Street Fighter: Victory Road
1 Capítulo 0 - Prólogo
Notas iniciais
Uma incursão militar cruzava o oriente médio. Dezenas de caminhões, camuflados, carregavam soldados fortemente armados. Iam em direção ao horizonte, onde o sol dormia e com suas fracas garras, que bruxuleavam, pintavam o céu de vermelho, como se enunciassem tristemente o conflito que ali havia acontecido.
Fumaça. Destruição. Os veículos balançavam a medida que percorriam aquele solo destroçado, morto. A incursão adentrava no que parecia ser as ruínas de uma cidade bastante antiga e humilde, carcomida por uma fumaça negra, que fedia como os miasmas mais sombrios oriundos do abismo infernal. Estava tudo acabado, não parecia haver um único sinal de vida naquele lugar.
— Parem! Aqui! Parem!
Uma ordem era propagada. Os militares se organizavam em fileiras e deixavam os carros.
— Cuidado, homens! Podem ter malditos muçulmanos por aqui! Organizem-se e busquem sobreviventes -- logo. Nosso exército não deixa homens à deriva!
Os militares se dispersavam, desaparecendo em meio àquela fumaça excruciante e preta. Procuravam corpos em meio aos escombros, corpos que juraram lealdade ante à bandeira da mesma nação. Contudo, tudo o que encontravam eram indissociáveis pedaços de carne, cadáveres estraçalhados e vestígios do que outrora havia sido um acampamento militar. Os cadáveres, todos, estavam tão horrendos que parecia impossível distinguir se eram aliados, inimigos ou civis. Mesmo acostumados aos horrores da guerra, perguntavam-se os soldados que destino terrível teria acometido aquele pobre lugar. Teriam sido bombas? Difícil. Os rebeldes não dispunham de uma tecnologia tão avançada, capaz de dizimar uma cidade inteira, e mesmo se tivessem jamais teriam o feito, tendo em vista que ela era um lugar bastante importante no planejamento estratégico -- seu domínio era cobiçado tanto por rebeldes quanto pelos soldados da tropa aliada.
— Encontrei! Encontrei um aqui!
Rapidamente um grupo de homens ia em direção ao que parecia ser o único sobrevivente do massacre. A medida que seguiam o grito, por meio daquela fumaça preta e nauseabunda, podiam ver que no chão estavam dispostos corpos que pareciam ser de rebeldes muçulmanos. Seja lá o que atacou a cidade, havia atacado os dois lados.
— Vamos te tirar daqui!
Perguntava um comandante ao pobre sobrevivente, que parecia traumatizado demais para falar. Ele tremia e estava coberto por sujeira. Estava sem as pernas e em estado de choque. Foi tirado pelas tropas, que o colocaram em uma maca, levando-o para um hospital militar.
Passaram-se horas até o homem conseguir fôlego pra falar. Parecia acometido por um horror sem fim. Somente diante dos comandantes e médicos, após séries de perguntas, começou a narrar o que aconteceu naquela região.
— Eu me chamo John Elliott. Sou Cabo. Como vocês sabem, Meketh é bastante importante nessa guerra. Quem tiver essa região tem o Oriente Médio inteiro, por isso nosso batalhão foi designado para a conquista.
Esses terrenos são complicados, quentes, nosso exército não conhece muito bem a geografia, e por isso os rebeldes sempre tiveram êxito em nos derrubar. Contudo, dessa vez trouxemos um bombardeiro para nos auxiliar na incursão. Enfim, tudo o que eu falei vocês devem saber, e devem saber também que a minha incursão desapareceu, sem deixar vestígios. Mas podem ficar tranquilos quanto a isso, pois os rebeldes também foram todos mortos. Na verdade Meketh já era, foi completamente varrida do mapa, então não precisam mais se preocupar em tomar essa porcaria, pois ela não existe mais.
Acredito, infelizmente, que fui o único a sobreviver àquele terror, ah, aquele horror fúnebre, aqueles olhos de besta que queimavam como fogo e que pareciam vindos do próprio inferno! Pois digo a vocês, o mal existe, eu o vi. Há um grupo de imbecis, tomados por teorias desconstrucionalistas, que enxergam o mal com uma visão, digamos, eivada de relatividade, enxergam-no como algo justificável. Digo eu que isso é pura covardia, pois eles não conseguem enxergar que lá fora há um mal indissociável que faz maldades simplesmente por que quer, e gosta, não porque as circunstâncias o fizeram fazer, ou por alguma justificativa ideológica idiota. E o que eu vi lá foi justamente isso: Eu vi o mal. E ele matava... Porque gostava.
Estava no meio do tiroteio. Meu parceiro havia sido atingido na cabeça pela bala de um muçulmano. O seu crânio explodiu e os seus miolos saltaram para fora. Não consegui pensar em nada, pois como bem sabem na guerra a única coisa que a gente é capaz de conjecturar é ficar vivo, e abri fogo contra os desgraçados, até que vi alguma coisa que parecia cair dos céus, emergindo das núvens, em riste, que caiu no meio do campo de batalha, levantando poeira e pedras. Parecia um homem comum, mas os seus olhos... Rapidamente ele saltou em direção a uns árabes e com um único chute despedaçou uns dois. Foi como o tiro de um canhão, arrancou o torso dos desgraçados, estraçalhando carne, ossos e lançando os seus pedaços a metros de distância. Foi tudo tão rápido, tão bizarro, que nem conseguimos pensar em que tipo de loucura havia acontecido ali, de buscar uma resposta ou mesmo duvidar dos nossos próprios olhos. Abrimos fogo contra o monstro, simplesmente. Ele ficou no meio do fogo cruzado das balas de todo mundo, nossas e dos rebeldes. Centenas de tiros de metralhadora... E a criatura corria, de um lado para o outro, mais rápida do que qualquer coisa que eu já vi na vida, desviando, sim, de todos os nossos tiros.
Em seguida, outro chute, contra um caminhão do nosso batalhão. Vocês sabem que esses troços são blindados, não podendo ser arranhados nem por tiro de fuzil, mas o golpe lançou o veículo no ar, fazendo-o se chocar contra alguns soldados que estavam se escondendo atrás de mim. Morreram esmagados. Depois disso minha munição acabou. Fui dominado pelos instintos de sobrevivência mais primais, e fugi. Fugi e alguns loucos, árabes e nossos, continuavam atirando contra o monstro, em vão pois eram incapazes de acertá-los, e ele, rápido como um foguete, aproximava-se e os extirpava.
Socos, chutes, pontapés. Bastava um toque para que cinco homens adultos fossem completamente despedaçados, como se a carne humana fosse frágil.
Tropecei. Tropecei e quando olhei pra trás ele estava lá, bem perto de mim. Apesar do corpo humano a sua face não era deste mundo, não. Tinha uma expressão demoníaca e traços que pareciam oriundos de alguma espécie de folclore estranho. E aqueles olhos, sim, os olhos... Bolas de luz vermelhas que pareciam dois sóis em ebulição. Vertiam o mais puro ódio, eram a personificação do próprio assassínio.
Nessa hora eu podia ter sido dominado pelo terror, mas não, saquei a pistola que guardava na minha cintura e abri fogo contra o bicho até secar o pente. Acertei a sua face, todos os tiros... E ele riu. Riu e cuspiu as balas. Raios, ele mastigou e cuspiu as balas, na minha frente, com aqueles dentes imensos, rijos, que pareciam os de um tigre! Ele ia me matar, eu sei que ia, mas o reforço chegou -- os bombardeiros, ainda bem. Sondavam a criatura com luzes, estavam prestes a explodi-lo.
Ele se virou, me ignorando como se eu fosse nada. Pude ver em suas costas, então, antes dele saltar em direção ao avião e estraçalhá-lo com as próprias mãos, como se fosse feito de papel, antes de transpassar os mísseis e as bombas e provar que o armamento humano é ineficar contra o sobrenatural, surgir em suas costas, com letras luminosas, do além, que brilhavam na cor de sangue: O símbolo.

O símbolo do mal.
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