Street Fighter: Victory Road
5 Capítulo 3.5 - O estranho caso de John Elliot, parte 1
John Elliot entrava na sala. Havia sido convidado por nada mais, nada menos do que Harold Wilkerson, um dos chefes do departamento de defesa dos Estados Unidos da América. Elliot, um militar de patente baixa, estranhou o chamado – teria a ver com o demônio que vira na Ásia? Essa e tantas outras perguntas invadiam-lhe a mente, o fazendo ficar confuso a ponto de quase delirar. Por isso não comentara do assunto com ninguém, somente com um velho amigo de infância, Carlos Dias, também militar, que havia o feito companhia na longa viagem até o Pentágono.
— Senhor Elliot, por favor, acomode-se da melhor forma possível.
O ex-guerrilheiro se movia com dificuldade usando aquela enorme cadeira de rodas – havia perdido suas pernas no encontro com o Monstro --, mas tinha fibra o suficiente para conseguir fazê-lo com certa velocidade. O ar com que a autoridade se referia a ele era eivado de polidez e dotado de uma amabilidade sem igual, o que apenas contribuía para deixar Elliot ainda mais tenso.
— Chamei-te de tão distante para tratar de assunto imperioso, senhor Elliot. Desculpe-me pelo infortúnio.
— Sim... Eu entendo. – Dizia o jovem, encolhendo-se em sua cadeira de rodas. Algo naquela situação não estava certo.
— O senhor tem uma informação vital para o Governo dos Estados Unidos.
— Está falando... Daquele monstro? – Apesar de parecer conformado com o que vira, era fato que apenas a lembrança do acontecido era suficiente para com que o seu semblante revirasse no mais puro horror.
— Sim. Exatamente. O senhor não tem família, pelo que eu saiba.
— O quê? – Aquele homem tinha toda a sua vida escrita em folhas de papel, afinal era superior dos seus superiores. Aquela afirmação não fazia sentido algum. Era uma ameaça, não podia duvidar disso.
— Chamei-te de tão distante para você entender melhor sobre as forças com as quais está lidando. Se alguém de mais perto, dono de um cargo menos egrério, tivesse te chamado a atenção, talvez não fosse possível te fazer entender a gravidade da situação. Mas ora, veja, estais aqui, no coração do mundo – afinal, aqui bombeamos sangue para todo o corpo, podemos fazer qualquer órgão parar de funcionar com apenas o aperto de um botão. Então, tendo a total certeza de que você é um homem são, porque se não fosse havia de ter enlouquecido, eu digo, representando ordens que estão muito acima de mim, homem que está muito acima de você: Cale a boca. Não diga nada a ninguém sobre o que você viu na Ásia, nenhuma pessoa sequer. Nem em uma conta de internet, em um site de teorias de conspirações malucas, nem mesmo usando um nome falso e indo a um programa de tabloides. Você vai ficar calado – sigilo total.
— Mas o que? Mas por quê? – A sua mente era tomada pelas dúvidas mais perversas. Apesar do abismo entre a hierarquia que separava os dois, aquilo que ele tinha de humano fazia-se chocar com aquela ordem estranha, que parecia desafiar não apenas as suas liberdades individuais, mas também as prerrogativas que as posições na escala social não têm, e não deveriam ter, direito algum sobre.
— Irei abrir o jogo com você, para fazer-lhe entender. Irei explicar a situação, detalhadamente. Existe um grupo de pessoas seletas, escondidas por aí, ao redor do mundo, capazes de feitos inimagináveis. As histórias mitológicas, sobre monstros e heróis, foram todas reais -- com os ornamentos, claro, que o exagero do boca-a-boca da época foi capaz de proporcionar. Existem por aí homens e mulheres que são descendentes, não em sangue, mas espírito, de Aquiles, Hércules, Heitor e tantos outros. Pessoas que se um dia acordassem de mau-humor seriam capazes de derrubar o governo de um pequeno país, sozinhas. E é por isso que essas pessoas são consideradas indivíduos neutros na escala internacional, não estando sujeitas a muitas exigências que as pessoas normais são, simplesmente para manterem boa relação com o resto da sociedade -- o resto normal.
— Espere... Está querendo dizer que eu não vi um demônio, mas um homem?
— Sim. Um homem, de carne e osso, homíssimo. Muitas dessas pessoas desenvolveram as suas habilidades mediante anos de treinamento árduo, vivendo à margem da sociedade, já outras simplesmente nasceram assim, por motivos que a genética ainda não é capaz de explicar. Muitas dessas pessoas são aliadas do governo, outras trabalham diretamente para ele, mas outros são párias. Os chamamos de Street Fighters. A existência dos Street Fighters é mantida em segredo absoluto. Por isso te peço, não conte para ninguém.
— Espere. Está me dizendo que os heróis mitológicos foram reais? Esse tipo de afirmação não é simples de digerir. Com ela vêm séries de outras conjecturas...
— Quais?
— Conjecturas sobre o homem e a sua real natureza. Se é possível alcançar tal estágio de divindade, é porque esse estágio não é divino, mas humano. Deus criou o homem a sua imagem e semelhança, então faz sentido que não apenas a inteligência nos separe dos animais. Há uma centelha, algo muito além disso – eu já senti, tenho certeza, na verdade todas as pessoas já sentiram, quando fizeram uma boa ação ou superaram os próprios limites. Há algo além e o fato de vocês esconderem a existência dessas pessoas esconde essa centelha. Vocês estão ocultando a natureza do homem como ser sagrado, consequentemente imputando na cabeça das pessoas que elas não são lá tão diferentes dos macacos. Estão afastando o ser humano de Deus!
— Não. Estamos protegendo eles, suas famílias, protegendo o homem de um passado terrível de guerras, morte e destruição! – Dizia o homem com um cinismo sem igual. Enquanto o seu tom de voz era ameno, protetor, parecia legitimamente se importar, os seus olhos pareciam carregar o peso de um ódio mortal. Elliot havia descoberto tudo. E conseguia ver também através daquele olhar, o que inflamava ainda mais seu espírito.
— Protegendo uma ova, seu filho da puta! – Irritou-se e bateu na mesa. Continuou.
— Protegendo como? Estrangulando a alma humana e a afastando do que a faz alma? Vocês estão tornando o homem letárgico! Entorpecido! Ele não mais sabe porque viver, nem morrer, vive por objetivos inócuos – subir numa escala social que vocês mesmos criaram, artificial. Dessa forma vocês iludem o homem, o fazendo acreditar que está vivendo, evoluindo, progredindo na vida, quando na verdade está vivendo em uma espiral de mentiras e letargia, abandonando a glória do viver em prol de um mundo falso que o destrói -- da televisão aos domingos, ídolos falsos e fofocas de celebridade. Merda, não quero saber pra quantos caras Milley Sirus deu, essa vagabunda sequer é importante, mas é com esse tipo de coisa que vocês querem que eu me preocupe,querem que a minha vida gire em torno de. Maldito, quando me alistei eu queria mudar, queria mudar essas coisas e viver pelo meu país. Mas pelo visto a podridão vem de dentro. Muito mais de dentro do que eu pensava. Fique sabendo, verme, que a existência desses Street Fighters virá à público – se ela ameaça vocês, boa coisa ela é. Talvez minhas pernas não me permitam me tornar um, mas prometo que vou socar uma dinamite no rabo de vocês e teremos uma overdose de Street Fighters nas ruas.
Harold se alterava e começava a gritar.
— Isso, vá! Poste isso em seu sitezinho de teorias de conspiração de meia tigela, seu inútil! Você não tem provas de nada – ninguém pode ver por seus olhos! Vá embora e morra! Ninguém vai acreditar em você mesmo!
— O cadeirante queria ter lhe socado a face, mas cuspiu nela porque não podia. Deixou a sala em fúria, rápido, usando toda a sua amargura para dirigir aquela cadeira de rodas com toda a força que podia. Queimando de ódio, Harold limpava a saliva da face, pegava o seu celular no bolso e efetuava uma ligação.
— Ele não vai se calar, Mestre.
Do outro lado da linha, atendia um homem alto, com a pele tão morena que parecia feito de bronze. Tinha cabelos cor de prata e ostentava uma pérola presa a glândula pineal. Um ar extremamente sobrenatural parecia emanar de sua presença, que proferia com uma voz assustadora, que ecoava.
— Eu irei me livrar dele.
— Mas senhor, deixe-me fazer isso! Alguém como você não deveria... Não deveria se preocupar...
— Sim. Deveria. Seus atiradores causam muito barulho e sujeira, deixam testemunhas. Eu irei me encarregar disso. Me dê sangue. Pela sua falha, sangue.
Harold desligava o telefone. Pasmado, tão branco quanto um fantasma, um dos Chefes da Defesa dos Estados Unidos, trêmulo, balbuciava para a sua própria consciência.
— Sangue... Nossa ordem... Prevalecerá.
Pegava uma faca e cortava os pulsos.
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