Struggle

1 Capítulo 1


Se algum dia você entrar no Colégio St. Louis, provavelmente será apresentado ao Guia de Conduta para Estudantes do St. Louis, que consiste em:

I- Não dê xeque-mate no banheiro (regra exclusivamente masculina)
II- Não entre para o Clube da Matemática (como se eu tivesse cogitado isso. Sou tão bom em exatas que às vezes me perco contando até 10)
III- Fique longe do professor de filosofia. Se ele implicar com você, provavelmente te dará uma suspensão gritando “Saia daqui, sua escória aristotélica-tomista-cartesiana!!” (Oi???)
IV- Tome muito cuidado com Thomas e Alan. Thomas é o quarterback e capitão do time de futebol. É um monstro e, apenas de não interagir muito com ninguém de fora do próprio time, não fique no caminho dele, ele te esmagaria com um mindinho. Alan é capitão do time de basquete. Tem sempre um monte de líderes de torcida em cima dele (boatos de que ele pega todas juntas), e é muito forte também. Digamos que os dois têm uma inimizade histórica, principalmente porque os times de basquete e futebol estão sempre competido para ver quem ganha mais troféus. Quando eles brigam, bem, não queira estar no meio.
Tudo isso me foi explicado por uma garota chamada Sara, que é simpática, senta na minha frente na sala e se ofereceu para ser minha guia no St. Louis. A julgar pelo tanto de vezes que ela piscou e passou a mão no cabelo enquanto conversava comigo, acho que devia contar para ela que sou gay...
Talvez depois.

Eu era muito popular na minha antiga escola. Começou porque eu era bom no baseball, porém foi no nono ano, quando a escola inteira começou a sair do armário, que eu ganhei notoriedade, porque, bem, eu fui o primeiro. Foi tudo maravilhoso por dois anos... Até minha mãe ser transferida e me trazer para cá.: um colégio sem baseball e sem gays. Ou pelo menos era o que eu pensava até o almoço.
Não me entenda mal, mas quando eu assistia a filmes nos quais a garota nerd novata escorregava e caia no refeitório e as invejosas riam dela, eu sempre achei que seria invejosa, não porque sou mau, mas porque nunca pensei que uma mera poça de suco de laranja pudesse me derrubar. Mas, adivinha?? Pois é. Limito-me a dizer que, se eu fosse uma garota e usasse vestido, teria dado para fazer um exame de útero completo.
Porém, a maior surpresa foi ver um garoto, que até então parecia muito sério, fazer uma cara fofa de preocupação e correr, com aqueles braços enormes e aquele corpo que com certeza portava um tanquinho, até mim (jesusabençoaessehomeeeeem). Todavia, antes mesmo de ele me alcançar, mãos ágeis me tiraram do chão e, meu Deus, tinha um Apolo me segurando. Eu sei que meu forte não é matemática, mas eu poderia ter ficado para sempre medindo aqueles bíceps, se as duas estátuas gregas não tivessem repentinamente parado e se olhado furiosamente. O que tinha vindo correndo, e agora estava na minha frente, foi o primeiro a falar:

- O que você pensa que está fazendo?
- Ajudando o garoto. O mesmo que você pretendia fazer, creio eu.- respondeu o outro ainda me segurando.
- Solta ele, Alan. – Alan? Ops...
- Se não o que, Thomas?- 2x ops...
É esse diálogo muito carinhoso foi interrompido pelo sinal do fim do intervalo. Alan me soltou (ahhhhhh) e após perguntar se eu estava bem, foi para o outro lado do refeitório, mas Thomas continuou ao meu lado e, na sala de aula, pegou sua mochila e sentou na cadeira atrás de mim. Não que eu esteja reclamando, claro.
De repente ele me passou um papel dobrado escrito “LEIA”. E dentro: “Oi, desculpa não ter me apresentado. Meu nome é Thomas, e o seu?”. Respondi “Victor. Foi muito legal você me ajudar no refeitório, obrigado.” E ele devolveu “ Ah, não foi nada. Você está bem, né?” “Estou.” “Olha, o outro garoto, o Alan, cuidado, ok? Ele é ridículo, se acha demais. Provavelmente vai brincar com você e te jogar fora.” (Então será que você poderia me proteger dele? Por favorzinho??). Eu ri e respondi um “ok” em voz baixa, e ele riu também.

As semanas seguintes foram o inferno. Ou o paraíso, depende do seu ponto de vista. Thomas se mudou definitivamente para perto de mim na sala de aula e apesar de parecer muito fechado e sério, na verdade é super simpático e divertido. No início Sara pareceu um pouco surpresa com aquilo, e ficava me perguntando o tempo todo como eu tinha realizado a façanha de fazê-lo ser simpático, mas por fim acho que ela entendeu. Na verdade eu tive certeza de que ela entendeu na mesma hora em que eu percebi que ela não piscava nem balançava o cabelo mais quando falava comigo. Sinto muito por ela, mas acho que foi melhor ela descobrir assim.
Porém, como nem tudo são flores, Alan também não me esqueceu. Não que eu não goste de atenção, ou que eu esteja reclamando de ela vir dele, mas dá quase para sentir eletricidade no ar toda vez que nos encontramos no corredor e, apesar de cercado por líderes de torcida, ele pisca para mim ou puxa assunto (isso quando não me elogia, claro), nunca sem lançar um olhar desafiador a Thomas, que está andando sempre comigo agora.
Ok, ok, eu amo ter dois caras maravilhosos me disputando mas, meninos, não briguem!!! Eu nem sabia que estava tão bem assim...

Como se tudo já não estivesse muito complicado (nunca achei que ter dois boys magia fosse tão exaustivo), Thomas começou a agir... Estranho comigo. Ficou meio fechado, mas me elogiava mais também. No início achei fofo, mas como aquilo começou a me preocupar, resolvi conversar com ele. No final da aula de quinta puxei ele para as arquibancadas do colégio para perguntar se estava acontecendo alguma coisa. Digamos que talvez não tenha sido a melhor ideia do mundo, visto que às terças e quintas o time de basquete treina lá.
Adivinha????? Pois é. O Alan apareceu para dar um “oi”.
Como se o colégio inteiro tivesse um radar de treta (não, com certeza não foi fofoca das líderes de torcida, não mesmo), o lugar começou a encher, e vários alunos foram assistir à discussão potencialmente amigável que, novamente, foi Thomas que começou.
-Alan, posso saber o que você está fazendo aqui?- ele perguntou levemente furioso.
-Eu? Nada. Só vim cumprimentar o Victor.- dito isso ele me puxou para um abraço. Acho que vi faíscas sai do dos olhos de Thomas, principalmente quando ele me puxou para fora dos braços de Alan.
-O QUE VOCÊ PENSA ESTAR FAZENDO?- Thomas vociferou.
-Acho que o mesmo que você. Brigando pelo que eu quero. – Alan respondeu calmo, apesar de com um leve tom de desafio.
- Quem você pensa que é, para chegar aqui e pensar que pode me desafiar?
- Aposto que eu venceria, sou mais forte que você.
- Ah, claro, você mal tem músculos. Talvez tenha um pouco de bíceps, e olhe lá.
- E você? Duvido que o tempo que passa treinando tê de um corpo... Razoável.
- Talvez você tenha alguma coisa ou outra... Mas não se compara...
- É, até que você não é nada mal...
- Digo o mesmo...
Eu juro que em um momento ele estavam brigando e, no seguinte, se elogiando? Gente, o que eu perdi?? Acho que pisquei e...
Eles se beijaram.
....
É sério que eu perdi os dois assim?

Óbvio que a platéia ficou louca. Todos começaram a conversar e se questionar o que estava acontecendo ali. Eu estava pasmo demais para participar, mas ainda estava ouvindo. Porém, no meio de tantos depoimentos diferentes, uma voz feminina verbalizou aquilo que todos estavam pensando, mas ninguém conseguia falar:
- Mas, gente, quem vai ser o uke???

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