Ströme der Seele

5 Imensidão branca


Notas iniciais
Estou com o tempo reduzido, mas consegui escrever mais um capítulo. Espero que gostem! Boa leitura.

28/03 – Floresta de Kobi

Havia se passado 5 dias desde que a tempestade começou. A convivência entre os dois habitantes da casa havia melhorado consideravelmente, pelo menos era o que Kurapika acreditava. Durante esse período, a tempestade não havia dado nenhuma trégua, obrigando-os a permanecer dentro do abrigo o tempo todo. Sempre que se encontravam, Kurapika tentava estabelecer algum tipo de diálogo com a garota. No começo, muitas vezes ela simplesmente o ignorava ou apenas respondia o necessário. Talvez pela insistência do garoto loiro, Maia passou a estender um pouco mais as conversas, acrescentando alguns comentários. Quando isso acontecia, Kurapika sentia-se plenamente satisfeito, como se tivesse tido uma grande conquista.

Após muito negar, Kurapika cansou de tentar continuar se enganando. Admitiu a si mesmo que havia se equivocado no seu julgamento em relação a garota. Devido a sua natureza orgulhosa e cautelosa, demorou um pouco até que o jovem Kuruta aceitasse essa situação. Agora estava determinado a conhecer melhor sua nova “companheira”. Gostaria de saber o motivo que a levou a ficar nesse lugar completamente isolado. Queria saber sobre sua vida, sua família, seus interesses. Muitas vezes se questionou se deveria tentar realmente obter tais informações ou se simplesmente deveria ficar calado em seu canto esperando toda essa situação acabar. A segunda opção seria naturalmente a escolha mais tentadora, mas depois de todo o ocorrido, novos horizontes se abriram na mente do jovem Kuruta.

Não havia muito o que fazer naquele pequeno espaço que ambos compartilhavam. Os dias resumiam-se a execução das tarefas diárias, como arrumar a cabana e cozinhar. No resto do tempo livre o maior passatempo de ambos era a leitura. No início, Kurapika achava difícil acreditar que aqueles livros velhos e empoeirados pudessem lhe agregar algum novo conhecimento de valor, porém essa suposição mostrou-se totalmente equivocada.

A maioria dos livros tratava de um tema em comum: a botânica. Alguns tinham um enfoque mais medicinal, mostrando diversas ervas, raízes, folhas, flores, sementes e sua aplicação no processo de cura de diversas enfermidades. Outros ensinavam sobre o cultivo, tipos de solo e condições ambientais adequadas para cada espécie de planta. Ainda tinham aqueles que mostravam o impacto que a flora exercia sobre a fauna de determinadas regiões e até mesmo sua influencia na cultura de alguns povos. Tirando esse tema, haviam ainda livros sobre historia, sociologia e arte.

Certo dia, enquanto escolhia uma nova leitura, Kurapika deparou-se com um pequeno livro, praticamente escondido entre os grossos manuais sobre ervas medicinais. Curioso, resolveu examinar melhor o pequeno exemplar. Puxou cuidadosamente para fora da estante, temendo que o mesmo pudesse se desmanchar no processo. O livro era realmente muito velho e estava em péssimo estado de conservação. Teve dificuldade de decifrar seu título. Pela lógica sequencial das letras que conseguia observar, chegou a conclusão que o título do livro era “O copril* azul”. Percebeu se tratar de um livro de contos para crianças. Kurapika surpreendeu-se, afinal, o que um livro de contos infantis estaria fazendo em meio de todos aqueles livros técnicos e científicos? Resolveu folheá-lo

Que título mais estranho para um livro de contos infantis.

A maioria das páginas estavam tão gastas que se tornava impossível a leitura completa de algum dos contos. Até mesmo as ilustrações estavam difíceis de identificar. Finalmente conseguiu localizar um conto legível. O título do conto era “A menina e o castelo”. Rapidamente leu-o por completo. Achou a história bem grosseira, mal escrita e sem sentido. Quem escreveria este tipo de história para uma criança? Após terminar de folhear todo o livro, devolveu-o a seu lugar de origem. Resolveu não mencionar seu achado para Maia, pois não sabia como a garota, imprevisível, iria reagir. Afinal de contas, podia se tratar de algo pessoal.

De volta ao presente, observamos uma cena comum na cabana. Enquanto Maia preparava um de seus chás, Kurapika lia um livro sentado na cadeira próximo a janela.

– A tempestade dará uma trégua – afirmou a garota.

– Hm? Como você sabe? – indagou o garoto loiro.

– Apenas sei. – limitou-se a responder.

– Sempre profunda em suas explicações, Maia. – disse com tom provocativo.

A garota apenas lhe direcionou um de seus famosos olhares de repreensão. O jovem Kuruta sabia que estava brincando com fogo, mas não pôde evitar se divertir com a situação, apesar de não demonstrar a ela.

– Assim que a tempestade parar vamos precisar sair para caçar. A comida está acabando.

– Devo deduzir que essa recessão é apenas temporária?

– Exato. Vai parar por apenas algumas horas. Não o suficiente para que possa partir, mas suficiente para conseguirmos abastecer nosso estoque.

– Entendi. Diga-me. Consegue “apenas saber” quando ela terminará de vez?

– Impossível.

– Então não é tão talentosa assim, não é?

Maia pareceu ignorar o comentário do garoto e começou a servir o chá em dois copos. Kurapika já havia se acostumado com essa mania da garota de sempre tomar chá. Talvez fosse algo comum a todas as pessoas que vivem em locais frios, porém não sabia dizer. No começo esse hábito o incomodava, mas logo acabou se acostumando, chegando até a pegar a si mesmo colocando água para esquentar no fogão.

– Maia?

– Hm.

– Planeja ficar aqui mesmo após a tempestade cessar?

– Sim.

– É perigoso ficar aqui sozinha, não é? Afinal, se algo lhe acontecer, ninguém nunca ficará sabendo.

– Não há ninguém que precise ficar sabendo.

– Sua família não ficaria preocupada? Seus amigos?

Ao perguntar isso, Kurapika se lembrou de seus próprios amigos. Havia prometido que ligaria para Senritsu dando noticias. Ela deveria estar preocupada.

Espero que consiga sair logo daqui. Se pelo menos eu conseguisse lhe mandar uma mensagem...

– Não. – respondeu a garota

A resposta fez com que ele voltasse a realidade. Percebeu que novamente suas investidas em tentar descobrir mais sobre a garota foram por água abaixo. Por limitar sua resposta, não conseguia definir se ela possuía família ou amigos, ou se simplesmente eles não se importavam com ela. O contrário também poderia ser verdade. Se ela não se importasse com os outros, não teria motivos para informá-los.

Ela é muito cautelosa. Não deixa nada escapar.

Decidiu arriscar:

– Sabe...eu estava olhando os livros da estante e encontrei um muito curioso. Falava sobre contos infantis...

Por uma fração de segundo Kurapika pôde ver um lampejo de espanto em seu olhar, mas logo foi substituído por sua costumeira faceta de indiferença.

– Não sei de que livro está falando...

Ela está mentindo!

–...levante-se. A tempestade parou.

Antes que pudesse prosseguir com o assunto, Maia se retirou. Kurapika não havia reparado que a neve tinha cessado. Deixou o livro que estava lendo de lado e levantou-se, seguindo a garota para fora da cabana. Não pôde deixar de ficar admirado com a paisagem. Nunca imaginou que pudesse existir tanta beleza em um fenômeno tão simples como a neve. Em todas as direções que olhasse a única coisa que enxergava era uma extensa imensidão branca. O solo, as rochas e até mesmo as árvores haviam sido engolidos por completo. Assim que deu um passo para fora da cabana afundou imediatamente quase até a cintura.

Nossa! Apesar de toda a extensão do terreno a neve conseguiu cobrir até essa altura!

De dentro da cabana não conseguia enxergar o acumulo da neve, mesmo tendo chegado próximo a altura da janela.

– Ei garoto sonhador! Se ficar ai parado vou te deixar pra trás. – gritou a garota já bem afastada.

Kurapika acordou de seu devaneio. Começou a caminhar em direção a garota, porém encontrou muita dificuldade. Teve que se esforçar muito para tentar alcança-la, pois, aparentemente, Maia não parecia se importar em espera-lo, apesar de nitidamente ter percebido a falta de experiência do garoto em caminhar nesse tipo de terreno. A medida que se aproximaram da floresta o acumulo de neve foi se tornando menor. Essa diferença de acumulo se tornava possível graças as árvores que retiveram uma boa quantidade de neve.

Maia havia parado para observar o local, dando uma chance para que o jovem Kuruta a alcança-se.

– Aconteceu alguma coisa? – perguntou o jovem.

– Você tem experiência em caça?

– Quando preciso, sim.

– Ótimo, é suficiente.

Com Maia guiando o caminho, não tiveram dificuldades em concluir sua tarefa. Kurapika observou que ela não havia utilizado Nen em nenhum momento, fazendo-o lembrar que, desde que chegou, não a viu utilizando sua habilidade Nen. Ele deduziu que ela era capaz de utilizar Nen no momento em que relatou como ela havia percebido sua presença na floresta.

Bem abastecidos, refizeram seu caminho de volta a cabana. A essa altura, Kurapika já conseguia se movimentar com mais facilidade sobre a neve acumulada. Chegaram a entrada da cabana no exato momento em que começaram a cair os primeiros flocos de neve.

– Imagino como deve ser isso aqui no inverno – Kurapika comentou para si mesmo.

– O inverno aqui é rigoroso até mesmo para mim, que estou acostumada com o frio. O sol aparece por poucas horas apenas, sendo a escuridão predominante por quase todo o período do dia.

Kurapika surpreendeu-se ao ouvir a garota respondendo a pergunta, mesmo não tendo sido direcionada a ela.

– Deve ser horrível.

Outro questionamento surgiu na mente do jovem Kuruta. Será que ela morava aqui? Sempre pensou que ela estava apenas de passagem. Mas pensando bem, quem se isolaria em um local tão inóspito ocasionalmente? Será que estava se escondendo de algo? Ou alguém?

– Já esteve aqui no inverno?

– Apenas uma vez.

Bingo! Ela não morava na montanha afinal. Estava abrigada temporariamente. Mas por que?

Ao entrarem na cabana, Kurapika sentiu seu corpo aos poucos voltando a temperatura normal. Respirou profundamente. Estava preparado para enfrentar mais uma temporada preso naquele lugar.

Notas finais
Galera, tem uma explicação rápida sobre o que é um Copril. *Copril é uma espécie de ave inventada por mim. Tratasse de uma espécie que mede aproximadamente 21cm. Normalmente os coprils possuem uma coloração que varia em tons de cinza. Apesar do seu tamanho reduzido, trata-se de uma espécie detritívora. ou seja, alimentam-se de carniça. Os coprils também se alimentam de frutas e pequenos insetos. São comumente encontrados próximos a grandes depósitos de lixo.