Stubborn Fools
3 Capítulo 3 - Os planos de Luke vão por água abaixo
Notas iniciais
– Por favor, Luke!- implorei. – Só uma barrinha.
– Não. – respondeu o mão-de-vaca sem coração. – Chocolate engorda, Sophie.
Já havíamos acabado de fazer as compras. Estávamos na fila do caixa, eu estava super feliz porque minha despensa ficaria cheia novamente, e pelo fato de que, antes de virmos ao supermercado, um carinha havia ido instalar a TV a cabo. Despensa cheia e TV a cabo, ah cara, minha felicidade só poderia ser mais plena, se o infeliz, filho da mãe, muquirana do Luke comprasse meu chocolate.
– Mas eu — apontei para mim com o polegar da mão direita. – Que vou engordar. Não você.
– Mas eu – Luke apontou para si com o polegar da mão esquerda. – Que não vou pagar para você engordar.
– Mesquinho, muquirana, mão-de-vaca. – Falei zangada — Você não quer comprar meu chocolate para não gastar seu rico dinheirinho, seu avarento.
– Menos, Sophie. Menos. – ele disse empurrando o carinho para o caixa. Havia chegado nossa vez.
– Eu odeio você, seu mão de vaca. – cruzei os braços e fechei a cara. Luke revirou os olhos e começou a passar as compras.
– Você sempre se emburra quando não consegue o que quer?- Luke perguntou entediado.
– É. – continuei emburrada. Não iria mais conversar com ele.
Ah poxa, eu estava agindo como uma criança, mais queria tanto meu chocolate. O que custava comprar uma barrinha pequenininha de chocolate, para quem já iria pagar as compras?
Ele revirou os olhos de novo, e continuou a colocar as compras em cima do caixa. Não demorou muito para passar tudo e, em menos tempo do que eu esperava, estávamos saindo do supermercado. Continuei emburrada, sem puxar assunto com Luke. Quando acabamos de guardar as compras no porta malas e entramos no carro dele, um gol preto, ele estendeu a mão para mim, me entregando um pirulito de cereja.
– Toma. – ele abriu a mão para que eu pegasse o pirulito.
Quando eu fui pega-lo, ele desviou a mão, deixando minha mão no vácuo.
– Eu te dou... – Luke estendeu a mão de novo com o pirulito, de maneira que eu conseguisse pegar. – Se você desemburrar.
Ótimo. Já tinha até esquecido que o senhor Luke Daggerhorn era o mestre dos acordos.
– Não quero o pirulito. – eu sou teimosa, se ele acha que pode me subornar com um pirulito, está muito enganado.
– Não quer?- ele olhou para mim incrédulo, desembrulhou o pirulito e colocou na boca. – Se você não quer, eu quero.
Luke deu partida no carro e saímos do estacionamento do supermercado. O pirulito na boca dele estava se tornando cada vez mais tentador para mim, e sem tomar consciência dos meus atos, eu o puxei da boca dele e coloquei na minha.
– Hey. – gritou ele, quando paramos na sinaleira. – Esse pirulito é meu.
– Não. Ele é meu. — respondi sorridente, e mostrei a língua para ele, que por sua vez, retribuiu com um careta.
– Você é tããããão criança, Buckhard. – ele brincou colocando ênfase no “tão”.
– Você é tããããão maduro, Daggehorn. – retribui na mesma moeda.
– Irritante. – Luke continuou implicando.
– Playboyzinho. – devolvi.
– Nunca vi um playboyzinho que mora em uma espelunca de apartamento. – provocou.
– Hey, mais respeito com meu apartamento. – defendi. Odiava quando os outros chamavam meu apartamento de espelunca, só eu poderia chamar meu apartamento de espelunca.
– Nosso apartamento. – corrigiu o Luke.
– Hey, mais respeito com nosso apartamento. — corrigi de maneira irritante, enquanto ligava o rádio do carro, para tentar terminar com aquela discussão sem fundamento, antes que eu perdesse as estribeiras e partisse para a agressão. Porque, como vocês já sabem, quando eu estou nervosa não meço meus atos.
O locutor disse algo sobre uma maratona de músicas da banda Paramore.
Luke tinha percebido que eu havia ligado o rádio para tentar parar com a discussão, e se calou. Eu por minha vez, como a ótima hiperativa que sou, comecei a cantar e a mexer de um lado para outro.
– Ignorance is your new best friend, ignorance is your new best friend. – cantei me remexendo de um lado para outro, na tentativa falha de dançar sentada. – Well you treat me just like another stranger... – eu tinha fechado a mão de maneira a parecer um microfone e estava tentando cantar de maneira eloquente.
Luke começou a rir do nada. E eu, como sou muito lerda, não entendi o motivo. Ele começou a me encarar e riu de novo. Olhei para ele sem entender e resolvi descobrir, sozinha, o motivo das risadas dele. Claro, porque minha capacidade dedutiva é extremamente aguçada, não preciso perguntar para descobrir as coisas.
– São as roupas que estou vestindo, não é?- perguntei olhando as minhas roupas. — É disso que está rindo.
– É que – Luke tentou parar de rir. – Você está vestindo essas roupas, cantando Ignorance e tentando chupar o pirulito- ele fez uma pausa e deu uma risadinha, obviamente maliciando o que tinha dito- Enquanto mexe de um lado para o outro, tentando dançar sentada. Eu deveria filmar e colocar no Youtube.
Olhei para o que estava vestindo. Uma blusa desbotada do Linkin Park, uma calça jeans rasgada nas pernas e um all star preto, mas ele estava tão sujo e velho que ficou cinza.
– Haha. Estou morrendo de rir. – disse, sem achar graça. Na verdade, eu estava achando hilário tudo aquilo, mas não iria deixar Luke saber. Continuei cantando e dançando, até que Luke entrou no estacionamento do shopping.
– Vamos comprar as suas malditas roupas. –Luke falou em um tom frustrado, enquanto estacionava o carro. Ele não queria mesmo comprar roupas para mim.
– Vamos. – eu disse desligando o som e descendo do carro, assim que ele estacionou.
Caminhamos lado a lado, até a entrada do shopping. Quando eu parei de um jato e ele continuou andando. O motivo da minha parada brusca foi a sensação de nostalgia que aquele lugar me trazia. No meu passado, eu era uma riquinha mimada e consumista, e aquele shopping era o que eu mais frequentava. Cartões e mais cartões de crédito já haviam sido estourados ali; em roupas, sapatos e jóias caras que eu nunca cheguei a usar.
Como o mundo da voltas. Agora eu estava entrando naquele mesmo shopping, com as roupas que eu tinha há anos, todas rasgadas e desbotadas. Que ironia.
– Vamos, Sophie. Não tenho o dia todo. – Luke chamou e eu percebi que ele estava parado há uns dois metros de mim, me esperando.
Saí dos meus devaneios e o segui em direção a uma loja estranha.
– Luke. – chamei. – Não está pensando em comprar minhas roupas em uma loja indecente, não é?
– Sophie, em loja indecente também se vende coisas decentes, sabia? – ele fez uma pausa, e olhou para minha cara de reprovação – Você experimenta. Se não gostar, vamos à outras lojas, pode ser?
Concordei, sem opção. Em lojas indecentes vendem-se coisas decentes e eu sou o presidente dos Estados Unidos da América. Estava mais do que óbvio que Luke estava planejando algo. Algo além da minha compreensão. Estava na hora de apelar para minha capacidade dedutiva extremamente aguçada, outra vez. Pense Sophie, o que ele iria quer me levando àquela loja?
Uma coisa que eu descobri sobre Luke Daggehorn, nessas poucas horas de convívio, foi que tudo que Luke Daggehorn faz tem segundas intenções. Está bem, eu exagerei. Nem tudo. Mais a maioria das coisas.
Mas a questão era: O que alguém iria querer, me levando para comprar minhas roupas nesse tipo de loja? Fazer-me comprar roupas transparentes para poder ver meu corpo, óbvio. RÁ, Luke, descobri os seus planos pervertidos.
– Já sei. – Luke estava a um passo de entrar na loja quando eu o impedi com um grito. – Você quer me fazer comprar roupas transparentes, não é seu pervertido? É isso que você quer me trazendo em uma loja erótica. — conclui, vitoriosa.
Luke fez uma falsa cara de espanto.
– Meu Deus. — ele segurou minhas mãos. — Sherlock Holmes? É você mesmo?
– Ah, Luke. Você me mata de rir. – falei, sarcasticamente, enquanto tentava me livrar das mãos dele.
– Lógico que não, Sophie. – ele entrou na loja. — Só quero que você compre suas roupas decentes — concluiu sorrindo maliciosamente.
______
Luke Daggehorn.
– Posso ajudar?- a mocinha simpática perguntou assim que entramos na loja.
Olhei para o lado, Sophie me encarava com um olhar de reprovação e irritação.
– Claro que pode. – Sophie respondeu me fuzilando com o olhar. Qual o problema dessa garota? — Viemos ver roupas.
– Para você?- a atendente perguntou analisando, com desprezo, as roupas que Sophie estava vestindo.
– É. – ela respondeu irritada. – Para mim, querida. – aquele querida saiu forçado ou foi impressão minha?
– Só um instante. — a moça foi até uma prateleira, atrás do balcão de pedra, e começou a puxar roupas e mais roupas colocando-as em cima do balcão.
– Não pode ver uma mulherzinha?- Sophie sussurrou em tom repreensivo.
– Mas ela é linda. – justifiquei minha atitude na maior cara de pau. Isso fez com que Sophie me encarasse boquiaberta.
– Você é um maldito pervertido. – ela falou em tom de desprezo, caminhou até o balcão e começou a analisar as roupas. A cada peça que ela olhava, uma careta aparecia em sua face. Eu contive o riso. Era exatamente essa a reação que eu esperava dela.
– Hey Sophie. – chamei. Estava na hora do meu trunfo. – O que está fazendo?
– Você enlouqueceu? — ela parou de olhar as roupas e me encarou. – Estou escolhendo minhas roupas, oras. Ou melhor, tentando escolher algo decente no meio dessas coisas indecentes. – ela disse com desprezo.
– Nosso combinado não foi esse. – Ah sim, ela iria sofrer por um bom tempo em minhas mãos.
– Não?!- ela olhou para mim de maneira incrédula. – E qual foi o combinado, senhor Daggehorn? – falou sarcasticamente.
– O combinado foi: Eu comprar roupas para você. – peguei o vestido mais indecente que achei em cima do balcão, joguei para ela, que por sua vez o apanhou no ar. – Agora vá experimentar.
Sophie olhou para mim com sorriso de raiva e começou a rir. Não que eu já não esperasse por isso.
– Aham, Luke. Vá sonhando... – falou enquanto eu tentava parar de rir. – O acordo eram roupas decentes. Isso aqui – apontou para o vestido com desgosto. – Não é decente.
– Decência é relativa, Sophie. O que é decente para mim, pode ser que não seja para você. – Touché. Eu já tinha pensando em tudo. Se ela estava achando que poderia arrancar roupas de mim fácil, estava bem enganada. É ruim que eu perderia minha "visão privilegiada" fácil assim.
– Eu sabia que tinha coisa nessa história de loja erótica e roupas decentes. Sabia! Minha capacidade dedutiva é muito aguçada. E raramente se engana. – gabou-se. – Não vou usar isso. E quer saber? Esquece a história das roupas. Eu não vou cozinhar para você e pronto. – dito isso ela jogou o vestido em cima de mim, eu o peguei antes que caísse no chão.
– Mas eu já fiz as compras. Cumpri com minha parte do acordo. – indaguei, mas sem me exaltar, para não assustar a atendente gostosa, que se mantinha impassível atrás do balcão. Queria o telefone dela.
– Azar o seu!- gritou Sophie, sem ligar para o fato de estarmos no meio de uma loja. Ela adorava gritar em locais públicos. Ou melhor, me fazer passar vergonha em locais públicos. Maluca. Já estava me arrependendo de ter me mudado para o apartamento dela. Só de imaginar quantos chiliques ela dava por semana, eu já estava enlouquecendo.
– Ótimo. – cruzei os braços e a encarei. Esse jogo é para dois. – Das minhas compras de supermercado, você não come nem uma bolacha.
– Não preciso da sua comida. – ela respondeu enquanto saia da loja. Pensei em pegar o número do telefone da atendente e depois seguir Sophie, mas antes que o fizesse, ela retornou com o rosto extremamente pálido, como se tivesse visto um fantasma.
– Mudei de ideia. – disse apressada, enquanto tomava o vestido das minhas mãos e entrava no vestiário.
A atendente me encarou sem entender, e perguntou de maneira inocentemente charmosa.
– A sua namorada tem algum tipo de distúrbio?
– Ela não é minha namorada. – disse, e sorri para a atendente. Sophie, minha namorada. Ri com o pensamento. Só nos meus pesadelos.
– Ah, não?- ela retribuiu o sorriso.
– Ela é minha irmã. – menti e me aproximei do balcão, onde a atendente estava escorada. Já sabia exatamente a história melodramática que iria inventar. – E sim, ela sofre de transtorno mental. Tenho que cuidar dela, sabe. Você não faz ideia do quão isso é difícil. Tem hora que só consigo acalmá-la ameaçando tirar-lhe a comida. Já que ela adora comer. — falei isso para explicar a ameaça que havia feito anteriormente a Sophie. -Principalmente depois que nossos pais morreram. – fiz a minha melhor cara de tristeza, e fiz com que meus olhos ficassem marejados. Isso exigiu um pouco de esforço, mas já estou acostumado porque, claro, sou um ótimo ator.
A loira saiu de trás do balcão e correu a meu encontro, me abraçando com ternura.
– Sinto muito. Eu não imaginava que ela tivesse transtorno mental. Na verdade, estava brincando quando perguntei. – ela estava agarrada a mim. – Imagino o quão difícil deve ser sua vida.
– E estressante também. – passei a mão nas suas costas. – Sabe... Às vezes eu penso que se conseguisse achar a mulher certa, que me amasse verdadeiramente, eu... Eu... — solucei falsamente. — Conseguiria superar isso tudo mais fácil, entende?
– Acho que você deveria sair, sabe... — ela fez uma pausa — Imagino que faça muito tempo, já que tem que cuidar da sua irmã o tempo integral devido à doença dela. – deduziu a loira, sem me soltar. — Para aliviar o estresse, não acha? – a voz dela estava carregada de segundas intenções.
– Acho sim. – respondi quase de um jato. – Me divertir seria uma boa...
– E talvez, você encontrasse a pessoa certa- ela sussurrou no meu ouvido. Ou, me enganei, ela é do tipo "extremamente fácil”. — Ou talvez, a pessoa certa esteja mais próxima que você imagina e você poderia a chamar para sair. — a loira disse piscando.
– Você se consideraria a pessoa certa para mim?- sussurrei em seu ouvido. Ela arrepiou toda.
De repente, senti um dedo cutucando meu ombro. A loira me largou de um jato e começou a olhar fixamente na direção onde senti os dedos me cutucarem. Vi ela engolindo seco e resolvi olhar para trás.
– O que cê pensa que tá fazendo com minha namorada, Mané?
Morri. Foi o que pensei quando vi o moreno de dois metros, cheio de músculos e tatuagens, batendo uma mão cerrada contra a outra e estralando o pescoço.
–Não é nada disso que você está pensando, James. – a atendente tentou explicar, mas acabou gaguejando.
– Você e esse desgraçado estavam se agarrando Rose, e não é “nada disso que eu estou pensando”? – ele disse a última parte imitando a voz dela. – Eu vou fazer picadinho de você, seu desgraçado aproveitador. – falou James para mim, com uma voz tão ameaçadora e cortante que eu me encolhi de medo.
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