Street Fighter: Victory Road

6 Capítulo 4 - Pobreza... Eu não vou voltar pra lá.


♫ ♪ ♪

— Oss! – Dizia Ryu, cumprimentando o adversário com um grito e uma saudação do karate. Dudley ficou com tanta raiva que sua boca entronchou. Mas não era uma provocação, Ryu não era esse tipo de homem – havendo sido desmascarado, a sua única intenção era saudar o oponente, saudar a peleja que estava por vir, saudar a nobreza das artes marciais e do espírito guerreiro. Afinal, era o que estava em jogo ali.

Dudley assumiu a posição clássica do boxe. Ryu tinha uma base muito mais larga, afinal, assumia a posição de karateka. Os dois se olhavam de forma tão intensa que o ar entre os dois parecia seco, sufocante – nenhum homem teve coragem de anunciar o início da luta; ela havia começado assim que ambos trocaram olhares pela primeira vez.

Nenhuma palavra. O karateka avançava em direção ao boxeador em riste, rápido como um foguete, deslizando as pernas graciosamente pelo chão. Lhe acertava um poderoso soco no estômago.

— Patético. Dizia o oponente com palavras roucas e que quase não saiam, engolindo o ar com dificuldade devido ao golpe que lhe açoitou. O japonês recolhia o punho em riste enquanto levava o soco preso à cintura ao rosto do inimigo -- postura combativa adotada pelos karatekas. Prevendo o movimento, o gigante levava as mãos até o punho do pequeno, desviando-lhe o golpe. Ryu repetia os socos infinitamente, com a maior velocidade que conseguia, mas eram todos facilmente sobrepujados às tapas pelo boxeador, com tanta força que as bandagens que lhe envolviam as mãos quase chegavam a cortar. Enquanto ele defendia, avançava para trás, quase como que pulando, enquanto Ryu tentava o alcançar, como um trem desgovernado – caindo na armadilha do oponente. Quando ambos alcançaram a máxima velocidade, aproveitando-se do embuste, Dudley defendeu o punho de Ryu, avançando para frente, contra-atacando com um potente direto. O punho dele foi rápido, tão rápido que Ryu mal conseguiu o acompanhar com os olhos -- porém os incontáveis anos que passou treinando karate fizeram com que ele conseguisse levar o cotovelo até o rosto, protegendo-se do soco. Todavia, esse tempo todo treinando em um dojo sob regras rígidas fizeram com que ele estivesse longe das malandragens das ruas, que enganaram a sua percepção direitinho: O direto era uma finta. Finta que recolheu o punho com tanta rapidez e graça que pareciam até fazê-lo real. Dudley deslizou em direção ao ponto cego do rosto de Ryu, que não conseguia enxergar por causa do braço levantado, e ali sim desferiu um direto, que o acertou em cheio.

— O soco do karate é diferente do soco do boxe.

O punho atravessava a face de Ryu com a força de uma locomotiva. Fazia o seu cérebro chacoalhar. Perdia a consciência por alguns segundos e alguns vasos eram rompidos – cuspia sangue.

— No karate vocês usam o movimento do quadril, com o punho preso à cintura, para desferir, com a rotação do corpo e do braço, um golpe seco, único, preciso, que fere porque cria um pequeno vácuo de ar capaz de afetar órgãos internos. Os gis do karate costumam estalar, como chicotes.

Desferia agora um poderoso hook – um soco lançado contra as costelas, com a intenção de estraçalha-las. Todavia, acertava em um lugar ilegal nas lutas do boxe, tendo em vista o local privilegiado com que estava livre para posicionar o seu corpo: O baço. Ryu perdeu o ar. Caiu de joelhos no chão, tamanha a dor.

— No boxe é diferente. Nós usamos o movimento do quadril, do pé e do ombro, alongando o tríceps de forma a desferir um soco reto, perfeito, usando o poder de nossos músculos. Então, esmagamos tudo – órgãos externos e internos, amassamos a cara do oponente.

Desferia agora um cruzado, o soco mais potente do boxe. Jogava o braço com os ombros em direção à face do oponente, com a mão virada para o chão, o acertando na lateral do rosto. O poder do punho foi tremendo que Ryu caiu. Mas Dudley não o deixou chegar ao chão.

— Você desonra o boxe com a sua técnica podre. Soca como um karateka. Isso é uma luta de boxe, o esporte mais glorioso que existe, um combate entre dois cavalheiros! Leve as suas artes marciais sujas daqui! Isso é um ringue para CAVALHEIROS!

— Antes que Ryu caísse, Dudley acertava um uppercut em seu queixo: Um soco que vem do chão que tem a intenção de acertar o queixo do adversário. É um golpe que finaliza lutas, tendo em vista o seu potencial avassalador. E finalizava essa, suspendendo Ryu no ar poucos segundos antes de cair com as costas no chão, em uma poça de sangue que lhe deixava a boca.

Japonês patético. Volte pra sua terra. Volte pra sua sujeira. Esse aqui é um lugar para verdadeiros gentleman. Fique fora do meu território.

Virava-se de costas e caminhava para o local de onde veio, longe da arena. As pessoas não davam um pio, todas olhavam para o lutador completamente assustadas, embora fossem tomadas por um êxtase imenso ao vê-lo lutar. O gigante encarava o Leão nos olhos, com muita raiva. Como um ex-campeão como ele havia levado um karateka até ali? Deixar os ringues também destruiu a sua honra? Agora achava-se no direito de profanar o que significava o boxe? Não dizia nada, continuou indo em direção à escuridão, até que teve os seus passos interrompidos por um grito de Lyon.

—Pra onde vai? A luta não acabou!

Ryu se levantava com muita dificuldade, com as pernas trêmulas. Logo, se recompôs. Cuspiu um dente no chão. Mesmo jorrando sangue a sua boca foi desenhada por um inocente sorriso.

— Nossa. Essa foi boa. Você tem a mão pesada. Confesso que nunca vi um soco tão rápido quanto o seu.

Dudley o olhava como se estivesse vendo um fantasma. Como alguém conseguia se manter de pé mesmo depois de uma sequência de golpes como aquela? Aquele nanico era feito de ferro? Conseguia, mesmo que muito pouco, enxergar valor na fibra daquele rapaz, embora esse pouco fosse completamente diluído pelo imenso desprezo que ele sentia. Novamente voltava ao centro da arena e assumia posição de luta. O círculo se fechava de novo. A multidão permanecia calada, extremamente tensa.

— Vai morrer,moleque. Devia ter ficado no chão.

— Você se acha muito grande, né? Fique sabendo que eu já comi muito peixe grande também. Hora do round 2!

O coração de Lyon batia muito rápido, estava em pânico, como que prestes a ver o filho ser espancado por um marginal. Queria tirar Ryu dali, rápido, havia se afeiçoado com o rapaz. Mas algo segurava as suas pernas, tapava a sua boca e fazia com que os seus sentidos se voltassem unicamente para assistir aquele combate – era como se a confiança que tinha no rapaz fosse maior do que o medo que sentia de Dudley, o Insano.

—... Lutem.

Dizia Lyon, bem baixinho, balbuciando trêmulo. Ninguém o ouvia falar, mas ele anunciava a luta. Começava o round 2.

Ryu usou a mesma estratégia que havia usado – começou com uma sequência de socos velozes, avançando, e o seu oponente defendia todos. Quão rápido ele era, se indagava, em suas andanças pelo mundo jamais viu alguém ser tão habilidoso com as mãos quanto aquele sujeito. A admiração logo era convertida em um súbito, quando deslizando em sua direção o boxeador tentou contra-atacar com um soco em suas costelas. Os corpos dos dois estavam a um jab de distância, fato que fizera o hook sair um pouco alongado demais, embora ainda efetivo, o que foi aproveitado pelo karateka. Aproximou-se do boxeador, flexionando as pernas em direção a ele para com que a sua base ficasse ainda mais baixa, assim evitando ser golpeado diretamente na cabeça, esquivando do alcance do punho. Encostou no abdomem do gigante e levantou-se desferindo um poderoso golpe surpresa:

Yama-Zuki!

Dois socos paralelos oriundos do karatê shotokan, com imenso potencial destrutivo. Dudley defendeu o soco lançado em direção à face fechando os braços na face, contudo isso deixou o seu abdomem desprotegido, sendo acertado pelo soco de baixo.

Ryu deslizou em direção à esquerda de Dudley, golpeando a sua face com a mão direita. O boxeador levantou o cotovelo, amortecendo o ataque com ele. Todavia, estava um ângulo difícil para contra-atacar.

— SHhhhhhh!

Com o braço protegendo a face, havia deixado o baço desprotegido. Ryu se vingava acertando-o lá, com o soco direto mais forte que conseguia dar. Dudley sentiu e fraquejaou a postura, puxando ar. Se virou o mais rápido o possível, efetuando um cruzado em direção ao japonês com todo o impacto que a posição permitia. Antevendo, o japonês pendulou para baixo, desviando do soco e levantava-se com um poderoso soco no queixo, com um levante, acertando-o em cheio, fazendo o inglês cair apoiado nos próprios joelhos.

— Oshhhhhhhhh!

Desferiu um salto em direção ao oponente, acompanhado de um murro poderosíssimo. O acertou em cheio, no nariz, fazendo-o cair pra trás.

— Toma essa, seu maluco! Tá vendo? Você é grande mas não é dois, eu sou pequeno mas não sou metade!

O boxeador se levantava aos poucos, com muita fúria. O seu nariz espirrava muito sangue. Ele levou a língua até o lábio superior e o saboreou. O gosto de sangue atenuava a sua raiva.

O inimigo era persistente, assumia novamente a posição de combate. E era ele que começava a atacar, partindo em direção ao adversário com uma série de jabs, encurtando a distância. Eram rápidos demais para defender, por isso Ryu apenas desviava deles, indo pra trás. Dudley era muito maior, por isso conseguia se aproximar rápido e chegou perto de Ryu o suficiente para castiga-lo com uma sequência de socos vorazes: Diretos, jabs, cruzados, hooks, uppercuts, tentava de tudo. O jovem desviou com sucesso da maioria deles, mas muitos lhe acertavam a carne, que fraquejava. Também tentou golpear o inimigo, mas sem sucesso: Em combate naquela distância ele era muito melhor. Ryu estava perdendo, completamente encurralado, até que o reflexo, advindo de uma vida inteira de treinamentos, quebrou as regras e o salvou.

Um chute.

Levantou os joelhos, usando o quadril como uma alavanca, desferindo um poderoso chute frontal. Ele não esperava por aquilo. O acertou bem no estômago. Lançou-o para longe – longe o suficiente para poder respirar, descansar os diversos hematomas que agora colecionava na face.

— Desculpe... Foi reflexo... Pode vir. Não vai se repetir. – Se desculpava, sinceramente. Podia-se ver em seus olhos e no tom de voz, estava arrependido.

— Desculpar? Pelo que? Você não é um boxeador, é um karateka. Quero te derrotar no seu melhor.

— Espera... Quê?

— Se eu te derrotar apenas usando os punhos, não derrotarei um boxeador, mas um karateka incompleto. Portanto, venha com tudo.

— Espera aí... Está dizendo que vai deixar que eu lute não só com os punhos, mas com os pés, as canelas, os cotovelos, os joelhos, agarrões e até mesmo a cabeça? É isso?

— Sim, é isso. Vocês artistas marciais fazem pouco do boxe. Se acham os maiorais porque as suas artes marciais são completas. Dizem que o boxe é apenas um esporte, enquanto o que vocês praticam é arte legítima da guerra. Bobagem, vocês não conseguem entender, pois são arrogantes demais. O boxe é sim um esporte, uma gloriosa peleja entre dois cavaleiros, que lutam com honra. E por isso ele é belo. Quanto ao outro aspecto... Socos machucam, sejam eles do boxe, do karate ou do kung-fu. Socos são socos, em qualquer lugar. E os socos do boxe são os mais rápidos de todos – mesmo o muay thai bebeu de nossa fonte. Nós pugilistas, diferentemente de vocês artistas marciais, que treinam defendendo os golpes, treinamos a absorção, e por isso aguentamos MUITO mais porrada do que vocês. É comum muitos dos nossos terem problemas no cérebro, como o seu amigo Lyon, de tantos golpes que levamos, todos os dias, e nos acostumamos, coisa que vocês não. Podemos não usar as pernas, mas nos tornamos especialistas em socar – socamos melhor do que vocês. Por isso somente socar me basta. Meus punhos valem pelos seus, pelas suas canelas, pelos seus cotovelos, joelhos, pés, agarrões e cabeça. E você continua zombando de nossa gloriosa luta, a chamando de esporte, só porque tem regras. Pff... Pois saiba que o meu esporte, hoje, vai esmagar a sua arte marcial.

Ryu ouvia o discurso dele inflamado. O seu espírito acendia com cada palavra. Seus olhos brilhavam, como os de uma criança.

— Pois saiba que eu vim de Okinawa. Desde pequeno treino karate. Transformei os membros de meu corpo em armas, até poder quebrar madeiras, tijolos, garrafas, gelo e até mesmo pedras. As vezes treinava tão arduamente no makiwara que os ossos de minha mão ficavam expostos. Recebia as mais dolorosas penas corporais, como parte do treinamento, para aprender a controlar a dor e fortificar os meus ossos e músculos contra qualquer impacto. Você, grandalhão, não é o único que domina uma luta incrível. Usar somente os punhos pra você é coisa pra se orgulhar, mas não é porque você usa só eles e eu vários membros que isso te faz melhor do que eu. Meu estilo de luta não foi criado unicamente com base em socos, lutar assim é algo que destrói completamente o meu estilo. Se eu estava lutando somente usando os punhos, dentro do seu jogo, você estava com a vantagem. Mas agora que me deixa jogar o meu, vai ver o que é bom pra tosse! Me mostre, me mostre se o seu glorioso combate é tão bom assim – vamos, quero ver!

Round 3. Boxe contra karate. Começou. Ryu saltou em direção a Dudley com um poderoso chute alto. Ele pendulou para baixo, desviando do golpe, avançando em direção ao karateka, que rapidamente recolheu as pernas e pulou para trás, desferindo um soco com a direita, que foi evitado pela esquiva do oponente – o que deixou a sua perna esquerda vulnerável a um chute baixo, que Ryu desferiu deslizando para o lado, bem na coxa. O golpe pegou Dudley em cheio, que mal aguentou se manter de pé. Ryu deu um salto.

— Tatsumaki Senpuu Kyaku

Usou os quadris como alavanca e girou no ar. Primeiramente, acertou a face do gigante com o pé, depois, continuou a girar, enquanto dele se aproximava, acertando-lhe a face com a canela – uma, duas vezes. Dudley caiu no chão. Parecia derrotado. A multidão olhou atônita e começou a cochichar, até que o gigante se levantou e a fez calar. Ele se ajeitou, recuperou a postura. Cuspiu um dente.

— Agora... Estamos quites. Dente por dente.

O rosto de Dudley estava horrível. Metade dele estava tão roxo e inchado que até parecia uma pera. Mas isso não o impedia de partir em direção a Ryu com ainda mais furor do que havia feito. O atacava com séries de socos velozes. Ryu desviava da maioria, mas alguns o acertavam em cheio. Tentava atacar o oponente com outros golpes de mão, mas sem sucesso, então partia para uma estratégia diferente – começava a caminhar pra trás, defendendo o rosto e absorvendo o impacto dos golpes do oponente com o abdomem, medindo a distância para o corpo do inimigo usando a mão esquerda. Assim, ganhou espaço: Desferiu em seu joelho, arqueado pois avançava com socos, um pisão, que o fez estalar e entortar. Parecia ter fraturado. Em seguida, desferiu um salto e novamente terminou com o mesmo golpe:

— Tatsumaki Senpuu Kyaku

Dudley caía no chão. Nada nesse mundo seria capaz de resistir a dois golpes efetuados com tanta força na face. Mas ele levantou-se. Trêmulo como um bêbado, cuspiu sangue. Milhares de imagens terríveis compunham a sua consciência, digladiando em um delírio odioso que o mergulhavam em um pesadelo vivo.

— Seus golpes... São insignificantes...

As imagens tomavam forma. Um lugar paupérrimo. Um homem batia numa mulher, dentro d’uma casa aos pedaços, enquanto choravam crianças. Os olhos de um infante, vazios, lhe atravessavam o espírito.

— A pobreza, a dor...

Em seguida um homem paupérrimo lhe oferecia um cachimbo de metanfetamina, enquanto a fumaça deslizava no ar e parecia formar um monstro, que ria.

— NÃO POSSO! PODE ME BATER O QUÃO FORTE QUISER, MAS PERTO DA VIDA SEUS GOLPES NÃO SÃO NADA!

Sua perna estava sim fraturada. Mas mesmo assim ele ia em direção a Ryu, lento, olhando-o com um olhar ainda mais avassalador e penetrante. Tinha medo de seus olhos, eram cheios de ódios e amargura. Temia tanto que se via recuando para trás sem perceber -- não se lembrava da última vez que teve medo. Se arrastando, o insano tentava o atacar com uma sequência descontrolada, desordenada de golpes. Ryu não queria ter que lutar com um adversário naquela posição, mas sabia, pelos seus olhos, que ele não iria parar por nada, então tinha que reagir, e finalizar a luta o mais rápido o possível para ele se machucar menos. Repetia então a estratégia de recuar e atacar as suas pernas. Se fosse covarde teria atacado o mesmo lugar que fraturou, mas atacou a outra perna, para o adversário cair e não conseguir se levantar. Mas ele, inexplicavelmente, cravava a musculatura no chão, com um pisão, e absorvia os golpes como se nada fossem, continuando a sua sequência de golpes. Ryu saltava para trás e tentava um chute nas costelas – Dudley recebia e quase caía, mas segurava a perna do japonês e o puxava para perto de si, o recebendo com um soco tão poderoso no nariz que o fez perder o equilíbrio. Nem teve tempo de se recompor quando as mãos do oponente já chegavam com séries de jabs, diretos e cruzados, todos exitosos – parecia ainda mais rápido e mais forte do que antes, mesmo estando ferido daquele jeito.

— Seus punhos... Estão... — Pensava Ryu, que caía de joelhos. Contudo, ainda tinha forças para um ultimato: antes que o boxeador o acertasse com o uppercut, flexionava fortemente os pés no chão e desferia um salto.

— SHORYUKEN!

Erguia-se como um dragão a dançar no ar. Acertava o queixo do boxeador, que era arremessado. Caía de costas no chão. A luta parecia estar acabada. A multidão se entreolhava de uma maneira meio torta enquanto o caído parecia demorar a se levantar. Lyon vinha falar com Ryu.

— Ryu! Você venceu! Você é o melhor!

— Essa luta ainda não acabou...

Dudley se levantava trêmulo. Erguia-se novamente em posição de ataque. Sua face estava com tanto sangue e tão inchada que nem parecia humana. Lyon dizia, temendo.

— Por isso... Que o chamam de insano... Ele nunca desiste... E sempre volta mais forte... Ele é imortal... Desista Ryu,por favor, olha o seu estado, vai passar semanas no hospital!

Ele não respondia Lyon. Seus olhos, olhando desafiadores o boxeador, o faziam por ele.

— Tatsumaki Senpuu Kyaku!

O golpe era recebido na face, diretamente, mas antes que os pés fossem levados ao chão, presos eles eram pelo braço do adversário, que puxava o corpo do oponente para si. No ar, sem nenhum equilíbrio, caía nos braços do gigante o pequeno, que era castigado com uma interminável sequência de socos na face. Estava quase acabado, mas conseguiu equilíbrio e saiu de perto. Tentou mais um chute baixo, mas não aparentavam ter nenhum sucesso.

— Eu tenho que vencer... A pobreza, a dor... Tenho que vencer...

Ele parecia ficar cada vez mais rápido, cada vez mais forte, enquanto Ryu era cada vez mais enfraquecido. Os socos já alcançavam uma velocidade tão surpreendente que Ryu sequer conseguia acompanha-los. Tentou pular pra trás, mas o seu pescoço foi abocanhado com um puxão, que deu diretamente no punho do boxeador. Tentou um chute, mas parecia chutar concreto -- mesmo ouvindo o ruído de costelas estalando. Continuava lutando o insano, com aquela face que parecia um pedaço indissociável de carne moída, sem parar, cada vez mais viciado, como se não cansasse, como se seus ferimentos apenas o fizessem mais forte. Ryu seguiu sendo completamente castigado pelos punhos dele, não conseguiu desviar, fugir, chutar, sem escapatória – havia caído no jogo do insano.

—Pobreza... NUNCA MAIS!

A guarda do karate já estava completamente dissolvida. A luta havia acabado. Estava Ryu, simplesmente, sendo massacrado por um gigante descontrolado. O Insano. Que ia o surrar até a morte, com todo o ódio do mundo.

— Droga! Parem, a polícia! — Dizia alguém da multidão, que se dispersava mais rápido do que chegara. Quem apostou dinheiro se ferrou, pois correram com a grana toda.

Salvo pelo gongo. O barulho da sirene cortava o calor da noite. Dudley parou de socar. Ryu caiu no chão. Dudley olhou naquilo que outrora foram os olhos do japonês, mas agora eram hematomas gigantescos que pareciam bolas de boliche, e falava.

— Da próxima vez eu vou acabar contigo, karateka.

E corria em direção à escuridão. Lyon segurava Ryu, que mal conseguia andar, e o levava consigo para um lugar seguro.

— Se a policia não tivesse chegado... Eu tinha acabado com ele, eu tinha!

— Não, Ryu, não tinha, a luta estava ganha.

— Não... Você não sabe... Os punhos dele...Estavam cheios de amargura e ódio. Não eram como os seus, era muita, muita dor que ele estava sentindo... Eu vi, dentro de sua alma, eu vi...Ele precisa de ajuda...

Estava maluco? Estava delirando? Ou sempre foi doido e por isso resolveu deixar o Japão pra ir na Inglaterra apanhar? Mas a forma como aquele rapaz decifrou o espirito confuso de Lyon, droga,parecia haver verdade em suas palavras, mesmo uma verdade completamente louca. Já longe, Lyon deixava Ryu encostado numa parede, ele precisava de um hospital, e indagava sobre a sirene da policia: Foi muita coincidência, logo quando a luta estava para terminar, logo naquele lugar,que a policia passava pouco, e logo quando Dudley e Ryu lutaram... Teria sido uma peça do destino? Ele era respondido imediatamente por um sujeito estranho que deixava um beco escuro. Era careca e tinha um pequeno e quase inexistente moicano verde, vestia um longo sobretudo preto, botas com aço, alguns adereços que pareciam saídos de um clip de uma banda de heavy metal, e um bigode estranho, que parecia de um gato.

— Ei jogadô, que luta du carai. Se liga aí na ideia, pirraia, o chefe gosta de ver porrada boa, vi ocês aí tretando e chamei os homi pra terminá purque num queria que cês se matasse hoje hahahaha Passa lá nesse endereço aqui no sábado, daqui a uma semana,que aquele maluco vai tá lá procês terminarem a luta. Se tu for vai ganhar o triplo da grana. Se tu num for vai se foder também que vô mandar meus cumparça te dar tanta porrada que cê iria querer ter ido, então sou mlk generoso. Tô te dando uma oportunidade de ouro, pirraia, tu vai lutá no circuito oficial dos Animals. Se ganhá tá rico, profissionalidad. Diz que o kitty te chamou. Fui.

Dava um papelzinho nas mãos de Lyon e desaparecia na escuridão. É, aquele desgraçado, com aquele bigode horrível, parecia um gato mesmo. Ryu balbuciava.

— Animals... Birdie... Temos que ir, Lyon. Temos que ir... Birdie vai estar lá... E aquele cara...

[CONTINUA]