Stray Heart
9 Unwanted Thoughts
Notas iniciais
O sol estava se pondo no horizonte, colorindo o céu num gradiente de cores alaranjadas, quando a campainha da casa de Alfred tocou. Do próprio quarto, o garoto pôde ouvir o som, mas não saiu de lá. Um minuto depois, a sua mãe bateu à porta e abriu-a com cautela.
– Filho, tem um garoto esquisito de cabelo verde e argolas na cara na porta perguntando por você... É algum daqueles mau-caráter ou eu deixo entrar?
– De sobrancelhas estranhas também?
– É, nossa, que coisa bizarra... Eu vou mandar ele embora, deve ser algum trombadi...
Alfred deixou a mãe falando sozinha no quarto e saiu porta afora, curioso com o tal garoto esquisito de cabelo verde. Foi exatamente quem ele encontrou plantado do lado de fora da porta, segurando um cabide de roupas.
– Por favor, diz pra sua mãe que eu não sou um trombadinha.
– Quem é você? – Brincou Alfred, rindo. – Sai daqui com esse troço, garoto esquisito.
– Muito engraçado. – Arthur retrucou, com um tom sério, mas um esboço de sorriso divertido nas feições. – Devia ser mais grato porque eu vim aqui te entregar essa porcaria.
– Oh, obrigado, senhor, deseja entrar e tomar um chá das cinco? – Alfred sibilou num sotaque inglês forte e falso, fazendo biquinho.
– Claro, entretanto você precisa vestir-se apropriadamente, seu nerdinho estúpido. – O punk usou o seu melhor sotaque inglês nativo, humilhando o outro, e empurrou as roupas que carregava nele.
Alfred riu como um idiota, pegando o cabide. Atrás de si, a sua mãe encarava assustada o garoto na porta.
– Ah, mãe, esse é o Arthur, ele veio me emprestar o smoking. – Alfred apresentou o punk casualmente. – Ele não é um trombadinha.
– Ah... Olá, Arthur... – A senhora Jones ainda parecia um pouco espantada com o garoto incomum à sua porta. Certo que seu filho devia fazer amigos, mas aquele ali era... Ela não conseguiu encontrar muitas palavras para definir a impressão que tivera do garoto. Então olhou para Alfred: — Filho, tenho que ir ver a fornada.
Alfred deu de ombros, voltando-se para Arthur novamente, ao que sua mãe retornou à cozinha.
– Ei, Art, mas você não quer mesmo entrar?
– Eu tenho o que fazer hoje, Alfred, eu já disse. – Ele tinha, mas depois que Drake saísse do expediente. Na verdade, ainda tinha cerca de duas horas livre.
– Eu ainda preciso aprender a amarrar aquele troço.
– Nossa, se vira sozinho, pirralho. – Arthur resmungou, fazendo menção de ir embora.
– Tá, Art, mas a minha mãe está fazendo biscoitos. Não é, mãe? – Alfred gritou para dentro de casa.
Arthur já tinha virado as costas, mas ao ouvir o que o outro dissera, parou como uma estátua.
– Biscoitos.
– É, biscoitos. – Alfred riu baixinho.
– Interessante. – E tornou a virar-se para a porta. – Eu acho que vou ficar.
– Eu sabia que você não ia resistir. Você ama aqueles biscoitos.
– Cala a boca, não é pelos biscoitos. – Arthur deu um soco de leve no peito de Alfred ao entrar. Este riu enquanto fechava a porta atrás dos dois.
Alfred voou até o quarto para guardar o smoking, e Arthur foi seguindo-o. A casa de Alfred era menor que a sua, com apenas um andar, mas tinha um ambiente confortável e era tipicamente americana. O cheiro delicioso dos biscoitos assando predominava da cozinha e impregnava o ar de toda a casa, e automaticamente, Arthur inspirou fundo para apreciar melhor o aroma da massa e dos biscoitos ao forno.
O loiro entrou em uma porta branca no corredor de chão de madeira, revelando o seu quarto. E Arthur confessou que não se impressionou ao notar que este era realmente bagunçado. Mas Alfred não parecia se importar, saltando por entre as roupas e objetos jogados no chão até chegar a um cabideiro na parede, pendurando o smoking ao lado de uma jaqueta marrom de aviador.
Não havia nada de especial no quarto de Alfred. A bagunça tomava conta de uma parte do quarto, e havia uma televisão com um videogame ao lado oposto da cama desfeita. Contradizendo isso, no outro canto do quarto, estava uma escrivaninha com um computador de uma tela ampla e livros de cálculo. Ainda assim, sobre ela, havia uma grande desordem de cadernos, CDs e porta-lápis. Havia também alguns gibis e aqueles bonequinhos de super-heróis em uma estante.
– Puxa, e eu que pensei que os nerds tinham os quartos arrumados... – Arthur não resistiu em comentar, tentando atravessar o quarto por entre as coisas jogadas ao chão.
– O seu é do mesmo jeito – Atirou Alfred, rindo.
Arthur tinha parado e vagueava os olhos pela estante das coisas infantis que Alfred gostava. Aparentemente, o herói preferido dele devia ser o Capitão América, ao visto de todos os gibis, o bonequinho no andar mais alto da estante, e o pôster gigante que pendia um pouco da parede, ameaçando cair. O punk riu baixinho. Alfred era mesmo uma criança.
Quando um som de uma voz bastante viril que não era de nenhum dos dois ecoou pelo quarto, Alfred deu um grito.
– NÃO PEGA NO CAPITÃO AMÉRICA!! – Berrou, saltando em cima do boneco nas mãos de Arthur, que tinha alcançado-o e apertado o botão que o fazia falar.
– Eu não acredito nisso, Alfred – Arthur estava rindo quase escandalosamente. – Você tem bonequinhos! Bonequinhos que falam!!
– Cala a boca!! – Esbravejou o nerd, empurrando Arthur e pondo o boneco de volta no seu lugar com um cuidado extremo. Seu rosto estava tingido de um vermelho embaraçado.
Arthur, ainda rindo, sentou-se na cama do nerd, alcançando um gibi que estava jogado descuidadamente sobre as cobertas.
– Hey, Art, eu vou ver como fica esse troço. Você tem certeza que isso cabe em mim? – Indagou, fazendo uma careta.
– Ele era do meu pai, não meu. Vai caber em você – Explicou Arthur, encarando o gibi aberto em uma página aleatória.
– Seu pai deve ser um cara de classe. – Comentou Alfred, alheio ao fato de Arthur ter implicitamente lhe chamado de gordo.
– É. Ele dizia que eu também devia ser, por isso me emprestou um dia, pra que eu usasse quando ficasse mais velho – Um sorriso triste ocupou as feições do punk, e a sua voz vacilou. – Eu tinha quatorze anos quando ele foi assaltado e levou dois tiros.
Alfred largou a roupa, abismado. Ao tentar alcançar o olhar de Arthur, encontrou-o imóvel, apenas fitando inconscientemente uma cena de ação da revista.
–... Eu sinto muito, Art...
– Tudo bem. – Ele engoliu em seco. – Não precisa sentir.
E realmente não precisava. Porque Arthur não queria que Alfred tivesse pena dele. Ele tinha ódio e repulsa de quem alimentava um sentimento desses por ele. Não queria que olhassem para ele tristemente, desejando não estar em seu lugar, e fazendo-o remoer as lembranças que ele preferiria esquecer. Não queria ser uma dessas pessoas consideradas fracas e perdedoras. E era parcialmente por isso que sempre fingia não se importar com o que lhe afetava profundamente.
– Desculpa. – Alfred abaixou a cabeça, sem saber o que dizer. O clima tinha se tornado melancólico tão subitamente. – Se você preferir, eu posso não usar hoje...
– Fui eu que quis emprestar pra você, então você vai usar – Arthur tentou tornar a voz mais firme, ainda encarando o gibi sem prestar nenhuma atenção. – Pega e vai provar.
– Tem certeza?
– Anda, Alfred, eu ainda quero os biscoitos. – Ele tentou parecer sério, jogando de lado a revista. Mas em seu olhar era possível ver a dor que aquilo lhe causava, como se tivessem lhe cutucado uma ferida antiga.
O nerd suspirou, carregando o cabide com a roupa para o banheiro do seu quarto, com um peso na cabeça. Não queria tê-lo magoado, mas como poderia saber que ele tinha perdido o pai?
Mesmo assim, sentiu remorso. Ainda havia muitas coisas sobre o punk que ele ainda não sabia, e de alguma forma, aquilo lhe deixava ainda mais curioso para descobri-las. Talvez se ele conseguisse arrancar todas as verdades sobre Arthur, desvendasse quem ele era realmente. Porque era óbvio que aquela máscara falsa escondia alguém diferente por dentro.
Assim que a porta do banheiro abriu-se, foi revelado um Alfred completamente desconhecido. Ele não parecia si mesmo com aquela roupa. Era como se tivesse passado de um nerd com seus moletons e calças jeans para um rapaz maduro e elegante. Como se não apenas tivesse trocado de roupa, e sim de personalidade. Arthur apenas o fitou, inexpressivo, ainda sentado no mesmo lugar em sua cama.
– Ficou bom?
Sim, aquele smoking realmente caiu bem nele, como o punk teve que confessar. Tanto que o seu rosto tingiu-se de carmim no momento em que seus olhos esverdeados caíram sobre a figura do loiro. E tudo que conseguiu raciocinar naquele momento girava em torno de como Alfred estava bonito. Porém Arthur não diria isso em voz alta de forma alguma.
– E a gravata? – Resmungou, fingindo completa indiferença.
Alfred olhou para baixo, onde segurava a gravata nas mãos, e depois para os lados, nervoso.
– Ah, eu... Estava pensando em ir mais esportivo, sabe, a gravata é muito...
– Eu não acredito que você não sabe dar nó numa gravata, Alfred. – Arthur bufou, erguendo-se de modo impaciente.
– Eu sei sim, tá? – Mentiu Alfred, cruzando os braços como uma criancinha teimosa. – E você nem sequer usa gravata, não devia falar!
– Eu sou inglês, lembra, Alfred? – Arthur entoou enquanto arrancava o pedaço de pano azul-marinho das mãos do outro.
– Espera, o que você vai... – Tentou Alfred, mas o punk já passava a gravata pelo seu pescoço e segurava as duas pontas na frente.
Alfred simplesmente observou-o manejar a peça de vestimenta com dedos ágeis e certos do que faziam. Seus olhos extremamente verdes nem piscaram enquanto fitavam o trabalho que fazia, embora Arthur parecesse fazer aquilo com verdadeira facilidade.
– Pronto, idiota. – Disse num resmungo, puxando o nó para cima e inconscientemente arrumando o colarinho da camiseta do nerd.
– Você faz isso muito bem. – Alfred murmurou, com apenas os cantos da boca elevando-se num sorrisinho bobo e divertido.
O olhar de Arthur ergueu-se e acidentalmente trombou com duas safiras claras e límpidas como o céu num dia ensolarado. Mas elas pareciam estar brevemente embaçadas, como se algumas nuvens a cobrissem, ao que ele fitava Arthur com aquele sorriso idiota no rosto.
O contato visual não demorou muito, no entanto, porque as bochechas de Arthur não demoraram a corar e forçá-lo a desviar repentinamente o rosto, empurrando de leve o corpo de Alfred. Arthur deu alguns passos para trás, afastando-se, meio desajeitado, e agiu como se nada tivesse acontecido. No entanto, ainda havia um frio em seu estômago que insistia em agravar-se sempre que olhava para o nerd.
– Agora está pelo menos apresentável – Arthur disse, avaliando o traje do nerd de braços cruzados.
Alfred estava observando, impressionado, a sua própria figura no espelho da parede. Ergueu as sobrancelhas e sorriu, fazendo pose.
– É mesmo. Eu fiquei bem mais gato com essa gravata. – E deu uma piscadela.
Arthur emitiu um som que poderia ser classificado indiretamente entre uma risada sarcástica e um resmungo de desaprovação.
– Ah, não mente, Art, eu tô parecendo um daqueles galãs de séries britânicas. Saca só – E fez outra pose heroica, sem conseguir tirar os olhos da própria imagem. – Eu sou incrível.
–… Devia me agradecer por fazer tudo isso por você, pirralho.
O nerd olhou para ele dessa vez, com duas joias azuis e sérias.
– Obrigado, Art – Disse, com a voz mais tranquila e confiante possível. – Você salvou a minha noite hoje. Se não fosse por você, eu nem sequer sabia o que ia usar no jantar.
–… Tch – Fez Arthur, olhando para o lado vagamente com uma careta nas feições, talvez para disfarçar o embaraço. — Só precisava me dar os biscoitos, idiota.
– Relaxa, tenho certeza que eles já devem ter cozinhado. Você pode levar um monte pra casa, é meu agradecimento! – O nerd sorriu abertamente, como de costume. Em seguida, abriu a porta do quarto e berrou para fora: — Mãe! Os biscoitos estão prontos?
Foi ouvido um fraco “Sim” da cozinha, ao que Alfred escancarou a porta e saiu saltitando. Arthur seguiu-o, tentando não parecer animado com a ideia de provar outra vez aqueles biscoitos impressionantes – porque tudo que o punk tinha o prazer de degustar eram aqueles biscoitos e scones que acompanhavam o chá da tarde desde que ele era uma criança, mas nenhum se comparava aos da Sra. Jones – enquanto tentava conter um sorrisinho que ele mesmo não conseguia explicar por que estava ali.
–
Foi por volta das quinze para as seis da noite que Arthur saiu da casa dos Jones, carregando uma sacola de papel carregada de biscoitos. A mãe de Alfred realmente tinha preparado vários, e o nerd insistiu para que ele levasse quase toda a fornada. Ela não pestanejou, pelo contrário; Ao ver o próprio filho vestido tão elegantemente, sentiu-se grata pelo garoto que antes pensara mal, e para redimir-se, forçou-o a levar os lanches. Arthur agradeceu com modéstia e educadamente, impressionando a mulher.
Pelo horário que Arthur saiu, ainda tinha tempo para voltar para casa, arrumar-se e esperar por Drake.
Arthur sentiu um frio no estômago ao lembrar-se daquela festa... E o que faria nela. Sim, é claro que ele já havia namorado muito com o outro punk, mas agora ele queria algo diferente... E Arthur não sabia ao certo se estava pronto. Ele não sabia... Se aquilo era certo. Se fazer algo assim com Drake... Era certo.
Suspirou. Já tinha se preocupado com aquilo durante o dia inteiro. Era melhor se acostumar logo com aquela ideia. Ele e Drake eram namorados... E namorados faziam aquilo. Assim como... Alfred e a sua namorada.
Um breve incômodo adicionou-se ao desconforto inicial do garoto. Alfred também tinha alguém que gostasse dele... Mas ele não sabia como era o seu relacionamento, apesar de que aquele tal jantar que havia sido comentado dizia bastante. E aquela roupa elegante... Ah, Alfred estava bonito naquele smoking...
E o garoto, sentindo a água morna do chuveiro a atiçar as suas costas, começou a repassar os momentos daquela tarde na mente. Alfred. O smoking. Os biscoitos. A gravata. E como ele simplesmente criara coragem para amarrá-la nele? Arthur não sabia. Tinha sido natural. Assim como aquele breve e acidental, beirando o imperceptível, contato visual por um centésimo de segundo...
– Não – Arthur gritou contra os seus próprios e involuntários pensamentos. – Não isso de novo...
Ele não podia... Não podia cometer outro deslize. Não agora. Era simplesmente... Errado. Ele não podia e não queria trair Drake.
Mas era tudo tão confuso... Por que esses pensamentos voltaram logo naquele momento, e com ainda mais força e influência sobre o garoto do que antes? Antes, ele podia ignorar qualquer ideia que sua mente alheia lhe desse e falar alguma coisa ofensiva para Alfred – mas que nunca lhe afetava – para encobrir o que realmente queria dizer. Agora ele não se sentia mais tão capaz de fazer aquilo como antes. Ele estava perdendo para os próprios sentimentos.
Acompanhado pela onipresente velha amiga “raiva de si mesmo”, Arthur terminou o banho e vestiu-se com uma de suas calças de couro pretas e justas, uma camisa de manga qualquer e uma de suas melhores jaquetas de couro, adornada com spikes e bottons. Enquanto calçava os tênis Converse de cano alto, ouviu o celular tocar uma música punk rock e o rosto de Drake aparecer na tela. Atendeu apoiando-o no ombro.
– Hey, Art. Já tô te esperando aqui na esquina! – Disse o punk do outro lado da linha.
– Tá, eu já tô saindo – Arthur assentiu e logo encerrou a ligação, guardando o aparelho no bolso e apressando-se em calçar-se e sair do quarto.
O punk tentou descer as escadas sem fazer nenhum barulho, visto que a sua mãe estava na sala vendo algum programa do Discovery Home&Health na televisão. Mas é claro que foi pego, assim como todas as noites que saía. Só que na maioria das vezes, Elizabeth não falava nada – apenas deixava-o ir. Exceto naquela vez.
–... Filho? – Chamou ela, flagrando o garoto de cabelos vibrantes na penumbra do cômodo. -... Arthur, eu queria... Conversar com você.
– Eu vou sair.
– Ah... Sair. É claro, você sempre sai... Todos os dias. – Ela murmurou, agora de cabeça baixa. Fez silêncio por um breve período de tempo, mas Arthur sabia que ela iria continuar, então usufruiu de um pouco de sua paciência e esperou-a. – Eu queria saber pra onde você vai tanto.
– Não é nada, mãe – Disse Arthur, seguindo em direção à porta com pressa. – Eu vou indo...
– Filho.
Ele estava segurando a maçaneta, porém parou.
– Não se envolva em nenhum problema... Por favor.
O tom de voz dela era tão... Triste. Tão decepcionado, e ao mesmo tempo tão preocupado. Ela se preocupava muito com o filho. Queria saber o que ele tanto fazia, com quem ele estava andando, mas Elizabeth simplesmente não conseguia nem conversar com o próprio filho a essa altura. Ela se sentia como se estivesse sendo uma terrível mãe.
E Arthur apenas abriu a porta e saiu, sem respondê-la. Desceu apressado a varanda e alcançou a calçada, caminhando na direção esquerda. Na esquina não muito distante, havia uma pessoa em uma moto, sem capacete e com alguma coisa laranja chamativa na cabeça.
Drake não podia pegá-lo na frente de casa, porque obviamente sua mãe não iria gostar de ver o seu filho andando com alguém como ele. E ainda mais se descobrisse que esse alguém era mais do que um simples alguém, que estava almejando o corpo de seu filho sem nenhuma peça de roupa ao seu dispor.
Um sorriso esticou-se no rosto de Drake à medida que Arthur vinha em sua direção, notando o jeito como os seus quadris oscilavam e em como ele estava sexy naquela roupa. O garoto sorriu de volta, meio nervoso, lembrando-se do que ia acontecer àquela noite, com aquela pessoa à sua frente.
Arthur aproximou-se e o outro roubou-lhe um beijo voraz, puxando-o pela gola da camisa. Surpreendido, mas não apenas por isso e sim porque não se sentiu capaz o suficiente, Arthur hesitou em retribuir, e apenas teve sua boca invadida pela língua do outro punk. Não que aquilo não fosse comum. Não que eles nunca tivessem se beijado daquela forma. Entretanto, Arthur simplesmente não conseguiu retribui-lo daquela vez.
– Art? Tudo bem?
O menor fez um leve menear de cabeça, sorrindo sutilmente. Mas na verdade, tinha sim algo errado. Um pequeno detalhe escondido lá no fundo, que poderia ser tachado de insignificante, mas que de alguma forma afetava imensuravelmente o garoto.
Porém, Arthur ignorou tudo aquilo e sentou-se atrás de Drake na moto, como de costume, abraçando-o pelas costas, mais para ter apoio do que para qualquer outra coisa. E deram partida.
–
Alfred pensou nunca ter se sentido tão nervoso na vida no momento em que viu a sua namorada sair daquele carro naquela noite de sexta-feira. Na verdade, Madeleine estava linda, trajando um vestido deslumbrante numa cor meio perolada, e seu cabelo cor de caramelo estava preso em um coque elegante.
O problema estava ao lado dela, uma massa enorme de um corpo vestido em um terno imaculado. Ele tinha os mesmos olhos da filha, mas diferentes do dela, os dele não eram delicados e sim agressivos. Apenas pelos olhos dele, Alfred conseguia ouvi-lo mentalmente berrando “Não toque na minha filha ou eu te arranco o pinto, seu adolescente vagabundo de bunda mole!”. Em suma, o senhor Williams era apavorante.
Alfred olhou para o homem, o homem olhou para Alfred, e eles se encararam até que Maddie tocasse o ombro do pai e pedisse para que ele fosse gentil e viesse falar com aquele garoto desajeitado ali na frente, que por acaso era o namorado de sua filha.
– Alfie – Disse Madeleine, e correu para abraçá-lo sem consentimento, ao que o homem grunhiu.
Alfred arregalou os olhos com o olhar severo do pai de Maddie, e tentou desvencilhar-se dela.
– B-Boa noite, senhor Williams – Balbuciou Alfred, fazendo uma leve reverência, assim como tinha visto nos tutoriais que procurara na internet à tarde.
– Boa noite. – Foi o que o homem disse, com uma voz típica de um lenhador canadense. Alfred sabia que ele estava avaliando-o de baixo a cima com o maior senso crítico que podia ter, e o garoto começou a sentir o suor grudando a sua camisa social à pele das costas.
– Er... Está uma linda noite, não? – Alfred sorriu de nervoso. –... Deveríamos entrar?
O homem sério apenas assentiu, mas manteve-se parado no mesmo canto, colado ao chão. E encarando Alfred, que estava mentalmente implorando para que ele não o esquartejasse com um machado de cortar lenha.
– Ah... Primeiro as damas – E abriu espaço para que Maddie passasse, fazendo outra reverência. O homem soltou um ruído qualquer, mas não disse nada, seguindo a filha pela passarela que dava na porta principal do restaurante.
Alfred inspirou fundo e expirou, contando de um até três para criar coragem, e então seguiu-os para dentro do estabelecimento.
O senhor Williams estava falando com um homem da recepção, provavelmente sobre a mesa reservada. Madeleine aproximou-se de Alfred durante a distração do pai e murmurou:
– Relaxa, Alfie – Disse ela, tranquila. – Ele vai ser legal, a gente já conversou sobre isso. É só agir naturalmente.
– Agir naturalmente... Tá. – Concordou Alfred, embora ele não estivesse agindo nada naturalmente. Porque se ele fizesse isso, realmente ia ter sua cara esbofeteada pelas mãos enormes e peludas daquele cara.
Em seguida, os três foram guiados até uma mesa perto da varanda do restaurante, passando por vários garçons com bandejas de prata, clientes bem-vestidos em todas as mesas e ouvindo uma música clássica ao fundo, proveniente de um piano em um pequeno palco onde estava um velho senhor tocando.
Alfred puxou uma cadeira para Madeleine, e agradecendo, ela se sentou. O garoto estava prestes a pegar o lugar ao lado dela quando o homem simplesmente alcançou-o e roubou a cadeira, sentando-se ali.
Maddie reclamou baixinho para o pai, que a ignorou. Alfred não teve escolha a não ser sentar-se no outro lado da mesa, suspirando.
Alfred estava procurando por um assunto para puxar e tentar conquistar um pouco da simpatia do homem, mas este logo se apressou em chamar um garçom e fazer um pedido, acenando com a mão.
Um dos garçons do estabelecimento logo chegou à mesa, carregando um bloquinho. O Sr. Williams olhou o cardápio, assim como Alfred, e ponderou um pouco.
– Se gostaria de uma sugestão, senhor – Disse o garçom educadamente – recomendo o Boeuf Bourguignon especial do chefe e uma garrafa de um delicioso vinho tinto.
– Ah, parece interessante! – Alfred respondeu, rindo do nome jocoso do prato.
– Hm – Fez o Sr. Williams, e Alfred olhou para ele com expectativa, mas ele só hesitou.
– É, pai, eu concordo com o Alfred. – Incentivou Maddie.
– Então tá. – O homem soltou um breve suspiro, afastando o cardápio. — Pode nos trazer esse prato, por favor?
– Claro. Bebidas de preferência?
Enquanto o Sr. Williams falava com o garçom sobre o vinho que acompanharia o jantar, Alfred olhou para Madeleine com gratidão nos olhos. Ela sorriu imperceptivelmente, tentando lhe dar um pouco de segurança, mas as mãos do garoto ainda estavam suando, e ele tentava exasperadamente enxugá-las na calça.
E tentou conversar com o Sr. Williams, puxando qualquer assunto que lhe vinha à cabeça, embora com a maior cautela que podia, pois se falasse algo de errado... Não queria imaginar as consequências. Apenas comentou sobre o tempo, política, faculdades, e falou de si mesmo – um pouco mais do que devia, mas bem, era Alfred -, torcendo para que desse uma boa impressão ao homem. Felizmente, a carranca inicial dele havia se desfeito um pouco, entretanto não totalmente. Bem, era um começo. Aos poucos, Sr. Williams ia aprender a gostar de Alfred… Ou não. Nesse caso, era bastante improvável que ele continuasse com Madeleine. E ela era algo que o garoto não queria perder. Ele não queria voltar a ser um nerd solitário sem nenhuma namorada e boca virgem de antes (ainda que ele ainda continuasse sem provar o gosto de um beijo de verdade...). Ter uma “namorada” lhe fazia menos perdedor do que a sua reputação dizia antes. Não que Alfred agora fosse popular. Mas era um pouquinho de vantagem que ele não queria jogar fora.
O garoto estava tentando emendar um papo sobre política com o Sr. Williams – mesmo que não soubesse absolutamente nada sobre o assunto – quando os pratos chegaram, sendo dispostos sobre a mesa uma porção minúscula (mas de uma aparência saborosa) de um bife suculento. O garçom encheu meia taça de vinho para Alfred, que pensou em recusar, mas felizmente ponderou e concluiu que seria indelicado. Ele nunca havia tomado álcool, mas... Era apenas vinho.
– Bon Appetit – disse o garçom, curvando-se para os clientes. – O chef Bonnefoy espera sinceramente que apreciem o jantar.
– Chef Bonnefoy? – Indagou o Sr. Williams.
– Sim?
– Perdão, fala do Sr. Jean Bonnefoy? Eu creio que o conheço – Williams franziu a sobrancelha, coçando o queixo. – Poderia ter uma palavra com ele?
O garçom assentiu e voltou para a cozinha. Poucos minutos depois, o tal Bonnefoy direcionou-se à mesa. Era um homem aparentemente na meia-idade, de cabelos loiros e compridos, olhos azuis e um bigode e barbicha tipicamente franceses. Aquele homem era a França em pessoa.
Assim que o chef viu de quem se tratava, abriu um sorriso simpático e cumprimentou:
– Edgar Williams, Mon ami!
Ah, não, eles se conheciam. Alfred tentou não bufar, já ficando sem paciência de ficar ali sentado, se matando para impressionar um homem, que ainda parava para conversar com o chefe amigo de infância, ou sabe-se lá o que fosse.
– Jean! Há quanto tempo!
– Fazem muitos anos, não é?
– Vejo que conseguiu o que almejava na vida! É um belo restaurante. A comida está ótima.
O garoto à mesa apenas comia, alheio à conversa formal e superficial entre o pai da namorada e um homem que ele nem conhecia – mas que fazia um ótimo Boeuf Bourguignon. Madeleine também estava quieta, e seu pai começou a apresentá-la para o velho amigo:
– Esta é a minha pequena Madeleine – e a garota cumprimentou educadamente o chef. – O meu outro filho, Matthew, ficou em casa. E este aqui é o... Este é o...
– Alfred – Grunhiu o garoto, de cara feia. – Eu sou o namorado dela.
O Sr. Williams apenas pigarreou, e ninguém comentou nada.
– Que belo nome de sua filha! – Sorriu o francês. – O meu filho já está prestes a ir à faculdade. Ele quer fazer gastronomia... Como tem talento, o meu Francis!
– Oh, eu gostaria muito de conhecê-lo.
Alfred rolou os olhos enquanto a conversa se seguia, mas o olhar de Maddie implorava para que ele mantivesse a calma. Então o garoto se conteve até o papo ter fim e o chef francês desejar “Bon Appetit” naquele sotaque extremamente francês.
E quando o jantar entediante recomeçou, Alfred passou a checar constantemente as horas, esperando para sair daquela situação desconfortável. O ponteiro maior do relógio clássico em uma parede do restaurante dava a volta lentamente, sem pressa, como se quisesse zombar do garoto apressado; enquanto o menor permanecia sobre o número nove. E ficou lá, por um período de tempo que pareceu realmente maior do que era.
Então se perguntou aleatoriamente onde Arthur estaria naquele momento. Pelo visto, ele tinha um compromisso à noite, mas o nerd não fazia ideia do que ele estava fazendo àquela hora. Mas esperava que não estivesse aprontando. Aquele punk podia ser bastante encrenqueiro.
–
– Ei, de verde! Você é o namorado do Drake? – Alguém chamou em um berro, tentando elevar a voz à música de rock barulhenta que tocava dentro da casa.
Arthur estava literalmente perdido no meio da massa de pessoas de moicanos variados e rostos cobertos de piercings – bem, ele se mesclava naquela multidão – quando alguém lhe chamou. Ele olhou na direção do som, pensando ter ouvido alguma coisa que não era a música, e conseguiu enxergar um dos amigos de Joey um cara que usava os maiores alargadores que Arthur já tinha visto na vida (aquilo sim era bizarro), sentado com umas quatro ou cinco pessoas.
– Ei, garoto, vem aqui! – Repetiu, e Arthur não ouviu, mas agora que fitava o cara e seus alargadores, pôde ler os seus lábios e entender que ele estava lhe chamando. Então escapou do meio da multidão e chegou à cozinha, onde o grupo do cara que tinha lhe chamado estava sentado no balcão, rodeados de latinhas e garrafas de vidro. E então o cara dos alargadores repetiu: – Você é o namorado do Drake, né?
– É, sou sim.
– Pega uma aí – E atirou uma lata de cerveja em Arthur, que felizmente a agarrou.
– Valeu – Agradeceu Arthur, prontamente abrindo a lata e tomando um gole. Ele já tinha se acostumado a beber cerveja, embora tentasse moderar. Não apenas por ter consciência de que álcool não era saudável, mas porque conhecia histórias e boatos sobre ele mesmo quando ficava bêbado. E sempre que ficava bêbado fazia besteira. E nunca era capaz de lembrar lucidamente o que acontecera noite passada.
– Nada, cara. Se é amigo do Drake, é amigo da gente, né? – Disse o até então anônimo rapaz, com um sorriso matreiro, recebendo apoio dos que estavam atrás dele.
Como não conseguiu encontrar o namorado, Arthur achou melhor ficar ali mesmo, apenas tomando de sua latinha – que acabou se tornando duas e três –, conversando sobre qualquer assunto que estivessem puxando e observando os punks dançando, bebendo, se beijando nas paredes ou simplesmente parados, olhando para o nada e fumando.
E então a mente de Arthur começou a inconscientemente indagar onde estaria Alfred. Como estaria se saindo no tal jantar chique com o pai da irmã de Matthew? Era um passo e tanto no relacionamento dos dois, como o punk teve que assumir. Agora Alfred devia estar namorando sério, de verdade, com Madeleine. Arthur suspirou, tentando impedir os pensamentos de invadirem sua cabeça, mas era inevitável. Ele ficava bastante incomodado quando pensava naquilo. Que Alfred tinha alguém.
Where is your boy tonight?
I hope he is a gentleman
Bem, ele mesmo também tinha. Drake era importante para Arthur, claro, e ele deveria ser grato por ter alguém que gostasse dele de verdade. Todavia... Aquele nerd tinha ocupado um espaço enorme em sua cabeça, sem pagar aluguel, consumindo os seus pensamentos e recusando-se a ir embora.
Talvez um pouco mais de álcool desse um jeito de curá-lo daqueles devaneios idiotas. E essa foi a conclusão impensada que Arthur tomou naquela noite, enquanto alcançava a outra latinha de cerveja que o grupo dos punks lhe oferecia.
–
Quando todos os presentes na mesa terminaram o Petit Gateau da sobremesa, o Sr. Williams pediu a conta. E Alfred perguntou-se se devia pagar ao menos uma parte dela. Bem, seria cavalheiro de sua parte, mas o nerd não trouxera dinheiro nenhum.
Ótimo. Como se aquele homem já não tivesse gostado de si, agora o garoto não tinha quase nenhuma chance de surpreendê-lo. Durante a noite, Alfred tinha tentado de tudo para fazer amizade com o Sr. Williams, mas sabia que não era bom o suficiente. Ele não pretendia estudar medicina ou direito, e também não tinha muitas habilidades, além de gostar de gibis e desenhos de criança. E apesar de todo o seu ego avantajado, Alfred teve que admitir que ele não tinha realmente o perfil de um adolescente qualificado o bastante para passar na prova de ser aceito pelos “sogros”.
Podia até imaginar: o Sr. Williams iria brigar com Madeleine e forçá-la a terminar com o garoto, assim como fez quando descobriu sobre as cartas. Alfred não o culpava, na verdade. Ele tinha justificativas baseadas na realidade, enquanto o garoto apenas portava o seu orgulho próprio e força de vontade como seu escudo e sua espada.
Mas o Sr. Williams não pareceu se importar muito se o garoto pagaria ou não. Devia saber que um pirralho de dezesseis anos não gera renda sozinho para ser capaz de pagar um jantar em um restaurante daqueles. Além disso, era quase sempre o “pai da noiva” quem pagava tudo.
Eram onze e meia da noite quando Alfred despediu-se educadamente do Sr. Williams, que surpreendentemente ofereceu-lhe uma carona. E mais atipicamente ainda, Alfred recusou, explicando que podia pegar um táxi. Ele não queria ir sentado no banco de trás sozinho enquanto o pai de Maddie sussurrava coisas sobre a impressão que tivera do garoto.
Por sorte, o Sr. Williams resolveu ser conveniente e dirigir-se logo ao carro, enquanto Madeleine se despedia de Alfred. Assim que o garoto achou a distância do homem segura, virou-se para a namorada:
– Maddie, você acha que ele... Me achou legal? – Perguntou o garoto, num tom de voz preocupado. Ele ainda estava tão nervoso quanto quando chegou no restaurante e viu o homem ameaçador pela primeira vez. Porque sabia que agora ia ser avaliado.
– Sim, Al, você foi bem – Assegurou Madeleine, apesar de não ter tanta certeza assim. – Eu vou conversar com ele.
– Ah. Tá. – Alfred disse, meio aéreo, e respirou fundo. – Ótimo.
A garota olhou em seus olhos, forçando-o a retribuir. Ela estava bonita, foi o que Alfred pensou. Um adolescente normal beijaria a sua namorada, ainda mais ela estando tão bonita como naquela noite de junho.
– A noite foi muito boa – Ela disse numa voz baixa, e sorriu. – Fiquei feliz por você ter vindo.
– É... É, foi legal – Alfred tentou, tropeçando nas palavras.
E ela não respondeu – apenas fitou seus olhos azuis, como se estivesse esperando. Como se suas intenções não fossem óbvias o suficiente, à medida que se aproximava vagarosamente de Alfred e fechava os olhos.
O loiro engoliu em seco, encarando a garota vulnerável a poucos centímetros de si. Não conseguiu se mover, porém ele podia sentir a respiração suave e o perfume dela envolvendo-o, à medida que sua boca ia chegando mais perto... E um pouco mais perto...
Madeleine estava tão focada em seu objetivo que se esqueceu do seu pai, que assim que observou o que estava prestes a acontecer, fez a questão de buzinar repetidamente, chamando-a para entrar no carro.
Ela fez um ruído de frustração com a boca, mas antes de se afastar, depositou um beijinho na bochecha de Alfred, que ainda estava paralisado. Madeleine se despediu com aquela típica gentileza e doçura e saltitou para dentro do carro do pai.
O garoto ainda ficou ali por alguns instantes, pensando em todos os eventos do jantar. Será que ele realmente tinha ido bem? Será que o pai de Maddie lhe aceitaria? Tinha sido uma noite cheia e cansativa psicologicamente, então tudo que Alfred queria era voltar para casa e esconder-se nos lençóis mornos com o resto dos biscoitos que sua mãe preparara à tarde.
Mas mal sabia ele que aquela noite de sexta-feira tinha só começado.
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