gibbs não tinha aparecido. Procurei saber o que se passava no Estaleiro, e Abby me informou que estavam em um caso de um cara que estava explodindo marinheiros.

— Ótimo. Vou falar para a mamãe.

Mas minha mãe já sabia. E parecia preocupada.

— Acha que alguma coisa vai dar errado? – Perguntei ao vê-la olhando pela janela enquanto brincava com o pingente do seu cordão.

— Não sei, Liz. – Ela nunca pareceu tão cansada. – Nunca dá para saber. Já está passando da hora do seu pai aposentar e passar a equipe para Tony.

— Quando a senhora diz isso parece até egoísta. Tony também tem uma filha agora. Tali não pode perder o pai.

— Ele é mais novo que seu pai e, por incrível que possa parecer, tem mais senso do perigo. Seu pai, às vezes, age muito por impulso, Liz.

Parei para pensar nisso. Minha resolução há muito esquecida. Não tinha como conversar com mamãe agora. Não enquanto papai não desse notícias.

— Eu acho que a senhora deveria ir descansar. Sei que não vai conseguir dormir, porém ficar acordada e pensando não vai te ajudar em nada. Se quiser companhia, estou aqui.

E mamãe saiu do transe. Era até engraçado, a única fraqueza da toda poderosa Diretora da CIA era justamente um Agente Federal de outra Agência. Se alguém descobrisse isso.

— Você também é a minha fraqueza, Elizabeth. – Ela disse quando passou por mim.

— Mas como?! – A olhei assustada.

— Está escrito na sua testa o que você está pensando! – Ela riu.

— Eu vou fazer um chá para a senhora, está muito tarde para café. Pode deixar que levo no seu quarto. – Disse enquanto ia para a cozinha.

Se mamãe podia me ler assim, seria muito mais fácil de contar para ela. Acontece que eu queria falar para os dois juntos. Papai é quem vai dar um treco, mas mesmo assim. Foi ele quem me acolheu quando eu não tinha ninguém. Eles me criaram da melhor forma possível. Me deram uma família quando perdi a minha.

Eu devia a eles isso. Tinha que seguir as tradições e apresentar o Sean para eles o mais rápido possível.

Mesmo que a Terceira Guerra eclodisse dentro de casa.

Nosso chá ficou pronto, peguei as canecas e subi para o quarto de meus pais, mamãe ainda não tinha sequer se sentado na cama.

— A senhora devia confiar mais no papai. Ele sempre sai de casos assim ainda mais confiante do que já é! – Eu ri.

Ela me lançou um sorriso cansado. E perguntou qual dos dois chás era o dela.

— Estão iguais. Feitos à moda inglesa. Do jeitinho que o Ducky me ensinou.

— Ele vai ficar feliz em saber disso.

— Eu sei. Sou uma ótima aluna.

— Olha só, se não é a discípula de Leroy Jethro Gibbs! – Ela brincou. Tinha conseguido meu intento, melhorar o humor dela.

Tomamos nosso chá em silêncio, as duas esperando ou um pneu cantando na rua, indicando que ele estava de volta ou um telefonema para dizer que ele tinha pegado um suspeito e passaria a noite no Estaleiro o interrogando.

Levou mais de duas horas para que o telefone tocasse. Mamãe tinha conseguido dormir um pouco e eu acabei por atender.

— Oi pai! – Disse ao ver que era ele quem ligava.

— Onde está sua mãe? – A voz dele além de cansada trouxe um ar preocupado.

— Ela acabou de dormir. Estava agitada com esse caso.

— Bem, se ela acordar, diga que eu não vou nem tão cedo para casa. Ele está em Nova Orleans.

— O senhor vai juntar forças com o Pride?

— Sim.

— Mande um abraço para todos. E papai...

— Que foi, filha.

— Tome cuidado. A mamãe parece ter um pressentimento ruim sobre esse cara.

— Eu sempre tomo.

— Tome mais cuidado.

— E você tome conta da sua mãe.

— Pode deixar. Boa viagem. E voltem todos inteiros!

— Vamos voltar, Liz. Agora, vá dormir.

— Boa noite. E dê boa noite para o Tony, porque eu estou ouvindo ele chiar daqui.

Acabei foi ouvindo papai bater na cabeça dele.

— Pai.. não era para dar um tapa na cabeça dele.

— Agora ele dorme até NOla.

— Só assim mesmo. – Eu ri.

— Agora eu posso desligar, ouvi você rindo!

— Você não tem jeito, pai!

E ele desligou o telefone. Voltei para dentro do quarto e mamãe estava dormindo. Achei estranho, ela sempre acorda quando o telefone toca.

Estava colocando o celular dela no criado ao lado da cabeceira quando ela disse.

— Era seu pai, o que ele disse?

— Estão indo para Nova Orleans.

— Droga.

— Se arrepende de ter ido para CIA nessas horas, né?

— Me arrependi no momento em que saí do NCIS, Lizzy.

Olhei para ela, só a luz da rua iluminava o quarto, mas era possível ver que ela falava a verdade.

— Amanhã a mocinha pode ir em Langley conversar comigo. Eu sei que tem algo que você quer me falar. – Ela falou para meu espanto.

— A senhora é médium?

— Não, sou filha das Bruxas de Salém, sei tudo o que acontece à minha volta.

— Nossa... isso me faz neta delas, então. Mas acho que a magia se perdeu com os anos! – Brinquei.

— Que nada, daqui a pouco você desenvolve seus poderes.

Eu ri. Minha mãe é louca.

— Se a senhora é bruxa, o que o papai é?

— O seu pai é aquele que colocou o capeta para correr da própria casa.

— Credo!

Ela riu da própria ideia louca.

— Pega as suas coisas e dorme aqui. Nem eu ou você vamos conseguir dormir mesmo.

— Vamos jogar um xadrez então. A gente sempre apaga no meio da partida mesmo.

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Lizzy apagou antes do meio do jogo. E agora estava esperando que a mocinha me honrasse com a presença dela para o café. Depois de quase quinze minutos ela apareceu.

— Bom dia, mamãe, notícias do papai?

— Já estão em Orleans. Fora isso mais nada.

— A senhora vai cavar até conseguir todas as informações não vai?

— E você ainda pergunta, Elizabeth?

— Gastei atoa. – Ela fez um beicinho. – Falando em gastar, será que rola uma carona hoje? Vamos economizar um carro.

— Está com preguiça de andar?

— Muita! – Ela respondeu rindo.

— Mas hoje é só terça feira!

— Não queira saber como vou chegar na sexta! – Ela falou já pegando a mochila e andando na minha frente até o carro.

Notei que ela parou um pouco antes de entrar, olhando para o outro lado da rua. Para a casa bem em frente à nossa.

Ri internamente, ela era péssima em guardar os pensamentos para si própria.

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— Nos vemos às dezesseis? – Perguntei antes de descer do carro.

— Pode ir direto para Langley. E me encontre na minha sala, — Mamãe respondeu depois de me dar um beijo na testa.

— Se tiver qualquer notícia do papai, me mande uma mensagem. – Pedi.

— Eu mando sim. E se Abby tiver alguma.

— Eu repasso! – Ri.

Desci do carro, vi Elena com Chris do outro lado. Eu não tinha clima para nada. Estava além de preocupada com meu pai.

Mas aquela maluca chamada Elena tinha me visto chegar, e rebocando o pobre Chris, chegou sem cumprimentar.

— Preciso conversar com você, na educação física, finja estar doente! – Ela me alertou e saiu correndo.

Lá vinha bomba.

As aulas foram monótonas. Por que passamos o Ensino médio revisando coisas que aprendemos nos anos anteriores?

Na aula de Educação física, Elena me contou a reação do pai dela. E eu fiquei com mais medo do que o meu pai iria fazer. Isso, e o fato de Elena ter a certeza de que a minha mãe iria surtar também.

Ótimo. Era o incentivo que eu precisava.

Na saída, vi que todas as meninas da BAU estavam esperando Elena. Uma pena que o Sr. Hotchner não vai. Queria saber como ele reagiria se tivesse que ir atrás de vestidos de festas. Ainda lembro de como papai ficou... reclama até hoje.

— Hey, Melvin. Por favor, preciso ir em Langley hoje, a Toda Poderosa quer conversar comigo.

— O que você aprontou dessa vez, Srta. Lizzy.

— É aí que a coisa fica feia. Melvin. Você tem uma filha mais velha do que eu não, não tem?

Olha o nível do meu desespero! Trocando figurinhas com o meu motorista.

— Tenho sim. Agatha já está quase saindo da faculdade.

— Você surtou muito quando ela te apresentou o primeiro namorado?

E meu motorista caiu na gargalhada. De chorar.

— Sim. Que pai não faz isso?

— Mas você não atirou nele, né?

— Não. Mas que ele saiu correndo, ele saiu. Quem é o felizardo que vai encarar a Diretora da CIA e o Agente Gibbs? – Ele ainda ria.

— Um Marine que mora, ou melhor morava, do outro lado da rua.

— Aquele garoto de cabelo castanho que vivia conversando com você depois da aula?

— O próprio!

— Você está namorando um Fuzileiro?

— Sim...

— Seu pai não vai gostar disso.

— Obrigada pelo apoio. Está ajudando muito.

— É bem capaz do seu pai pedir que o garoto seja transferido para o Japão!

— Melvin!!! – Eu chorei.

— Tudo bem, eu vou parar. E pelo visto seu pai ainda não sabe.

— Não. Vou contar para a minha mãe primeiro.

— E você tem certeza de que ela já não sabe?

Isso me pegou de surpresa. Será que mamãe já sabia e só estava tentando me fazer falar?

Não importa, já estávamos quase lá. Eu ia descobrir em poucos minutos.

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A voz de Cynthia me acordou do pesadelo em que vivia. Jethro não dera nenhuma notícia e Vance está sendo o inútil de sempre para poder me informar em que o NCIS estava metido.

— Senhora, a Lizzy já está aqui.

Abri um sorriso. Vamos ver o quanto eu estou certa sobre a minha filha.

— Pode deixá-la entrar, Cynthia. Muito obrigada.

Liz entrou carregando um copo de café. Isso não era uma oferta de paz, era somente como ela sempre parecia saber que eu estava precisando de um refil.

— Boa tarde, mamãe! – Ela disse com um sorriso depois de me entregar o café e me dar um beijo.

— Então, o que está te tirando o sono?

— Fora o papai estar caçando outro lunático?

— Fora o trabalho do seu pai.

— Bem... sábado tem o Baile de Inverno.

— Você e seus Bailes.

— Mãe, eu só fui em um até hoje. E foi com o papai!

— Eu sei muito bem sobre esse baile e a caça ao vestido. Continue.

— Então... não se vai sozinha em um Baile, né? A senhora sabe.

Me reclinei na cadeira. Ela estava chegando lá. Balancei a cabeça a instando a continuar.

E aí ela travou. Olhou para mim. Olhou para a janela atrás de mim. Respirou fundo.

— Sabe o Sean? – Ela disse depois de quase cinco minutos.

Eu sabia que era o Marine do outro lado da rua.

— Sei. O rapaz alto, de cabelos castanhos e olhos azuis que morava do outro lado da rua e com quem você vivia conversando até que ele se juntou à Corporação nesse outono.

— Bem ele...

— Ele é seu namorado desde o verão e você não quis nos contar porque primeiro você sabia que ele iria para Lejeune e achou que vocês dois não iriam durar, e segundo porque, depois que você viu que vocês ainda estão juntos, ficou com medo da reação do seu pai.

Liz estava de boca aberta na minha frente.

— Ele é bem bonito. E eu gosto da família dele.

— Mas como?!

— Eu sou a CIA, Lizzy.

— A senhora anda me espionando?

— Espionando não. Eu vi vocês dois juntos.

— A senhora O QUE?!

— Lizzy, você é uma péssima mentirosa. Melhor, você é exatamente como eu e sua mãe, Heather agia da mesma forma. Você é incapaz de esconder o que sente. E eu vi você do lado dele. Seu sorriso te entregou.

Minha filha afundou o rosto nas mãos.

— Papai sabe? – Ela disse cheia de medo.

— Não. Não contei para ele. Achei que ele iria descobrir, mas seu pai é meio lerdo para ler certos sentimentos que estão estampados nas caras das Shepards.

— Não sei se fico aliviada ou se fico com medo.

— Você conhece o seu pai... – avisei.

— É. Eu o conheço. Ele vai ter um treco.

— Sim, ele vai. – Não consegui conter o sorriso.

— Não é hora de rir. – Liz chiou.

— Talvez sim. Vai ser bom ver Jethro saindo da zona de conforto.

— Vai ser o meu fim.

— Mudando de assunto, Liz. Sean vai ao baile com você?

— Até hoje de manhã ele estava de dispensa. Então ele me disse que iria comigo.... mas tudo pode mudar até sábado. E se papai não chegar eu não vou.

— Posso saber por quê?

— Acho que antes de eu sair oficialmente com o Sean, eu tenho que avisar para o papai. E o Sean insiste nisso. Deve ser algum código dos Marines ou qualquer outra coisa parecida. – Ela deu de ombros.

Eu ri. Acho que gostar de homens de farda era uma sina das meninas da minha família.

— Bem, acho que seu pai vai gostar desse gesto, daqui uns trinta anos.

Liz gemeu em desespero.

— Sean corre sérios perigos. A vantagem que quem vai investigar o crime vai ser a MCRT. Tony vai ter que se virar nesse.

— A equipe vai virar o pandemônio.

— Meu Deus! A Ziva vai tentar interrogar ele!! O Tony vai ameaçá-lo, ou pior, vai seguir as ordens do papai! O Tim e a Abby vão apagar a existência dele da face da terra! Mãe!! O papai e a equipe vão matar o Sean e ninguém vai encontrar nenhum vestígio disso!!!

Eu comecei a gargalhar alto.

— E para que você acha que eu estou aqui? – Perguntei para uma muito assustada Elizabeth.

— Para rir da minha cara. – Ela disse infeliz.

— Filha, eu vou estar do seu lado quando você soltar a bomba e se alguém da equipe começar a agir estranho por ordens do seu pai, eles vão passar um mês treinando com os SEAL’s em Coronado e seu pai vai voltar a dormir no sofá do porão por tempo indeterminado.

— A senhora jura? – Ela disse aliviada. Jethro e a equipe estavam perdidos, era a primeira vez que eu ameaçava o bem estar de todos e Lizzy não os defendia.

— Para a sua segurança, sim.

— Mamãe, obrigada!!! – Ela correu para me abraçar!

— Agora, indo para coisas mais práticas e deixando esse filme de terror chamado “Tenho que contar para o meu pai que tenho um namorado” de lado por um tempo...

— Sim... – Ela me olhou sentando na minha mesa.

— Vestido.

— O vestido...

— E o sapato, Liz!

— Bem... sabe aquele daquela Conferência na Europa que a senhora me levou.

— O preto longo com uma blusinha de renda?

— Esse...

— Vai com ele?

— Ninguém nunca nem viu ele por aqui.... por que não?

— Seu pai também nunca viu o decote que o vestido tem nas costas...

— É para isso que serve o casaquinho de renda. Fica lindo e engana o papai.

— O sapato vai ser aquele? – Perguntei.

— Sim... aquele. Vou crescer dez centímetros para uma única noite!

— Traga aquele Louboutin inteiro.

— Mamãe, eu trago ele até em um carro separado. Eu amo aquele par de sapatos!! — Ela riu. Nisso ela tinha me puxado.

— Então, nosso único problema é o seu pai.

— Esse é um problemão.

— Que está completamente fora de nossas mãos. Mas até ele voltar a gente dá um jeito, filha. – Bati na perna dela para ela descer da minha mesa.

— Vai trabalhar até tarde?

— Ainda são cinco da tarde, Liz. Eu não vou sair antes da sete.

— Posso ficar por aqui? Não tenho mais nada para fazer. Todos os meus trabalhos estão prontos, assim como o dever de casa, isso sem contar com o fato de que eu já estou com matéria adiantada.

— E também, sabe mamãe, Sean está no treinamento e não pode conversar comigo. – Imitei a voz dela e Liz ficou vermelha. – E Elena?

— Saiu para comprar vestido. – Ela me informou.

— Coitado do Hotchner, esse é outro que vai infartar quando a Elena contar.

— Ela já contou. Ele ameaçou prender o Chris.

— Se prepare para o seu pai.

— Que Odin me ajude. – Ela falou e se sentou em um dos sofás da sala. – Posso ler estes livros aqui?

— Pode. Só não saia matando todo mundo e depois jogue a culpa em mim. – Brinquei com ela.

— Vou culpar a Ziva!

— Não vai viver muito depois disso.

— Touche! A senhora tem um ponto!

— Vai ter que melhorar muito se quiser ganhar de mim!

Liz me mostrou a língua e se ajeitou para ler o livro. No fundo, eu estava certa.

E Jethro que viesse preparado. Porque ele não faz a menor ideia do que o está esperando.

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A semana passou devagar. As notícias sobre o caso de papai (que eu consegui depois de subornar a Abby com um mês de CAF-POW! às minhas custas) indicavam que agora eles estavam em LA. Mamãe com certeza sabia disso. Mas não quis me deixar ainda mais nervosa.

Até que a quinta chegou. Toda a escola só falava no Baile. Todos só respiravam o baile. Até a Elena pareceu ainda mais animada depois de comprar o vestido perfeito em cima da hora.

À noite, mamãe deu um jeito de chegar mais cedo em casa, nós duas estávamos vendo as notícias, tentando achar alguma coisa, saber se algo tinha vazado para a imprensa que pudesse comprometer a segurança das três equipes. Nada. Por um lado, alívio, do outro, ficar sem notícias era o fim do mundo, mamãe já estava sem paciência e eu não sabia o que fazer para acalmá-la.

— Vance não quer liberar nada, nem para as outras agências? – Eu perguntei depois que ela desligou o telefone.

— Não. Todas as agências se disponibilizaram a ajudar, mas ele não aceita.

— Teimoso....

— Nem me fale, Lizzy. Nem me fale.

— Já tentou ver se algum poderoso do Governo o obriga a dividir as informações?

— O Alto Escalão quer distância disso. Se vazar, Liz, vai ser uma loucura.

— Entendi.

Ficamos em silêncio, ou melhor, eu fiquei, porque o celular de mamãe não parava de tocar nem um segundo. Minha mãe tem mais contatinhos que eu! Que sina!

Até que do nada, a campainha tocou.

Uma olhou para a outra, todo mundo que nos conhece sabe que não precisa tocar a campainha. Logo, pensamos em coisa ruim.

Eu me levantei primeiro. Mamãe buscava alguma informação de último segundo.

Quando olhei pelo vidro da porta quase tive um treco, do outro lado estava parado, com o seu uniforme completo, Sean.

Abri a porta, ele me deu boa noite.

— O que você está fazendo aqui? – Sibilei.

Ele nem se mexeu.

— Lizzy, eu acho que já passou da hora de contarmos para os seus pais. Eu conheço o Agente Gibbs, ele não vai gostar de saber em cima da hora.

— Minha mãe já sabe, meu pai não está aqui. Está feliz. Agora você pode ir. – Olhei por cima do meu ombro e tentei empurrá-lo pela escada abaixo. – Desde quando você está tão forte? — Perguntei, porque ele não se movia de jeito nenhum.

— Lizzy. Atrás de você.

Parei e me virei. Minha mãe estava parada na porta.

Eita Giovana!

— Você realmente vai mandá-lo embora desse jeito, Elizabeth? – Ela perguntou toda calminha. E Jenny Shepard calminha não é normal!

— Está feliz? – Disparei em direção à Sean que só sorriu de volta.

— Senhora Gibbs, boa noite! – Ele estendeu a mão.

Minha mãe estendeu a dela e o convidou para entrar.

É, estava acontecendo.

Entrei atrás dos dois e fechei a porta. Que Deus me ajude!

Mamãe não tinha perguntas muito estranhas para fazer. Até porque ela já sabia de tudo. Vantagens de ser a Diretora da CIA. Assim, ela deixou Sean muito à vontade. Tão à vontade que não se importou de que eu me sentasse do lado dele e que ele passasse o braço por cima dos meus ombros. Acho que a queda pelo uniforme deve ser de família.

Assim, ficamos um tempo, a vinda dele foi até boa, mamãe que já parecia gostar dele só por conhecê-lo como vizinho, ficou encantada com o jeitinho dele. E Sean foi super educado.

Nessa nossa bolha, não escutamos um carro parar na porta, muito menos alguém subir os três degraus da entrada. Até que ouvi:

— QUEM É VOCÊ O POR QUE O SEU BRAÇO ESTÁ EM VOLTA DOS OMBROS DA MINHA FILHA?

Ô Meu Paizinho do Céu!!

— Jethro?!! – Mamãe se assustou.

— Papai?! – Eu dei um pulo, quase cai e Sean acabou por me segurar pela cintura.

Vi uma veia pulsando no pescoço do meu pai.

— Agente Gibbs. – Sean falou sem medo algum. – Boa Noite!

Papai olhou para Sean com uma cara assassina. Na verdade, a mão dele voou para onde a arma estava presa em sua cintura.

— Alguém quer me falar o que está acontecendo aqui? – Os olhos de papai fixos no Marine que estava atrás de mim.

— Bem... pai... – eu tentei começar a falar.

— Jethro, vamos guardar a arma primeiro. – Mamãe tirou a arma da cintura dele e foi guardá-la no cofre.

— Eu estou esperando Elizabeth.

Fazia anos que papai não me chamava de Elizabeth.

— Bem, pai... esse.... – Comecei, mas Sean me cortou. Me colocando do lado dele, ele se apresentou.

— Agente Gibbs, sou Sean Harmon, e sou o namorado da Liz. Vim até aqui para poder pedir a sua autorização para namorar a sua filha.

Eu quis me esconder debaixo da mesa.

Papai encarou o meu namorado com uma fúria assassina.

— Elizabeth?!

— Pai, o senhor já conhece o Sean, né? Ele mora..

— Do outro lado da rua. Morava, seria melhor. – Ele me fuzilou com o olhar.

Olhei para mamãe, o que esse morava significava?

— Ele está lotado em Lejeune agora, mas continua.

— Cai fora daqui se você quiser se formar, garoto. – Papai falou apontando para a porta.

— Jethro, seja razoável. – Mamãe interveio.

— Eu não quero nenhum garoto se achando o Fuzileiro, só porque tem um uniforme, cheio de liberdades com a minha filha, dentro dessa casa. Agora, seu pirralho, saia daqui, ou eu vou te mostrar como os Fuzileiros brigam.

— Papai... – eu pedi.

— E a senhorita, para o quarto, depois a gente conversa.

— Jethro! Pode parar! – Mamãe falou mais alto.

Sean não se mexeu. Acho que já esperava essa reação do meu pai.

— Senhor. Eu não estou brincando.

Em dois segundos a mão de papai estava puxando Sean pelo colarinho da farda.

— Jethro pare! – Mamãe gritou.

— Papai!! – Eu pedi, mas já era tarde. Sean foi arremessado pela porta.

— E nem pense em voltar aqui – Papai disse.

Porém, antes que ele pudesse fechar a porta, Sean se levantou e ficando em posição de sentido disse:

— Senhor, eu compreendo que o seu papel é proteger a sua filha, mas eu estou pedindo a sua permissão para namorá-la e para levá-la ao baile de sábado à noite. Eu juro que vou seguir todas as suas ordens, senhor. E eu jamais vou machucar a Lizzy... Elizabeth, senhor. Tenho a sua permissão?

— Jen, traz a minha arma, eu tenho que atirar naquele moleque!

— Jethro, pode parar com o ataque de ciúmes! – Mamãe chiou alto e o tirou de perto da porta, olhando para o meu namorado que insistentemente ainda estava parado na entrada da nossa casa, ela disse: — Sean, volte aqui amanhã à noite. Até lá, Jethro já se acalmou o suficiente para poder te ouvir.

— O inferno que ele vai voltar aqui. Eu vou é prender esse desgraçado. Ele é mais velho que a Liz. – Papai disse alto, já sacando o celular e ligando para Tony e Ziva.

— Mãe, ele tá chamando a equipe. – Falei alarmada.

— Tira o Sean da nossa porta, eu vou tentar tirar o celular do seu pai. Mas volte para dentro em tempo recorde. – Ela me alertou.

Desci os degraus correndo.

— Sean, vai para a sua casa, meu pai não está brincando, ele vai tentar te prender. Amanhã a gente conversa. – Eu pedi.

Ele me olhou sério.

— Lizzy, eu só saio daqui depois que seu pai me der uma resposta.

— Sean, — eu peguei o rosto dele nas minhas mãos — não ache que meu pai não vai te prender ou não vai atirar em você, só porque você é um Marine que nem ele é, porque ele vai. Ele tá realmente nervoso. – Falei. – Por favor, se você gosta de mim, atravesse essa rua, tire esse uniforme e só volte aqui amanhã de noite. Ou então eu não vou a baile nenhum no sábado! Eu vou acabar indo ao seu funeral.

Sean não gostou do que eu falei. Ser cabeça dura deve ser um requisito para entrar para a Corporação, e só arredou o pé quando eu prometi mandar mensagem para ele, dizendo que eu tinha explicado tudo para o meu pai.

— Sim, eu prometo. Vou explicar tudo e, assim que eu conseguir uma resposta dele, eu te falo. Se eu não mandar mensagem nenhuma hoje, é porque ele confiscou o meu celular. – Falei.

E o Marine teimoso que estava na minha frente deu outra olhada para a minha casa, não viu ninguém.

— Eles devem estar no porão. – Apontei para a luz fraca que saía debaixo da casa. – Vai logo, não sei se mamãe pode segurá-lo lá embaixo por muito tempo.

E Sean, não muito feliz por não ter conseguido a aprovação do meu pai, me abraçou e me deu um selinho, na hora que nos separamos, dois faróis iluminaram a minha casa.

— Vai logo, é o restante da equipe! – Eu falei.

— Lizzy, nós temos que resolver isso. Não é certo namorar escondido.

— Não é mais escondido. Eles já sabem. – Apontei para o carro que chegava cada vez mais rápido.

Foi a conta de Sean atravessar a rua e um dodge azul parar cantando pneus na frente da minha casa.

— Quem é aquele? – Tony saltou do banco do motorista e olhou para onde Sean estava parado.

— Aquele, Tony, é o meu namorado. Sean. E deve ter sido por conta dele que papai te ligou.

Ziva desceu do carro já com a arma na mão e encarando Sean. Tim tinha uma expressão de dúvida no rosto.

— Cadê o Chefe? – DiNozzo tornou a tomar a frente, sem tirar os olhos do Marine parado do outro lado da rua.

— Creio que no porão, mamãe está com ele.

— Novato, vai lá! – Tony mandou Tim descer.

Ziva guardou a arma e com uma sobrancelha levantada e um sorriso no rosto fez seu caminho para dentro da minha casa, quando passou perto de mim, disse:

— Muito bom gosto, Liz. Ele é realmente bonito. E corajoso.

— Ziva! – Tony não gostou do assunto.

— Ah, Tony. Pode parar. Todo mundo tem o direito de ser feliz. Você mesmo partiu muitos corações por aí. Até que eu te conquistei de vez. – Ela deu uma piscada para o marido e entrou.

— Elizabeth... – Tony começou assim que a esposa tinha entrado. – Ele é realmente seu namorado?

— Sim, Tony. – Eu olhei para o meu italiano preferido. – Ele é.

— E por que o Chefe quer prendê-lo?

— Porque ele é meu namorado. E por conta da diferença de idade.

Olhamos para Sean, ele ainda não tinha entrado.

— O que ele está esperando? O atirador de elite entrar em ação?

— Não. Está esperando que eu entre.

— Então vamos, ou seu pai vai matar o seu namorado antes que eu possa interrogá-lo.

— Você também não, Tony!!!

— A minha Pestinha favorita não pode namorar qualquer um. Eu tenho que saber se ele é bom para você, Liz. – DiNozzo jogou o braço em meus ombros e me guiou para a porta.

Antes de fechar a porta, acenei para Sean, foi aí que ele se dirigiu para a porta da casa dele.

— Eu gostei dele! – Ziva disse. – Todo cavalheiro esperando a Liz entrar em casa. Não vou prendê-lo por assaltar o coração dela.

— É roubar o coração, Ziva! – McGee apareceu vindo do porão. A cara mais assustada que eu já o tinha visto fazer.

— Como estão as coisas lá no porão? – DiNozzo perguntou.

— Só mesmo a Jenny para conseguir segurar o Chefe. Com aquele ali, nem o diabo dá conta. – Tim se sentou do meu lado e me olhou com dó. – Então aquele lá fora era o seu namorado?

— Sim, Tim. Era ele.

— Seu pai está irado. Sua mãe está se divertindo às custas dele. Mas, e você?

— Sinceramente, Tim?

— É claro.

— Apavorada. Eu quase vi o papai atirando no Sean. E aquele teimoso se recusando a sair da frente de casa!! Foi o caos!!

Tony deu uma gargalhada. Ziva olhou para o marido e apenas disse:

— Não ache que isso será o que você vai fazer quando a Tali estiver namorando. Se você pensar em dar um ataque desses, eu vou te castrar, Tony.

Tim começou a rir. E eu fiquei pensando como duas pessoas tão diferentes podiam estar casadas. Todavia, se meus pais estavam casados também, eu não tinha motivos para duvidar que o amor realmente vence tudo.

E nós quatro ficamos quietos.

— Acho que vocês já podem ir. – Eu falei. – Tali, John e Morgan merecem ficar com vocês depois dessa semana louca que vocês tiveram.

— Liz, minha adora ruivinha, só vamos arredar o pé daqui quando o Chefe mandar.

Mas aí uma voz vinda das profundezas do porão gritou.

— Tony, Ziva e Tim, podem ir. Obrigada por terem chegado tão rápido, Jethro não tinha o direito de atrapalhar o descanso de vocês. Pode deixar que eu assumo daqui. E podem ficar despreocupados, a sexta é folga e nenhum chefe mal-humorado vai atrapalhar o descanso de vocês.

— Bem, vocês ouviram a Senhora Gibbs! Agora podemos ir! – Tony disse.

— ANTHONY DINOZZO, VOCÊ QUER MORRER?! SENHORA GIBBS?!! – Minha mãe gritou.

— Gente, vão. Agora temos DOIS agente treinados para serem espiões/assassinos furiosos lá embaixo! — Eu falei desesperada.

Eles nem esperaram que eu fechasse a boca. Ziva puxou o marido pelo braço, xingando-o em hebraico. Tim me abraçou e disse que ele e Delilah me receberiam de braços abertos caso as coisas ficassem tensas demais.

— Eu sei, Tim. Agora vai. Mamãe não vai ficar assim por muito tempo, e mais cedo ou mais tarde, eu tenho que encarar a fera.

— Boa noite, Liz. Dê notícias.

Parei no batente e vi os três se afastarem. Que família mais louca que eu tinha.

Dei uma olhada para a casa do outro lado da rua. Um dia eu teria que atravessar a rua e conhecer oficialmente os meus sogros. Espero que não seja nada parecido com essa loucura de hoje.

Fechei a porta e pensei, para onde eu iria?

Se eu me trancasse no meu quarto era o testamento de que eu estava com medo do meu pai. Ir lá no porão era pedir para levar um tiro.

Resolvi ficar na sala, lendo um livro. Até que meu celular brilhou. Era Sean mandando mensagem.

Tudo bem por aí?

Ainda não conversei com ele.

E aqueles três?

Inofensivos. Ou quase. Tirou a sorte grande, Ziva gostou de você.

Sei... e sua mãe?

Ela vai resolver tudo lá embaixo, quando for seguro, vai me chamar. Ela é a única que consegue entender e controlar o meu pai.

Acha que amanhã...

Não sei. Eu te aviso. E Sean..

Sim...

Obrigada por não ter saído correndo. Apesar de ter sido um gesto quase suicida, meu pai vai levar isso em consideração.

Semper fi.

Hurra!

E ele se foi.

Fiquei quase roendo as minhas unhas de nervoso, até que mamãe emergiu do porão.

— Ele quer falar com você...

— Corro algum risco?

— Na verdade, ele só vai te encarar. Você sabe que ele é péssimo com palavras.

— Sei...

Me levantei e preparei para encarar a fera.

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Eu fui obrigada a empurrar Jethro até o porão. Por mais que lá tivesse mais armas que no resto da casa, pelo menos lá ele não tinha uma mira limpa do Marine mais novo que estava do lado de fora.

— Que ideia louca foi essa de me pedir a sua arma e depois ligar para a equipe vir prender o garoto?

— Se ele já está com a Corporação, ele já tem mais de dezoito anos, Jen. É maior e a Liz tem dezesseis.

Encarei Jethro.

— Por favor, você acreditou nas próprias palavras?

Ele fingiu não me ouvir e começou a mexer em algumas ferramentas.

— Você não vai trabalhar nessa estante agora!

— É para você e eu não peguei nisso a semana inteira.

— Jethro, fingir que a Elizabeth não está namorando, não muda o fato de que ela está namorando!

— Ele estava com o braço em torno dos ombros dela! – Ele disse nervoso.

— Eu vi. Eu estava naquela sala com os dois. E não aconteceu nada demais.

— Depois ele a pegou pela cintura!

— Porque a estabanada da sua filha quase caiu. E você esqueceu de mencionar que logo que ela ficou de pé, ele a soltou! Jethro para de exagerar. Você já fez coisa muito pior.

— Elizabeth é minha filha.

— Para ficar só em mim, e eu? Não tenho pai?

Jethro parou e me encarou.

— Viu? Dois pesos, duas medidas?

— Não é assim. Você não tinha dezesseis anos, e estávamos...

— Estávamos trabalhando e rompemos todas as barreiras da relação profissional Jethro, mas teve uma garota de dezesseis anos que você levou para o baile. E sempre vai ter. E você tem que aceitar que a Lizzy escolheu um rapaz que veio até aqui e pediu a sua permissão. Que veio pela vontade dele. E que foi corajoso o suficiente para ficar parado na sua frente enquanto você o ameaçava.

Jethro jogou a ferramenta em cima da mesa.

— Há quanto tempo você sabe?

— No dia em que ela começou a sair com ele, talvez desde o primeiro dia. Eu reconheci os sinais, Jethro. Eram os mesmos sinais que eu vi em mim, e vi na minha irmã. As garotas Shepards gritam para o mundo quando estão apaixonadas.

— Eu não vi nada.

— Você não é um bom leitor das Shepards. Levou a eternidade para você me entender completamente! – Eu o cortei.

— Você é complicada, Jen.

— Obrigada pela parte que me toca, Jethro. Mas vamos voltar.

— Ela te contou, que estava namorando?

— Ela remoeu isso na segunda, durante o dia inteiro, mas como você teve que ir atrás do maluco das bombas, ela não disse nada. Ela estava genuinamente preocupada com você e comigo.

— Ela me disse isso ao telefone.

— Quando foi na terça eu falei para ela me encontrar em Langley. E lá eu a fiz contar. Mas eu já sabia sobre o que ela queria falar, e quem era o sortudo que estava namorando com ela.

— Você não falou mais nada. Só aprovou?

— Você conhece o garoto. Ele mora na nossa porta, Jethro, você conhece os pais dele, sabe que o pai é da Marinha.

— Não tem um sermão que deve ser dado quando...

— É o primeiro namorado, ela mal o apresentou para nós. Quando for a hora eu vou conversar com ela sobre isso. Não se preocupe, você não será avô tão cedo. E eu sou nova demais para ser avó!

— Mesmo assim, Jen. Ela tem dezesseis anos.

— Com medo de perder a garotinha do papai, Jethro? Acha que ela vai virar as costas para você e te esquecer?

— Eu não sei.

— Você é o pai dela, a pessoa que a acolheu quando ela perdeu tudo, Jethro. Você tomou conta dela quando ela não tinha mais ninguém. Ela jamais vai esquecer isso. E, tem mais uma coisa. Foi você quem a levou para o primeiro baile. E ela toda vez que lembra daquele dia da compra do vestido começa a rir. Lizzy te idolatra. E não vai esquecer quem você é para ela ou o papel que você tem na vida dela.

Ele ficou emburrado por um tempo. Olhou para o topo da escada e para mim.

— Por que elas têm que crescer? – Ele disse por fim.

— Para comandar o mundo? – Brinquei e fui para perto dele. – Infelizmente todo mundo cresce.

Jethro em abraçou.

— Eu deveria ter aproveitado mais aquela compra do vestido há nove anos.

— Você – o abracei mais apertado ainda. – Adora viver do passado. Aproveite o hoje, Jethro. Toda essa loucura ainda vai render boas risadas no futuro.

Ele apoiou o queixo na minha cabeça e beijou o topo dela.

— Nossa menina vai nos deixar dentro de dois anos. – Ele suspirou triste. – Essa casa vai ficar vazia.

— Então trate de mostrar para ela que aqui sempre vai ser o lar dela. Porém eu posso apostar o meu cargo que ela sempre vai voltar para cá. Para essa casa, esse porão, para você e para mim.

— O que eu falo com ela? – Ele me perguntou em dúvida.

— Não sei... – Fui sincera.

— O que o seu pai fez?

— Sério?

— Jen, me ajude.

— Ele quase atirou no meu primeiro namorado. Mas a culpa foi minha. Eu o levei para dentro do meu quarto sem ninguém ver. Quando papai abriu a porta....

— Pode parar. – Ele me cortou.

— Ficou com ciúmes? Isso foi muito antes de eu conhecer um certo agente com lindos olhos azuis... – Brinquei com ele, mas ele tinha a expressão fechada. – Liz não fez isso. Fique feliz. E tente se lembrar de uma coisa.

— Que é?

— Não faça com o Sean, o que você não gostaria que fizessem com ela.

— Vou tentar lembrar disso. Ele vem amanhã?

— O baile é no sábado. Se você preferir que seja só no sábado. O garoto mora do outro lado da rua.

— Peça para ela descer.

— Eu já ia fazer isso. Nem você ou ela iriam conseguir se não acertassem os ponteiros.

— Você é irritante, Jen.

— Sou a sua irritante favorita, Jethro! – Pisquei para ele e subi para chamar Liz.

Poderia ir para a cama tranquilamente, os dois se acertariam.

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— Oi pai. – Liz apareceu no alto da escada, ainda sem graça.

Não respondi, só apontei para a bancada, ela sabia o que tinha que fazer.

E ela desceu as escadas, vestia uma calça de ginástica e um dos moletons que um dia foi meu, foi direto para a bancada de trabalho e pegou uma lixa.

Estava montando uma das prateleiras da estante que Jen havia me pedido, e deixei que Liz arrumasse a outra até que ficasse perfeita.

Permaneci em silêncio por quase vinte minutos. E ela ficou concentrada em fazer o que eu tinha pedido.

— Por que você não falou antes que estava namorando? – Perguntei quando terminei de encaixar a tábua no lugar.

E minha filha respirou fundo antes de responder.

— Eu não achei que a gente tinha futuro. Eu sabia que ele iria embora.

— E?

— Só que ele não desistiu de mim. Mesmo longe ele ficou me mandando mensagens.. e quando vi...

— Vocês já estavam namorando.

— Sim. Quer dizer, ele mal vem até aqui, a gente pouco ficou junto desde setembro, mas...

Ela parou e me olhou, estava vermelha, da cor do cabelo dela.

— Você gosta dele.

— Sim, pai. Eu gosto, e muito. E isso me apavorou. Porque foi quando eu percebi que eu teria que contar para vocês. E eu achei que o senhor ficaria chateado, achando que era ingrata, que estava trocando tudo o que o senhor me deu para ficar com o Sean.

Eu larguei de vez o que eu estava fazendo para escutar o que ela tinha que falar.

— Pai, eu não quero ser ingrata. Você me deu o que eu tenho hoje. O senhor me deu um teto, uma família, me deu carinho quando eu perdi tudo, mesmo sabendo que a minha tia tinha te machucado tanto, me aceitou aqui. Passou por cima do que quer que tenha acontecido entre vocês e me adotou como sua filha e sempre me tratou como uma, mesmo que o senhor tenha perdido a Kelly e que isso tenha te magoado e te machucado demais, o senhor me aceitou de braços abertos. E, quando eu achei que o senhor não poderia fazer mais nada para me agradar, o senhor me levou para um baile. E na mesma noite aceitou a minha tia de volta e, quando eu notei, éramos uma família. Não só nós três, mas tinha mais cinco que também faziam parte de tudo isso. Hoje somos ainda maiores porque chegaram os bebês, e agora tem o Sean. Pai, eu não vou largar tudo isso por ele, eu quero que ele entre na família como eu entrei, como o senhor trouxe a Ellie e o Nick, como a Breena a Delilah chegaram. Porque essa é a minha família. A segunda chance que me deram e eu não quero perder isso. Eu não quero te perder, papai. E não quero que o senhor pense que eu estou jogando tudo fora, porque eu não estou. Eu não estou trocando um Marine por outro. De jeito nenhum. O senhor é o meu pai. E nada vai mudar isso!! – Ela parou e me olhou. Liz sempre foi a rainha dos discursos longos. E dessa vez ela tinha conseguido me fazer chorar.

— Vem aqui, Ruiva! – Eu a puxei para um abraço. Nunca pensei que ela poderia saber de tanta coisa e trazer coisas do meu passado dessa forma. Eu não tinha dado a ela uma segunda chance. Ela foi a minha segunda chance de ser pai.— Não pense que você vai ficar livre de mim, Liz. Você não vai. Você é a minha filha.

— Eu sei. – Ela recomeçou a chorar.

— Ei, — Chamei por ela. – Temos que terminar essa estante para a sua mãe antes que ela chute nós dois para fora!

Ela me deu um sorriso. Era o que eu queria.

— E quanto ao Marine com tendências suicidas que você está namorando, diga a ele que no sábado eu converso com ele. E que, por ora, ele pode te levar ao baile.

— Eu vou dizer. – Ela abriu um sorriso ainda maior.

— Mas tem algumas condições que eu vou impor.

— Eu nunca duvidei disso.

— Agora, mocinha, vamos terminar estas prateleiras, vou aproveitar a minha folga amanhã e montar no escritório da sua mãe.

— Sim senhor!! — Ela voltou ao trabalho.

Eu não teria outra resposta para ela, mesmo que ela não tivesse dito tudo aquilo. Eu estava fadado a fazer tudo o que essa ruiva me pedisse, mesmo que eu não gostasse.

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Enfim era sábado, Sean estava do outro lado da rua. Só esperando dar um horário adequado para poder vir conversar com o meu pai. Seguindo o que eu havia dito, ele nem apareceu na calçada da minha casa. Nas palavras dele:

— Liz, eu conheço a fama do seu pai. E se nós quisermos realmente ficar juntos, eu vou ter que acatar tudo o que ele mandar.

E, depois dessa mensagem, ele me deixou quietinha, contudo, eu tinha quase certeza de que ele estava me vigiando de longe, ainda mais quando eu saí para a escola na sexta de manhã.

E aqui estava eu, esperando pacientemente a moça da lavanderia me entregar o meu vestido. Enquanto olhava para a tela do celular e para as reclamações de Elena, que me dizia que o pai dela não tinha sido tão gente boa.

Meu pai não foi gente boa!! E o seu, ele já conheceu o Chris?

Não.

Meu pai deu de cara com o Sean, sentado do meu lado no sofá. Ele esteve por um tris de atirar nele.

Eu tenho que temer pela vida do Chris?

Eu temeria. Aliás, eu ainda tenho medo do que o meu pai vai fazer com o Sean hoje!

Quem poderá nos defender?

Nossas mães? Porque acho que o Chapolin Colorado está muito longe de nós!

Espero que Dona Emily e Dona Jenny deem conta dos maridões.

Elena, elas são as únicas que conseguem dar conta dos dois! Vou indo, meu vestido ficou pronto. Te vejo no baile!

Até o baile!

Peguei meu vestido e dei uma conferida para ver nada de errado tinha acontecido com ele, estava perfeito. E ficaria ainda mais com os sapatos que irei usar.

Em casa era só pintar as unhas e fazer uma maquiagem, eu e mamãe estávamos discutindo a cor do batom quando papai colocou a cabeça para dentro do quarto.

— Nada de batom vermelho. – Ele falou encarando justamente o batom que estava na minha mão.

Fiz cara de pidona.

— Não, nada de vermelho. Seu cabelo já é vermelho!

Mamãe revirou os olhos.

— Jethro, por que eu posso usar e ela não?

— Ela é minha filha. E você, Jen, nunca me escuta mesmo!

Eu ri. Tinha entendido a mensagem.

— Tudo bem, batom vermelho só na mamãe. – Ri da cara que ele fez. E papai desceu rapidinho. – E agora? Já que o vermelho está fora de cogitação.

— Você ainda tem aquele cor de rosa bem forte que você usou na Europa?

— Aquele mate? Tenho, não o uso a séculos!

— Na falta do vermelho...

Depois de muito pensar, acabei por ir com o cabelo solto, ninguém na escola tem cabelo ruivo mesmo, achei que seria uma boa hora para mostrar o meu, minha maquiagem era um pouco mais forte nos olhos, resolvi ficar com o olho carregado e a boca nude.

Sim, eu troquei o batom, mamãe disse que o nude era melhor, não ficava manchado.

Eu fiquei rubra quando ela disse isso.

— E eu seu pai não vai notar quando você chegar!

— Mamãe!

— Lizzy, eu já tive a sua idade, só te dou um conselho.

— Sobre...

— Se você quiser realmente beijar o seu namorado e dar uns amassos, não faça isso dentro do carro na porta da sua casa.

— O vovô te pegou! – Eu arregalei os olhos.

— Sim. E foi o escândalo do ano na minha rua. Então, faça isso bem longe de casa e quando chegar, controle o beijo de despedida. Eu não sei se poderei segurar o seu pai!

Eu estava ainda mais vermelha. E ela ria da minha cara.

— Você fica envergonhada igual à Heather!

Escutamos a campainha. Sean tinha chegado. Fui salva ou não pelo gongo.

— Dê tempo para o seu pai conversar com ele longe de você.

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Abri a porta para o “namorado da Elizabeth”. Antes de entrar me cumprimentou e me entregou uma garrafa de Bourbon. Liz andou tentando dar umas dicas de como ele tinha que agir.

— Pode se sentar, Corporal.

Ele agradeceu e se sentou.

— Elizabeth me disse que o senhor quer conversar comigo.

— Sim, quero.

— Sou todo ouvidos, senhor.

Ia ser fácil manipular esse aqui.

— Há quanto tempo você e a minha filha estão juntos?

— Desde julho, senhor.

— E você, mesmo longe, ainda quis ficar com ela? Em Lejeune não tem mulher?

— Eu quis, senhor. Eu realmente gosto da Lizzy.

Olhei para ele.

— Elizabeth.

— Você sabe que ela é mais nova que você?

— Sei. Dois anos mais nova.

— E sabe o que isso significa?

— Sei, sim senhor. E esse foi um dos motivos pelos quais eu quis conversar com o senhor e com a senhora Gibbs. Não achei certo.

— E qual foi o outro motivo?

Foi quando ele parou. E eu já tinha visto aquilo antes.

— Bem senhor, o senhor já foi Marine, sabe que não ficamos muito tempo em um lugar... eu queria pedir permissão para que a Elizabeth pudesse me visitar algumas vezes.

E eu não gostei disso. Daqui a pouco esse garoto seria mandado para Pendleton ou para o Japão, tudo dependia de até onde que ele queria chegar na Corporação.

— Ela está no ensino médio. – Alertei.

— E depois vai para a Faculdade. Eu sei dos planos dela. E não quero que ela mude isso. Eu só queria que nós pudéssemos nos ver mais, senhor.

Respirei fundo. O problema era um só, eu tinha feito a mesma coisa com Shannon. E quando só nos vermos ficou pouco, eu a pedi em casamento. E pelo que eu via nos olhos do rapaz na minha frente, ele tinha isso em mente.

— Mais uma vez, Elizabeth só tem dezesseis anos, – engrossei o tom. – e ela tem uma vida inteira pela frente. Eu não quero que ela perca isso.

O tal do Sean apenas meneou a cabeça em concordância.

— E, mais uma coisa. Esse baile acaba à meia-noite. Eu a quero dentro de casa à meia noite e meia, nem um segundo de atraso.

— Sim senhor.

— Quanto aos outros dias, ela tem que estar em casa até às dez e meia nos dias de semana, nos finais de semana até onze e meia. E quando ela estiver na semana de prova, vocês não vão sair. O estudo dela é a prioridade.

— Eu entendo, sim senhor.

— E mais um aviso: Não pense que eu não sei o que se passa na sua cabeça, eu sei. E não vai achando que você vai ficar à vontade perto dela dentro dessa casa porque não vai. Como eu te disse, essa diferença de dois anos conta ao meu favor. Qualquer coisa fora do normal, Corporal, eu vou te prender. E a minha equipe é muito boa em achar qualquer tipo de evidência e em sumir com evidências também.

Ele engoliu em seco, tinha entendido o meu recado.

— Eu vou tomar conta dela, senhor.

— E se ela aparecer em casa chorando, chateada, ou se você fizer qualquer coisa que ela não goste ou que ela se machuque, eu sei onde você mora, eu sei onde você está lotado, e eu conheço o seu superior. Fique avisado.

Mal tinha acabo de falar, e escutamos os saltos de Lizzy. É claro que ela usaria qualquer coisa alta.

Mas eu não pensei que ela fosse usar aquilo! Eu nunca a tinha visto usar aquele vestido em particular, nem os sapatos.

Aprovei a escolha dela, tanto Liz quanto Jenny foram sensatas na escolha.

— Vocês dois já terminaram? – Ela perguntou um tanto quanto vermelha.

— Sim. Já terminamos.

— Então podemos ir?

Olhei para o Marine que estava parado ao lado dela. Não gostei daquele olhar de adoração dele.

— Podem. E Liz?

Ela voltou rápido, tinha a mesma elegância e facilidade da mãe para se equilibrar nos saltos altos.

— Sim papai? – Ela perguntou depois que me deu um beijo na bochecha. Jen, estava às suas costas, dizendo para o namorado da filha arrumar a gravata que estava torta.

— Você está muito bonita nesse vestido.

— Obrigada. Por tudo! – Ela sussurrou a segunda parte depois de me abraçar.

E então, deu o braço para o tal de Sean, e desceu as escadas. Foi só aí que Jen saiu de trás da filha. E eu vi a parte de trás do vestido.

Por mais que tivesse uma blusa de renda, o decote real do vestido estava ali.

E era um decore enorme. Toda as costas de Liz estavam de fora até um pouco abaixo da cintura dela. Isso explicava o motivo de Jen ter ficado toda protetora.

— COMO VOCÊ DEIXOU QUE ELA USASSE ESSE VESTIDO, JEN?!! – Olhei para a ruiva que estava sorrindo do meu lado.

— Jethro, nós temos que conversar sobre essas suas reações exageradas!

Notas finais
O nome do namorado da Liz não é coincidência, procurem a foto dele no Google. E para quem vê NCIS e não ligou o nome à pessoa, sim, esse é o filho do Mark Harmon, também conhecido como a versão novinha do Gibbs. Eu disse que tinha de tudo! E, enquanto Emily é a mãe animada, super protetora da filhota, Jenny adora surpreender a filha. Agora, para as curiosas de plantão, segue o link para o vestido que quase matou o Gibbs: https://www.jjshouse.com/pt/De-Baile-Amada-Longos-Cetim-Vestido-De-Festa-017093489-g93489?pos=similar_styles_2 Passem todas as fotos e vocês verão o decote. Já esse aqui é o sapato: http://us.christianlouboutin.com/us_en/shop/women/follies-lace-741466.html É claro que a filha da Jenny iria toda trabalhada no salto alto de alguma marca francesa, né? Obrigada por lerem. Volto amanhã com o último capítulo, tenho dois ganchos para resolver! xoxo