Stuck In Reverse
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Suas pernas parecem cada vez mais pesadas a medida que você sobe as escadas em direção ao terraço. O som da chuva lá fora é alto, mas não o suficiente para abafar os ecos na sua cabeça. Os ecos das palavras de sua mãe, das palavras de seus colegas, das palavras do seu professor (e última pessoa que você achou que fosse capaz de compreender).
Você anda cansada. Não é o tipo de cansaço que acaba ao dormir, em vez disso, se intensifica cada vez que você põe a cabeça no travesseiro. Antes de saber o inferno que sua vida se tornaria, suas oito horas de sono eram a parte mais relaxante do seu dia mas hoje elas se tornaram duas ou três horas de sono cortado e repleto de pesadelos.
Falam em "luz no fim do túnel", mas você sequer consegue acreditar que ela ainda existe. E, bom, se existisse, seria a porta do terraço de Blackwell. Afinal, não é a toa o alívio que sentiu quando a viu destrancada e pronta para lhe entregar seu passaporte para um novo mundo.
"Um, dois, três, quatro, cinco, seis..." você conta seus passos enquanto se aproxima da borda. Ao alcança-la, começa a recapitular tudo que lhe levou até ali.
A fatídica noite da qual sequer consegue se lembrar. No dia seguinte, a desorientação ao acordar na porta do seu quarto, a sensação de estar constantemente suja independente do tempo que passasse no banho. Fora os comentários nos corredores, que, em poucas horas, deixaram de ser tão discretos e passaram a ser proferidos diretamente a você.
Em certo ponto dos seus devaneios, Max aparece. Você não permite que ela se aproxime, mas ela ainda tenta lhe convencer a não fazer o que está prestes a fazer. Ela é boa. Sua alma tem algum tipo de brilho que, por algum motivo, essa cidade e essas pessoas nunca conseguiram apagar. A você, só resta torcer para que isso continue assim. Não é como se ainda fosse passar muito tempo ao lado dela. Já fez sua decisão e não vai voltar atrás.
Sua mãe lhe considera motivo de vergonha, seu pai lhe considera objeto de pena, seus colegas lhe consideram alvo de piadas. E você se considera nada. Sua fé foi derrubada, seu orgulho foi roubado, sua credibilidade foi destruída. Você vem ficando cada vez mais vazia. Sente uma constante anestesia emocional sem conseguir sentir nada e se pergunta se ainda está viva.
Houve a história de uma prima esquizofrênica que se matou quando ela tinha dezenove anos e você tinha sete. Nunca conseguiu entender direito o que aconteceu. Sempre viu a morte como a pior maldição existente. Nunca conseguiu compreender o que levava alguém a atirar na própria cabeça, se enforcar no ventilador de teto, ou tomar um monte de remédios até ter uma overdose. Mas agora...
Agora você não vê saída.
Você se vira de costas para Max. Os gritos foram a última coisa que você escutou antes de pular.
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