Notas iniciais
Eu disse que atualizaria rapidinho ;)

05/04 – Floresta de Kobi

Antes mesmo dos primeiros raios de sol, Maia despertou. Abriu os olhos lentamente para ir se acostumando com o novo ambiente. A única fonte de luz do local provinha da fogueira, agora quase extinta. Logo que seus olhos se adaptaram a nova claridade, se deparou com Kurapika deitado próximo a si. Pelo que ela se lembrava eles estavam razoavelmente distantes quando foram dormir ontem a noite, deixando a garota em dúvida sobre como ele havia se aproximado tanto sem ela ter despertado com seus movimentos. De qualquer forma decidiu se levantar e procurar um pouco mais de lenha para alimentar a fogueira.

Kurapika começou a perceber certa movimentação ao seu redor. Ele havia acabado de despertar, porém ainda não abrira os olhos. Estava tentando se lembrar onde estava e principalmente, com quem. Logo sua memória foi se reestruturando e então pôde concluir que a movimentação deveria ser de Maia. Ele não sabia ao certo em que momento pegara no sono noite passada e muito menos quanto tempo havia dormido, entretanto as dores em seu corpo o alertaram que já deveria ser hora de levantar. Devagar foi abrindo os olhos para então se deparar com a garota sentada a sua frente observando uma tigela suspensa sobre a fogueira. Apesar de não olhar diretamente para ele, Kurapika sabia que ela havia notado seu despertar.

– Bom dia – disse ele preguiçosamente enquanto se sentava.

– Bom dia.

Kurapika então voltou sua atenção para o objeto sobre a fogueira. Seu conteúdo não era nenhum segredo afinal.

– Chá? — perguntou ele.

– Sim – limitou-se a responder.

– Nem nessa situação você deixa de tomá-lo – comentou curioso.

– Velhos hábitos nunca se perdem – respondeu ela.

– Nunca é uma palavra muito pesada – disse ele.

– Pois é no que acredito. Você pode até passar um longo período sem fazê-lo, mas eventualmente ele voltará – suspirou antes de continuar – as vezes quando menos espera.

– Talvez você tenha razão – disse ele enquanto observava a garota despejar o liquido em dois recipientes.

O garoto deu um gole demorado no liquido esverdeado de dentro do recipiente, aproveitando todo calor que agora irradiava por todo seu corpo.

– Sabe... – começou ele depois de mais um gole – ...quando eu era pequeno gostava de sair a noite e deitar no gramado para olhar as estrelas. – deu uma pausa antes de continuar – Minha mãe dizia que se observássemos bem as estrelas poderíamos encontrar muitas histórias.

– E você encontrou alguma?

– Claro! Eu achei várias. Mas minha preferida sempre foi a do cachorro que assiste seu dono partir em um navio. – disse ele se relembrando

– Não entendo como isso é possível – comentou ela confusa.

– Você nunca procurou por formas entre as estrelas? – perguntou ele.

– Não. Estrelas são somente esferas de plasmas, não possuem formas e muito menos contam histórias – disse cética. – Além disso, como a história de um cão abandonado pode ser sua preferida? – perguntou à ele.

– Bom, quanto a história, eu gosto de pensar que o dono apenas está saindo para uma boa aventura e que em breve ele retornará para seu lar e pra sua família que esperaria ansiosa por seu regresso, nesse caso sua família é simbolizada pelo cachorro. Eu costumava desejar isso pra mim...- revelou com um certo ar de melancolia. – Mas é engraçado como você leva tudo no sentido literal – disse ele se divertindo logo em seguida

A garota fez uma careta de desagrado com o comentário do garoto,fazendo ele logo acrescentar:

– Desculpe, não queria te ofender. Mas é que você tem uma maneira de pensar muito racional, realista – disse ele.

– Eu enxergo as coisas como elas são – se justificou

– E como você pode dizer com tanta certeza se algo é certo ou não? – perguntou ele

– Eu observo – explicou ela

– Talvez as coisas sejam um pouco mais complexas que isso – respondeu ele.

A garota fez menção em responder, porém decidiu permanecer calada, voltando sua atenção para seu copo quase vazio. Kurapika não esperava que ela respondesse ou que retomasse o assunto. Finalizaram seus copos em silêncio, para em seguida se levantarem. O garoto esperou até que ela guardasse suas coisas para então apagar a fogueira. Terminado as tarefas, ambos se dirigiram para saída da gruta.

Caminharam por quase meio dia antes de fazerem uma pausa para comer. Kurapika achava fascinante observar a garota se mover por entre a mata. Era evidente que ela conhecia profundamente o local, fazendo parecer fácil e seguro se deslocar por esse terreno. O garoto logo notou que, a medida que avançavam pelo caminho, as paisagens começavam a se modificar. Logo que saíram da cabana, adentraram uma floresta mais densa que se estendeu por alguns quilômetros. Nesse primeiro ambiente conseguiu identificar por algumas poucas vezes algumas espécies de animais característicos da região. Após ultrapassarem a mata densa, a vegetação foi se tornando cada vez mais escassa e os animais já não eram mais vistos. O Kuruta notou também uma queda constante na temperatura.

– Nossa como está frio – comentou ele esfregando as mãos.

– Desculpe, as vezes me esqueço que não estou sozinha – respondeu parando de caminhar.

Maia retirou a sacola de seus ombros e se ajoelhou para vasculhá-la. Logo retirou uma outra muda de roupa e uma grande semente marrom que lembrava um pedaço de bolo de chocolate.

– Toma. – disse dando as duas coisas à ele – Vista isso por baixo de sua blusa e depois como essa erva.

Como ela pode ser tão rude em um momento e tão atenciosa em outro? –se questionou incrédulo – Talvez ela seja bipolar ou algo assim – suspirou frustrado.

Kurapika aceitou os objetos da garota e seguiu suas ordens sem questionar.

– A erva vai gerar uma grande quantidade de calor em você por um longo período de tempo. Essa roupa é especial dessa região e irá impedir que o calor se dissipe – explicou ela.

– Obrigado – agradeceu ele – Mas você também não vai precisar? – perguntou preocupado.

– Não, essa temperatura está boa pra mim. – respondeu.

– Não consigo imaginar que temperatura não estaria – comentou perplexo.

– A partir de agora a temperatura só irá cair. Estamos chegando perto do ponto mais alto da montanha. Você não verá mais nenhuma forma de vida lá em cima, apenas neve – disse Maia.

Kurapika ficou curioso em saber o porquê a garota estava se dirigindo aquele local, mas decidiu não perguntar. Por algum motivo imaginava que ela não responderia a sua pergunta. Talvez a convivência tenha feito o jovem Kuruta perceber quais perguntas deveria ou não fazer e quais os momentos certos. De qualquer forma ele sabia que em breve teria sua resposta.

A trilha até o topo da montanha era tortuosa. Kurapika teve muitas dificuldades em todo percurso. Em nenhum momento Maia o ajudou, mas permanecia parada esperando nas situações em que ele passava maiores apuros. O Kuruta ficou grato por ela estar sendo mais razoável com ele dessa vez.

– Droga – pestanejou ele enquanto segurava em uma pedra pontiaguda após escorregar e quase despencar morro abaixo.

Maia apenas olhou para trás para se certificar de que o garoto continuava lá. Após conseguir se recompor, Kurapika marchou em direção a garota. Ele parecia exausto e sua mão agora sangrava com o corte profundo provocado pela pedra pontiaguda. Assim que a alcançou, Maia lhe deu um pedaço de tecido para enrolar e estancar o ferimento.

– Obrigado – agradeceu enquanto enfeixava a mão.

Foi então que Kurapika se deu conta da paisagem ao seu redor. Atrás de si era possível ter uma visão de toda a floresta de Kobi, bem como as demais regiões da montanha Huggia. Não era possível ver mais abaixo da montanha devido a uma grossa camada de neblina que cobria o local. Porém o cenário mais surpreendente estava bem a sua frente. Não importava para onde quer que olhasse, só era possível enxergar uma coisa naquele local. Neve. Claro, haviam também algumas pedras encobertas pelo gelo, entretanto não existia evidência de nenhum sinal de vida, como a própria Maia havia mencionado.

– Vamos – disse ela despertando o garoto de seu fascínio.

Tiveram que ser ainda mais cautelosos naquele local. Devido ao excesso de neve, não era possível saber o que poderiam encontrar a cada passo. Era possível dar uma bela topada com uma pedra, bem como afundar em um buraco camuflado. Kurapika começou a sentir os efeitos do esforço e da grande quantidade de tempo exposto ao frio extremo. Se Maia não tivesse lhe dado a roupa e aquela raiz para se aquecer, tinha certeza de que já estaria morto a muito tempo atrás.

Por estar completamente concentrado em cada passo que dava, Kurapika não notou quando a garota havia parado a sua frete. Bom, ele notou no exato momento em que esbarrou em suas costas.

– Desculpe – disse a ela enquanto esfregava a ponta de seu nariz.

Ela não respondeu. Kurapika ia falar mais alguma coisa, porém a visão a sua frente o fez se calar imediatamente. Pela segunda vez no dia o jovem Kuruta perdeu completamente a fala. Ambos estavam diante de um terreno repleto de amontoados de escombros. Era possível ver pedaços de madeira por uma larga extensão de terreno branco. Havia vigas de diversos tamanhos, a maioria tão desgastadas que era possível verificar por sua coloração. Todas, é claro, estavam destruídas e quase que praticamente engolidas pela neve.

– Só é possível ver os escombros nessa estação do ano quando as nevascas diminuem – disse Maia caminhando em direção ao local.

Kurapika a seguiu de perto.

– Que tipo de pessoa seria capaz de sobreviver a essas condições todos os dias? – perguntou atônito.

– Pessoas como eu – respondeu ela ainda olhando para frente.

Kurapika parou. Foi então que ele se deu conta de um fato.

Meu Deus! Então aqui era sua tribo!

Notas finais
Essa foi diretão! Espero que estejam gostando!