Stray Heart

5 Algebra, Letters and Tea


Notas iniciais
Ah... Olá! Eu sei que devia ter postado ontem, mas eu realmente procrastinei e não terminei o capítulo. Desculpem. Tentei terminar hoje, então... Algumas coisas são esclarecidas nesse capítulo (Não me matem, por favor!!)... Porque quanto mais treta melhor. qq E perdão se estiver muito confuso!! Essa história de admiradora e cartas e etc. Eu não queria que ficasse assim (mas ficou, Kiyuu.). Sorry. (E que merda de título é esse?)

Eram cerca de três e meia da tarde quando ele premiu outra vez o botão da campainha daquela casa branca, de dois andares, erguida numa esquina de uma rua comum num bairro de classe média dos Estados Unidos.

Colocou as mãos nos bolsos da calça jeans e esperou até que a porta se abrisse. Ela quem abriu a porta, como o esperado, mas Alfred não esperava que ela estivesse vestida daquele jeito.

– Ah, boa-tarde, Alfred! — Disse a mãe de Arthur, sorrindo, mas os olhos azuis do nerd de óculos não estavam mirando nem perto do seu rosto. Estavam fixos mais em baixo. Falando diretamente, ele estava olhando para o decote dela. Ao notar, ela mostrou-se um pouco envergonhada, e tentou acordá-lo do transe. – Hm, Alfred?

Ele tomou um breve susto e desviou o olhar para ela, ajeitando os óculos e um pouco corado. — Ah, o Arthur... — Balbuciou meio aéreo.

– Ele não falou nada comigo sobre você vir hoje, mas... Bem, ele mal fala comigo mesmo — Ela mordeu o lábio em seguida, como se se arrependesse de ter dito aquilo. — Mas já que vocês são amigos, pode entrar. — Ela deu passagem, e o loiro entrou sem dizer nada. — Ele está no quarto dele lá em cima. Vai ser fácil achar a porta.

Elizabeth adentrou um cômodo à esquerda da sala e Alfred ficou parado por um segundo, se sentindo um idiota pervertido. Em seguida, subiu vagarosamente as escadas: carregava a hipótese de que Arthur talvez pudesse estar dormindo, e acordar um adolescente mal-humorado como ele não seria uma boa ideia.

Foi realmente fácil encontrar a porta: Haviam adesivos variados cobrindo-a, alguns advertindo "Não entre" ou "Cena do crime, não ultrapasse". Era típico dele fazer aquilo, mas também era óbvio que Alfred não ia seguir aquelas regras. Bateu na porta.

– O que é, mãe? — Uma voz irritada gritou de lá de dentro. Ele devia estar estressado com alguma coisa, Alfred presumiu. Mas... Ele sempre estava, mesmo sem motivo.

Concluiu em um rápido segundo que se falasse quem era, Arthur identificaria a sua voz e não lhe deixaria entrar. Então, ele próprio girou a maçaneta — rezando para que a porta estivesse aberta — e enfiou a cara numa brecha entre a parede e a porta.

– Hey! Sou eu! — Ele cumprimentou, sorrindo.

Arthur estava sentado numa cadeira de rodinhas da sua escrivaninha, e deu um salto dela quando viu o rosto de Alfred espremido na porta entreaberta — inclusive acabando por derrubar os papéis que estavam na mesa, que pairaram no ar e espalharam-se pelo carpete.

– O que que cê tá fazendo aqui? — Bradou. Ele parecia constrangido, talvez pelo fato de terem invadido o seu quarto, ou talvez porque não estivesse usando calças. — Eu não disse... Eu não disse que você podia vir de novo...! — Emendou, enquanto freneticamente tentava puxar a blusa para baixo para esconder as cuecas.

Quando Alfred notou que ele só estava usando roupa de baixo e uma camisa preta de banda, também ficou embaraçado e quase desequilibrou-se da porta onde se apoiava.

–... Desculpa! — Ele fechou a porta imediatamente, antes que Arthur gritasse alguma outra coisa, e encostou-se nela, escondendo o rosto. — C-Coloca uma calça, por favor!

– Cala a boca, caralho! — Arthur berrou, com todas as suas forças.

Alfred ficou lá, encostado na porta, morto de vergonha. Por que o punk estava sem calça? Mas... A culpa era dele, mesmo, que entrou do nada no quarto, e...

A porta foi aberta atrás do nerd, que teve um ataque do coração ao se desequilibrar de novo, mas agradeceu aos deuses quando viu que ainda estava em pé.

Arthur também estava lá, o fitando com uma expressão furiosa. Só para conferir, o nerd olhou para baixo, e aliviou-se ao encontrar as suas pernas cobertas com uma de suas calças jeans justas.

– Eu te odeio. — Ele resmungou entredentes, as bochechas ainda coradas.

– Foi mal...! — Exasperou-se Alfred. — Eu não ia saber que...!

– A culpa é sua, porra! Quem te deixou entrar no meu quarto? Quem?

– Bem, foi... A sua mãe, mas... — O loiro sabia que essa não era a resposta certa, então adicionou: — É, foi culpa minha mesmo.

– Bom que assume! Hunf. — Ele fez bico, e cruzou os braços. — Que é que 'cê quer, afinal?

– Pra falar a verdade, nada não. Eu só tava com tédio e queria te irritar.

O que era mentira. Alfred queria falar com Arthur sobre a garota, mas estava tentando ser o mais indireto possível, porque sabia como era difícil conseguir informações daquele cara.

– É o quê? Seu idiota...!

Arthur tentou partir para cima de Alfred, rosnando, mas este segurou com força os seus punhos, como antes. Entretanto, ele achou uma brecha, e o nerd levou um tapa no rosto, grunhindo um "Ai" em seguida.

Arthur riu, vitorioso. — Otário! Agora vai pra casa e me deixa em paz, tô ocupado!

– Ocupado com o que, posso saber?

– Não-é-da-sua-con-taa! — Ele provocou, cantando as sílabas.

Alfred não disse nada, e ficou apenas acariciando a bochecha avermelhada. Os dois se encararam por um, dois, três segundos, e ele correu. Num piscar de olhos, já estava dentro do quarto de Arthur, rindo e bisbilhotando seus pertences.

– Ei! Isso é invasão de privacidade! Desaparece! — O punk tentou gritar de novo, correndo atrás dele.

– Você tava fazendo a lição? — O nerd perguntou, olhos nos papéis que caíram no chão e os da escrivaninha, ignorando o outro que tentava puxá-lo pelo braço. — Que aluno exemplar, Arthur.

–... Cala a boca! Eu não sou um nerd retardado feito você.

–... Quer dizer que é burro?

– Ah, Alfred, vai pro inferno! — Ele bateu o pé, desistindo de puxá-lo, já que era fraco demais para combatê-lo. – Eu não sou burro, esse assunto é que é um porre. – Confessou, emburrado.

– Eu poderia, hum, bem... — Ele mirou o olhar na parede, semicerrando os olhos e coçando o queixo, como se imitasse um gênio a pensar.

– O que?

– Eu poderia usar meus vastos conhecimentos matemáticos e ajudar um cara com essa simples lição de casa da semana passada... — O loiro sorriu, levantando uma sobrancelha. — Mas...

Dessa vez Arthur mudou a careta. — Mas o que?

– Mas não vai valer a pena, já que esse cara me odeia... — Ele deu de ombros, encarando o punk de jeito provocativo.

–... É! Odeio! Não preciso de você pra fazer isso.

– Tem certeza? O prazo de entrega é amanhã... – Disse Alfred, com uma voz sinistra, como se tentasse persuadir o outro com um feitiço hipnótico.

Arthur hesitou, mordeu o lábio, olhou para os lados, inspirou e no fim de um minuto soltou um exasperado:

– Tá! Você venceu! Me ensina essa porcaria logo — Ele desistiu, cruzando os braços.

Foi a vez de Alfred rir de vitória. Ele recebeu mais alguns palavrões do punk, e os dois recolheram os papéis que Arthur havia derrubado. Ambos se sentaram à escrivaninha, Arthur ainda portando uma careta de amargura.

– Então, vamos ver no que você tá com dificuldade... — Alfred murmurou, avaliando o caderno do outro com um olhar crítico.

A caligrafia cursiva do punk cobria todas as linhas do caderno com números, fórmulas e contas bagunçadas. Ele jurou por um momento que aquela letra lhe era estranhamente familiar, mas concluiu que era apenas porque já tinha visto Arthur escrever o seu endereço antes.

– Mas só isso? Esse assunto é muito fácil, Arthur!

– Pode ser fácil... Pra você! — Resmungou, com a típica grosseria na voz.

Mas ao invés de replicar com outra grosseria ou piadinha, Alfred aconchegou-se na cadeira e começou a explicá-lo, lentamente e do começo, todo o assunto. Arthur ficou sinceramente impressionado em como ele era inteligente — pelo menos, quando se tratava de matemática -, e teve que se esforçar para acompanhar os raciocínios dele, que era tão rápido que corria uma maratona e dava de dez a zero no punk.

– Ei, Arthur, presta atenção — Avisava Alfred, incontáveis vezes durante as explicações, quando notava a dispersão do de cabelos verdes com qualquer outra coisa no quarto. O punk resmungava alguma coisa de imediato, falando algo sobre não ter o convidado ali, mas o nerd já estava se acostumando com aquilo, e sabia que o certo não era dar mais atenção. Era uma lógica simples: Não alimentar nem responder os argumentos dele. Isso sempre funcionava.

Alfred explicava, explicava outra vez, perguntava se ele havia entendido, fazia um exercício, depois lhe mandava refazê-lo. A estratégia do nerd era que nem andar de bicicleta: Com a prática e a repetição, tudo se consegue. Ele ensinava com tanta concentração que nem o professor de matemática tinha esclarecido tudo para Arthur do jeito que Alfred esclarecera.

O sol que adentrava a janela aberta do quarto de Arthur foi se apaziguando aos poucos, e o quarto já estava ficando mais escuro. Sem que notassem — outra vez -, tinham passado tanto tempo ali que a noite já estava chegando.

Arthur já estava quase dormindo sobre as folhas enquanto fazia o último exercício que Alfred tinha formulado, e o terminou com reclamações sobre o nerd estar pegando pesado demais com ele. Mas internamente, ele sabia que aquela tarde tinha lhe ajudado muito. Só que não ia nunca confessar aquilo de verdade.

– É... Até que é fácil — Comentou, suspirando e se espreguiçando, cansado devido ao tempo sentado na cadeira.

– Eu não disse? — Alfred sorriu para ele. Arthur encarou o seu sorriso com arames por um segundo, e pela primeira vez lhe sorriu de volta. Não foi um sorriso que mostrasse os dentes — apenas uma curvatura sutil dos lábios — mas isso pareceu surpreender um pouco o outro, que ergueu as sobrancelhas.

– Minha mãe deve ter preparado chá lá embaixo. — Disse o punk, enquanto fechava o seu caderno e arrumava os lápis dentro do estojo. Fez uma pequena pausa, como se esperasse que Alfred respondesse logo, mas o nerd parecia nunca entender indiretas. — Você quer ficar... pro chá? — Apelou.

– Puxa, você tá me convidando? Assim, sem antipatias? — Havia ironia na resposta, mas não em um tom ofensivo.

– Você quer ou não? — Agora, o punk pareceu impaciente.

– Bem... Eu não gosto de chá, mas que tô com fome, tô — Respondeu, bem-humorado.

– Vocês americanos são incompreensíveis. — Arthur não perdeu a chance de aplicar seu cinismo, e Alfred riu enquanto eles se levantavam e desciam para o chá das cinco.

Arthur era um punk excepcional: Às vezes não agia como um badass destemido e intimidador, mas como um elegante e educado estudante rumo a Harvard. Será que só agia assim dentro de casa? Tomava chá como um cavalheiro, pernas cruzadas e postura na mesa, nada parecido com um rebelde hardcore. Porém, ele parecia não falar muito com a sua mãe, fora comentários necessários, como "Me traz uma colher" ou "Vou pro meu quarto". Ela nunca respondia nada, e quase nunca olhava para ele. Alfred ficou a se perguntar o que teria causado aquele distanciamento. Uma briga de família, talvez?

Para a sorte do nerd, o irmão de Arthur — o qual ele ainda não conhecia — também não gostava muito de chá, então havia um pouco de café na dispensa. Elizabeth preparou tudo para os dois calada, e em seguida montou a mesa sozinha. Arthur apenas colocou seu chá na xícara, indiferente ao esforço da mãe. Alfred pensou em perguntar o que havia entre a mãe e o filho, mas em seguida o seu bom-senso lhe disse que seria indelicado demais.

– Então... Não vai me dizer obrigado pela ajuda? — Alfred ousou perguntar, em algum momento aleatório.

O punk tomou um gole do chá, e disse sem olhar para ele:

– Não vai me dizer obrigado por não ter te expulsado logo mais cedo quando você invadiu o meu quarto? — Rebateu, um pequeno sorriso sarcástico desenhado no rosto.

– Você é cheio de foras, hein? — Brincou Alfred, dando uma mordida em um scone meio suspeito e se arrependendo logo em seguida, com uma careta. Ele pensou em adicionar mais uma piadinha sobre a história da calça, mas terminou por concluir era melhor que fingissem que aquele momento constrangedor não tivesse acontecido.

– Eles são bem úteis às vezes.

Um silêncio reinou na cozinha por um minuto. Alfred se esqueceu da fome e passou a beber só o café: Aqueles acompanhamentos ingleses tinham gosto de pé. Ele não entendia como Arthur comia aquilo com tamanha naturalidade.

Tinha um assunto que ele queria tocar desde cedo com Arthur, mas manteve-o guardado dentro de si. Talvez agora fosse o momento certo? Ele não sabia bem, mas queria realmente desabafar com alguém. Nem que essa pessoa fosse o punk. Finalmente tomou coragem e perguntou:

– Bem... Você sabe aquela garota que me manda as cartas? — Murmurou, olhando para o café.

– Ah...! A garota — Arthur engasgou. — O que tem? — Era como se ele detestasse tocar naquele assunto, mas Alfred continuou.

– Ela... Ela disse que ia parar de mandar os bilhetes. E... Eu não sei por que, ela só disse que não tinha mais como mandar.

– E daí? — O punk continuou desinteressado, olhando aleatoriamente pela cozinha.

– Será que ela não gosta mais de mim?

– Eu vou saber?

– Ah, Arthur. Eu sei que você sabe algo sobre ela. Você e o Matthew.

Arthur tomou um gole do chá para não ter que engolir em seco. Em seguida, encarou Alfred e calmamente decretou:

– Eu não posso falar.

"Mas eu vou te fazer falar", Alfred manteve a ideia na cabeça. "Uma hora ou outra, você vai contar."

Em todas as tardes da semana seguinte, Alfred pedalava até a casa do punk, e eles passavam tardes consideravelmente agradáveis — exceto, é claro, pelas inevitáveis e bobas discussões ocasionais — jogando conversa fora, ouvindo músicas, beliscando algum doce ou tocando a guitarra (que Arthur havia conseguido facilmente consertar, apesar de toda a birra). O objetivo principal daquilo era que Alfred fosse o seu professor de reforço matemático, mas eles acabavam se cansando de equações e apenas ficavam vadiando no chão do quarto do de cabelos tingidos, conversando sobre nada e sobre tudo.

Arthur passou a secretamente apreciar a companhia dele, mas a sua máscara de arrogante não lhe permitia que assumisse aquilo. Mas mesmo assim, ele acabava se soltando sem nem perceber, e só notava quando estava rindo das piadas idiotas do outro, retomando a pose rude. O nerd também se sentia confortável perto do punk, e ao contrário deste, o loiro sempre demonstrava a sua afeição — que, porém, sempre era negada pelo outro. Eles sempre lançavam indiretas e gracinhas um para o outro, mas no fim acabavam rindo juntos.

– É legal ver você rindo — Alfred comentou certa tarde, quando os dois caíram na gargalhada depois de jogarem um jogo onde vencia quem xingasse mais o outro. Obviamente, Arthur venceu, devido ao seu vocabulário mais extenso e mais sarcástico. Ele tinha mais prática em amolar as palavras para que ficassem afiadas.

Só que Alfred tinha um objetivo em mente desde o início daquela aproximação. Ele sabia que o punk conhecia ou ao menos tinha informação sobre aquela garota. Mas também sabia que, do jeito que aquele cara era, apenas contaria aquilo depois que se tornassem amigos. Talvez. Não era certo afirmar, mas valia a pena tentar... Todavia, o loiro se sentia meio mal por estar praticamente enganando ele.

Haviam se passado quase duas semanas desde que os dois estavam se encontrando às tardes, sem contar quando sentavam juntos na mesma mesa no almoço. Matthew estava impressionado com o quanto eles tinham ficado próximos, e mesmo se sentindo por fora às vezes, ficou feliz que eles finalmente tenham (quase) se dado bem.

Mas Matthew e Arthur estavam guardando um pequeno segredo do nerd. Sobre a admiradora secreta. E eles sabiam muito bem quem ela era.

Matthew preferiu não comentar da sua irmã — até porque Alfred não era muito de se interessar pelas suas conversas, agora que era mais amigo do punk — para o outro loiro. Ele sabia desde que ela começou a mandar as cartas, mas era cúmplice daquele segredo, e prometeu não contar a ninguém. Aliás, foi sempre ele quem a ajudou a escrevê-las — para que Alfred não conseguisse reconhecer a letra – e colocá-las no armário dele sorrateiramente. Só que aí apareceu Arthur, e Matthew acabou deixando a informação escapar. Porém, o punk também jurou ficar de bico fechado. Afinal, ele não tinha interesse nenhum em se meter com aquela história boba e melosa.

Apesar disso, o canadense chegou a deixar escapar em algumas conversas que sua família estava tendo problemas, mas ninguém deu muita importância. E na verdade, aqueles problemas tinham sido causados pelo seu colega de infância que estava sentado logo à sua frente. Depois que o pai dos irmãos canadenses — um homem que já fora um pai exemplar, mas agora as overdoses de álcool lhe transformaram em um monstro que só colocava caos dentro de casa — descobriu sobre as cartas, ele ordenou que parasse de mandá-las e proibiu-a de ver o rapaz. "Porque você não vai namorar tão cedo, e muito menos com um adolescente fracassado. Se você chegar em casa grávida um dia, eu juro que serro esse cara em dois!"

Claramente, ela trancou seus prantos no quarto e recusou-se a falar com qualquer um. Mas Matthew realmente tinha pena dela, e jurou ajudá-la.

– Eu vou dar um jeito. Você e o Alfred vão se conhecer e tenho certeza de que vão ser muito felizes juntos. — Prometeu o cuidadoso irmão mais velho, olhando com afeição nos olhos dela, de um tom de violeta idêntico ao dele.

Madeleine amava muito o seu irmão, e este sempre se preocupava com ela, até bem mais do que o bêbado do seu pai. Ela confiou na promessa dele. Mas lá no fundo, ela tinha medo. Medo de que Alfred a visse em pessoa, e não gostasse dela. Medo de que achasse seus óculos feios, seu cabelo loiro desarrumado ou que fosse baixinha demais. Ah, mas o que importava? Ela estava apaixonada.

– Alfred, você é terrível com esse negócio, desiste logo de uma vez e me deixa estudar.

Arthur estava batendo com o lápis sobre uma folha de equações não resolvidas, e chiava enquanto o outro atrapalhava seus estudos ao passar os dedos pela sua guitarra.

– Eu não sou não, tá? — Replicou, com uma voz semelhante a uma patricinha loira ofendida. Ao não receber resposta, ele insistiu para uma discussão: — Pelo menos eu sei fazer equações melhor do que você.

Arthur inspirou fundo e expirou devagar, mas não disse nada. Com isso, o nerd deu de ombros e voltou a tocar a sua melodia ilógica, mas depois de meio segundo, foi interrompido por um tapa na mesa. O punk tinha girado a cadeira de rodinhas para olhar para ele, mas quando abriu a boca, o único som audível foi uma batida em madeira.

– Arthur, tem visita pra você! — Alarmou a mãe dele, batendo na porta.

O punk e o nerd se entreolharam. Quem poderia ser? Arthur levantou-se da cadeira, mas antes de sair e descer escada abaixo, mostrou o dedo do meio para Alfred, provando que não tinha se esquecido da discussão anterior.

Alfred ficou esperando lá em cima por uns cinco minutos, dedilhando a guitarra e olhando em volta daquele quarto com o qual ele já se familiarizara. Já se sentia mais confortável ali, e conhecia as capas de alguns livros que Arthur lia antes de dormir e deixava jogados na mesinha de cabeceira; já sabia quais eram as bandas dos pôsteres (e como pronunciar seus nomes direito!); reconhecia as jaquetas de couro que ficavam penduradas no cabideiro, e se lembrava da textura macia do conjunto de cama com a bandeira do Reino Unido.

Outro dia ele tinha fuçado a suíte do quarto, usando o pretexto de que só queria usar o banheiro, e achou um monte de produtos de beleza femininos e tintas de cabelo no armário. Mas ele foi flagrado após derrubar um frasco de perfume no chão, e Arthur gritou tanto com ele que ficou rouco no dia seguinte.

Às vezes pensava que já sabia muito sobre Arthur, mas noventa por cento de toda a sua vida e passado ainda estava implícito do conhecimento do nerd. E ele ponderava se um dia iria conseguir conhecê-lo de verdade.

Quando ele ouviu a porta se abrir, encontrou Arthur. E Matthew. E os dois estavam se entreolhando em tamanha cumplicidade, que Alfred se sentiu excluído ao perceber.

– Alfred, será que dá pra você sumir um pouco? — Pediu o punk, mas aquilo soou mais como uma ordem.

– O quê? Por quê? — Protestou o americano, franzindo as sobrancelhas.

– Sai logo! — Arthur bradou, e aquilo pareceu assustar um pouco o americano, que não teve opção a não ser se levantar em posição de defesa. Mas o outro lhe interrompeu no meio do caminho: — Sem a guitarra. — Exigiu.

– Mas Art-huur...! — O nerd soltou um muxoxo, fazendo bico como uma criança chantagista.

– Eu vou contar até três. Se você não desaparecer, eu vou...

– Ah, tá bom, tá bom, tô saindo — Expirou, deixando a guitarra vermelha e lustrada sobre a cama e saiu com um beiço.

Arthur e Matthew entraram, e o nerd pôde ouvir a porta sendo trancada do corredor. Por que é que faziam isso com ele? O que estavam tentando esconder tão sigilosamente?

– Você não tá sendo um pouco grosso com ele...? — Murmurou Matthew, receoso.

– Não. — Disse o punk, com secura.

Matthew preferiu não argumentar. Ele nunca contradizia o que Arthur falava, por medo de que o punk não aceitasse sua opinião e fosse grosso com ele. Ele não queria desagradá-lo de modo nenhum, porque aquilo poderia arruinar a amizade deles.

E Matthew nutria alguma coisa pelo punk desde que tomou a iniciativa de se aproximar dele. Mas ele não parecia notar aquilo. Se ele soubesse como o canadense se sentia quando ele lhe tratava com carinho, porém com uma limitação a apenas amizade, talvez percebesse o quanto o loiro de íris violetas sentia por ele.

– Então, o que é que você queria me perguntar?

Matthew pigarreou e hesitou um instante antes de falar:

– A-Arthur, foi você quem mandou aquilo, não foi?

– Aquilo? O quê?

– ...Você sabe. A... A carta.

A expressão de Arthur enrijeceu, e ele ficou em silêncio por alguns segundos, encarando o nada.

– A... Carta. – Repetiu Arthur, sem ter certeza do que falar. Matthew ia descobrir uma hora ou outra.

– Eu a vi, Arthur. Não era a letra da Maddie. Era a sua letra.

O punk não esperava por essa. Continuou hesitante, mesmo que já estivesse perdendo.

– Eu pensei que você quisesse me ajudar... – Ele disse num suspiro, vacilando e olhando para o chão.

– Mas... Eu quero te ajudar! Só qu...

– Então por que você mandou aquilo? – Perguntou o outro, num tom de voz mais firme. – Agora ele deve estar pensando que ela realmente não gosta mais dele... O que é mentira.

– Eu sei, Matt... Mas... Eu... – Nem o próprio Arthur conseguia explicar-se.

Era verdade que ele tinha mandado a última carta para Alfred, sem que Matthew ou a irmã dele soubessem. Fingiu ser a tal admiradora e cortou as “relações” com ele – embora tivesse quase certeza de que Alfred ia notar a diferença das letras, mas isso não aconteceu, talvez pelo motivo dele ser tão aéreo. Mas nem sabia qual a razão que lhe levou a fazer aquilo. Ele estava ajudando aquela tal irmã do seu amigo, não é? Por que subitamente trairia aquilo e fizesse algo do tipo?

Uma única resposta veio à sua cabeça, mas ele a repeliu como se ela fosse um inseto repugnante. Ciúmes... Não, ele não tinha ciúmes. Ele nem gostava daquele nerd estúpido! Talvez... Talvez fosse só porque estava cansado de toda aquela ladainha de romances e histórias idiotas de amor adolescente nas quais ele não queria se meter. É. Era isso.

Embora Arthur já tivesse se metido naquilo desde que se tornou amigo de Matthew e concordou em ajudá-lo – em segredo – depositando sorrateiramente as cartas escritas por Maddie no armário do nerd.

– Desculpa. – Disse Arthur depois de um curto tempo. – Se você quiser, eu posso... Fazer alguma outra coisa pra resolver isso.

Como eu sempre faço, Arthur considerou acrescentar, mas seria muito rude da parte dele.

– Hm... Você podia mandar outra carta – Matthew disse, pensativo. – E marcar um encontro pra eles. Isso! Ia dar certo...!

– Ah, por que você não manda? Ou talvez a sua irmã – Disse o punk, acidentalmente usando um tom de voz ríspido com Matthew. Mas ele estava ficando verdadeiramente irritado com aquela história. E era tudo por causa daquela irmã retardada e antissocial do canadense.

– Ahn, porque você é quem tem mais influência sobre ele... – Improvisou o outro, e um tiquinho de orgulho cresceu no punk.

– Tá. Eu mando. – Disse, num suspiro, e Matthew sorriu de leve. – Mas eu não quero mais me envolver nessa idiotice toda de cartinhas de amor – Emendou, fazendo uma careta.

A missão Cartinhas de Amor Para Alfred era finalmente concluída.

Notas finais
Espero que tenha ficado ok. E parabéns se alguém acertou nos palpites! (ou errou, tanto faz.) Obrigada por acompanharem essa história idiota e enrolada da qual eu não me orgulho quase nada. (argh nem eu sei mais pra onde vai essa história...) Será que esse cap. merece reviews? :T