Ströme der Seele
17 Zeit - E eu te nomeio...
Notas iniciais
Cidade dos Meteoros – 15 anos atrás
O lugar era bem apertado e quente, mas também não tinha como ser diferente. Afinal, enfiar várias pessoas em um ambiente pequeno e com pouca circulação de ar só podia resultar nisso. A garota observava enquanto todos conversavam entre si e marchavam para se sentar em algum lugar “livre”. Franklin depositou o garoto ferido no chão enquanto Machi aproximava-se deles com um saco nas mãos. Ela se ajoelhou ao lado do rapaz e começou a tratar de seus ferimentos, retirando, vez ou outra, algum material da sacola.
– Machi é muito boa com as mãos! É ela que cuida da gente quanto alguém fica ruim – explicou Shalnark enquanto ainda segurava sua mão.
Kuroro estava explicando a todos a situação, inclusive sobre a presença da garota. Ela por sua vez olhava toda aquela situação com estranheza e curiosidade. Por algum motivo aquelas pessoas havia despertado nela sensações das quais ela não sabia explicar, pois para ela, pensar demais não era permitido.
– Ei. Ei garota! Você é surda por acaso? Eu to falando com você! – disse Uvo grosseiramente
Ela olhou em sua direção e não disse sequer uma palavra. Foi então que percebeu que Shalnark ainda segurava sua mão e rapidamente se desvencilhou do aperto.
– Eu tinha minhas duvidas quanto a audição dela, porém agora vejo que além de escutar bem, ela também pode compreender nossa fala – disse Kuroro calmamente – Mas ainda não descartei a possibilidade dela não saber falar – disse pensativo.
– O que? Não sabe falar? Você só pode estar brincando! – disse Uvo novamente irritado
– Sim, é o que eu penso – respondeu Kuroro se levantando e indo em direção a ela.
A medida que ia se aproximando , a menina foi instintivamente se afastando Ele então se abaixou para ficar na mesma altura que ela.
– Você deve saber falar alguma coisa não é? Pode me dizer pelo menos seu nome? – perguntou ele.
A garota permaneceu quieta, apenas olhando-o fixamente.
– Vamos, nós não somos seus inimigos – encorajou ele novamente.
A menina mexeu levemente os lábios e deles saiu um pequeno sussurro.
–Não...
Foi a única coisa que Kuroro pôde entender. Por um instante permaneceu calado, parecia refletir sobre algo.
– Não? Quem seria idiota de colocar o nome de alguém “não”? – indagou Uvo com descrença
– Não seja idiota! É claro que ela está tentando dizer alguma outra coisa além do nome! – respondeu Machi ainda focada em tratar o ferimento do recém chegado.
– Não me chame de idiota! A pergunta foi “qual é o seu nome?”, então ela deveria responder o nome, e não “não”! – concluiu ele logicamente.
– A não ser que ela não tenha nome – dessa vez foi Kuroro que se manifestou
Todos permaneceram calados por um breve instante, provavelmente tentando digerir as palavras do garoto agachado.
– Faz sentido – disse Franklin quebrando o silêncio.
– Sem nome? Fala sério, onde vocês encontraram essa peça? – debochou Uvo
– Bem há uma maneira de confirmar isso. – disse Kuroro – Me diga garota, você não tem nome, estou certo? – perguntou à ela.
A garotinha balançou a cabeça afirmativamente.
– E pelo que vejo também não sabe falar – disse ele pela segunda vez.
Novamente ela repetiu o gesto anterior.
– Era só o que faltava! Vocês conseguiram encontrar Gasper Hauser! – disse Uvo rindo alto.
– É Kasper Hauser idiota! Gasper é o fantasminha camarada! – corrigiu Machi.
Shalnark estava em lágrimas de tanto gargalhar. Ele provavelmente não sabia o que eles estavam falando, mas ver Machi corrigindo Uvo era engraçado demais para a pequena criança. Franklin apenas bufou, não sabia se ria ou se chorava de tamanha imbecilidade. Kuroro permaneceu quieto.
– Você pode parar de me corrigir!? – disse entre os dentes – Até esse pirralho está rindo da minha cara! – disse apontando para Shalnark – Se você não calar a boca eu vou ai calar para você! – ameaçou a pobre menino que se calou no mesmo momento
– Deixe o garoto, ele não tem culpa das asneiras que você diz! – Machi olhou para o companheiro irritado.
– Ora, sua....
– Acalmem-se. Antes de tudo precisamos resolver esse problema – disse Kuroro apontando para menina
– Por que está se preocupando tanto? Ela é de fora, não tem nada a ver com a gente. – disse Franklin.
– Ter um nome é importante, é o que te individualiza, o que te situa no mundo, o que te torna alguém – simplesmente respondeu ao amigo
– Sim eu sei, mas isso não é da nossa conta – insistiu Franklin.
– Eu entendo suas preocupações Franklin, porém há algo nela que me chama a atenção e eu estou disposto a descobrir o que é – disse encerrando a discussão.
– Tudo bem, faça como quiser – respondeu ele.
– Bom, então temos que decidir isso em primeiro lugar. – disse Kuroro – Garota, como você gostaria de ser chamada? – perguntou a ela
A menina não se manifestou e nem ao menos pareceu pensar sobre o assunto.
– Acho que isso vai demorar – disse Franklin.
– Vamos dar qualquer nome e pronto! – disse Uvo – Que tal Shirleyne? – sugeriu ele se divertindo
– Shirleyne, mas que merda de nome é esse? Da onde tirou essa porcaria? – perguntou Machi
– Veja lá como você fala do nome da minha mãe! – respondeu Uvo se levantando irritado.
– Sua mãe? – disse Franklin espantado – Sério? Não é a toa que deram um fim nela! Com um nome desses devia ter até desgosto de viver! – zombou ele.
– Eu vou matar vocês! – urrou Uvo.
– Parem com isso. Lembre-se que não podemos brigar entre nós. – censurou Kuroro
Apesar de contrariado, Uvo sentou-se novamente em seu lugar.
– Que tal Morticia? – sugeriu Franklin.
– Morticia? Sério? Não me diga que a próxima sugestão seria Primo It! – disse Machi se divertindo mais do que nunca
– Vamos deixar disso. Temos que pensar com seriedade – disse Kuroro já se irritando com a situação.
Logo uma confusão foi instaurada. Cada um sugeria nomes sem sentido para logo depois serem criticado e ridicularizados pelos demais. Assim seguiu a tentativa de escolher um nome para a garotinha. Até que...
– Maia – disse Shalnark timidamente
– Que? – repetiu Uvo.
– Maia. Eu gosto desse nome, é bonito. – disse o garoto agora sorrindo inocentemente.
– Hm. Não acho um bom nome – opinou Franklin.
– Bom, acho que não somos nós que devemos gostar ou não. – disse Kuroro antes de se virar para garota – O que acha? Gosta de Maia? – perguntou ele
A menina que até então apenas observava todo aquele circo, pareceu esboçar alguma reação. Por uns instantes ela desviou o olhar do de Kuroro e mirou o chão. Demorou algum tempo até que ela se manifestasse. Ainda olhando para o chão a garota balançou a cabeça vagarosamente para cima e para baixo. Shalnark que estava à seu lado parecia não se agüentar de alegria.
– Ela gostou, ela gostou! – repetia o garoto vibrando e pulando.
– Tsc. Os nomes que eu sugeri eram bem melhores! – resmungou Uvo.
– Bom, parece que está resolvido. A partir de agora você se chamará Maia! – proclamou Kuroro.
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