Sua alegria foi cancelada
1 Atravessei outra noite sem sorrir
Notas iniciais
Se você estiver ok, prossiga. Se não, só pula pro finalzinho das notas ;)
Sua alegria foi cancelada
Disse, do outro lado, a sua voz cansada
Acordei no meio da madrugada
Abracei com força o mais puro nada
Iluminado pela luz da lua, o Heights Alliance estava no mais absoluto silêncio. Todos os alunos e professores já dormiam profundamente, provavelmente já em seus décimos sonhos. Bem, quase todos. No prédio da turma A, na ala feminina, no quarto andar, havia uma aluna acordada — de novo.
Ochako já nem se lembrava quando foi a última vez que havia conseguido fechar os olhos e aproveitar o momento de descanso como deveria. Ela continuava deitada na cama, encarando o teto com a mais pura expressão de apatia, mas por dentro seus sentimentos formavam um tornado. Insegurança, receio, ansiedade, sensação de não ser nem fazer o suficiente… Parecia que tudo resolvia aflorar de uma vez quando ela não conseguia dormir. Ou talvez ela não conseguisse dormir por ficar pensando em tudo isso? Nem sabia mais.
E se revirava na cama.
Ela só sabia que cada vez mais as sensações de tristeza e impotência a atingiam com mais força. Noites em claro encarando o nada, enquanto sua cabeça lhe dizia que aquele erro na aula prática foi porque não era tão capaz quanto os outros alunos. Madrugadas acordada, chorando silenciosamente por não ter certeza se estava sendo boa heroína o suficiente. Perceber que o sol já estava nascendo e que em breve iria para a aula, duvidando de si mesma e de suas habilidades.
A cada hora na madrugada adentro era como uma derrota diferente. Uma impotência diferente. Um motivo diferente para sentir sua alegria se esvaindo por entre seus dedos. A cada noite sem dormir, era mais e mais forte a vontade de apenas ir embora. Se ela desistisse, seria tão mais fácil e melhor para todos. Ela não atrasaria os amigos com suas falhas; não faria seus pais gastarem todo esse dinheiro com ela, sendo que ela não prestava para estar ali; não desperdiçaria uma vaga na U.A., quando havia tantos outros aspirantes a herói por aí que eram tão melhores que ela.
Porém, ao mesmo tempo que queria ir embora, não queria parecer ingrata. Seus amigos a ajudavam tanto, os professores pareciam gostar dela e seus pais estavam tão orgulhosos. E, assim, ela se forçava a continuar. Não podia desistir, havia chegado tão longe! Mas de quê adiantava chegar longe, se a insegurança lhe fazia pensar que tudo seria diferente quando se formasse? Para que agência iria? Conseguiria uma? E se ficasse meses procurando e não conseguisse? Sabia que os amigos, como Deku, Todoroki, Bakugou e Iida com certeza teriam milhares de propostas, mas e ela? E mesmo que conseguisse uma, será que conseguiria exercer seu trabalho corretamente? Olha só, aquele outro erro idiota na aula prática voltou à sua mente.
Por fora todos tentam melhorar
Por dentro fingem que vão conseguir
Se depender de mim, não vai mudar
O medo não me deixa prosseguir
Suspirando, chegava sempre a hora em que ela apenas desistia de chorar e se revirar, preferindo tentar distrair a cabeça com alguma coisa. Mas como distrair uma mente já tão condicionada a pensar dessa forma? Ela tentava adiantando lições, lendo livros aleatórios, assistindo alguma coisa… Por pouco tempo, suas distrações funcionavam. Mas então o sol finalmente nascia, Ochako se arrumava sem pressa e ia para as aulas. Se mexia de forma forçada, sorria sem querer e conversava sem vontade de estar ali.
Suas inseguranças, medos, sensações ruins e pensamentos negativos eram sempre camuflados por seus sorrisos gentis e palavras bondosas. Ochako estava sempre aconselhando e ajudando os amigos, mas quem a aconselhava ou ajudava? Nem teriam como. Ninguém sabia nem desconfiava do que se passava. Mas se prestassem muita atenção, veriam que seus sorrisos não chegavam aos seus olhos. Eles chegavam antes, mas não mais. O vazio e a escuridão a engoliam um pouco a cada dia.
E então, mais uma vez, a noite chegava. Se despedia de todos, mandava “boa noite”, colocava seu pijama e ficava deitada em sua cama, mas não dormia. Poderia até cochilar por alguns instantes, mas sua mente logo lhe fazia o favor de criar sonhos agitados, ruins e angustiantes. Se não acordava com o coração acelerado por ter sonhado algo que a deixava inquieta, acordava com ele pesado, triste e vazio.
Tantas vezes não pensou em mandar uma mensagem, uma só que fosse, mas não conseguia. Diversas vezes abriu conversas com os amigos e digitou um pequeno e discreto pedido de ajuda, que apesar de simples era capaz de gritar o quanto ela estava precisando, mas sempre o apagava e ficava quieta.
Um dia vai passar. O tempo cura tudo, é o que todos dizem. E Ochako esperava que realmente curasse. Mas parecia que o tempo estava apenas piorando. Quanto tempo mais ela teria que sofrer? Quanto tempo mais desperdiçaria seu tempo e esforço em algo que não sabia se teria futuro? Talvez se ela voltasse pra casa e desistisse de ser heroína…
Foi então que, em uma das noites, ouviu duas batidas na porta. Estranhando, olhou para o relógio na cabeceira da cama: 23:30h. Achava que todos já estavam dormindo, já que havia se despedido há algum tempo e o toque de recolher já havia começado. Mais duas batidas a tiraram de mais devaneios, a fazendo levantar e ir atender quem quer que fosse.
Para sua surpresa, Kirishima estava ali, com duas xícaras de chá na mão e o sorriso mais amigável que ele conseguia esboçar. A expressão da morena, com certeza, foi das mais confusas, porque ela nem precisou perguntar para ele explicar:
— Eu só quero conversar — ele sussurrava, para não ser ouvido dos outros quartos. — Quer dizer, eu acho que talvez você queira e precise… Então eu trouxe chás. Se você não quiser, pode ficar só com o chá e eu vou embora também. — Ele a lançou um sorriso um pouco sem graça, como se só tivesse pensado naquela hora na possibilidade dela não o querer ali.
Ochako apenas assentiu e deu espaço para que ele entrasse. O ruivo sentou-se à mesa de centro que ela tinha ali, colocando as duas xícaras fumegantes em cima do móvel. A morena o seguiu e se jogou no chão do outro lado da mesa, ainda parecendo não entender ao certo o que ele fazia ali.
— Desculpe ter vindo assim, sem avisar. Eu só… achei que precisava conversar com alguém.
— Ah… Eu tô bem… Eu acho... — A morena coçou a nuca, um pouco envergonhada. — Mas não precisa se preoc-
— Preciso sim. — Ele a cortou, mas logo abriu aquele enorme e gentil sorriso de tubarão. — Eu reconheço como se sente, porque já estive assim. Eu percebi que seus sorrisos não batem mais com os seus olhos.
E pronto. Nem precisou de muito para que Ochako acabasse começando a chorar.
Mas, dessa vez, não teria problema. Ao invés de ser abraçada pelo nada, pelo vazio e pela escuridão, ela teria o calor, o sorriso e a gentileza de Kirishima. Pela primeira vez, em muito tempo, ela não ia chorar por guardar suas angústias, mas por poder compartilhá-las.
Sua alegria, aos poucos, seria restaurada.
Notas finais
A ideia era acabar na Ocha tristona, mas achei que tava pesadão, então um Kiri que já foi triste veio a ajudar. Ah, e ele foi ajudar como amigo, tá? Não se pegaram nem nada disso.
Caso não saiba, esse Kiri triste foi fortemente baseado e emprestado da fanfic da Kirishima_Fics, que ela já colocou no AO3. Recomendo. Vai lá ler! HAUSHAUEHA.
Link da fic: https://archiveofourown.org/works/24306817
Por fim, cada um sente e lida com as coisas de jeitos diferentes. No caso da fanfic, para a Ochako, poder colocar pra fora o que sentia e ser ouvida tão atentamente foi o suficiente para o coração dela ficar mais calmo e leve. Mas, não significa que é assim para todos! E o recadinho de praxe: se você se sentir assim, procure alguém com quem conversar, seja um amigo de confiança ou um profissional. Existe um site chamado CVV, recomendo fortemente para momentos assim.
Beijos e cuidem da saúde mental de vocês ♡♡
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