Stray Kids - HALLOWEEN MEGAVERSE
6 02. 『Corredor sem fim』
Notas iniciais
Corredor sem fim.
Trabalho feito um louco, mal durmo, mal como, e tudo para quê?
Exatamente, não tenho uma resposta boa o suficiente para essa pergunta.
Sei que preciso me manter, sei que levo uma boa vida já que meu trabalho me rende bons lucros, mas vivo me perguntando se todo esse estresse vale mesmo a pena.
Só tem um lugar no mundo onde eu realmente me sinto livre de todas essas amarras da vida adulta; o karaokê!
E é para lá que eu e a minha amiga Mel estamos indo agora mesmo.
Não foi fácil convencê-la a vir comigo, ela estava com preguiça de sair de casa para variar, mas minhas bochechas fofas e um olhar pidão do seu amigo que sofre como um condenado foram o suficiente para amolecer seu coração.
Ela é durona, mas comigo ela sempre amolece.
Estamos a caminho, pegamos um táxi e sinceramente eu não vejo a hora de soltar meus demônios interiores cantando horrores com a minha melhor dupla de karaokê.
Eu sei que será incrível e agora estou mesmo animado.
[...]
— Olhando bem para como está o clima lá fora preciso admitir, pegar um táxi foi a melhor opção Jisung.
Minha amiga olhava pela janela toda concentrada no clima.
— Te falei Mel, o pai aqui manja das coisas.
— O pai de quem? — ela ri e me dá um peteleco. — Só se for o pai mesmo.
— E eu achando que sou o único estressado aqui, tá tudo bem Melzinha?
— A mesma merda de sempre Jisung, mas vamos deixar isso para lá? Hoje é dia de mandarmos ver cantando "Hotel Califórnia" até sermos expulsos do Karaokê de novo.
Sorrimos lembrando desse episódio, foi hilário, acho que cantamos a mesma música umas cinco vezes seguidas ou mais e isso depois do horário de fechamento do lugar então me viro para ela na intenção de lhe arrancar um sorriso.
— Welcome to the Hotel California... — Canto olhando para ver qual será a reação dela e o sorriso que vejo se formando em seus lábios me deixa animado.
— Such a lovely place... — Ela já segue levando a mão a boca como quem segura um microfone e nós dois caímos na risada.
— Such a lovely place...
— Such a lovely face...
Até o motorista do táxi sorriu e seguimos viagem lembrando do dia em que fomos expulsos do karaokê.
Aquele dia foi foda, mas era sempre assim quando minha melhor amiga estava comigo, esquecíamos do mundo lá fora e cantávamos até expurgar todo nosso ranço e era exatamente essa a promessa para hoje.
Se acabar de cantar, comer e beber sem se preocupar com a vida adulta.
[...]
O clima estava realmente muito feio, nuvens escuras que aparentavam estar carregadas, olhando bem elas pareciam tão pesadas que a impressão era de que a qualquer momento o mundo cairia sobre nossas cabeças e ao longe quando olhávamos para o céu víamos nitidamente os clarões de raios insistentes caindo em todo seu esplendor.
Era lindo de ver, mas tanto a Mel quanto eu detestamos chuva com raios e trovões e isso estava nos deixando aflitos.
— Deveríamos ter cancelado né, Mel? Me desculpe fazê-la vir comigo.
— Que isso Jisung, não se desculpe, eu disse que viria e não me arrependo, o mais importante é ver seu sorrisão voltando para essas suas bochechas fofas.
Ela veio até mim e apertou minhas bochechas sorrindo largo por me ver corar.
— Olha isso, que coisinha fofa!
— Ah, pare com isso... — Falo todo tímido.
— Vai chorar?
— Chata! Vamos entrar de uma vez, quero cantar e estou com fome também.
— Nossa nem me fale, hoje vou querer barriga de porco e cerveja tá?
— Mentes brilhantes pensam iguais mesmo, é exatamente isso o que quero.
— Não é à toa que você é o meu melhor amigo Han Jisung.
Entramos e pegamos nossa cabine de sempre que por sorte estava vaga, desde a primeira vez que ela veio comigo para o karaokê que tentamos ficar sempre na mesma, e quando conseguíamos tomávamos como um bom sinal e isso faz parte do nosso ritual sagrado como ela mesma diz.
Íamos pelo corredor que parecia não ter fim, quanto mais andávamos mais longe a cabine parecia estar.
— Nossa, não lembrava que nossa cabine da sorte era tão longe, quanto tempo faz que não viemos aqui?
— Estava pensando nisso Ji, sei lá eu, uns três meses?
— Porra tudo isso? Você me abandonou mesmo né, dona Mel?
— Meu deus quanto drama, e nem vem que foi você que se atolou em projetos, então nada de pôr a culpa em mim, hoje quando você me chamou eu disse o que para você?
— Que sim...
— E quanto tempo levou?
— Um tempinho, lembra? Tive até que usar o golpe dos olhinhos pidões para te convencer.
Peguei ela que nitidamente estava se divertindo com a minha cara.
— Touché, mas eu vim, não vim?
— Veio...
— Pois é, como sempre, e fique sabendo que esse luxo é para poucos Disunguinha.
Odeio quando ela me chama assim, mas ela é uma fofa comigo, então deixo passar toda vez.
Já na cabine olhamos o cardápio e fizemos nosso tão desejado pedido, pedi uns chocolates também porque com certeza vamos querer um docinho mais tarde e o mais estranho era que enquanto eu falava com a recepcionista os barulhos insistentes de trovões não cessavam, muito pelo contrário, ficavam ainda mais estrondosos e constantes e era nítido que foi só a gente chegar aqui para o céu desabar em uma chuva forte.
— Nossa Mel, ainda bem que chegamos a tempo, parece que o mundo tá caindo lá fora.
— Imaginei, deu até uma esfriada né?
— Sim, você tem razão... Tá friozinho aqui.
Pego o controle do ar condicionado e ajeito para ficar em uma boa temperatura, nem muito calor, nem muito frio, confortável para os dois.
Ela ficou me olhando como quem esperava algo de mim, até que finalmente me deixou saber o que pensava.
— E aí Ji, põe para fora, qual é o estresse da vez? Só trabalho mesmo ou seu namorado angelical também tá enchendo o saco?
— O Hyunjin? Não, com ele tá tudo bem, ele só não veio com a gente hoje porque viajou a trabalho, mas estava me mimando até ontem à tarde.
— Bom mesmo, e ele que não cuide bem do esquilinho dele não para ver, e já sabe Jisung, se ele vacilar, acabo com ele.
— Minha protetora, ele sabe bem disso não se preocupe se ele vacilar comigo tá na roça e tem consciência, mas voltando aos meus B.Os é mais o trabalho mesmo, digamos que tem pouco Jisung para tudo que preciso fazer e eu tô sozinho por enquanto, to vendo de fechar uma parceria aí com mais dois carinhas que conheci a pouco, mas não sei, eu gosto de trabalhar sozinho sabe?
— Sei, e também sou assim, então te entendo bem, mas você não pode dar conta de tudo seu doido, veja se será uma boa para você e se for aceite essa parceria você precisa delegar, e ter tempo para sua vida pessoal, sua amiga que vos fala e seu namoradinho modelo.
— É você tá certa como sempre, — Sorrio para ela que aparentemente escolheu a primeira música para cantarmos. — Mel... é sério?
— Ah, vai só para abrir os trabalhos, estamos precisando e essa é a nossa música Disunguinha.
Sorri para minha amiga e colocamos "Hotel California" para cantar.
[...]
Nossa comida chegou e paramos um pouco com a cantoria, afinal nossa fome era maior.
— Mel, você viu que vai lançar um filme de terror agora no mês das bruxas?
— Claro que vi, e vamos juntos assistir, né?
— Claro, se você fosse sem mim nossa amizade acabaria.
Olhamos pela janela da nossa cabine e vimos o tempo lá fora, estava realmente medonho, então decidimos parar de olhar e voltar a comer, beber e cantar até lavar a alma.
[...]
Algum tempo se passou, na verdade, não sei dizer quanto tempo exatamente e a bebida já estava fazendo seu efeito em nós dois que agora cantávamos a plenos pulmões em nossa cabine, o que não nos impedia de ouvir a trovoada que parecia não ter fim do lado de fora.
— Céus! — A Mel levou a mão ao peito pelo susto. — Jisung não é melhor pararmos um pouco? Tanto trovão assim, sei lá, antes vem os raios e estamos aqui usando os aparelhos eletrônicos né? E se der ruim?
A Mel tinha lá sua razão, mas eu sei que ela estava assim por odiar os barulhos de chuva desde pequena então acabei concordando com ela para tentar acalmá-la.
— Sim, é melhor pararmos um pouco mesmo, vamos desligar tudo e...
CABRUM! CABRUM! CABRUM!
— Minha nossa senhora, — dessa vez fui eu quem levou as mãos ao peito em completo desespero. — Odin está putasso com alguma coisa não é possível.
As luzes do lugar começaram a piscar e a Mel correu até mim.
— Tá tudo bem Melzinha vamos ficar juntos, está tudo bem.
Mal termino minha fala e as luzes que piscavam insistentemente pararam de piscar de uma só vez deixando um breu total pela falta de energia e pela primeira vez na vida fui grato pelas luzes de segurança existirem.
— Cara que sinistro!
— Jisung, não sei se quero ficar aqui na cabine não, e se as luzes de emergência se apagarem também?
— Ah sim, vamos até a recepção ver o que tá pegando e qualquer coisa ficamos por lá com a recepcionista.
— Certo, deve ter lanternas aqui em algum lugar, só não me lembro onde agora.
— Tem sim, ficam na caixinha de emergência ali perto de onde você pegou os microfones.
Ela foi até lá e pegou duas lanternas, uma para ela e outra para mim.
— Você vem muito aqui com seu namorado né?
— Até que não, minha companhia do karaokê é sempre você — Pego a lanterna de sua mão sorrindo pequeno para ela que só me viu porque coloquei a luz da lanterna na minha cara. — Buuh!
— Moleque eu vou te bater! Pare de gracinha.
— Só para descontrair Mel, vamos lá.
Saímos da cabine para ir até a recepção.
— Cruzes, o corredor parece que ficou ainda mais cumprido né?
— O pior é que sim, parece mesmo.
— Você está com medo Mel? Se quiser pode segurar na minha mão.
— E você não está Jisung?
— Um pouco, não curto muito o escuro, vem vamos descer.
Pego na mão da minha amiga e caminhamos até nosso destino, mas o caminho estava um tanto assustador demais e eu já estava achando tudo bem estranho.
Em cada porta que passávamos ouvíamos barulhos distintos, em uma delas fortes batidas, já em outra dava para ouvir barulhos atordoantes e desconexos e então a Mel e eu decidimos apertar o passo, praticamente corríamos pelo corredor, mas ele não parecia ter fim e quanto mais andávamos mais aqueles malditos barulhos aumentavam e algumas portas tremiam a cada pancada que vinha de dentro delas.
— Porra, o que tá acontecendo aqui Jisung?
— Não sei Mel, não sei mesmo.
Eu estava em pânico, mas queria me manter firme pela minha amiga e sem que notássemos já estávamos correndo feito dois malucos tentando sair daquele corredor sem fim.
— Finalmente!
Falo aliviado por chegar na escada que dava a recepção.
— Vem Mel, vamos falar com a recepcionista.
Descemos e nos aproximamos do balcão onde a moça da recepção estava debruçada sobre a bancada, estranho, mas talvez ela só estivesse dormindo.
— Moça, — chamo uma vez e nada. — Moça?
— Jisung o que tá pegando aqui?
A voz da minha amiga soava apreensiva, e eu não vou mentir, eu também me encontrava assim.
— Não sei Mel, vamos nos aproximar e ver, ela deve estar dormindo, chuva dá um puta sono.
— Só em você que dorme com qualquer coisa.
A Mel estava com medo, mas não saiu do meu lado o que me deixou à vontade de me aproximar da recepcionista e tocá-la em seu ombro para tentar acordá-la.
— Oi moça, eu...
Mal encosto em seu ombro e o corpo da recepcionista cede caindo dali e nos revelando algo que logo de cara não quis acreditar.
— Puta que pariu Han Jisung, cadê os olhos dela?
A Mel estava trêmula e eu me senti gelar, acho que desmaiarei a qualquer momento.
— AAAAH! Cacete! Merda, merda... Puta que merda é essa?
Vejo as cavidades escuras em seu rosto escorrerem o líquido vermelho e denso e cheguei à conclusão óbvia de que alguém arrancou os olhos da recepcionista e com essa constatação em mente acabei gritando mais que a Mel.
— Porra! Vem Mel, vamos sair daqui.
Corro em direção a minha amiga já a puxando pela mão e correndo feito um doido para a saída do lugar.
— Ah, não... vai se foder!
Assim que abro a porta o desespero volta a me tomar.
— O QUÊ?! UM MURO?! Jisung que merda é essa cara?
— Não sei Mel, mas temos que nos esconder, vem...
Pego mais uma vez a mão da minha amiga e corro de volta para o único lugar que achei que estaria seguro, a cabine onde estávamos no início de tudo.
Fomos em direção à escada novamente, fazendo silencio para evitar chamar qualquer tipo de atenção para nós, afinal quem fez aquilo com a recepcionista certamente estaria à espreita e de jeito nenhum queremos sua atenção sobre nós.
Alcançamos as escadas e assim que começamos a subi-las o chão rangia como se pisássemos em madeira velha e o pânico voltou a crescer em nós dois.
— O que foi isso? — Pergunto, mas a Mel está tão em choque quanto eu.
— Você também ouviu?
— Uhum, e bem atrás de nós, corre Mel.
Deixei que ela passasse na minha frente, não quero perder minha amiga de vista e então voltamos a correr nas pontas dos pés feito dois loucos, estávamos em um pânico terrível e eu torcia para poder chegar logo à cabine, seja lá o que fez aquele barulho está agora nos seguindo e se nos pegar será o nosso fim.
— Ah, não, não, não...
A Mel começou a choramingar assim que chegou à porta de nossa cabine e ela não se abriu.
— Está trancada? É sério isso?
— Sim, está trancada, estamos ferrados amigo.
— Vem vamos tentar outra cabine.
Chegamos na porta seguinte a de nossa antiga cabine e os barulhos nela estavam medonhos.
— Vamos mesmo entrar aí?
Olho para o fim do longo corredor e ao pé da escada vejo a silhueta de alguém vindo, este segurava duas adagas em suas mãos e apesar de eu não querer que a Mel visse, ela se virou e viu.
Nesse momento cinco luzes se acenderam sobre cinco portas distintas e em cada porta havia uma placa e eu deduzi que isso poderia ser um jogo, e ao que tudo indica a pessoa que está vindo em nossa direção nos forçará a jogar com ela.
— Vem Mel.
Fui até a porta iluminada que se encontrava o mais próximo de nós e a placa nela estava escrito RESPIRAR.
Encarei brevemente as letras escritas ali e busquei rapidamente as demais placas nas outras portas.
— FALAR, VER, OUVIR — Fui lendo e repetindo aquilo não fazia a merda de sentido algum.
— VIVER... Jisung à última porta tem uma placa escrito viver.
A Mel me chama a atenção a esse fato e eu acabo relendo a placa na última porta.
VIVER
— Que merda doentia está acontecendo aqui?
Falei forçando a porta onde estávamos e assim que o fiz a silhueta que estava no início do corredor começou a avançar para nós.
Vinha rápido, eu senti meu coração saltar em minha garganta e o ar começou a pesar em meus pulmões.
— Me ajude Mel, vamos entrar aqui.
Forçamos juntos e abrimos, entramos já fechando a porta atrás de nós e para a nossa surpresa seu interior não era o de uma simples cabine do karaokê onde estávamos e sim um pântano lodoso, tinha um fedor pútrido horrendo e que estava nos tonteando como se fosse um veneno mortal.
— Ali, — Falo apontando para o outro lado do pântano onde estamos para a Mel ver enquanto tapo meu nariz e boca como consigo. — Tem uma porta Mel, vamos passar por ela, sim?
— Passar por ela? Mas Jisung...
Ela me chamou a atenção para onde teríamos que passar para poder chegar do outro lado e eu busquei uma coragem inexistente para seguir com isso.
— Vamos ter que atravessar o pântano Mel...
Falo segurando em suas mãos que estão trêmulas e gélidas assim como as minhas.
— Mas Jisung...
O pânico já era absoluto em nós dois, o pântano estava repleto de corpos, e nenhum de nós estava a fim de descobrir o que nos aconteceria quando entrássemos ali.
— Vamos juntos Mel, vamos conseguir está bem?
Ela não me responde, apenas acena que sim com a cabeça deixando uma lágrima rolar seu rosto e assim que a vejo ceder ao choro permito que uma lágrima minha também escorra por minha bochecha.
Eu estava em total pânico e precisava salvar minha amiga que só estava nessa por que eu a chamei para vir comigo.
Lentamente nos aproximamos da beira do pântano e quando não deu mais para evitar entramos e começamos a ir o mais rápido possível por todo aquele lodo fétido, porém...
— Jisung!
Olho para a Mel e vejo os corpos tentando afogá-la, um desespero me toma, mas já é tarde demais...
— Mel!
O mesmo começa a acontecer comigo, os corpos nos levando ao fundo do pântano para nos fazer parar de RESPIRAR, e aquilo estava desesperador, mas continuei e fiquei aliviado de ver que a mel também continuava.
— Vamos amiga, estamos quase lá.
Olho para trás e me sinto morrer um pouco ao avistar que o cara dono da silhueta que nos perseguia já estava em nosso encalço e vinha com suas adagas em mãos atravessando o pântano logo atrás de nós.
— Vamos Mel, precisamos sair daqui.
Lutamos com tudo e chegamos do outro lado, sujos molhados e fedendo e então nos deparamos com a porta e saímos por ela correndo feito dois loucos, mas não sem notar que a luz sobre ela agora estava apagada e o nome RESPIRAR não estava mais visível.
— Vem amiga, vamos para a porta VIVER.
Falo já correndo na direção dela, mas assim que chegamos lá nos deparamos com ela trancada com cadeados, um deles se abriu assim que encostamos nela, mas ainda havia outros três fechados e o ser que estava atrás de nós, surge jogando suas adagas em nós nos acertando e eu fico em desespero quando vejo uma delas acertar o braço da Mel.
— Aí! Jisung... que merda ta acontecendo aqui...
Ela falou em total desespero agonizando com a dor em seu braço e eu me senti enlouquecer por ver minha amiga nessa situação.
— Porra! — falo perdendo o resto de sanidade que achava que tinha quando também sou atingido, as adagas eram afiadas demais e a dor de tê-las adentrando minha pele era infernal. — Vamos Mel, teremos que passar em todas as outras portas para poder abrir a porta VIVER.
Foi a lógica que encontrei nisso tudo, então só segui meus instintos.
— Que ódio!
— Sim..., mas vamos conseguir... Vem Mel, corre!
Corremos e o doido ainda atirava suas adagas em nós, nos acertando e nos machucando ainda mais e assim que chegamos na porta com a placa escrito FALAR entramos já a fechando atrás de nós.
— Mas que...
Falo baixinho e vejo algo monstruoso se mexer de leve, e não tinha apenas um monstro ali, eram muitos, o que me fez gelar por inteiro.
Na sala onde estávamos tudo se assemelhava a um açougue e em um cartaz estava escrito "EAT IN PEACE" que traduzindo literalmente dizia "coma em paz" o que me fez entender que teríamos que comer algo sem fazer nenhum ruído sequer uma vez que só a minha fala quando entramos aqui quase chamou a atenção de um daqueles seres monstruosos.
Avistei a porta de saída e pelo caminho pratos com comidas nitidamente podres já com larvas por cima se colocavam em nossa passagem.
— Mel, — falo sussurrando. — Vamos ter que comer sem fazer barulhos se quisermos sair daqui.
— Mas porque comer?
Ela responde em total desespero, mas quase que gesticulando para não chamar a atenção dos monstros cegos.
— Acho que a chave da porta está em um dos pratos.
— Meu deus... eu não quero comer isso Jisung.
Eu também não queria, mas algo em mim gritava dizendo ser o único jeito então tentei me manter calmo para encorajar a minha amiga a encarar essa comigo.
— Vamos lá, precisamos da chave. — Sussurrei para ela que se encontrava chorosa. — Não faça barulho.
Começamos a comer, a ânsia nos tomava, mas sabíamos que se vomitássemos faríamos barulho e os monstros viriam até nós então seguramos firme e fomos comendo aquelas carnes podres, o gosto era de morte e eu já estava prestes a colocar tudo para fora até que vejo brilhar no fundo do prato a chave para nossa liberdade, a pego já segurando no braço da minha amiga e vamos até a saída.
Assim que nos colocamos para fora, a luz sobre a porta que levava o letreiro escrito FALAR se apaga e ouvimos o destrancar de um dos cadeados na porta VIVER, o que provava minha teoria de como sairíamos dali.
Nós dois estávamos parecendo que saímos de uma guerra, exaustos, enojados e com muito medo do que nos aguardaria e sem perder tempo fomos para a próxima porta.
A OUVIR.
Assim que entramos na sala, levamos as mãos aos nossos ouvidos simultaneamente.
— Jisung, — A Mel gritou tentando sobrepor os gritos dos monstros. — Eu não consigo me mexer!
— Nem eu! — Gritei em resposta.
Enquanto aqueles monstros gritavam, nós paralisávamos no lugar, mexer qualquer parte do corpo que fosse era impossível e mais a frente um pouco avistei uma caixa acrílica com dois protetores de ouvido dentro e muitas lâminas em suas paredes e fundo, logo, quem puser a mão ali dentro com certeza irá se machucar bastante.
Um breve instante e os monstros pararam os gritos e nós retomamos nossos movimentos.
— Vou pegar os protetores.
Falo já indo em direção a caixa, meu corpo doía, mas eu precisava ser rápido.
Os monstros não ligavam para nós dois propriamente e entendemos ser os seus gritos que nos atingiam mortalmente, mas também não quisemos arriscar correndo até a porta, a essa altura já entendíamos que se os protetores estavam ali postos daquela forma é porque teríamos que tê-los para nos livrar dessa sala.
Me aproximo da caixa e enfio minha mão nela sem pensar muito, eu não deixaria minha amiga passar por essa merda toda e assim que começo a descer meu braço para o fundo da caixa as lâminas afiadas começam a me cortar e os rasgos feitos por elas começam a arder em minha pele.
— Ai, merda!
Falo e vejo a Mel em pânico.
— Vou conseguir...
— Eu sei que vai Jisung, — ela falou um tanto chorosa. — Mas olha seu braço...
Consigo alcançar e os pego de uma vez tirando em seguida meu braço de dentro da caixa com o máximo de cuidado que consigo e assim que retiro os protetores, a Mel rasga um pedaço de sua camiseta para amarrar meu braço ensanguentado.
— Não precisava disso, — coloco o protetor nela. — Aí... não aperta tanto.
— Precisa disso sim! Temos que estancar isso Jisung, — ela falou mais alto por já estar com sua audição bloqueada pelo abafador de orelhas. — Coloca o seu protetor e vamos dar o fora daqui.
Levo o meu em direção a cabeça, mas os monstros voltam a gritar e eu paraliso na mesma hora por conta do efeito de seus gritos estridentes e dessa vez eles parecem nos notar vindo em nossa direção, aumentando nosso pânico daquilo tudo.
Como estou paralisado e não consigo colocar os abafadores em mim, a Mel que já estava protegida o tira de minha mão e coloca em minha cabeça, ajustando-o certinho nos meus ouvidos e os gritos dos monstros se tornaram distantes no mesmo instante.
— Vamos! Não temos tempo! — Ela grita e eu a ouço muito ao fundo por já estar protegido também e dessa vez é ela quem me puxa pela mão.
Corremos para a porta em meio a um campo de monstros que agora avançam sem ressalvas em nossa direção e assim que alcançamos a saída nos levamos para fora da sala.
— Caralho! Essa merda não tem fim?
A Mel estava brava e eu a entendia por completo, quando que uma ida ao nosso karaokê se tornou esse pandemônio sem fim?
Do mesmo jeito que foi quando escapamos das outras salas assim que saímos a luz da porta OUVIR se apagou e mais um dos cadeados na porta VIVER é aberto e ao que tudo indica só nos resta mais uma porta...
A VER.
Vamos em direção a ela e sem enrolar entramos, já passando o olhar em tudo para entender qual era a da vez.
— Mel, se liga.
Falo apontando para duas vendas que provavelmente estariam ali apenas a nossa espera.
— Sim, e tem as cordas...
Olhei e por toda a extensão da sala, havia duas cordas que iam de uma ponta a outra, e na ponta de lá elas estavam amarradas a maçaneta da porta de saída, o que me levou a crer que teríamos que passar nos guiando apenas por elas.
— Então é isso...
Tudo estava quieto e pelo medo que tínhamos falamos o menos possível.
Nos colocamos na ponta das cordas, pegamos as vendas e amarramos nossos olhos, ficando completamente desprovidos do nosso sentido de visão e para mim isso é o que mais me aterroriza por não saber o que está por vir.
— Vamos Mel.
— Vamos!
Começamos a andar e nada, nem som, nem cheiro, nem barulhos e essa total falta de informação estava me deixando completamente aflito.
Andamos mais um pouco em meio a um acordo implícito de silêncio, afinal uma palavra poderia atrair algo tenebroso para nós, não tínhamos como saber e definitivamente não queríamos arriscar.
Um cheiro começou a invadir nossas narinas.
— Veneno?
Perguntei baixinho.
— Parece muito...
— Igual na primeira sala...
— Sim.
Ouvir a Mel me responder me deixou aliviado por me dar a sensação de que ela ainda estava ali, mesmo que eu estivesse sentindo sua presença eu não a via e ficar esse tempo todo sem poder ouvi-la também estava me deixando ainda mais agoniado.
— AAAAAAAAAAAHHHHHHHH
Ouvimos um grito estridente como dos monstros na sala OUVIR e eu me tremi todo no lugar, mas assim que a voz se calou senti que estávamos perto da saída.
— Hannie?!... Amor?! — Ouvi aquela voz que conhecia bem e meu coração parou.
— Hyunjinnie? — Grito pelo meu namorado em total desespero.
— Mel?! Socorro mana!!! — A voz da irmã mais velha da Mel grita junto a do meu namorado e eu só quero tirar minha venda e correr até eles.
— Socorro Hannie, amor me ajuda!
— Mel, você precisa me tirar daqui, é você quem sempre me protege Mel, socorro!
Estou quase levando a mão a minha venda para arrancá-la pelo total desespero que me tomou e a Mel que me conhece bem me impede segurando meu braço desajeitadamente por também não estar vendo nada.
— Jisung, não faz isso, é uma armadilha! Certeza que aquele louco das adagas está por de trás disso.
— Mas Mel é o Jinnie, e a sua irmã.
— EU SEI TÁ! — Ela grita, não com raiva de mim, mas sim em um tom choroso, como se sua fala estivesse presa em sua garganta e eu me sinto queimar como se fosse explodir a qualquer momento. — Vamos sair logo daqui Jisung por favor.
Assim que ela fala começo a tatear em desespero procurando a maçaneta e os gritos das pessoas que amamos se intensificam me fazendo chorar de tristeza.
Eu só queria abraçar o Hyunjin mais uma vez.
Quando finalmente a encontro coloco minha mão na maçaneta e a giro com força abrindo a porta enfim e já do lado de fora tiramos nossas vendas o que nos leva a um novo desespero.
— Cadê as portas? — Falo indignado.
— Não pode ser! — A Mel leva as mãos aos cabelos em desespero.
Assim que saímos, notamos que as portas haviam sumido e a luz que brilhava sobre elas brilhava agora na escadaria que dava na recepção.
— Só pode ser isso, vem, vamos correr!
Falo e corro mais uma vez junto a minha amiga em direção às escadas nesse corredor sem fim e antes de chegarmos lá o dono da silhueta que nos perseguia esse tempo todo avança em nossa direção com uma rapidez incrível ainda jogando suas lâminas afiadas em nós, nos cortando e nos fazendo sangrar e por pouco ele quase nos pega e com a proximidade que ele chegou dessa vez notei o quão grande e forte ele era e a Mel paralisou por um instante por ter o mesmo vislumbre que tive do nosso malfeitor.
Chegamos na escada e em sua ponta avistamos a porta VIVER que ainda estava iluminada e agora se encontrava totalmente aberta.
— Vem Mel, vamos sair dessa merda!
Falo e descemos as escadas atravessando a porta de uma só vez e assim que passamos por ela o dono da silhueta que nos perseguia solta um rosnado contrariado que só de ouvir nos fez estremecer e aporta bateu se fechando atrás de nós.
— Ah, vocês desceram, está tudo bem com a cabine de vocês?
Vimos a recepcionista que estava sorrindo para nós, viva e bem e nada parecia ter acontecido a ela.
— As luzes se apagaram e...
Digo um tanto receoso e ela logo se põe a falar.
— Ah sim, ainda estamos com as luzes de emergência, mas não se preocupem, a energia será restaurada em breve, parte do bairro foi prejudicado pela falta de energia devido à chuva forte, recebemos avisos da guarda civil nos orientando a ficarmos abrigados onde estamos até que tudo volte ao normal.
Nem a minha amiga ou eu, entendíamos nada do que estava acontecendo, mas tudo parecia bem com a recepcionista, tudo parecia normal de novo como se não tivéssemos vivido a pouco o nosso pior pesadelo.
— Por que não voltam para a cabine de vocês?
Olho para a Mel e pela sua expressão incrédula acredito que ela está pensando o mesmo que eu.
Não tem como a recepcionista não estar vendo o nosso estado, apesar de tudo parecer bem nós dois ainda estávamos sujos, rasgados, fedendo, enfim, ambos estavam uma completa bagunça, o que nos fazia entender que tudo aquilo que vivemos a pouco foi mesmo real.
— Jisung o que está havendo aqui? — minha amiga fala entredentes. — A recepcionista...
— É, eu sei, ela está viva...
— E olha para gente? Estamos todos ferrados aqui e ela parece não notar.
— Meninos?
A recepcionista fala novamente chamando nossa atenção.
— Ah, oi?
— Voltem para a cabine de vocês, vou mandar snacks por conta da casa e vocês podem descansar em paz.
Nada fazia sentido, mas acabamos acatando a fala da recepcionista, voltamos para as escadas e começamos a subir e estranhamente ouço a música que eu e a Mel mais amamos cantar no karaokê tocando baixinho e antes de sumir escada acima olho para a recepção mais uma vez e a recepcionista me olha sorrindo e assim que a encaro uma lágrima de sangue rola seu rosto saindo do seu olho esquerdo, me sinto gelar e quando dou por mim estou ao lado da minha melhor amiga encarando mais uma vez as portas, as luzes, os letreiros e aquela mesma silhueta aparece novamente com uma risada medonha vindo em nossa direção enquanto risca a ponta de sua adaga na parede fria daquele corredor sem fim.
"Last thing I remember
I was running for the door
I had to find the passage back
To the place I was before
Relax, said the night man
We are programmed to receive
You can check out any time you like
But you can never leave..."
Tradução:
"A última coisa de que me lembro
É que eu estava correndo para a porta
Eu tinha que encontrar a passagem de volta
Para o lugar onde eu estava antes
Relaxe, disse o guarda noturno
Nós somos programados para receber
Você até pode registrar a saída quando quiser
Mas você nunca poderá partir..."
Hotel California – Eagles.
⋆⋅⋅⋅⊱∘✙∘⊰⋅⋅⋅⋆
Música que inspirou o capítulo:
Hotel California — Eagles
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