Ströme der Seele
8 Zeit - A cidade do lixo
Notas iniciais
???? — 15 anos atrás
– Você tem 4 horas! Sabe o que fazer. Esteja pronta quando voltarmos – proclamou um dos homens encapuzados antes de se afastar da pequena garota, partindo.
A menina foi deixada sozinha em meio aquela vastidão de lixo. Por um momento não esboçou nenhuma reação, parecia estar tentando se familiarizar com o novo terreno. Quem observasse aquela cena poderia pensar que a garotinha tivesse se perdido ou tivesse sido abandonada, e que naturalmente deveria estar apavorada com a situação. Bem, não era isso que estava acontecendo. Sua expressão era tranqüila, como se fosse apenas mais um dia qualquer.
A primeira vista, sua aparência assemelhava-se a qualquer outra garota daquela idade, porém, ao examinar mais atentamente, era possível notar que se tratava de uma menina diferente. Devia ter uns 3 ou 4 anos, quem sabe. Era magra, com roupas velhas e rasgadas. Onde a pele estava exposta, era possível ver hematomas e cicatrizes. Em seus pulsos era possível ver uma espécie de argola que se assemelhavam a algemas. Mas o que mais chamava a atenção eram seus olhos. Era um olhar profundo e ao mesmo tempo vazio. Fisicamente, tratava-se apenas de uma criança, mas seu olhar denunciava que aquela pequena garotinha já havia passado por muitas situações de profundo sofrimento. Se ela estivesse em qualquer outro local, provavelmente as pessoas estariam chocadas, entretanto, no meio daquelas pilhas de lixo, era comum encontrar pessoas em situação semelhante.
Não demorou muito até que ela começasse a se mexer. Apesar de ser a primeira vez dela naquele local, parecia saber como e onde começar a procurar. Muitos “catadores” de lixo, mesmo os mais experientes, demonstravam dificuldade em selecionar os lotes que aparentavam maior potencial, ou seja, onde poderiam achar itens úteis e “valiosos”. Na maioria das vezes escolhiam um local a esmo, esperando terem sorte de encontrar algo que lhes servisse. Não era o caso daquela garotinha. Ela parecia ter os sentidos mais aguçados, pronta para localizar os objetos de maior valor.
Enquanto remexia nos montes de entulho, pôde sentir que alguém a observava. No primeiro momento decidiu ignorar seu admirador, pois não o considerou uma ameaça. A medida que foi se aproximando do local onde seu observador estava escondido, percebeu que o mesmo pareceu ficar inquieto. Decidiu espantá-lo de vez. Mirou o olhar em sua direção, deixando claro que ela havia notado sua presença.
O garoto levou um susto quando percebeu que a menina o havia descoberto. Não sabia muito bem o que fazer nessa situação, havia sido pego em flagrante. A menina por sua vez o fitou apenas por um momento antes de voltar a sua tarefa. Tomando coragem, saiu do seu esconderijo e começou a se aproximar.
O garoto parecia ter a mesma idade dela, talvez um pouco mais velho. Era bem magro, assim como os outros garotos da região. Suas vestes também estavam rasgadas. Estava descalço. Carregava um gancho de um aparelho de telefone antigo nas mãos, sendo que o fio permanecia pendurado nele, como se tivesse sido arrebentado violentamente do restante do aparelho. Ele pressionava o objeto com força na altura do peito, como se estivesse com um medo profundo de perdê-lo. Os cabelos eram quase loiros e os olhos claros.
– Olá. Qual o seu nome?- perguntou o garoto tímida e cautelosamente.
A menina não demonstrou nenhuma reação a pergunta. Ele por sua vez pareceu confuso. Será que ela havia ouvido sua pergunta?
– OLÁ. – gritou ele.
Silêncio....
– Ei! – disse aproximando-se ainda mais da menina – Você pode me escutar? – insistiu.
Novamente não houve resposta. Permaneceu parado por mais alguns minutos olhando a garota se movimentar, antes de virar e partir. Novamente ela estava sozinha e poderia se concentrar no seu trabalho.
Em 2 horas a garota já havia selecionado diversos objetos. Enquanto remexia em uma pilha ao lado de alguns galões verdes, algo lhe chamou a atenção. Um pequeno pássaro estava estirado no chão, sem vida. O que mais lhe surpreendeu não foi o animal morto em sim, mas sim sua cor peculiar, azul. Normalmente essa coloração é razoavelmente comum em várias espécies de pássaros, entretanto, durante o tempo em que esteve naquele local, pôde observar vários pássaros como aquele, mas nenhum deles possuía tal cor. Não se tratava de um azul qualquer, passava uma sensação de metalizado. Passou a examiná-lo com tanta atenção que não conseguiu perceber quando alguém se aproximava.
– É um copril! – comentou o novo visitante – Ele está dessa cor por que provavelmente caiu em um desses galões com produtos químicos – concluiu ele.
A menina levou um susto com a aproximação daquele estranho e instintivamente colocou-se em posição de defesa. Permaneceu nesta posição durante alguns minutos, até concluir que o garoto não tinha intenção de atacá-la. Começou a observá-lo atentamente.
– Shalnark acabou de me contar que você é nova. Qual o seu nome? – perguntou o garoto.
Ela ignorou a pergunta e passou a se focar em avaliá-lo. Certamente era mais velho que o menino anterior, provavelmente teria por volta de 12 anos, talvez mais. As vestes eram similares, rasgadas e gastas. Os pés estavam igualmente descalços. Entretanto os cabelos e olhos eram profundamente pretos. O garotinho loiro de anteriormente estava espiando por detrás dele, segurando suas pernas.
– Você sabe falar? – perguntou novamente
–...
–Hm entendi. Bom, se não quer falar tudo bem – deu uma pequena pausa na fala – Está vendo aquele barraco mais adiante? – dizendo isso, apontou para um dos inúmeros barracos enfileirados a sua frete – A gente geralmente fica lá! Se quiser, pode ir lá brincar com o Shalnark, acho que vocês têm a mesma idade, não é?
Esperou um momento para ver se a garota iria respondê-lo. Após deduzir que ela não responderia, resolveu despedir-se.
– Então tchau! – virou-se e partiu em direção ao local onde havia apontado.
O garotinho loiro deu mais uma última olhada para a garota antes de sorrir e balançar timidamente uma das mãos para ela em sinal de despedida.
– Tchau. – disse envergonhado antes de correr atrás de seu amigo
A menina observou enquanto os dois se distanciavam e voltou a executar sua tarefa.
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