Stray Heart

15 Fell for You


Notas iniciais
Pensei que fosse terminar isso antes, mas a minha segunda quinzena das férias foi mais ocupada do que imaginei. Enfim, consegui terminar um mês e um dia depois da última atualização. Queria dizer que fiquei muito contente com os novos leitores que vêm aparecendo nessa fic, e que a apreciam! Sério, aqui um BOLO ENORME pra todos vocês. Prometo que vamos avançar mais nesse capítulo, ainda que tenham que ler milhares de palavras de enrolação. Enfim, espero que gostem!

O plano de fechar a porta com a maior cautela possível e fugir silenciosamente para o quarto não deu certo para Arthur, pois assim que adentrou a casa, deu de cara com sua mãe parada à sua frente.

– Arthur Kirkland. – Ela começou, e o garoto não a ouvia naquele tom há anos. – Eu não acredito que você se meteu em uma briga.

– Err... Eu vou explicar – Tentou Arthur, mas Elizabeth o pegou pelo braço e o puxou para dentro.

– Não vai explicar nada agora com essa cara quebrada.

Durante a trégua momentânea, ela colocou gelo no nariz do garoto enquanto reclamava sobre como não suportava mais vê-lo saindo sem explicações e voltando para casa assim. Arthur recebeu uma xícara de chá e bebeu quietamente – o líquido quente fazendo as feridas nos seus lábios arderem – antes de realmente conversar com a mãe. Ela se sentou com sua própria xícara, mas não deu um gole. Parecia bastante séria.

– Aquele seu amigo, Alfred...

– Sim, foi... Foi com ele que eu briguei, mas foi uma briga idiota... Ele se desculpou...

– Ele veio aqui antes e estava preocupado demais com você pra ter brigado logo depois.

Arthur suspirou. Acusar Alfred não era uma boa ideia, afinal. Além disso, ele se sentia mal fazendo isso, porque na verdade Alfred tinha o salvado de ter apanhado mais.

– Ele também me disse que você estava andando com uns... Punks. – Ela fez silêncio, esperando que Arthur explicasse, porém ele nem abriu a boca. – Quem são essas pessoas, Arthur?

– Er... São uns amigos meus – Fez Arthur sem muita certeza, e sua mãe estreitou os olhos. – Mas por mais que não pareça, eles são gente boa... Alguns deles.

Pensou em Drake por um segundo. Ele definitivamente não devia falar de Drake. Drake era a causa de toda aquela bagunça que se tornara a sua vida. Quando pensou em Drake, também se recordou de que ainda não havia falado com ele.

– O que você faz com esses amigos?

– A gente... Tem uma banda, e ensaia muito.

Ambos sabiam que não era só isso que ele fazia. Contudo, ela apenas assentiu.

– Foi com algum desses amigos que você brigou?

– Uhm... – Ele mesmo não sabia a resposta. “Amigos” entre aspas estavam de fato envolvidos, ainda que o tal dos alargadores nunca tenha sido algo próximo a isso. Mas como explicar isso à sua mãe omitindo a parte que namorava há mais de um mês com um motoqueiro de moicano laranja? – Na verdade, não.

– Arthur, eu sou sua mãe. Eu me preocupo e quero saber com quem está andando. Será que dá pra você explicar honestamente pra mim? É só o que estou pedindo.

Era estranho ver Elizabeth tão séria a ponto de se sentar com o filho para conversar honestamente. A última vez que tivera uma conversa assim com ela foi quando Arthur tinha doze anos e chegou em casa com um olho roxo e lágrimas nos olhos, na época em que sofria bullying dos outros garotos. Foi um pouco antes de confessar sua sexualidade para a família.

–... Tem um cara que não gosta de mim por algum motivo. E uma garota também, que pensei ser minha amiga, mas... – Ele começou, olhando para o líquido dentro de sua xícara. Elizabeth agora estava verdadeiramente atenta. – Eles meio que armaram pra cima de mim. Foi com esse cara com quem briguei mais cedo. Os amigos que o Alfred mencionou não têm nada a ver com isso – ele emendou, ainda que com pouca convicção.

Elizabeth suspirou. Ela nunca gostara de como o filho era, em aparência. Todas as suas amigas sempre pensavam que ele tinha se tornado um desses traficantes sem rumo na vida. Mas ela nunca pôde fazer nada. Não queria forçar no filho o que ela queria que ele fosse. Por mais que ele pintasse o cabelo todo mês com aquele verde berrante, tivesse todos aqueles piercings no rosto, se vestisse com aquelas roupas grosseiras, ou – até mesmo – fosse gay... Era seu filho, do jeito dele. É claro que queria que ele fosse um garoto normal com amigos normais e voltasse a se vestir com aqueles suéteres que usava antes de se tornar um rebelde. Arthur era um garoto quase impassível e muito orgulhoso, e como mãe ela sabia muito bem sobre isso.

Vez ou outra ela sentia como se fosse culpada daquilo também. Sabia que o divórcio tinha afetado Arthur, e que foi a partir disso que ele passou a mudar. Ela não tinha muito o que fazer a essa altura. Mas não quer dizer que não ia fazer nada.

–... Uma semana em casa. – Ela disse firmemente, e Arthur ergueu a cabeça de imediato, pego de surpresa.

– O quê?! – Ele bradou e inconscientemente deu um soco na mesa, o que fez as duas xícaras tintilarem. – Mãe, eu não posso passar uma semana em casa!!

– Mas isso é um castigo, acho que você... Não tem muita escolha.

– Eu não já expliquei o que aconteceu? Pra quê o castigo? Você nunca me põe de castigo – Protestou Arthur, estupefato.

– Agora eu estou pondo. Decidi que é melhor... Ser menos liberal com você.

Arthur rosnou para o teto, passando as mãos pelo cabelo. Uma semana em casa! Como iria falar com Drake agora? Ele não poderia vir, e Arthur não podia falar sobre ele com a mãe. Ele passaria mais uma semana pensando que Arthur tinha desistido dele, e que os boatos eram verdadeiros. Puta merda, Alfred, precisava ter falado sobre os punks? Se não tivesse mencionado, dava pra enrolar com alguma coisa e fugir do castigo!

– Argh, mãe, você não entende! – Ele começou a fazer uma birra sem fundamentos e se levantou da mesa, deixando o chá pela metade. – Eu tenho coisas pra resolver! Não pode me colocar de castigo como se eu tivesse doze anos!

– Elas vão ter que esperar, filho.

Ele desistiu de argumentar e rugiu reclamações enquanto se retirava da cozinha, os pés esmurrando o chão. Subiu para o quarto e se trancou lá, exatamente como um garoto de doze anos faria depois de ser condenado a um castigo. Jogou o corpo na cama e grunhiu quando bateu o nariz na superfície acolchoada antes de se virar para deitar de costas.

– Ótimo. – Ele disse sarcasticamente para o teto, prestes a rir da sua própria desgraça. Descobrira que haviam terríveis boatos sobre ele sendo espalhados por aí, levara uma surra e fora humilhado, e ainda por cima ganhara de bônus um castigo de uma semana. Com certeza, um dos melhores dias da sua vida. Será que havia alguma coisa que não tivesse sido uma merda sobre aquele 4 de Julho?

Havia Alfred, mas Arthur não sabia dizer se ele tinha sido algo bom ou ruim de imediato. Relembrou-se da tarde que passara com aquele idiota. E em como tinha sido divertido. Em meio a toda aquela confusão, se esquecera disso. Se esquecera de que... Alfred se preocupara tanto consigo. Ele não era acostumado a isso, então não sabia como reagir. Não sabia se ele merecia isso. Se merecia um... Amigo tão atencioso. Parando para pensar, ele não se lembrava de ter chamado Alfred de amigo. Até porque ele não sabia o que Alfred era.

Ele era alguém inesperadamente especial agora. E Arthur nunca pensou que fosse se envolver tanto com alguém como ele. Foi aí que acabou acidentalmente desenterrando uma memória. Ele tinha... Uma espécie de queda por Alfred antes de Drake. Sempre preferiu negar isso, porque pensou ser só uma carência idiota da sua parte, e sentia raiva de si mesmo por pensar naquilo. Tanto negou que acabou se esquecendo da ideia quando se aproximou dos punks.

E agora estava tudo estranho. Alfred estava mais presente. Drake andava sumido. Elizabeth era mais rígida. Arthur já não sabia mais explicar o que causara aquela confusão que invertera tudo em tão pouco tempo.

A última coisa que se lembrou de visualizar mentalmente antes de cair no sono foi um sorriso em especial, que era estupidamente cativante, e tão persistente que não saiu da sua mente nem mesmo enquanto dormia.

–-

Matthew chegou em casa com um pequeno sorriso desenhado no rosto. Tinha ficado na casa de Francis, lendo livros e conversando até a lua nascer. Já estava escuro, mesmo que não fosse tarde, e casa estava mais silenciosa do que de costume.

Ele pôs a sacola com um pouco de torta que sobrara da sobremesa e que o pai de Francis insistira em dá-lo para compartilhar com a família em cima da mesa na cozinha. Sua mãe e seu pai estavam sentados no sofá da sala, ela assistindo a um interessantíssimo comercial de sabão em pó, e ele com um computador no colo.

Cumprimentaram o filho, que falou brevemente sobre os Bonnefoy e a torta. Seu pai pareceu contente e assim que soube da sobremesa, largou o computador e foi à cozinha.

– Deixa um pedaço pra Maddie, amor. Acho que ela precisa de algo bom pra animá-la – Avisou a Sra. Williams.

Matthew juntou as sobrancelhas sutilmente.

– O que houve com ela? Pensei que ainda estivesse na casa do Alfre... Do namorado dela.

Ela suspirou levemente e baixou o tom de voz, quase sussurrando:

– Parece que... Ele terminou com ela. – Disse, e a expressão de Matthew mudou no mesmo instante. – Ela chegou em casa chorando e não quis falar com ninguém, nem comigo...

–... Eles terminaram? – Matthew parecia surpreso. Não sabia muito a respeito do relacionamento da irmã com Alfred, mas não esperava que fosse ter um fim tão rápido. E qual o motivo? Estava triste por ela, porém curioso, não podia negar. – Eu posso tentar falar com ela...

– Não sei se ela quer que alguém entre lá agora...

– Eu levo um pouco da torta.

Matthew foi à cozinha e partiu uma fatia pequena da torta que seu pai estava comendo como se fosse feito por anjos.

– O Jean nunca decepciona! – Ele elogiava enquanto dava mais uma garfada. O garoto riu sutilmente, pegou um talher e foi na direção do quarto de Madeleine.

Respirou fundo antes de bater cautelosamente na porta. A resposta não foi tão gentil quanto:

– Sai daqui, pai!! Não quero mais falar com você! – Bradou ela, com a voz visivelmente embargada.

– Sou eu – Ele disse, tentando ser o mais gentil e cuidadoso possível. – Posso entrar...?

Ela fez silêncio por um instante. Sem resposta, Matthew repetiu:

– Maddie...?

–... Entra – A voz saiu tão baixa que o garoto mal ouviu a palavra corretamente. Mas tomou como um sinal de aceitação e girou a maçaneta devagar.

Ela estava sob um lençol na cama, e Matthew não podia ver o seu rosto. Mas ainda estava fungando e tentando se controlar. Ele fechou a porta e colocou o prato de torta sobre a mesinha ao lado da cama. Ficou um bom tempo pensando no que falar.

– Um, Maddie... Sinto muito pelo... Alfred. – Ele começou, sem saber como consolá-la direito. – Você... Quer conversar comigo, ou...

Ela assentiu ligeiramente sob o lençol, e fungou mais uma vez. Parecia prestes a falar, então Matthew ficou quieto e escutou, já que fazia aquilo bem.

– Eu... Tinha acabado de dar o presente dele... Será que ele não gostou? Ou será que ele nunca gostou de mim em primeiro lugar...? – Ela devia ter recomeçado a chorar de novo. – Eu só tava... S-Só tava tentando dar um passo a frente, mas ele continuava fugindo... Por quê? Será que ele... Conheceu outra garota melhor do que eu...? Com mais curvas e um sorriso mais bonito...?

–... Eu não sei... Talvez – Ele disse, e ela soluçou. Matthew tentou logo arrumar o que tinha feito. – O-O que eu quis dizer é que... Às vezes as pessoas não conseguem... Gostar de você de volta. E a gente não pode... Forçar isso nelas, por mais que seja ruim pra gente. – Ele fez uma pausa, olhando para o vazio, e quase sentiu vontade de chorar também. – E aí a gente tenta seguir em frente... Porque existem muitas outras pessoas no mundo pra a gente conhecer, e talvez se apaixonar de novo.

Assim que Matthew terminou, o choro da garota havia quase se silenciado. Ela saiu de debaixo do lençol para olhar para o irmão, com os olhos ainda vermelhos.

– Matt... Isso já aconteceu com você alguma vez?

–... Er, talvez. – Ele deu de ombros e fez o máximo esforço para elevar os cantos da boca.

Ela pareceu um pouco triste por ele, mas não perguntou mais nada. Apenas agradeceu com um fraco, porém gentil “Obrigada”.

Matthew percebeu que o clima estava um pouco melhor e apontou a torta para ela. Em seguida, saiu do quarto e deixou a irmã com sua privacidade outra vez. Ele tomou um banho, comeu o jantar e foi dormir cedo, pensando sobre tudo em geral. Sobre Francis, sobre Madeleine e Alfred, sobre Arthur. Apesar disso, conseguiu ter uma boa noite de sono, agarrado ao seu ursinho polar de pelúcia.

–-

Parecia até que Alfred estava doente. Acordou relativamente cedo, tomou café e assistiu ao noticiário da manhã com a sua mãe se perguntando se Arthur estaria bem. Queria parar de focar nele um pouco e pensar em como passar de fase no videogame. Só que não era tão fácil quanto parecia.

Tivera um sonho estranho, ao menos era isso que se lembrava. Também se lembrava que Arthur estava nele. Os dois estavam em uma... Sala de conferência, usando uniformes militares. Não tinha nenhuma lógica, mas ele nunca tivera um sonho com Arthur antes, então deixou aquilo grudado na cabeça.

Considerou até ligar para Arthur e relatar o seu sonho para ele. Entretanto, aquilo não se tornou ação. O loiro imaginou que ele ainda pudesse estar dormindo, e não queria atrapalhar. Ou talvez, na verdade, não tivesse coragem de ligar e usasse aquilo como desculpa.

Ele passou a tarde jogando no videogame portátil e tentando juntar as peças ilógicas daquele sonho, para formar algo com sentido. Apenas pelo final da tarde foi que ele resolveu deixar de procrastinar e ligar para ver se estava tudo bem. Ainda estava de pijamas e deitado preguiçosamente na cama.

Porém, antes mesmo de dizer alô, Arthur começou a falar:

– Alfred, hoje eu vou fugir de casa. Preciso que me traga uma escada à meia-noite em ponto, eu vou descer da janela do meu quarto, então a minha mãe vai pensar que estou dormindo.

– Pera, o quê? Como assim fugir? – Indagou Alfred, pasmo. Era bom ouvir a voz de Arthur de novo, de verdade e não num sonho, e ele não sabia o motivo.

– Você tem algum problema de audição? – Ele usou um pouco do seu inacabável estoque de sarcasmo. – Minha mãe tá me prendendo em casa. Eu só posso sair quando ela pensar que eu estou dormindo. Não posso fazer barulho, também, por isso quero a esc—

– Pra que você quer sair de casa à meia noite?!

– Eu tenho... Pendências pra resolver.

–... Você vai atrás daquela cacatua. – Acusou Alfred, sua voz se tornando amarga de um instante a outro.

– Não é da sua conta...

– Até parece que eu vou te ajudar a se encontrar com aqueles maconheiros de moicano. – Ele não se sentiu bem ao ser grosso com um pedido de Arthur, mas apenas estava sendo sincero.

Arthur resmungou um ou dois palavrões e estalou a língua.

– Então vou ter que pular da janela, e quando eu estiver no hospital com um braço quebrado, você vai se arrepender.

– Eu ia mesmo, mas não quer dizer que vou te ajudar a fugir de casa. Você já deve ter levado um castigo da sua mãe.

– É, e foi culpa sua! Agora vou ficar uma semana tentando fugir sozinho sem quebrar a merda do meu braço. Belo amigo você é!! – O punk deixou escapar, sem perceber do que tinha chamado o outro.

Alfred não respondeu por alguns segundos. Amigo... Claro, Arthur era seu amigo agora. Ele mesmo dissera isso. Amigo.

– Boa sorte com isso – Ele respondeu, com o tom de voz um pouco mais contente. – E... Er, Art, como tá a sua... A sua cara?

“‘Como tá a sua cara’. Que charmoso, Alfred. Foi pra isso que você ficou pensando em ligar o dia todo?!”, o loiro falava consigo mesmo.

– Hm? Ah, sim. Tá uma merda completa, se quer saber. – Ele suspirou audivelmente, e Alfred focou no suspiro dele por um instante. — Exatamente como ontem, só que sem o sangue. E com mais roxos.

– Você... Colocou gelo no seu nariz ontem?

– É, coloquei – Arthur respondeu automaticamente, e hesitou por dois segundos. -... E você?

– Só tô com um hematoma ocupando a metade do rosto – Alfred explicou, mais contente do que deveria, a considerar sobre o que estavam falando. Mas Arthur tinha perguntado como ele estava também.

– Hm... – Murmurou Arthur de volta. Seria aquilo no seu tom de voz uma pitada de remorso? – O que você disse pra sua mãe?

– Contei que você tinha se metido com uns papagaios neón, e eu cheguei no momento certo pra esbofetear eles como um herói. – Arthur bufou com escárnio. – Ela não aprovou muito, né, até porque eu nunca brigo com ninguém, mas... Foi por uma boa causa.

– Tch. Ela te deu algum castigo?

– Não ia adiantar, já que eu não saio tanto de casa. Mas não posso tocar no meu bebê até eu pegar a licença...

– Huh, ainda um nerd idiota.

Alfred riu um pouco, na esperança de que Arthur risse também. Entretanto, ele apenas fez aquele som de desprezo com a língua.

– Ugh, a minha mãe tá me chamando pra ajudar em alguma coisa. Como se não fosse demais esse castigo infernal. Vou desligar.

– Ok. Até mais, Art – Despediu-se Alfred, alegre por poder ser tão amigável com Arthur agora. – E não pula da janela!!

Ele desligou sem responder, mas ainda assim conseguiu deixar um sorrisinho no rosto de Alfred. Aquela ansiedade que sentia antes tinha praticamente ido embora só de ouvir a voz de Arthur. Como é que um amigo tinha uma influência tão poderosa sobre ele?

And I went down like the speed of sound

You're out of sight but not out of mind

Ah, amigo. Arthur tinha lhe chamado de amigo, ainda que sarcasticamente. Alfred não sabia se ele tinha usado a palavra naturalmente ou se era só uma espécie de brincadeira que não devia ser levada a sério. Porém, Alfred já estava levando Arthur a sério. Ele prestava mais atenção em tudo o que ele dizia, em como a voz dele constantemente mudava com seu humor, em todos os detalhes do rosto dele, e em coisas que não costumava notar muito antes, ainda que fosse uma pessoa meio alheia a essas coisas. Se lembrava de terem dito que ele não sabia ler a atmosfera e entender o que as pessoas realmente querem dizer. Mas agora, com Arthur, ele estava praticando. Até porque o punk era a pessoa com a personalidade mais complicada que ele já conhecera.

Estava perdendo tempo demais se sentindo “Arthur”, tanto que até se esqueceu de que tinha magoado uma garota no dia anterior. Sabia que devia sentir remorso, mas simplesmente não conseguia. Ainda não tinha contado para a sua mãe, nem para Arthur ou para ninguém.

Ele não queria ser grosso, mas também não queria pensar mais sobre isso. Não havia como desfazer o que já tinha feito. Então pegou o videogame e começou o mesmo jogo outra vez.

–-

Arthur apareceu na cozinha com uma carranca enorme no rosto – que ainda estava coberto de hematomas. Estava com o cabelo bagunçado, um emaranhado de verde, e vestia uma camisa de banda e calças de pijama. Não se importou de passar o dia todo na roupa de dormir, tocando guitarra no porão e planejando métodos de fuga.

– O que foi, mãe? – Resmungou ele.

– Me ajuda a secar a louça, Arthur.

Ele fez um ruído animalesco, mas pegou a toalha e começou a passá-la nos pratos que a sua mãe lavava com pouca boa vontade. Não muito depois, ela voltou a falar:

– Depois quero que você vá ao quarto do Scott, pra me ajudar a fazer uma limpeza...

– Pra quê você vai limpar o quarto do Scott? – Arthur perguntou, fazendo uma careta e secando o prato com mais força. – Ele não tá na faculdade?

– É, mas ele está nas férias de verão. Ele vem passar um tempo aqui.

– O quê?! – Bradou Arthur, franzindo as sobrancelhas. – E desde quando ele liga pra gente?

– Não diga isso, Arthur...

– Mas pra quê o Scott ia querer sair da Flórida, perto das praias lotadas de garotas com bunda, e voltar pra cá? Não tem nenhuma lógica – Zombou Arthur, mais cínico impossível.

Ele conhecia o seu irmão, e por isso mesmo era estranho que ele abrisse mão de ficar o verão na praia para voltar e ver a família. Não tinha muita lógica, considerando-se de que estava falando de Scott, que entrara na faculdade com esforço, aos vinte e três anos, porque só pensava em vadiar com mulheres. Arthur odiava mulheres, e odiava Scott, porque ele sempre tirava sarro dele por odiar mulheres.

Só podia ser um pesadelo. Arthur se perguntou se devia mesmo ter reclamado da semana sem sair de casa. Agora estava tudo virando uma tempestade.

– Ele é independente e pode ir para onde quiser. Ele vem, e ponto. – Finalizou Elizabeth, para a irritação ainda maior de Arthur.

O punk teve que conter sua frustração num rosnado e descontar nos pratos, colocando-os no armário de louças com barulho. Provavelmente não teria paz durante o tempo que seu irmão estivesse em casa.

Como sobreviver a todas essas situações? Honestamente, tudo o que Arthur queria era que todos os seus problemas se extinguissem sozinhos, porque ele não podia fazer nada a não ser ficar trancado em casa a tocar sua Strato.

–-

No segundo dia de castigo, Arthur já estava cansado de tudo. A guitarra estava jogada de lado, e ela era praticamente a única coisa que ele tinha para se entreter. Tentou ler alguma coisa ou assistir uma série, mas tudo parecia entediante e vago. Ele passou a perambular pela casa, se arrastando para a cozinha e voltando, cantarolando alguma música do Green Day pelo corredor, com sua mente vaga.

Tentou ligar para Drake duas vezes, e não foi atendido em ambas. Ele já estava ficando mais acostumado com a ideia de que talvez o punk desistira dele. Entretanto, achou melhor não confirmar nada até o castigo acabar. Quando estivesse finalmente livre, voaria até o trabalho dele e teria a tão adiada conversa.

Às três da tarde, Arthur decidiu tomar medidas drásticas. Nunca estivera com tanto tédio assim durante as férias de verão. Após a mensagem que mandou para Alfred, este apareceu em sua casa quinze minutos depois, com aquele sorriso quase onipresente em seu rosto.

Porém, assim que seus olhos caíram sobre Arthur, o sorriso se tornou uma boca aberta em surpresa.

– Quem é você?! – Ele indagou, fingindo estar muitíssimo espantado.

Arthur franziu as sobrancelhas, por um segundo sem compreender. Quando se deu conta do motivo do choque de Alfred, ele passou as mãos pelos novos cabelos vermelhos ligeiramente.

– Sou Scott, o irmão do Arthur – Ele decidiu entrar na brincadeira, forçando uma voz grossa, enquanto Alfred entrava e tirava a jaqueta. – E quem é você, moleque quatro-olhos?

Alfred riu com a provocação. “Moleque quatro-olhos” era algo do que era chamado tão frequentemente que estava se tornando um apelido carinhoso.

– O seu irmão é tão machão assim?

– Nem me fala daquele idiota. Ele vem passar duas semanas aqui. Eu não sei como eu vou sobreviver. – Arthur se jogou no sofá da sala e pegou o controle da tv.

O garoto loiro se sentou ao lado do punk, e tirou de sua mochila cerca de seis DVDs dos seus filmes favoritos, mostrando-os para Arthur. Enquanto ele olhava-os sem muita curiosidade, Alfred notou os hematomas no seu rosto. Achou melhor não comentar mais sobre isso.

– Ele é muito chato? – Continuou Alfred, não se esquecendo do assunto.

– É, ele... Eu e ele nunca fomos muito amigáveis uns com os outros. Ele me enchia muito o saco quando criança, e isso piorou depois que eu... Falei que eu... F-Falei da minha sexualidade.

– Oh – Emitiu o outro garoto, fitando o punk de cabelos vermelhos que fingia ler o verso da caixa de um DVD. Então ele já confessou isso pra a família, concluiu mentalmente. Então adicionou esse fato para a pasta “Fatos sobre Arthur” que existia em sua cabeça.

Ele queria perguntar mais sobre aquilo, mas aquele pedacinho da sua consciência disse que era melhor não forçar Arthur a falar. Se lembrou da vez em que acidentalmente o fez relembrar o seu pai, e houve aquela atmosfera triste e desconfortável no ar.

– O seu cabelo ficou legal. Combina com você – Foi o que ele disse, sem pensar muito. Quase sempre deixava sair essas coisas, como se elas estivessem em sua boca o tempo todo, prontas para serem faladas quando houvesse a ocasião. Geralmente, ele as dizia mesmo quando não era a ocasião própria. E também não sabia como transformar suas ideias em palavras que soassem bem.

Na realidade, aquelas não eram palavras totalmente honestas. Se Alfred fosse tão honesto quanto gostaria, poderia contar a Arthur que ele constantemente passeava por sua mente. E dizer como ele tinha sorte de ser dotado daquelas íris de um tom de verde que aparentava ser tão ácido quanto sereno, refletindo a personalidade do garoto. Gostaria de contar que sempre nota quando ele está distante nos seus devaneios, e seus olhos ficam inquietos, sem certeza de onde se afixarem. Ou quando percebe que alguém estava o encarando com tamanha ternura, e suas orelhas se colorem com um pouquinho de vermelho.

Arthur ficava bem de vermelho. Contanto que não houvesse sangue nem machucados arruinando seu rosto.

– Usei tinta da minha mãe escondido – Ele confessou, e permitiu-se sorrir um pouco.

– Ah, sim, quase esqueci que você é um anarquista rebelde que rouba tinta de cabelo e quer fugir de casa de noite – e o garoto de óculos foi acertado por uma caixa de DVD.

Acabaram por assistir um filme sobre fantasmas ou algo do tipo. Particularmente, Arthur se interessava por fantasmas e esses assuntos, mas Alfred soltava um grito sempre que algo “sinistro” acontecia. O punk ficou incrédulo com o quão covarde e patético o amigo se mostrava, porém no momento em que ele se agarrou ao seu braço, choramingando depois de um susto, sentiu um arrepio morno percorrer seu corpo.

Após o filme e depois de Arthur conseguir se livrar do garoto agarrado ao seu braço, os dois desceram para o porão, onde o de cabelos vermelhos pegou sua querida guitarra. Tocou uma ou duas músicas, e foi aplaudido de pé pelo amigo. Foi algo importante para ele, pois raramente deixava que alguém o visse tocar, e muito menos era elogiado por isso.

Arthur tentou esconder o rosto naquele momento, mas o loiro não deixou de perceber que ele tinha corado após ouvir que era um ótimo guitarrista e que faria sucesso numa banda. Que... Fofo, Alfred refletiu com um sorrisinho.

–... O que você disse?

Merda. Eu disse em voz alta, não disse.

– Quê? Eu? E-Eu não disse nada, Art – Ele tentou salvar a si mesmo, sorrindo amarelo.

Arthur olhou para ele com uma sobrancelha erguida, mas não pensou muito no assunto. Ele tocou um acorde aleatório com sua palheta do Reino Unido, ponderando sobre o que tocar em seguida.

– Ei, Al.

– Hm?! – fez o garoto, novamente sem conseguir mascarar sua surpresa ao ouvir o apelido.

– Se você quiser... Eu posso voltar a te ensinar. A tocar – e gesticulou para a dama de vermelho, meio sem jeito.

Alfred sentiu um breve dejà-vu, até que se recordou que essa cena já acontecera, há um tempo atrás. Quase tinha se esquecido.

– Uh... Escuta aqui, seu viadinho. — Começou, já se sentindo patético por ter dito "uh". — Eu... Eu queria saber se você, er...

– Se eu o quê?

–... Se você quer entrar na minha banda. E-eu vou te ensinar a tocar aquela guitarra, tá?

Sentiu vontade de rir ao se lembrar. Arthur o tratava bem diferente naquela época, apesar do seu jeito arrogante não ter mudado tanto.

– Sério? Não sei o que falar – Alfred disse, esperando que o outro percebesse o que estava tentando fazer.

– Não fala nada – o punk replicou, e um sorriso nasceu na expressão do loiro – é o melhor que você sabe fazer.

A face de Arthur ainda estava um tanto avermelhada quando ele se sentou com Alfred e tentou se lembrar do que tinha o ensinado anteriormente. Entretanto, o garoto não tinha absorvido praticamente nada das lições anteriores, e o punk soltou um suspiro impaciente antes de recomeçar as lições do início.

Contudo, Alfred não podia dizer que estava realmente prestando atenção em como devia segurar ou afinar o instrumento. As palavras de Arthur ecoavam em seus ouvidos sem significado algum, e ele apenas se importava com a voz dele. Era como se estivesse entrando no céu após uma morte pacífica, e ele fosse uma espécie de anjo que viesse lhe cumprimentar, com aquele sorriso raro e gentil, e ainda usando uma daquelas tog–

– Alfred, presta atenção, porra! – Exigiu a voz do anjo, e Alfred desceu de volta à terra.

Para qualquer outra pessoa normal, Arthur, o punk de cabelos vermelhos e palavras afiadas, não tinha nada de anjo. Era estranho como Alfred conseguia ver aquilo nele. Como ele conseguia ver tantas coisas assim nele, através daquela personalidade impassível e dura atitude. Era uma proeza que poucos conseguiam, ele considerou, e seu orgulho inflou ainda mais.

Só que... Agora não era mais apenas questão de orgulho. Comparado a como se sentia quando conhecera Arthur, era tudo... Diferente.

–-

– Você realmente entendeu alguma coisa do que eu expliquei? – Arthur estava segurando a porta.

– Entendi – Mentiu o loiro, que vestia a sua jaqueta, apesar de se sentir morno por dentro. Ele aspirou um pouco de coragem nos pulmões e usou o seu melhor sorriso antes de continuar. – Obrigado pela ajuda, Art.

Pelo contrário do esperado, no minuto que se seguiu, a porta não foi fechada. Alfred também não imaginava que o garoto de cabelos coloridos fosse sustentar o seu olhar. À medida que se passava mais tempo com o olhar esverdeado fitando o azul, o sorriso do loiro foi se dissipando, até um ponto que os dois passaram a só se entreolharem, sem uma palavra.

Alfred já estava ficando nervoso com aquele olhar sobre ele, mas ao mesmo tempo... Não sentia nenhum impulso de desviar.

Depois de alguns segundos – que apesar de serem um curtíssimo período de tempo, teriam a capacidade de ficarem gravados na mente dos dois garotos -, Arthur piscou e baixou o olhar, mordendo o piercing que adornava o seu lábio inferior.

Ele deu uma última olhada de soslaio para o garoto na porta, e o que disse saiu quase num murmúrio:

–... Tchau, Al.

E veio a porta, fechada. Alfred ficou encarando a madeira dela por alguns segundos. Suspirou. Tinha que recuperar todo o ar que não respirara enquanto Arthur o fitara.

Ele voltou para casa meio tonto. Perdeu em todas as tentativas de passar de nível no videogame. Não conseguiu prestar atenção em nada que passava na televisão. Houve um ponto em que simplesmente se sentou num canto do quarto e não sentiu vontade de fazer mais nada. Apenas ficou ali. Se sentindo Arthur.

–-

Ele tinha lábios tão macios quanto Alfred sempre imaginara. Tinha as mãos na nuca do outro, acariciando de leve os fios loiros. Alfred segurava-o pela cintura firmemente, e suas costas nuas estavam encostadas na parede. Sentia a pele dele na sua, a respiração entrecortada em seu ouvido.

Uma das mãos no pescoço escapou, e foi escorregando pelo peito até chegar ao abdômen. Ela iria adiante, se não fosse o fato do garoto acordar num pulo.

Alfred acabara de acordar, mas sentia como se tivesse acabado de sair do banho. Os seus cabelos estavam grudando na testa, e ele já tinha inconscientemente derrubado da cama todos os travesseiros e cobertas.

Encarou o nada até sua respiração arfante se recuperar, e livrou-se da camisa por conta do calor absurdo dentro do quarto. Não se lembrava de nada na previsão do tempo sobre estar tão quente naquela madrugada. Ainda estava escuro lá fora.

Ele foi ao banheiro, e enquanto jogava água no rosto, fitou o seu reflexo no espelho. Quase podia sentir uma réstia da sensação daqueles lábios nos seus.

Aquele garoto já invadira a sua rotina. Depois, a sua imaginação. Agora, Arthur estava invadindo os seus sonhos. Logo, iria tomar conta de todo o ser de Alfred. Isso deveria ser ilegal.

É tão difícil de admitir?

Alfred não fazia ideia de como tudo tinha chegado a esse ponto. No começo, Arthur era só “o punk emburrado do colégio”, e o loiro tinha medo dele. No entanto, agora tinha medo apenas de ficar longe dele. De magoá-lo ou perdê-lo. E para ser sincero, era um dos piores medos que já sentira.

Vamos, Alfred, não seja idiota.

Agora Arthur era imensuravelmente importante para ele. Alfred tinha um desejo frequente de fazê-lo contente. Vê-lo sorrindo causava no loiro um sentimento de satisfação, como se recebesse um pedacinho da felicidade de Arthur. E também precisava protegê-lo. Assim como fizera na última briga. Ele precisava. Ele precisava de Arthur.

Confesse para si mesmo.

I had a dream that I kissed your lips and it felt so true

Then I woke up as a nervous wreck and I fell for you

And I fell for you

Merda.

Estou apaixonado por ele.

Notas finais
Só queria comentar aqui que: Graças a deus, eu finalmente escrevi essas palavras. Enfim, espero que tenham gostado do cap, e do nosso Alfredzinho finalmente percebendo que é hora de agir em relação aos seus sentimentos!! Espero que mandem reviews, eu demoro a responder, mas eu sempre leio e os amo de coração, k? Até mais!!!