Strokes

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Sakura foi a primeira a acordar naquela manhã. A luz do sol batia violentamente contra o seu rosto que já estava quente pelo tempo exposto a luz. Os olhos estavam pesados, grudentos, lutavam contra a forte luminosidade. Ao tentar abri-los, protegendo as córneas com as mãos, ela sentia como se houvesse grãos de areia sob as pálpebras. A dor de cabeça se fez presente assim que os olhos foram abertos, latejava constante uma dor beirando o insuportável. Ela olhou para os lados atrás de água para se refrescar, sua boca estava seca, porém acabou notando o homem ao seu lado, Sasuke, que estava mais no chão do que na cama, completamente desmaiado com as costas arranhadas e os cabelos desgrenhados.

— Kami-sama.

Foi tudo o que Sakura conseguiu dizer tapando a boca com uma das mãos como se pudesse jogar de volta suas constatações para dentro de si. Ela havia chegado naquele momento em que uma imagem vale mais do que mil palavras. Mesmo confusa, sem lembrar-se de muita coisa, ela entendeu, pelo contexto e cenário, o que havia acontecido.

Levantou-se vagarosamente para não acordar Sasuke, evitaria ao máximo uma conversa matinal pós "noite-de-amor", tinha medo de ele confirmar suas dúvidas. Dúvidas essas que nem chegavam a ser dúvidas, afinal, mesmo com as lembranças turvas, ela sabia bem o que tinha acontecido ali, Sasuke só precisava confirmar o que o seu instinto já presumia. Sakura ter acordado antes não a colocava numa situação melhor do que a dele, que estava além do estágio "dormindo". Os olhos dela estavam bem abertos, esta era a única diferença entre ambos, pois seu corpo e sua mente estavam um trapo.

A garota cobriu sua nudez com uma yukata para ir às águas termais. Por sorte, não estava cheio, havia somente uma senhora dormindo em um canto e o restante do onsen era todo dela. Ali era obrigatório ficar completamente nua, somente uma toalha era permitida para a saída do banho e isso já tinha a deixado estressada. Não gostava de mostrar o seu corpo cheio de cicatrizes e agora, provavelmente, de provas de um crime com Uchiha Sasuke.

A segurança de Sakura, até o atual momento, resumia-se nas batalhas, na sua força, inteligência e habilidades médicas, falando de si mesma, especialmente do seu corpo, sua auto estima era baixa. A bebida era uma ótima catapulta para ela deixar de lado esse tipo de insegurança, mas não inibia completamente suas neuras. Em meio àqueles pensamentos, Sasuke entrou novamente nos seus devaneios:

O que será que ele tinha achado do seu corpo? Será que ele a achava bonita? Será que ela fez direito? Provavelmente, não. Ela estava bêbada, devia ter dito tanta asneira! Tão desengonçada, quantas posições deve ter feito, achando que seria sexy, e mais fez Sasuke zombar? Neste ponto sentiu raiva dele por algo que sua própria cabeça criou. Será que Ino tinha sido melhor do que ela? Ino também deixou as costas do Sasuke toda arranhada, mas quem havia arranhado mais? Se bem que, o arranhão nas costas dele significava o quão intenso ele foi para ela, não o contrário.

Pensando nisso, Sakura levantou-se um pouco acima do nível da água e tentou ver suas próprias costas. Se tivessem arranhões, ela teria sentido arder no momento em que tomou banho, porém não custava olhar. Não... Estavam brancas como mármore, intactas. Inspecionou todo o corpo em busca de marcas, havia algumas, contudo hematomas causados pela batalha anterior do navio, não pelo o Sasuke.

Depois do longo e pseudo relaxante banho de onsen, Sakura só tinha indagações na sua cabeça, estava mais preocupada com a atual situação dela com o Sasuke do que com o restante da missão. Como as coisas seriam dali em diante? O que mudaria entre os dois? Se fosse a mesma Sakura da adolescência, isso tudo seria um sonho realizado, porém as coisas eram bem diferentes naquele momento. A relação profissional entre Sasuke e ela estava funcionando na medida do possível. Ambos estavam colaborando.

Não, não seria tão simples, Sakura constatou. Embora fossem adultos, com todos os predicados de adultos, inclusive a intensidade, tudo era dobrado. Amor, ódio, repulsa, desejo. O que viria a seguir? Da parte do Sasuke, ela não sabia, contudo ela poderia fazer algumas afirmações sobre si: ela não cairia no mesmo abismo novamente.

Ela já era bem grandinha para saber diferenciar as coisas. Sasuke era bonito? Era. Ela já o amou incondicionalmente? Sim, amou. Ela foi rejeitada? Citemos apenas as tentativas de assassinato por parte do Sasuke. Ela sofreu? Bastante. Queria repetir tudo isso? Jamais. Não queria e nem precisava. Houve um tempo que ela realmente quis um homem para segurar sua mão e suas inseguranças, mas isso passou depois que Sasuke e Naruto passaram a preencher sua mente de forma que não sobrava espaço para imaginar-se presa a alguém.

Sakura podia levar aquele acontecimento adiante como levou o de Naruto. Aconteceu de terem uma noite/manhã/tarde de amor, porém, não significou nada. Ora, essas coisas acontecem entre adultos, inclusive era muito comum um casal de amigos se embebedar e terminar na cama. Pelo menos Sakura achava que deveria ser comum. De toda e qualquer forma, aquilo seria apagado das suas mentes, da história humana! Sakura estava determinada a fazer isso.

Chegando na porta do quarto, confiante, foi surpreendida quando a maçaneta girou antes que Sakura tocasse nela. Sasuke, do outro lado, abriu a porta e também estagnou na entrada do cômodo. Sakura prendia o ar desde que a porta tinha sido aberta e ainda não tinha soltado, Sasuke estava tentando concentrar suas energias e orgulho próprio para não deixar que reações biológicas combinadas aos seus pensamentos fizessem seu rosto enrubescer.

— Bom dia. — Ela começou, liberando o ar do seu pulmão aos poucos para ele não perceber que ela segurava.

— Eu... Estou de saída.

— Ah... Eh... Tudo bem. Eu vou... Ahm... — fitava algo além do Sasuke, dentro do quarto — Arrumar as bagagens. — Deu um sorrisinho falso. — Partimos hoje, certo?

— Sim, sim. Estou indo agora mesmo para onsen e de lá irei para a central da vila conversar com a Micukage os últimos detalhes.

— Você poderia aproveitar e enviar um telegrama para Konoha, faz tempo que não os contatamos.

— Sim, mandarei algo.

— Certo.

Eles se cruzaram ao mesmo tempo, ela entrando e ele saindo. Os ombros roçaram levemente, ironicamente o toque fora forte o bastante para descarregar um choque pelo corpo dos dois. Sakura parou novamente e virou-se para ele com a pergunta travada na garganta, Sasuke também parou e a fitou, como se esperasse algo além do ponto final.

— Sasuke.

— Hm.

— Eu estava pensando... — Olhou para a cama desarrumada no quarto, a cena de luxúria descarada. — Será que poderíamos...

— Esquecer? — Ele interrompeu-a completando-a.

Ela pensou que se ele tivesse respondido "repetir" o seu ego agradeceria, porém ele tinha feito o que era melhor, o que ela estava proposta a fazer.

— Sim.

— Como quiser. — Ele já ia caminhando, porém Sakura o chamou novamente.

— Hey. Eu não quero que entenda mal as coisas...

— Não aconteceu nada, certo?

— Ahm... Sim, claro.

— Não se preocupe à toa, então.

Mesmo depois que ele havia saído, virado o corredor, Sakura continuou olhando o local pelo qual Sasuke tinha passado, perdida em milhares de pensamentos desconexos por segundo. Que fácil e rápido, não? Era exatamente o que ela queria. Será que Sasuke tinha lido os seus pensamentos? Claro que não, bobagem. Ele só foi empático e sagaz. Típico.

Sendo assim, com o quarto arrumado, as janelas abertas expulsando o cheiro de sexo e álcool, o que quer que tenha nascido naqueles lençóis estaria morto e enterrado para sempre.

.o0o.

Konoha

Koharu e Homura convocaram Tsunade para uma reunião fechada naquela mesma manhã. Souberam da saída autorizada de Sasuke e Sakura, auorizada por Tsunade, e sentiram-se traídos. Pelo tempo que estavam sumidos, ambos imaginavam que também não havia sido para um propósito honroso, temiam.

Decidiram, junto aos Senhores Feudais, que considerariam fuga de Sasuke Uchiha e Sakura Haruno caso não voltassem no prazo estipulado de uma semana. A liberdade condicional de Sasuke seria suspensa e um mandado de caça e prisão de Sakura seria elaborado. Esquadrões da Anbu já haviam sido escalado e recebiam treinamento direcionado para a busca e captura dos jovens.

Tsunade, quando interrogada, não respondeu a uma pergunta sequer. Tinha o direito do silêncio a Shizune como testemunha ao seu lado. Kakashi e Shikamaru foram avisados do convite para a reunião com os diabos, se algo acontecesse com ela, não ficaria entre quatro paredes, isso foi um fator que a tranquilizou. Já ter tirado Sasuke e Sakura da rota de alcance de Koharu e Homura também tinha sido uma garantia extra de sua integridade. Estava sem notícias, mas àquela altura seus meninos já deviam ter comunicado algum kage sobre o que acontecia nas sombras de Konoha.

Naruto também tinha sido convocado, tinha sido dado como fugitivo antes mesmo de ser procurado, fato que provocou vexame coletivo para o esquadrão anbu responsável pela investigação, e para Naruto, provocou risadas deliciosas no Ichiraku com Kakashi e Shikamaru.

Para o desespero dos Conselheiros, Naruto tinha se saído pior do que Tsunade.

— Eles estavam apaixonados, por isso fugiram. — Respondeu quando indagado.

Era inacreditável estar calmo diante do Conselho Corrupto de Konoha, responsável por ações que prejudicaram a vida de pessoas muito queridas para ele.

— É, eles se amavam. — Explicou ao notar a expressão de confusão de Homura e Koharu. — Ora, vão dizer que vocês, os sabichões da vila, não sabiam? — Fez careta indignado, colocando as mãos na cintura para complementar a cena dramática. — Eles não suportavam essa situação toda do Sasuke em condicional, livre, porém preso. Sakura endoideceu de confusão, ainda mais porque os falecidos pais dela a aconselharam a não se envolver com criminoso, contudo o amor dela era maior do que qualquer coisa... A coitada não viu solução senão fugir. — Fez cara de tristeza, nitidamente falsa. — Disseram-me que vão viver no mato de tudo o que a natureza provém. — Disse conformado.

Koharu faltava explodir de irritação. Naruto era o tipo de pessoa com a seriedade mínima com a qual ela não conseguia lidar. Arrependia-se de reclamar tanto de Tsunade, Naruto era infinitamente pior.

— Naruto Uzumaki. Se o senhor não colaborar conosco iremos considerá-lo cúmplice dos fugitivos e tão culpado desta falha quanto Tsunade-hime.

— Estão me ameaçando? — Perguntou em tom de tédio. Iria manter o teatrinho, do contrário, agiria de maneira irracional.

— É apenas uma negociação. — Homura falou pela primeira vez, bem mais afável do que Koharu, porém igualmente cretino.

— Olha, não é por nada, não, mas acho que vocês estão me ameaçando, sim! Se isso não fosse tão estúpido, eu poderia até me sentir ofendido, mas agora fiquei curioso: O que vão fazer para me punir? Ou melhor, quem vai me dar o castigo pelo nada absoluto que eu fiz para estar aqui?

— Esse nível de auto confiança é perigoso até mesmo para você, Naruto. — Koharu rosnou. — Um defeito que duvido muito ser genético. Minato tinha a modéstia abundante que em ti falta. — Naruto revirou os olhos.

— Koharu-sama, estou apenas repetindo o que ouvi de vocês! — Ela e Homura se entreolharam confusos de novo, e Naruto, pacientemente interviu. — Vocês acham que eu não sei sobre a preocupação de vocês? "Quem poderá parar Naruto Uzumaki se ele se voltar contra a vila?". — Fitou-os entediados. Koharu engoliu um seco. — Esse papo não é novo, desde que eu era criança, para vocês, sempre fui ameaça, um objeto maldito, recipiente de um demônio, nunca uma criança, nunca um ser humano. Eu poderia ficar magoado com isso também, afinal, só fiz bem pela minha vila sem receber nada em troca, contudo eu entendo que não é pessoal comigo. Os Uchihas também sofreram um bocado na mãos de vocês... Acho que é típico de vocês serem cruéis em cima de argumentos patriótas. — Foi ácido e direto na ferida. Naquele momento, não era mais teatrinho, era ele e eles. — Já que se preocupam tanto em saber como me parar caso eu me rebele ou algo do tipo, eu lhes digo, embora acredite que não seja novidade: a única pessoa que pode me parar é uma das que vocês querem ver morta. Sim, Sasuke Uchiha. Os Uchihas assombram vocês né? Maldito Itachi, fez o trabalho incompleto! E ainda teve que poupar o mais revoltado e problemático que vira e mexe declara vingança aqui e ali. Imagine só o último Uchiha da face da terra vingando todas as gerações de Uchihas mortos pelas suas bocas? Olha, eu odeio esse tipo de coisa, mas confesso que como uma narrativa daria uma ótima história.

— Você está fantasiando, não pode estar sóbrio... — Homura disse impaciente. Largando a caneta na mesa.

— Vocês querem nos destruir porque têm medo do nosso poder e das coisas que só nós dois sabemos. Salvar o mundo deve ter sido uma afronta. Se não odiassem tanto o Clã Uchiha eu poderia até imaginar que estavam torcendo pelo Madara.

— Garoto insolente! — Exclamou Homura se levantando da cadeira. — Tire-o imediatamente daqui!

— Tsunade tem rabo preso com vocês; Kakashi e Shizune sabem mais do que deveriam; Hinata, coitada, só é herdeira do atual maior clã da vila e vocês, unido aos próprios Hyuuga, querem tirar o lugar que pertence a ela. Quem sucede mesmo? Ah, Hanabi Hyuuga, a irmã caçula prodígio que está de agente dupla. Não é muito discreta, advirto-os. Temos uma Itachi contemporânea encaminhada ao Clã Hyuuga.

Os anciões estavam pálidos. Como Naruto sabia de tudo aquilo? Nem Tsunade sabia, somente os dois.

— Para a paz política e civil da vila, sugiro que deixem o casal apaixonado tirar umas férias. Eles vão voltar sim, garanto. Sasuke ainda está com o chakra selado, ele vai voltar. Esperem e verão.

— O lado bom de você ser tão ousado e insolente é que o seu próprio falatório te condena. Todas as calúnias e afrontas estão registradas e você será cobrado por elas, Uzumaki. Se em uma semana o Uchiha e a Haruno não estiverem aqui, declararemos guerra aos três e a qualquer um que esteja envolvido minimamente neste complô. — Koharu vociferou.

— Não declararão guerra somente a nós, temos alianças com as outras aldeias também, Koharu-sama. Se não são gratos por nossos feitos, as outras aldeias são, e não iriam gostar de saber o que vocês estão fazendo conosco sem motivo, razão ou circunstância. — Naruto avisou com deboche.

— Essa conversa inútil está encerrada! — Perdendo as estribeiras, Koharu gritou. — Voltaremos a convocá-lo Uzumaki, porém com bem menos cordialidade.

— Cordialidade... — Repetiu seguindo em direção para a porta. — Nem ofereceu um cházinho e diz ser cordial. Tsc tsc tsc. Mal posso esperar pela próxima reuniãozinha.

Saiu sem olhar para trás e sem fechar a porta.