Strokes

6 New home


Ele teria seu pescoço esmagado caso não tivesse sentido a inspiração quente de Sakura bater atrás de seu ouvido antes, causando-lhe um arrepio estranho na espinha e o alertando da proximidade inconveniente de ambos. Assim como ela, seu corpo desintegrou-se no ar, deixando a mesma agarrada ao vento. Naruto tentava agarrá-la, desesperado, e teria conseguido caso ela não tivesse avistado Sasuke no corredor, de braços cruzados com um sorriso debochado. A ira se materializou na garota, que em uma fração de segundo, já o elevava no ar e o jogava contra o chão som toda a força que tinha, logo pendendo seu punho poderoso na barriga dele.

O sharingan dele estava desativado e Sakura estava mais rápida. Não tinha como desvencilhar-se do soco certeiro. Antes de decair sua mão fechada em seu estômago, ela pôde ver as feições serenas de transparentes dele se contradizerem numa preocupação real. Ele teria recebido o soco, e provavelmente morrido, se Naruto não o tivesse tirado da mira dela.

Quando sua mão chocou-se com o assoalho pobre do apartamento, o estrago foi triste. Uma cratera de um metro de diâmetro foi aberta no entre a sala e o corredor, paredes se racharam e encanamentos estrugiram. As lâmpadas demoraram um pouco mais para estourarem.

Cinco segundos antes a sala estava impecável. Recém reformada, alguns móveis novos, tudo arrumadinho... Tudo o que era vidro ou continha vidro havia quebrado, o sofá dava assento a grandes pedaços de concreto e o tapete já ficava ensopado por conta da água que vazava do cano. Uma cena trágica, traumatizante. A sorte de Sakura e Sasuke era que Naruto era um cara obcecado por ambos, não colocava nenhum bem material nem ninguém acima deles, do contrário, era até agonizante pensar o que o loiro faria com aqueles dois.

-Ops! –Sakura foi a primeira a quebrar o silencio.

-Nunca nessa vida, jamais, em hipótese nenhuma, pensei que seria tão difícil assim! De um dia para o outro a Sakura se torna mortífera e o Sasuke fala uma frase com mais de seis palavras, então decidem colocar minha casa abaixo! Meu Deus!!! Isso em apenas três dias! Em uma semana vocês conseguem que proeza? Ficarem paraplégicos?! Explodir toda a Aldeia da Folha?! –Sakura levantou vagarosamente a mão como um pedido respeitoso e silencioso para falar. –Que é?! –Esbravejou nervoso.

-Você pode ficar minha casa enquanto fazem a reforma...

-Acabei de reformar esse caralho de casa! Estou falido!

-Eu vou pagar porra! Para de gritar! –Sakura pedia desesperada, já com os olhos enchendo de lágrimas. –Foi sem querer, desculpa! –Começava chorar, por impulso, claro. Como dissera antes, além de tudo, ela era uma boa atriz. Naruto ficou condoído, respirou fundo e foi ao encontro da mulher que se desmanchava em prantos. A abraçou e apoiou o queixo no topo de sua cabeça. –é verdade tudo o que o Sasuke disse! Eu sou uma magrela inútil, eu...

-Ele só estava brincando! –Naruto a interrompeu, tentando acalmá-la, já que o choro era tanto que nem conseguir engolir a saliva ela conseguia.

-O Sasuke não brinca, ele não tem coração! –O repudiava.

-Sasuke, peça desculpas à ela. –Naruto pediu com as sobrancelhas arqueadas.

-Tá mesmo acreditando nesse teatro? –O loiro pegou a cabeça de Sakura e a virou para o moreno vê-la. Seu rosto não podia estar mais vermelho. Os cabelos claros grudados no rosto pelas lágrimas e um sorriso sádico derramado em seus lábios, um sorriso que infelizmente Naruto não podia ver pelo seu ângulo. “Filha da puta”, pensou consigo. –Desculpa!

-Sua vez Sakura! –Ela resmungou algo que poderia ser entendido como desculpas e Sasuke aceitou sem mais delongas. –E agora o que fazemos?

-Já disse que você pode ir para minha casa! –Repetiu impaciente.

-Eu, inclui no pacote aquela belezinha ali. –Apontou para Sasuke.

-Não quero ele na minha casa! Nem no quarteirão eu acolho! –Rejeitou com uma careta.

-É assim? Arrasa a minha sala e ainda me rejeita na sua casa? Se ele não for, eu também não vou. Podemos nos arranjar em algum motel, numa pensão de famílias pobres...

-Tá! Tá! Ele pode ir! –Disse impaciente.

-Hehe! Então está resolvido. Fecha o registro de água pra mim antes que alague tudo. Sasuke e eu vamos pegar nossas coisas.

Saíram dali em menos de quinze minutos com mochilas repretas de roupas, comida, documentos e acessórios ninjas, rumo à nova casa de Sakura do outro lado da vila. Naruto, no caminho, distribuía sermão para os dois amigos que seguiam caminho cabisbaixos, ambos sentindo-se envergonhados pela decorrência de uma discussão boba.

-...E nada de retrucar um o outro, entenderam?

-Tudo bem! Vou parar de encher o saco dele! Só cala a boca!

-E você Sasuke?

-Eu o quê?

-Vai facilitar a relação de vocês?

-Que relação?

-Relação de amizade!

-Não somos amigos Naruto. –Sakura informou destrancando a porta.

-E eu não falo com ela. –Acrescentou.

-Você não fala com ninguém!

-Sakura! –Naruto a repreendeu.

-Tá!

-O problema é você mesmo hein! Não vejo o Sasuke te provocando...

-Naruto, presta atenção: -Parou, bloqueando a passagem da porta enquanto falava com o loiro num tom sincero. –Nem inventa porque eu não quero ser amiga do Sasuke. Você atribuir a culpa de tudo em cima de mim é um tanto quanto injusto, já que você sabe que as coisas se instabilizaram com a volta dele.

-Eu nunca pedi para estar perto de você. –Sasuke falou, não aguentando mais ouvir falarem dele como se o mesmo não estivesse ali ouvindo.

-Por isso que você me incomoda. Você não quer estar entre a gente! Foi Naruto quem te arrastou para junto dele, e quando ele fez isso, ficou com menos tempo para mim. –Olhou de volta para o mesmo. –Você não tava no Ichiraku Lámen no domingo. Você não me ajudou a trazer as caixas. Você não me acompanha mais no caminho de volta do hospital quando saio muito tarde. Eu sinto mais raiva do Sasuke por isso. Quanto mais terei que perder por causa dele? –E voltou a atenção para o moreno. –Confesso que tenho sido infantil e irritante, mas é como se não importasse já que você só vira o rosto e finge que não foi com você.

-Viu o que aconteceu quando te dei atenção?

-Vi. E isso não vai se repetir porque agora que ficaremos todos juntos, precisamos colaborar, como disse o Naruto. Sem contar que agora estamos na minha casa. Não seria idiota o bastante para destruir minha sala por sua causa. –Naruto sorriu. –Porém, vamos ter que estabelecer umas regrinhas... –Disse entrando na casa com os garotos em seu encalço, observando o ambiente, do assoalho de madeira às molduras no teto.

Olhando um pouco à sua volta, o Uchiha teve de admitir que o apartamento era grande. Embora houvesse somente um quarto, uma sala, um banheiro e uma cozinha, era muito para se viver confortavelmente sendo solteiro. Existiam grandes janelas abertas para a varanda por toda a largura do apartamento.

Jogaram as mochilas no chão e tentaram se acomodar como podiam, já que o lugar estava repleto de caixas.

–Primeiro, levantem essas bundas horrendas do meu carpete e me ajudem a desempacotar e arrumar essas coisas.

-Quê?!

-Querido, você prometeu e o Sasuke está me devendo. Anda, de pé! Já demoraram demais! Pegue kunais na mochila que você trouxe e já vamos abrindo as coisas...

-Hey, onde você vai? Não vai ajudar a gente? –Naruto perguntou temeroso quando a viu se afastar dali.

-Claro que sim! Só vou vestir uma roupa mais fresca. –E desapareceu no corredor.

-Ela não podia usar caixas mais fáceis de abrir? –Sasuke resmungava impaciente.

-Pois é. Negócio ruim de abrir! –Naruto concordava, cravando com força a superfície de papelão. –Isso é picaretagem dela com a gente! Você sabe que quesito força ela nos supera!

-Ela não usa os músculos para infligir os danos e sim o chakra. –Corrigiu.

-Detalhes...

-Você não pode negar que ela possui uma constituição inferior a nossa.

-Depois de apanhar pra ela você ainda fala isso? –Naruto provocou.

-Ela nem tocou em mim.

-Tocou sim.

-Por meio segundo. Não conta.

-Nesse meio segundo você quase morreu com um choque de chakra na boca do estômago! –Ria.

-Ela não seria capaz. –Dizia convencido, concentrado nos itens dentro da caixa.

-Também acho. Apesar de tudo, ela gosta de você. Só está num período inconveniente. Coisa de mulher entende? –Sasuke teve que pensar um pouco antes de menear a cabeça em sinal positivo. Não entendia muito sobre mulheres e suas complicações. –Mas eu já acostumei, por isso estou sendo bem paciente com ele. Poderia ser pior!

Sasuke se perdia nas peças soltas de um móvel, aparentemente um guarda-roupa. O manual de instruções parecia ter sido escrito em grego com palavras de alto vocabulário, coisas que ele não sabia o significado. Sua visão turva também não ajudava o ajudava. Naruto não poderia saber mais do que ele, a única pessoa dali que provavelmente não teria dificuldades em interpretar a palavra ‘perscrutar’ seria Sakura, mas mesmo com o acordo de paz, ele não sentia-se ignorante o bastante para pedir ajuda à garota traduzir em vocabulário comum uma palavra tão invocada.

-Sasuke.

-Humm. –Amassou o papel e jogou numa pilha de isopor que seria jogado fora.

-Posso te fazer uma pergunta? –Estava incerto se poderia perguntar algo tão íntimo à ele, mas a curiosidade em saber era maior do que qualquer princípio de pudor. Mas, que é que ele tinha de se importar? Eles não eram melhores amigos? Mesmo assim, o jeito reservado e inatingível de Sasuke o fazia temer qualquer coisa que pudesse violar sua conduta. Mesmo assim, ele ignorou todos os prós e contras e decidiu perguntar. O máximo que poderia acontecer seria Sasuke arrebentar a casa novinha de Sakura e então os três ficariam sem teto.

-Começou termina. –Disse analisando uma tábua que julgou ser uma das portas do armário.

-Você já... –Nesse momento Sakura apareceu amarrando os cabelos em um rabo-de-cavalo e vestida com uma blusa regata fina com um short jeans desbotado. Sasuke só conseguiu observar que aquelas eram as roupas mais femininas que viu Sakura usar.

-Só abriram quatro caixas? Que vergonha! –Dizia com as mãos na cintura.

-Você acha que é fácil abrir isso aqui?! Fizemos um esforço desgraçado! Minhas mãos ainda estão doloridas! –Naruto dizia bravo. Sakura suspirou pegando a kunai e abrindo uma caixa atrás da outra como se fossem papéis de seda. Em menos de um minuto abriu todas, voltando-se para Naruto com uma expressão zombeteira.

-O que dizia? –Ele não parecia impressionado, pelo contrário, tinha a feição entediada. Revirou os olhos e mudou de assunto.

-Que negócio é esse? –Perguntou com pequenas tábuas de mogno na mão.

-Isso? –Pegou uma das peças observando. –Tenho quase certeza de que é o armário do barzinho que vou montar. –Sasuke ergueu minimamente a sobrancelha. De todas as coisas que esperava que Sakura fosse, a última seria alcoólatra, já que desde moça ela sempre mostrou uma conduta politicamente correta.

-Humm. –Pegou a peça de volta. –Não sei montar isso. –Jogou para trás, sem querer acertando em Sasuke.

-FILHO DA PUTA! –Gritou o moreno pressionando a cabeça.

-Vish. Foi mal! Hehe!

-VÁ SE FUDER! –Quando tirou a mão da cabeça, percebeu que estava sangrando.

-Ah não... –Sakura largou os quadros e correu até onde Sasuke estava. Ele tentou como pôde disfarçar, mas não tinha jeito, ela parecia farejar machucado. –Olha pra mim? –Pegou o queixo do moreno que a repeliu no mesmo instante. –Está tonto?

-Estou com dor! –Respondeu impaciente.

-Deixe-me ver.

-Não. –Sakura suspirou e Naruto se aproximou, certificando-se que havia realmente machucado o amigo.

-E o nosso acordo de colaborar um com o outro? –Disse pacientemente.

-Eu estou bem.

-Claro, qualquer um com um corte de cinco centímetros na testa está bem! –Ironizou.

-Ai caralho! Desculpa Sasuke, foi sem querer... –O olhar de Sasuke era quase materializado de tão macabro. Naruto não ousou imaginar as coisas que se passavam pela cabeça dele.

-Não vai me deixar ver? –Sasuke virou o rosto. –Ok. –Bateu as mãos no joelho pegando impulso para se levantar. –Se eu achar uma manchinha sequer de sangue no meu carpete, eu arranco seu...

-Pega ele a força!!! –Naruto gritou desesperado ao ver um filete espesso de sangue escorrer da ferida.

-Ordens do Naruto! –Encolheu os ombros e agachou-se de novo, só que dessa ver derrubando o Uchiha no chão e montando em cima dele.

-Ei! –Exclamou com os olhos arregalados. –O que está fazendo? –Não respondeu. Pegou as mãos ósseas do garoto e prendeu com a força das suas próprias.

-Naruto, pega a maleta de primeiros-socorros naquela caixa ali? –Levantou o queixo para indicar o local. Ele voltou estupefato, embaraçado com a posição constrangedora que Sakura e Sasuke estavam. –Agora segure as mãos dele para que eu...

-Sai de cima de mim! –Resmungava se contorcendo.

-Por que está tão inquieto? Só quero te ajudar...

-Olha como você está!!!

-Ora, se não vai ser por bem, vai ser por mal. –Torceu os lábios. –Aqui é um por todos e todos por todos. Se a branca de neve ficar com uma rachadura aberta na testa pode pegar uma infecção e isso atrasaria sua missão. Sem contar que eu não gosto de tratar infecções. É nojento e cansativo. Então... vai ter que ser assim. –Falava enquanto limpava o machucado e aplicava anti-inflamatórios.

-Não é mais fácil você curar com o seu chakra? –Naruto perguntou temeroso com a resposta que receberia. Sakura não gostava de ser corrigida.

-Já estou usando chakra para manter ele nessa posição. Ficarei muito cansada se usar uma técnica medicinal alternativa. –Sasuke enrugava a testa a cada toque de Sakura em seu machucado. De fato o medicamento ardia e o método mais prático para tratar da ferida seria a intercessão de chakra. Sakura poderia muito bem prender o Uchiha entre suas pernas e curá-lo ao mesmo tempo, porém achava mais divertido deixá-lo constrangido e sentindo ardores. Uma pequena punição por ter agido tão zombeteiro para com ela. –Acho que vai precisar de alguns pontos...

-Que? –Exclamou o moreno. –É só um corte!

-Um corte profundo.

-Não quero pontos na minha testa!

-Sasuke, se precisar de pontos, vai ter que dar e você não tem escolha. –Naruto aconselhou.

-Um band-aid resolve isso! Você tá é inventando coisa!

-Por que eu iria inventar problema em você sendo que a partir de agora sou sua médica particular? –Naruto meneou a cabeça concordando com a rosada. –Se você prometer ficar quietinho, eu consigo cicatrizar isso aí num instante. –Disse se inclinando em cima dele. –Mas você tem que prometer... –Sussurrou próximo aos seus lábios.

-Que seja!!! Sai de cima de mim! –Grunhiu virando o rosto para os lados tentando evitar uma aproximação mais ousada e provocante do que aquela.

-Isso, sai de cima dele! –Naruto puxou Sakura com uma expressão desconfiada. –Não confio em deixá-los tão próximos.

-Ciúmes? –Sasuke provocou sentando-se.

-Que ciúmes garoto! Se enxerga!

-Já está delirando! –Sakura dizia com um sorriso maroto. –Ainda diz ‘é só um corte’!

-Remenda isso de uma vez antes que eu me convença! –Esbravejou.

Ela agachou-se ao lado dele e encostou a palma envolvida em um chakra esverdeado em sua testa. Aos poucos a ardência tornou-se um incomodo sutil e o corte aberto foi se fechando, por fim tornando-se apenas um arranhão.

-Esta é a parte em que você me agradece. –Sorriu cinicamente.

-Esta é a parte em que eu bato nesse idiota! –Levantou-se num salto indo atrás de Naruto por toda a casa. Ela balançou a cabeça para os lados, desistente, e voltou para a organização da casa.

-ME AJUDE! -Implorou o loiro, segurando os ombros da amiga, que havia ficado confusa demais para reagir. –Ele quer me bater! –De repente Sasuke estava na sua frente, tentando pegar Naruto atrás dela, que a segurava firmemente.

-Parem com isso...

-Se eu ficar com uma cicatriz por sua causa, juro que deformo a sua cara! –Tentava dar cascudos no loiro por cima dos ombros de Sakura que já se contagiava com as gargalhadas incessantes de Naruto. Depois de rodarem mais um pouco e Naruto levar mais uns cascudos, sua risada começou contagiar até o moreno agressor. O olhar negro e penetrante foi tornando-se menos ameaçador. Menos provocante, pensou Sakura, que diante desses pensamentos, sacudiu a cabeça e retirou as mãos de Naruto dos seus ombros, saindo o mais rápido possível de perto deles.

-Acho bom vocês montarem logo isso e pararem de brincadeiras! –Avisou da cozinha que estava montada quando ela comprou a casa. Assim como o banheiro também já vinha completo, com uma banheira enorme que ela fazia questão de lembrar Naruto o tempo todo.

-Sakura ele está me enforcando! –Gritou o loiro com uma voz esganiçada.

-Problema de vocês! –Respondeu arrumando as xícaras nos armários. –Se não se apressarem, a noite vai e Sasuke perderá seu encontro, e você terá que buscar nosso jantar.

-Hey! Você sabe cozinhar!

-E eu não tenho um encontro.

-Que seja. Se apressem!

-Olha, não é querendo falar não, mas a casa só tem dois quartos... –Naruto começou, encostando no batente da porta da cozinha deixando Sasuke encarregado de montar o guarda-roupa.

-Na verdade é apenas um. –Sakura o corrigiu enquanto colocava os utensílios em seus devidos lugares. –O primeiro do corredor vou usar como biblioteca e o da varanda vai ser o meu mesmo.

-Acho que você se esqueceu de um detalhe. –Limpou a garganta.

-Ah, é mesmo! –Bateu a mão na testa. –As cortinas! –Desceu da cadeira. –Está naquela caixa ali! –Apontou. –Vá lá colocar para mim, vai! –Naruto pegou os panos indignado. Acompanhou com os olhos a rosada subir de volta na cadeira e se envolver na arrumação das xícaras e pires, louças e porcelanas, vidros e acrílicos. Ela havia comprado um monte de coisas que talvez nunca usaria já que era solteira e não gostava de visitas. Puro capricho feminista.

-Eu quis dizer que você se esqueceu de nós Sakura! –Reformulou. –Até não arrumarem minha casa, vamos ficar aqui, lembra?

-Sim. –Acenou.

-Onde vamos ficar?

-Por aí. Vocês se ajeitam. –Na sala pode-se ouvir uma chave de fenda caindo. Logo depois Sasuke apareceu na porta da cozinha ombro a ombro com o loiro.

-Já fiquei anos me ajeitando para dormir. Não é agora que estou ‘livre’ que continuarei me ajeitando.

-Fica de favor na casa dos outros e ainda quer escolher onde dormir? –Questionou sem olhá-lo.

-Não é querendo defender o Sasuke não, mas foi ideia sua nos trazer para cá. Tinha que ter pelo menos uma cama disponível para poder nos oferecer abrigo!

-Quando sugeri que você vinhesse para cá, pensei em deixá-lo dormir comigo já que minha cama é enorme. Mas enorme mesmo, tipo muito grande!

-Entendi! –Naruto interrompeu os gestos de imensidão que ela fazia. –Já que a cama é assim tão grande, poderia caber muito bem nós três...

-Nem pense nisso! –Pulou da cadeira. –Você eu até tolero dividir o mesmo cobertor, agora ele... Ele não.

-Sakura...

-Eu sei muito bem do acordo de um colaborar com o outro e blá blá blá. Mas isso é uma questão de intimidade Naruto...

-Eu não vou encostar em você, relaxa.

-Então você aceita dormir na mesma cama que eu?

-Por uma noite... –Deu os ombros.

-É Sakura. Amanhã a gente dá um jeito. Se a cama for mesmo assim tão grande, vai caber nós três de boa. –Sorriu.

Cinco minutos depois de muita discussão, foram ver a cama e tiveram que concordar com Sakura: era enorme.

-Daí eu me pergunto: para que uma cama tão grande quando se é solteira? –Se jogou em cima no cochão que pareceu mal se mover com o peso do loiro. –Hey, isso aqui é muito bom! –Se impressionou, batendo a palma sobre a superfície acolchoada. –Deve ter custado uma fortuna! –Olhou pasmo para Sakura. –De onde arranjou tanto dinheiro? –Perguntou sério.

-Você sabe como. –Deu um sorriso amarelo. Depois de pensar um pouco, ele conseguiu se lembrar de onde conseguiu dinheiro para comprar a casa, a mobília e as louças. Logo se arrependeu de ter perguntado. Já devia imaginar. –Também comprei tudo com um dinheiro que eu já vinha juntando desde meus quinze anos... –Andou até Naruto. –Se você não gastasse suas rendas com bebidas e mulheres, talvez compre uma casa melhor do que essa. Talvez até uma cama assim. –Segurou o rosto dele entre suas mãos.

Naruto estremeceu com o toque quente e afável. Essa era a Sakura. Falando num tom baixo, carinhosa e paciente. Talvez a volta de Sasuke mexeu mesmo com o psicológico dela, afinal, ele a conhecia suficientemente para saber que naquele momento, naquele exato momento, tudo o que ela queria era chorar. Por culpa dele que de forma indireta a havia lembrado de suas dores mal curadas. O Uchiha estava encostado na parede os observando com o rosto sereno. Sentia uma pitada de curiosidade sobre o que tinha deixado Sakura tão frágil, até sobre como ela conseguiu sozinha tomar posse de mobílias boas, uma casa agradável e uma cama ocidental.

-Quer um chá? –Naruto perguntou em sua rouquidão afastando um pouco a garota de seu rosto para olhá-la melhor. Ela não chorava, mas tinha o cenho franzido como se lutasse contra algo dentro de si. Meneou a cabeça para os lados minimamente se afastando do amigo, indo até o moreno ali quieto como uma estátua. Pegou a ponta dos dedos dele o conduziu para sentar-se com ela e Naruto na cama.

Estavam os três, um ao lado do outro de mãos dadas na beirada da cama. Muito cansados, fisicamente e emocionalmente. Cada um com seus fantasmas do passado, suas feridas cicatrizando vagarosamente, dolorosamente, sentimentos que ninguém mais poderia entender, talvez nem eles mesmos.

Sakura, por exemplo, sabia que não era sensato apegar-se novamente a Sasuke, não só por motivos de orgulho, afinal, ele havia a destruído de diversas formas, em diversos pontos. Mas por mais que tentasse sentir ódio e rancor dele, só conseguia sentir pena. Só conseguia se perguntar se alguma vez ele havia sentido essa coisa de amar e ser amado. Naruto certa vez havia comentado superficialmente sobre os pais de Sasuke e a infância que ele teve. A ideia que tinha formado sobre o garoto era mais digna de pena do que de ódio, mesmo que ele merecesse ser rejeitado.

Em sua mão direita tinha o calor das mãos de Naruto entre seus dedos, uma firmeza viciante que lhe dava a segurança que ela tanto prezava em um homem. Em sua mão esquerda, dedos finos, cumpridos e gelados, pareciam desconfortáveis sem saber como se agarrar aos dedos dela, tão pequenos em comparação aos dele. Quando ela deixou-se cair com as castas no colchão, levou consigo os dois outros garotos exaustos. Queria fechar os olhos para pensar com mais clareza. Queria voltar a estaca zero, a meta de ignorar e repudiar o máximo que pudesse o Uchiha, mas ela não era assim. Ela não estaria sendo verdadeira.

Quando sua cabeça tombou para o lado dele, viu aquela face serena mirar o teto com tamanha concentração que chegou se espairecer. Era ele o menino que olhava intensamente o infinito. O melhor aluno da classe, o garotinho da fotografia que ela guardou embaixo do travesseiro até poucos anos atrás. O viu fechar os olhos calmamente e melhorar o encaixe de suas mãos, com isso, Sakura percebeu que odiar uma pessoa não é questão de opção e sim de sentimento mesmo. Ela tinha motivos para odiá-lo, mas seu sentimento de admiração para com ele encobertava qualquer rancor que pudesse ter.

Percebeu que ela nunca poderia odiar alguém que já amou tanto.