Stray Heart
18 Missing You
Notas iniciais
Matthew sentiu como se estivesse prestes a explodir. Seu rosto estava enrubescido, e ele demorou para encontrar as palavras, sentindo-se estúpido por passar tanto tempo mudo diante de um Francis que esperava esperançosamente por uma resposta.
–... Eu também... G-Gosto dos seus olhos, Francis – murmurou, tão baixo que se Francis não estivesse tão perto, não ouviria. Matthew não conseguiu prender os seus olhos no par de orbes azuis diante de si por muito tempo após a sua declaração boba, e tentou secar o suor das mãos nas calças.
Entretanto, não tendo resposta nos quinze segundos que se seguiram, o canadense foi forçado a olhar para o francês, perdido. E encontrou um leve sorriso nos seus lábios. No começo, Matthew imaginou que Francis estivesse rindo de si e da sua completa inabilidade para reagir a uma confissão.
– D-Desculpa, isso foi terrível, eu sei... – Ele começou, escondendo o rosto nas mãos. –Você... Você é perfeito demais, e eu não... Não sei o que falar, me desculpa, eu...!
Matthew foi cortado pela risada do outro. Francis começara a rir, não escandalosamente, como se reagisse a uma piada, mas de uma maneira realmente doce e envolvente.
– Você é tão bobinho, cher – Sussurrou Francis, levantando ambas as mãos para tocar as faces de Matthew, erguendo o seu rosto. – E adorável.
O mais novo mirou-o com olhos bem abertos, como reação ao sentimento do calor das mãos de Francis sobre o seu rosto. Suas mãos continuavam a suar e o seu rosto provavelmente estava na mesma cor, mas dessa vez, ele não conseguiu tirar os olhos de Francis. Como se ele fosse capaz de transmitir alguma energia nas pessoas que as incapacitasse de desviar.
No entanto, ele fechou os olhos quando Francis se aproximou ainda mais de si, até o ponto em que suas respirações se encontravam. Ele depositou um beijo afetuoso em cada um dos lados do seu rosto, na altura da bochecha, e só então tocou-lhe os lábios, devagar e carinhosamente, como se o canadense fosse realmente delicado.
Naquele instante, Matthew jurou que seus batimentos eram velozes o suficiente para fazê-lo ter uma síncope. Ele queria esconder seu rosto em algum lugar longe dali, mas por outro lado preferia que fosse no peito de Francis. Porque ele era tão bonito e tinha um perfume tão bom...! O seu beijo era de alguém claramente experiente, mas o garoto não se importava de quantas bocas ele já tocara com aqueles lábios habilidosos, porque devia achar um privilégio imenso ganhar um beijo tão bom quanto aquele.
Estava divagando tanto que mal percebeu quando Francis afastou-se de si e já tinha os próprios olhos abertos. Sentiu-se ainda mais estúpido quando notou que estava na mesma posição de antes, com os braços ao lado do corpo, sem se mover. Entretanto, ele não sabia se podia ficar mais corado depois daquilo.
Francis parecia achar engraçado o embaraço do mais novo, e tinha um sorrisinho no rosto enquanto acariciava o rosto dele com o polegar. Matthew abriu a boca com o intuito de falar alguma coisa para quebrar o gelo, mas fechou-a logo depois por perceber que não era realmente necessário, e um sorriso envergonhado tomou seu lugar. Nenhum dos dois falou nada por um tempo, mas o silêncio não era realmente desconfortável.
Matthew tinha uma sensação de alegria e paz nele que não sentira nenhuma vez com uma pessoa a não ser Francis. Não queria que aquela sensação passasse, e muito menos que o francês fosse embora. Queria ficar com ele ali, o dia todo, e mais dias e meses e todo o tempo do mundo. E foi naquele momento que percebeu que ele era sim capaz de gostar tanto de alguém como gostou de uma pessoa que o decepcionou no passado.
–-
Alfred tentava sofregamente digitar direito com as suas mãos que haviam começado a suar. Ele parou depois da última mensagem recebida e olhou à sua volta, checando se não havia ninguém o espiando – como se o que estivesse fazendo fosse tão sigiloso quanto uma missão de agente secreto. Sua mãe tinha ido para algum lugar atrás do tal Jean, o pai do francês com cara de baguete. O garoto começara a duvidar que ele não era só um “chefe” para ela, mas pouco se importava realmente. O evento importante estava acontecendo ali, com aquele celular.
Ele não pensou muito no momento em que “roubou” o telefone de Matthew de cima da mesa e resolveu espiar as conversas. Sabia que não seria nada educado da sua parte, mas sua curiosidade o venceu – afinal, tratava-se de Arthur. E Alfred sempre quis saber o que Arthur falava dele para os outros. Será que ele era honesto em relação a isso, ou ainda fingia que não se importava com nada?
Alfred precisava descobrir. Com certeza, falar pela voz de Matthew era um método bem mais fácil do que ir até sua paixonite atual e confessar cara a cara. Entretanto, o garoto não era muito de pensar nas consequências e nos cuidados que devia tomar.
Ele secou as palmas das mãos nas calças e leu as últimas mensagens rapidamente, quase engolindo as palavras.
“Eu-
Eu sei...
Ele já me ajudou várias vezes quando eu precisei e
Eu acho que... sou meio injusto com ele”
“eu tbm acho...
vai ver ele so quer que vc goste dele tbm, art”
Alfred enviou a mensagem e recostou-se na cadeira com um suspiro, sem tirar os olhos da tela. Uma parte interior dele tinha esperanças de que Arthur entendesse a mensagem implícita naquela frase. Mas a outra parte sabia que era extremamente improvável.
“será...?
Engraçado, matt, você nunca me chamou de art antes
Não que isso seja um problema”
A mensagem seguinte chegou um pouco depois, como se Arthur estivesse incerto se deveria enviá-la ou não.
“... Mas Alfred costuma me chamar assim”
O suor voltou a se acumular nas mãos de Alfred, e ele começou a tentar pensar numa réplica convincente. E a sua mente começou a ir de um lado para outro para decidir se seria uma boa ideia confessar-se para Arthur ali. Era claramente arriscado. Se o punk dissesse que o reciprocava (e ele dizer isso por si só já era algo bem difícil), Alfred se sentiria mais seguro para dar o primeiro passo – se é que ele realmente pretendia fazê-lo. Mas o caso mais provável era que Arthur não o imaginasse dessa forma e passasse a lhe olhar estranho da próxima vez que se encontrassem. Talvez até resolvesse jogar a amizade deles no lixo.
Ele deve ter passado tempo demais fitando a tela e se distraído com a foto de Arthur, porque quando se deu conta do que estava fazendo, viu sua mãe voltando para a mesa em passos rápidos e apagou todas as mensagens que enviara antes de colocar o celular no lugar no qual estava. Ela estava com um sorriso meio aéreo pregado no rosto maquiado quando chegou ao filho. Alfred quase jurou que o batom dela estava borrado, mas resolveu não pensar muito sobre o motivo.
Ela sentou-se e suspirou, pegando um petisco que tinha sobrado em cima da mesa.
– Ah, não acha o Sr. Bonnefoy um charme de pessoa? – Ela sonhava enquanto mordia um docinho.
– Não acho – Rebateu Alfred, desanimado.
– Ele é bonitão, rico, francês e ainda por cima solteiro. Não é incrível?
– Uhum. Vocês já estão namorando ou o quê?
– O quê? Que absurdo, filho, é claro que eu não o namoro! Eu gostaria, sim, mas imagina! – Ela disse, e Alfred só assentiu com a cabeça.
– Ok, mãe, mas se você me obriga a falar sobre namoradas, devia me falar dos seus também – Ele soltou antes de parar para pensar se realmente devia, mas por fim imaginou que sua mãe não podia concluir nada daquela frase. Afinal, Alfred falava para ela sobre as namoradas, mas não sobre os – pretendentes a – namorados.
O garoto tentou se esquivar do assunto e levantou-se antes que ela pudesse falar alguma coisa, com o propósito de ir devolver o telefone de Matthew.
Ele olhou na direção da mesa dos Williams, pensando se seria melhor deixar o objeto com eles. No entanto, havia Madeleine, e ele não queria nenhum mal a ela, mas preferia ficar distante do seu campo de visão. Era claro que ela ainda estava bastante magoada, e Alfred sabia que ela tinha razão para isso.
A melhor alternativa era procurar por ele e devolver o aparelho, mas Alfred também não queria entregá-lo de volta quando podia estar trocando mensagens com Arthur por ali. Resolveu esconder-se em algum canto antes de achar Matthew e devolver o celular apenas para acabar com aquela conversa de uma forma convincente. Ele não queria jogar aquela oportunidade no lixo, pensando bem.
Ele saiu da casa pelos fundos, indo parar no que parecia ser o jardim. Tudo ali era vivo, verde e bonito, e tinha um ambiente realmente tranquilo e pacífico. Alfred não prestou muita atenção no que estava à sua volta, porém, e continuou caminhando enquanto fitava a tela do celular, pensando no que deveria responder a Arthur.
Então começou a se sentir um covarde por esconder-se detrás da máscara de outra pessoa daquela forma. É claro que ele queria ter coragem o bastante para ir até a casa de Arthur e falar para o rosto dele. Mas a verdade era que Alfred ainda tinha medo. Não de Arthur, mas de que ele o rejeitasse. Era tudo o que ele temia.
Ele foi tirado do seu transe assim que ouviu o seu nome ser proferido a alguns metros de distância, e ergueu o rosto para encontrar o dono do celular, parado sob uma árvore com Francis Bonnefoy, o cara de baguete.
– Alfred? – Perguntou Matthew, com uma expressão confusa, e fez o francês se virar para trás para enxergar o outro garoto. – O-O que veio fazer aqui...?
Ele piscou, mais para tentar entender a situação do que para proteger os olhos do sol forte. Logo percebeu que ainda estava com o telefone de Matthew nas mãos e ergueu-o.
– Você deixou o celular lá na mesa, aí eu tava te procurando pra devolver – Soltou rapidamente, como se fosse uma desculpa esfarrapada, mas era quase a verdade mesmo.
O canadense pareceu soltar um discreto suspiro de alívio. Pelo menos ele não tinha visto nada. Mas... Qual seria realmente o problema se ele visse? Será que ele e Francis teriam de esconder dos outros o seu relacionamento? Espera, eles já tinham algum tipo de relacionamento?
Preferiu deixar essas perguntas para depois e emitiu um monossílabo de afirmação, caminhando até Alfred para receber o objeto.
– Ah. Obrigado – Agradeceu assim que pegou o telefone, indiferentemente. Estava um tantinho chateado por Alfred ter atrapalhado o seu momento com Francis, mas se foi por uma boa razão da sua parte, tinha de ser educado.
– Eu não mexi nele, tá! – Disse Alfred, erguendo ambas as mãos na defensiva. – Tipo, não que você tenha perguntado, mas... Só pra deixar claro!
– Tá – Replicou Matthew, fazendo o máximo para tentar dizer implicitamente “cai fora daqui!” de um jeito educado.
Mas foi só quando Alfred travou olhares com Francis por um segundo que teve um instinto de sair dali. Definitivamente, não ia com a cara daquele francesinho (que precisava mesmo se barbear). Ele não sabia muito bem o motivo da sua aversão, como uma criança que não gosta de algo por pura birra. E por alguma razão, sentia como se tivesse interrompido alguma coisa – que preferia não pensar muito sobre agora.
Alfred deixou o jardim e teve que sobreviver ao resto da festa, sendo arrastado pela sua mãe, que continuava animada e sem parar de elogiar a comemoração e os franceses. Foi uma completa monotonia para ele – a comida sendo a única salvação -, e sua mãe queria ficar até o final, mas teve que ceder ao filho porque ele não parava de chateá-la para voltar para casa.
Ele passou o resto do dia tentando expulsar uma certa pessoa da sua cabeça, impotentemente. Vez ou outra fazia planos detalhados sobre como se declarar para ele, e tentava prever suas reações, mas era exatamente esse o problema. Alfred podia planejar suas ações e ensaiar as palavras certas mil vezes, mas Arthur era uma pessoa imprevisível. E isso, junto ao seu próprio nervosismo e insegurança, o impedia de fazer qualquer coisa.
–-
Arthur passou horas esperando por uma resposta na conversa, mas nada veio. Para tentar ignorar a frustração, tentou se distrair com música e filmes durante o resto do dia, mas continuava ansioso por alguma razão.
Será? Será que tudo o que Alfred realmente queria era que ele gostasse dele também? E... Em que sentido devia ser tomado aquele gostar? De uma forma amigável, ou... Ou... Mais do que isso?
O garoto parou para refletir sobre o assunto. Será que havia uma chance de Alfred gostar dele dessa forma? Mas não foi o punk quem o beijou, e ele quem não fez nada depois, como se nunca tivesse pensado nos dois daquela forma antes? Arthur até disse que sabia que ele não o via assim, e ele nem sequer se opôs.
Então o que queria dizer aquilo? Arthur não sabia se devia confiar naquelas palavras, ou acreditar que o silêncio de Alfred naquela noite tenha significado que não queria nada... Romântico. Talvez, se o perguntasse sobre e exigisse uma resposta honesta, conseguisse se livrar do problema. Mas e aí? Quais eram as chances de receber uma resposta negativa e se sentir ainda mais idiota? Era como pisar em um campo minado, e Arthur não fazia ideia de como percorrer esse caminho.
Ele nem sequer sabia sobre o que realmente sentia em relação àquele estúpido garoto de óculos. Mas estava ciente de que não era mais só amizade, e muito menos o irracional ódio que compartilhavam quando se conheceram – mais por parte do punk do que do outro, na verdade. O que era, então?
A palavra certa batia na porta, mas Arthur recusava a deixá-la entrar e encará-la de frente. Por enquanto, se contentava em deixar aquilo indefinido.
–-
O punk passou os dois dias seguintes preso dentro de casa e evitando ao máximo trocar palavras com a mãe e o irmão. Não era para ser tão ruim, já que estava acostumado a passar muito tempo sozinho, mas a pior parte era que ele não podia tocar um dedo na sua preciosa guitarra.
Na manhã do segundo dia, Arthur foi acordado por alguém falando muito alto no andar de baixo. Demorou um pouco para realmente despertar e entender que era a voz de sua mãe, mas para distinguir suas palavras, teve que sair do quarto. Encontrou-a na frente da porta do quarto onde Scott estava dormindo, batendo agressivamente na madeira.
– Scott, abra a porta agora!! – Ela bradou, sem receber resposta.
–... O que houve? – Arthur perguntou hesitantemente.
Elizabeth virou-se para trás para encontrar o olhar do filho mais novo, mas não lhe disse nada e voltou a chamar pelo outro com um tom cada vez mais alto.
Quando enfim o ruivo, com barba para fazer, abriu a porta com uma expressão irritada, ela mal lhe esperou falar.
– O que é, mãe?
– Scott, por quê... Por que a polícia acabou de ligar pra cá perguntando sobre você?
Ela mirou o olhar congelante nos olhos do mais velho, que ficou estático por um minuto, apenas encarando-a de volta.
– Scott, me responda – Insistiu a mãe, tentando controlar sua raiva. – Por favor.
Ele piscou indiferentemente na direção dela, e empurrou-a sem força para que pudesse sair do quarto e descer as escadas. Ela o seguiu, repetindo a questão várias vezes, tentando soar autoritária. Indignado, Arthur foi atrás dos dois, sem fazer a menor ideia do que estava acontecendo.
Assim que Elizabeth alcançou o filho, pegou-lhe pelo ombro e virou-o para que olhasse para ela.
– O que é? Para de me encher o saco! – Scott lançou antes que a mãe pudesse falar qualquer outra coisa, livrando-se da mão dela e indo até a cozinha.
– Eu só quero saber a verdade, filho! Ligaram... Ligaram aqui perguntando se eu sabia de algo sobre o seu paradeiro, e eu fiquei desconcertada...! – A voz dela agora tomou um tom triste. -Por que a polícia está te procurando, Scott?
– Não te interessa – Rebateu o mais velho, agressivamente, enquanto abria a geladeira para pegar comida.
– Interessa, sim! Eu sou sua mãe. E se você está na minha casa e do Arthur, nos deve todas as explicações!
– Ah tá, beleza, escuta essa então! Eu fugi de lá da Flórida, porque esses filhos da puta estavam pegando no meu pé! Agora não basta eles, é você também? Puta merda.
Elizabeth ficou paralisada por alguns segundos, tão chocada que ficou incapaz de achar as palavras certas. Eram claros a surpresa e o desapontamento no seu rosto, e ela teve que se apoiar na mesa da cozinha para continuar.
Arthur estava na porta, atrás dos dois. Ele tinha certeza que aquilo tinha sido algo chocante para a sua mãe, mas ele mesmo não parecia tão impressionado que Scott tivesse um histórico na polícia. No entanto, estava ficando irritado. Realmente irritado.
– Mas... Filho, o que você fez pra ser procurado pela polícia...?
– Que diferença isso faz? – Ele deu de ombros, arrancando um pedaço do pão com os dentes. – Eles não vão me pegar.
– E se pegarem? – Dessa vez, foi Arthur quem fez a pergunta. Elizabeth ainda estava quase em estado de choque. – E se pegarem, Scott? E se descobrirem que você tá escondido aqui?
– Eles não vão descobrir enquanto ninguém denunciar. – Declarou Scott, engolindo a comida antes de mostrar sua expressão debochada. – E eu sei que vocês não vão fazer isso.
A cabeça do mais novo estava começando a ferver. Ele deu dois passos até a mesa e deu um soco na superfície.
– Você acha?
Scott fixou o olhar no irmão por um instante, e depois quase soltou uma risada.
– Tu é muito menininha, Arthur. Não vai convencer ninguém, muito menos eu.
– Parem com isso – Interrompeu Elizabeth antes que Arthur pudesse pensar numa réplica. A voz dela denunciava que estava prestes a chorar. – Scott, eu não quero que você seja preso... Você é meu filho. Mas você fez algo errado... O que você fez, Scott? Por quê?
– Eu já falei que não é da sua conta – Ele abocanhou o último pedaço de pão como um animal carnívoro.
– Scott, responde a mãe. – Insistiu Arthur, entredentes.
– Cala a boca, Arthur. – Lançou Scott enquanto erguia-se da mesa.
Elizabeth aproximou-se do filho, para ficar diante dele, e pôs lhe as mãos nos ombros.
– Eu imploro, Scott – Ela pediu, lágrimas brilhando nos olhos. – Fale o que você fez!
– Já disse pra me deixar em paz!! – Ele gritou, perdendo o controle e empurrando-a para longe.
Elizabeth chocou o quadril contra a bancada e emitiu um grito de surpresa e dor. Ela ergueu o olhar no segundo seguinte, apenas para perceber que Scott estava voltando na sua direção, e que pretendia fazer alguma coisa.
Foi no momento em que ouviu a sua mãe gritar que Arthur correu para a sua frente, defendendo-a como se fosse um escudo, os braços erguidos para os lados e a respiração ofegante. Ele não tinha muita certeza do que estava fazendo, e sabia que Scott era imensamente superior a ele no quesito força. Mas ele simplesmente não podia fazer algo assim com a própria mãe.
Arthur o repudiava. E para tentar encobrir o medo na expressão, ele deixou que todo o seu ódio e desprezo transparecesse nela.
– Que porra tu tá fazendo? – Indagou Scott, mirando os seus olhos frios nos do irmão ao olhá-lo de cima. – Sabe muito bem que tu não é ameaça pra mim.
–... Não vou deixar você bater na mãe – Cuspiu Arthur, tentando manter a confiança em si mesmo. – Isso é coisa de gente covarde.
– Ah é...? Quem é covarde aqui?
Arthur respirou fundo e fechou os olhos momentaneamente. Ouviu sua mãe sussurrar um “não” detrás de si, mas ignorou-a como costumava ignorar as vozes da razão na sua consciência.
– Você, seu pedaço de merda.
Ele só viu o breve sorriso debochado de Scott antes que ele lhe agarrasse pelo pescoço, puxando-o para longe de Elizabeth e atirando-o contra um vaso de planta que ficava sobre um móvel no canto do cômodo.
Arthur sentiu a dor em várias partes do seu corpo quando ouviu os sons de estilhaço do vaso de cerâmica. O som seguiu-se de outro grito de Scott, não muito depois do outro rapaz grunhir de dor.
– Cala a boca, mulherzinha, que tu não tem direito de falar comigo desse jeito! – Ele ameaçou, apontando o dedo indicador para o garoto assustado, e em seguida para a mãe igualmente abismada. – Vocês dois. Parem de se meter na porra da minha vida!
Como se não estivesse satisfeito, Scott pegou a caneca sobre a mesa com um resto de café e atirou-a no chão, logo antes de se retirar da cozinha. Arthur e Elizabeth se encolheram com o som e ficaram parados até ouvirem o barulho da porta sendo trancada do andar de cima.
A mãe correu até o filho mais novo com urgência, seus olhos brilhando com lágrimas prestes a derramarem pelo seu rosto.
– Você tá machucado? Ele te machucou? – Ela perguntou, olhando e tocando no seu rosto e nos braços com cuidado.
– Não muito, acho que só uns arranhões – Disse Arthur, ele mesmo sem ter muita certeza se havia se machucado ou não. – E você?
– Eu estou bem, eu estou bem – Ela tentava falar entre uma fungada e outra.
Houve uma breve pausa, enquanto Elizabeth chorava e Arthur apenas a fitava. Ele não sabia se devia abraçá-la ou não. Ele não costumava abraçar a sua mãe, até porque situações para isso eram um pouco raras nos últimos anos. Além disso, eles ainda estavam brigados, e ele ainda estava chateado com ela.
– Arthur, eu não sei o que fazer... Eu não quero que ele vá preso, por qualquer coisa que ele tenha feito...
– Mas ele fez algo errado, mãe. Ele precisa pagar pelo que fez – O punk expôs a verdade, por mais que soubesse que ela não queria ouvi-la.
Elizabeth afastou-se do filho e olhou em volta com uma mão na cabeça, como se estivesse perdida e procurasse um caminho.
– Eu sei mas... Eu não sei se consigo... – Ela apoiou ambas as mãos na mesa, olhando para a madeira. – É meu filho, acima de tudo. Eu não quero colocar ele atrás das grades...
O que se seguiu foi apenas mais choro. Quando ela começou a soluçar, Arthur aproximou-se e acariciou seu ombro com cuidado. Ele a entendia, por mais que odiasse o seu irmão. Ela era a mãe dele, e se sentiria diretamente responsável por anos e anos em cárcere se o denunciasse para a polícia. E sentir culpa por alguém é um dos piores sentimentos, o qual Arthur conhecia muito bem.
–-
Quando Alfred soube que seus pais tinham entrado num acordo e que ele ia passar um mês com o seu pai na sua casa de campo, ele não soube muito como reagir. É claro, não via o seu pai há bastante tempo, e tinha saudades dele. Além disso, era sua obrigação visitá-lo de vez em quando. No entanto, ele sabia que ia passar todo esse tempo sem fazer literalmente nada. Sem conexão de internet, sem videogames... E ainda mais distante de Arthur. Não como se fosse fazer muita diferença de estar consideravelmente perto dele e ignorá-lo, mas era como se ele se tornasse ainda mais inalcançável.
Ele viajaria em três dias e só voltaria no final de agosto, logo quando as aulas retornassem. Arrumou uma pequena mala com roupas – sem se esquecer daquela camisa velha do Batman que se tornara algo estranhamente importante – e as coisas mais necessárias, incluindo o seu videogame portátil e o telefone celular. Ele não sabia se os dois sequer funcionariam naquele lugar meio deserto, mas só descobriria se tentasse.
Por fim, discutiu consigo mesmo se devia avisar a Arthur e a Matt que estaria longe por um tempo. Em relação a Matthew foi bem mais fácil, mas Alfred sentiu como se ele não se importasse realmente nas suas mensagens de resposta. Mas ele não tinha realmente falado com Arthur desde o... Desde cerca de duas semanas atrás, e os dois ainda estavam “congelados” nesse clima esquisito, ambos recusando-se a falar.
Ele demorou quase um dia para pensar e finalmente agir, pegando o celular e digitando a mensagem, tentando soar exatamente como quem não quer nada.
“art, so pra avisar, tipo
eu vou passar um mes na casa do meu pai, ai eu so volto quando acabarem as ferias e
so falandp caso vc pense em vir aqui
n que eu esteja pedindo que vc venha e
ok eu te vejo... por ai!!!! :D”
Enviou a última frase com um suspiro. Ele esperou por uma resposta, mas aparentemente Arthur apenas visualizou a mensagem e não enviou nada de volta. Será que estava o ignorando...? Por qual motivo ele faria isso? Bem... Talvez estivesse ocupado demais no momento para responder. Ou qualquer coisa.
Tinha certeza que ia gastar muito tempo pensando sobre Arthur, sobre aquela noite, e sobre o que sentia durante o tempo na casa de campo. Podia ser torturante, mas talvez fosse bom para ajudá-lo a decidir o que fazer a respeito. Afinal... Alguém precisaria agir se Alfred quisesse que os seus devaneios se tornassem realidade.
–-
Com o passar do tempo, Arthur sentiu como se estivesse voltando para a época na qual ele vivia sozinho. Só que naqueles dias, ele não se incomodava tanto. Agora, ficar só era como se fosse a pior coisa do mundo. Ele nem sabia se realmente sentia falta de quando era amigo daquele grupinho punk. Eles eram idiotas, tudo bem, mas ao menos Arthur tinha alguém com quem se divertir, com quem viver os seus dezessete anos e ser capaz de relembrar deles mais tarde. Ele sabia que não podia fazer aquilo sozinho, mesmo que agora tivesse permissão para ter a sua senhorita vermelha como companhia.
A sua mãe lhe devolvera o objeto depois do acontecido na cozinha com Scott. Desde então, o clima na casa dos Kirkland continuava pesado, e o irmão mais velho do punk não se comunicava mais com ninguém, apenas lançando olhares ameaçadores na direção dos outros. Arthur tentava convencer Elizabeth para que ela tomasse coragem e denunciasse-o para a polícia, mas ela contrariava tudo com o argumento de que “não podia fazer isso com um filho”. Ocasionalmente, como naquele dia em particular, Arthur também se irritava e regressava teimosamente para o quarto, onde passava boas horas dedilhando as cordas. E não ia muito além disso o que ele fazia durante esse tempo, por mais que estivesse tentando começar a compor músicas por si só para se livrar do tédio daquelas férias de verão.
Depois de um tempo, se cansou das notas repetitivas e ficou só deitado na cama, encarando o teto e deixando mil pensamentos flutuarem para dentro da sua cabeça.
Fazia cerca de duas semanas que não via Alfred, e para piorar, ficou sabendo que ele havia viajado. Mas era incomum o quanto sentia falta dele. Não era como o que sentia em relação a seus colegas do colégio, como tinha em relação a Matthew às vezes, mas como se Alfred fosse o que causasse mais impacto no punk. Como quando ele aleatoriamente se lembrava da risada estúpida dele, quando ria da sua própria piada ruim. De como quando Arthur tentava lhe ensinar a tocar, e ele fazia aquelas expressões genuinamente admiradas quando o punk tocava – ou dormia nos momentos em que ele tentava lhe explicar teoria musical. Ou de jogar travesseiros um no outro como se tivessem sete anos, além dos abraços extremamente confortáveis que ele devia ser capaz de dar – e que Arthur só conseguira uma vez, mas que definitivamente não era o bastante.
E também... De como Alfred era incrível e inesperadamente atraente para Arthur agora. Ele não sabia como tinha acontecido, mas alguma peça tinha sido trocada no seu cérebro para que ele pudesse parar por um minuto e notar – caraca, o Alfred é bonito. E estupidamente adorável.
Será que ele consegue ser sensual? Certo, ele não era o cara mais atlético do mundo, mas agora que a ideia lhe viera, Arthur começou a pensar em como ele seria sem uma camisa... Bom. Ainda melhor se também não existissem calças. Se não existisse nada, na verdade. Só Alfred. Alfred. Alfred...
Arthur fingiu que não tinha consciência do que estava fazendo quando passou a mão por baixo das próprias calças e das cuecas com um suspiro. Tocou o seu próprio membro com a mão direita, e então forçou a sua mente a continuar a formar cada vez mais imagens de Alfred.
Ele começou só acariciando de leve a ponta, se lembrando dos sorrisos doces e do abraço quentinho. Não demorou muito para que começasse a pensar em beijá-lo, primeiro com carinho, e depois com cada vez mais paixão e voracidade. Alfred despindo-se provocativamente diante de si, e pressionando-o contra a parede com urgência. Alfred deixando marcas no caminho do seu pescoço até o ombro, sentindo todo o seu corpo com as mãos.
Arthur já tinha começado a suar e passara a fazer movimentos constantes de vai-e-vem com a mão. Um suspiro relativamente alto escapou da sua garganta, e ele teve que parar para checar se a porta do quarto realmente estava fechada na tranca. Não queria nem pensar no quão embaraçoso seria se sua mãe ou seu irmão o vissem.
Na sua fantasia, Alfred estava arrancando todas as vestes de ambos e passando a lhe dar um oral como se fosse um profissional de vídeos pornô. De quatro sobre Arthur, com o rosto suado e vermelho e olhos semicerrados de desejo. Beijando-o, lambendo-o, masturbando-o, provocando-o infinitamente.
Arthur acelerou o ritmo à medida que as imagens iam se repetindo na sua cabeça. Pelo visto, literalmente qualquer coisa que tivesse Alfred nela o excitava. Um gemido meio engasgado lhe escapou, e ele tapou a boca com a mão livre, fechando os olhos forçadamente.
O que não conseguiu impedir foi dizer o nome dele. Na primeira vez sentiu-se envergonhado consigo mesmo, mas depois acreditou que não tinha muito motivo para negação àquela altura. Agarrou um travesseiro para abafar o nome proferido entre os suspiros e gemidos sutis que insistiam em fugir da sua boca, e continuou como se não fosse mais capaz de parar. Por mais que soubesse que sentiria remorso mais tarde, era tão bom...!
Arthur emitiu um som gutural no travesseiro no momento em que sentiu que estava chegando ao seu limite e gozou, agarrando-se aos lençóis com a mão esquerda.
Ele virou-se para cima enquanto recuperava a respiração normal e tirou a franja da testa suada, puxando para trás os fios. Esticou o braço apenas para pegar um lenço da caixinha que ficava sobre o criado-mudo e limpar o abdômen, e voltou a se deitar na cama com um suspiro pesado.
–... Merda – Sussurrou consigo mesmo, com um estalo de língua frustrado em seguida.
Ficou fitando o teto por algum tempo, tentando colocar seus pensamentos em ordem. Mas estava tudo tão bagunçado que ele sabia que já não era capaz de arrumar.
Certo, era Alfred. Ele era o problema. Mas era um problema que Arthur descobriu desejar como nunca desejara alguém antes. E era embaraçoso, diferente e confuso, mas também de uma forma positiva — como se toda vez que pensasse nele, uma espécie de calor reconfortante aquecesse seu corpo e alma como uma lareira numa noite de inverno.
Por que Arthur teve que ser um apressado idiota e beijá-lo naquela noite? Certo, nem ele mesmo sabia o que tinha na cabeça naquele momento, mas... Só sentia como se fosse o certo a fazer. Porque... Porque ele gostava de Alfred. Exatamente. Ele ainda era apaixonado por Alfred, e por isso que ele costumava lhe deixar louco.
Agora Arthur finalmente entendia o que queria. E, naquele momento, tudo o que queria remetia a uma pessoa apenas. Que estava a milhas de distância de si.
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