Notas iniciais
Teremos nosso final feliz??


A nave da igreja que ela costumava visitar todo domingo nunca parecera tão longa. Passo ante passo ela nunca chegava a seu destino, um pensamento intruso lhe dizendo que talvez era porque aquele não era verdadeiramente o seu caminho, mas ela tinha de ignorá-lo. Bem agarrada ao braço do pai, Ema parecia anestesiada, ela andava, mas não sentia seus passos, nem sentia que se movia, havia um peso tomando conta de todo seu corpo que parecia querer petrificá-la. Respirava fundo , mas não sentia o ar entrar em seus pulmões. Olhava, mas não realmente se atinha ao que via. Rostos, a maioria conhecidos, os dos mais velhos sorriam, os mais moços demonstravam encantamento e o dos mais íntimos preocupação.

Finalmente chegou, percebeu porque seu pai desvencilhou-se do aperto que sua mão fazia no braço dele. Tentou ater-se. Tinha Edmundo a sua frente, lhe estendo a mão. A expressão era indecifrável, ela não sabia o que se passava com ele tanto quanto, no momento, não sabia o que se passava com ela. Mas, de alguma forma se ateve a segurar a mão que ele ainda a estendia. Subiram ao altar. Ema ouvia um zunido no ouvido, ela sabia que o padre começara a falar, mas não conseguia ouvi-lo, aquilo estava a perturbando. Algo dentro dela bombeava forte no peito, a desconcentrando. Ela percebeu que precisava saber o que seu corpo estava fazendo para conseguir prestar atenção às palavras que eram dirigidas, provavelmente a ela.

"Alguma fez já olhou para dentro de si de verdade?" Num segundo de brecha, a sua mente trouxe o som da voz firme de Ernesto. Ela sabia que não tinha sido uma boa ideia guardá-la. "Não tenho tempo para fazer isso agora." Respondeu a ele.

"Algum dia foi sincera consigo mesma?" — A voz novamente em sua mente , os joelhos tremeram. Ela comprimiu os lábios e balançou a cabeça negativamente com força. Respirando fundo, a voz de Ernesto a deixava nervosa e aumentava as sensações desconhecidas de seu corpo. — "Não quer sentir por mim o que sente, mas não pode evitar, nem esse maldito casamento adiantará!"

— Pare!

— Perdão? — ela percebeu que o padre parara de falar e a olhava curioso.

— O que disse? — perguntou ela desconcertada ao velho sacerdote.

— A senhorita falou algo! — ele explicou a ela. Ema estava completamente confusa. Deu uma olhada ao seu redor, todos no altar a olhava apreensivos.

— Não! — pigarreou, a voz falhando. — Pode continuar.

Concentre-se Ema! Concentre-se!

O padre assentiu, depois de puxar algo na mente, provavelmente onde havia parado, tornou a falar.

— E aqueles que não puderam estar presente em corpo, mas estão em espírito.... — dizia ele, retomando seu discurso.

Sua mãezinha, pensou. Sua mãezinha e sua promessa! Tinha que manter-se firme por isso. Não importa o que Ernesto falasse. Ernesto... Ernesto e sua maldita voz:

"Se sua mãe estivesse viva jamais aprovaria sua decisão... É simplesmente a verdade. A verdade que a senhorita sempre tanto cobrou dos outros, mas nunca de si mesma..." Você não sabe como é, seu bronco!!

Pensou nas poucas lembranças que tinha de sua mãe. Olhar sempre bondoso e prestativo. Generosa e amorosa, também diziam que ela o era. "Ela jamais aprovaria.". "Eu estou vendo o quanto está doendo em você." Sim, estava doendo, estava doendo muito! Estava sufocante, quase sem ar. Seus olhos encheram-se d'água. Por que? Por que doía tanto?

"Está fugindo do que sente! Não quer me amar, mas me ama." — Sim, amava-o!! Admitiu com o desespero de seu corpo. Tinha que finalmente admitir, ao menos para ela mesmo, ao menos ali diante de Deus. Mas, o que isso importava agora?!

Concentre-se, Ema!

— Laços sagrados do matrimonio... — dizia o padre.

Sagrado... Sagrado? O que tinha de sagrado ali? Nada! Mas, por que não poderia ser sagrado se era nobre o que ela fazia?

"Porque não se manda no coração, baronesinha." — ela virou-se bruscamente para trás, a voz dele atingindo seus ouvidos, o padre parara de falar novamente.

— Está tudo bem, senhorita Cavalcante? — perguntou-lhe o reverendo preocupado. Ela olhou para ele, sem entender. Depois para o noivo que parecia extremamente confuso.

— Ema querida, está tudo bem? — Aurélio se aproximou.

Ema teve a atenção de todos e para fugir daquilo, achou que finalmente chegara a hora de ir para dentro de si, talvez fosse mais confortável lá, do que ter aqueles olhares curiosos e acusador. Enganara-se seu interior estava enlouquecido. O incomodo que sentia no peito era o coração batendo desesperado. O zunido no ouvido era seu subconsciente gritando. "Ema, acorde! Será infeliz!" Ernesto estava lá também! Tudo era angustia medo e vergonha.

— Me perdoe! Me perdoe! — era o que ela dizia, as lágrimas escorrendo. Aurélio havia tomado o lugar de Edmundo ao seu lado.

— Ema?! Minha filha, está se sentindo mal?

— O que está havendo, Aurélio? — ouviu-se a voz nervosa do barão.

Tudo tão rápido, um segundo ou dois desde que o padre parara de falar, mas Ema parecia ter envelhecido dez anos neste tempo.

"Se casar-se viverá o resto de seus dias amargurando isso. Descobrirá tarde demais que não vai conseguir!"

E foi como se viu, dez, vinte anos à frente, sofrendo, amargurada pela vida, e por suas péssimas escolhas. Viveria o resto da vida da lembrança que guardara da última vez que ele a beijou, no quarto da casa do Coronel Brandão. O tom de voz, os olhos negros e os cabelos lhe caindo na testa. O gosto do beijo, sempre intenso e suculento lhe traria calores nos seus momentos de frio. E o cheiro, o mesmo que estava sentido inebriá-la agora. O toque firme de suas mãos.

— Baronesinha! — chamou-a. — O que está havendo?

Situou-se. E não era mais seu pai a sua frente, nem seu noivo, nem o padre. Era ele. Estava delirando de novo.

Podia ser que estivesse. Mas, o toque, as mãos fortes e calejadas segurando seu rosto era cálido e preciso demais. Teve a sensação que cairia, os joelhos tremeram de novo. Mas, ela segurou-se a braços fortes, que a manteve de pé.

— Tirem esse sujeito daqui!

A voz irritada do almirante soando em seus ouvidos. Enquanto as mãos dela segurava-se apertado os braços de alguém...

— O que está havendo?! Ema!! — o tom, a mistura de grave e melodioso chamando seu nome a despertou, era ele, ele estava ali, segurando-a, em cima do altar. Os olhos intensamente preocupados.

— Tire-me daqui!

Ernesto não esperou ela se arrepender. Ema simplesmente sentiu-se ser içada e por instinto agarrou ao pescoço dele. Enquanto ouvia a entoação assustada e surpresa dos convidados, ia nos braços de Ernesto pela nave da igreja que dessa vez não lhe parecera tão longa assim. — Parem ele imediatamente!! — a voz irritada e alarmada do almirante. Estava a tornando a si!

Arregalou os olhos.

— Ponha-me no chão! Ponha-me no chão! — disse a ele agitando o corpo e os pés no ar.

Ernesto foi pego de surpresa, quase se desequilibrou, mas foi rápido e com destreza conseguiu coloca-lá firme de pé. Já estavam fora da igreja!

— O que pensa que está fazendo?? — perguntou a ele, alarmada.

— Eu?!! Ora!! — ele bufou visivelmente irritado.

— Ora o quê? — exasperou-se ela.

Ele estreitou os olhos.

Os convidados já se adiantavam para fora da igreja.

— Quer saber...?? — murmurou ele, e no segundo seguinte a içava novamente a colocando por cima do ombro.

— Ernesto!! — ela berrou.

— Se aquiete, baronesinha!! — ralhou com ela e voltou a andar.

— Solte ela, Ernesto! — ouviu-se a voz de Aurélio.

Ernesto virou-se de supetão fazendo Ema gritar alarmada com a sensação de parte do corpo voando no ar.

— Desculpe seu Aurélio, mas eu e sua filha precisamos ter uma conversa. — disse ele. Virou-se novamente e voltou a andar.

Ema viu as pessoas olhando sua cena abismadas da porta da igreja. Alguns sorriam, outros simplesmente não sabia o que fazer, falar, provavelmente, sequer pensar.

— Isso é um ultraje! — berrou o almirante.

— Deixe eles papai, deixe eles. — ela ainda pôde ouvir a voz de Edmundo.

— Cuidado com a minha netinha!! — berrou o barão de sua cadeira de rodas.

Luccino surgiu de algum lugar com o carro que trouxera Ema a igreja, estacionou ao lado deles.

— Entre irmão! — disse ele. — Ande logo!!

— Luccino!!! — ralhou Ema, ainda esperneando, mesmo sem tê-lo ao seu campo de visão. — Não acredito que vai compactuar com essa loucu-aaa!! — gritou novamente, quando Ernesto a puxou com força para frente e a colocou dentro do automóvel, entrou em seguida e Luccino arrastou o carro.

Alívio, ela tinha que admitir, fora exatamente o que sentiu.

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— Pare esse automóvel, imediatamente!! — disse, batendo forte no ombro de Luccino, quando finalmente já tinham saído da cidade e pegado a estrada de barro.

— Pode parar, irmão! — disse Ernesto à voz irritadiça.

Luccino estacionou. Mas, não ousou sequer olhar para trás, onde os dois estavam.

— Quem...?? Quem lhe deu o direito dessa... dessa... maior prova de atrevimento, descaramento, petulância!!! — dizia ela agitada enquanto estapeava Ernesto.

— Para! Para, baronesinha! — ela segurou-lhe as mãos. — Chega!

Soltou-a e desceu do carro, irritado.

— Quer saber... A minha parte eu fiz! — disse ele virando-se para ela. Estava linda, corada, despenteada, bufando. — Aqui está você, livre! Agora faça o que bem entender! Volte para a cidade, case-se. Ou vá viver a sua vida! Sem medos e arrependimentos. Viver, baronesinha, viver! Vai além de regras e convenções. É de felicidade que estamos falando. E é isso que eu quero pra mim, Ema. É isso que eu terei, com você ou sem você!

Olhou-a por ainda mais um tempo, Ema viu tantas coisas naquele olhar, tantas, que a desarmou. Depois simplesmente ele virou-se e embrenhou-se mata a dentro.

Suspirou. Ali sentada naquele automóvel. Mas uma vez com a decisão em suas mãos. Ernesto a salvará, não lhe faltara, mas uma vez quando ela precisou lá estava ele, a salvando, consertando sua vida. Do jeito torto dele. Lembrou-se do tormento que vivera naqueles pequenos minutos no altar. Não poderia viver com aquilo, não resistiria por muito tempo. Ernesto tinha razão, sua mãe iria querer que ela fosse feliz. E ela realmente não mais podia negar o que sentia por Ernesto. Todo seu ser lhe mostrara isso em cima daquele altar. Corpo, coração e mente trabalhando juntos, para provar-lhe: Amava Ernesto e precisava dele! Que pro inferno fosse as convenções! Dinheiro nenhum pagaria a sensação que era tê-lo. Não havia maior conforto que os braços dele.

— Ema? — ouviu Luccino a chamar meio apreensivo.

Ela levantou, abriu a porta e desceu do carro.

— Pode voltar para cidade Luccino! — ela disse sorrindo, os olhos brilhando.

Viu o irmão de Ernesto suspirar aliviado, sorrindo também.

— O que eu digo se perguntarem?

— Digam-lhes que fui viver, Luccino! — ela abriu os braços, como sentindo sua liberdade e foi-se na direção que Ernesto seguira. — Viver!!!!!

Embrenhou-se na mata também.

Estava reconhecendo aquele caminho, era o mesmo que tinha enveredado descoordenadamente quando Ernesto lhe mostrará seu mundo pela primeira vez. E ainda foi descoordenadamente que seguiu, o vestido enganchava-se nos galhos, os saltos tropeçavam nas pedras, o suor lhe escorria, mas ela não se importou.

Finalmente o avistou, sentado nas pedras as margens do rio, olhava atentamente a queda d'água da cachoeira. O sol refletia nele lhe dando um aspecto angelical. Ela aproximou-se sentindo o coração bater mais forte à medida que o vento trazia o cheiro dele. Sorriu.

Quando o alcançou, lentamente o abraçou pelos ombros e lhe deu um beijo no pescoço. Sentiu o corpo de Ernesto reagir instantaneamente, arrepiando-se. E o contato com a pele dele fazia o sangue dela correr mais forte pelas artérias.

— Italiano rude. — sussurrou rente a seu ouvido. — Nem para esperar-me.

O sentiu sorrir. Respirou fundo, ali, rente ao pescoço o cheiro dele era extremamente intenso. Arrepiou-se. Mas, a custo soltou-lhe, queria lhe olhar nos olhos. Deu a volta e ajoelhou-se a sua frente, ficando na altura dele, sorriu.

— Eu te amo!

Ernesto, por um momento, parecia não acreditar no que ouvia, mas sorriu por fim.

— Desculpe, acho que não ouvi bem.

Ela sorriu novamente e revirou os olhos.

— Eu amo você, seu carcamano bronco, irritante, petulante — cada adjetivo era um pequeno beijo que ela depositava nos lábios dele. — despudorado, mentecapto, turrão...

— Pode continuar — ele sorria, de olhos fechando. — Nunca gostei tanto de ser insultado!

Ela gargalhou, e ele enfim a beijou. E Ema novamente experimentou todas aquelas sensações indescritível que ele e apenas ele causava em seu corpo. Todos sentidos em aprovação ao homem mais improvável de todos.

— Está aceitando meu convite, baronesinha? — perguntou ele quando a soltou.

— Qual convite?

— Viver! Com amor, sem receios?

Os olhos dela brilharam.

— Vai ser um desafio, não vou negar. Mas, quero aprender Ernesto, quero aprender! Vai me ensinar... pacientemente?

Ele levantou e estendeu a mão para ela, que aceitou.

— Bem pacientemente... — ele a abraçou pela cintura, roçou os lábios no dela. — Com todo prazer! — quando ela pensou que ele aprofundaria um beijo, ele simplesmente a pegou nos braços, a fazendo gritar com o susto. Correu e jogou-se no rio. Ema sorria como nunca na vida fizera, o abraçava e beijava, e sorria novamente. E Deus, ela sabia que ao lado dele podia qualquer coisa, essa era a sua maior verdade.

Notas finais
Mais um Endgame pro nosso casal! Espero que tenham gostado! Me digam tá? Bjo e até próxima! ​♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!