Strawberry Cake
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Saori estava preocupada. Há dias Marin lhe mandava mensagens desesperadas, sem saber o que fazer da vida. A ruiva sempre foi complicada com seus relacionamentos, sempre rápidos, intensos e caóticos. “Dessa vez é diferente, Saori-chan”. Era o que ela sempre digitava depois que a empresária mandava um emoji revirando os olhos a cada “Amiga estou apaixonada”. Era sempre a mesma história: a ruiva ficava totalmente deslumbrada, boba apaixonada, mandava prints e mais prints de mensagens para a amiga... para, no fim, dizer que o romance não vingou.
Só que, dessa vez, a coisa realmente parecia diferente. Saori visualizava a amiga com seu “relacionamento sério no Facebook com aliança e tudo” – o tipo de namoro que a ruiva ansiava. Porém, de uns dias para cá, ela vinha reclamando da falta de atenção e do desinteresse do rapaz. Em contrapartida, estava tendo mais crises de ciúmes e surtos sem sentido. A empresaria então percebeu que era hora de chamar sua amiga para sair e conversarem pessoalmente. Escolheu um café onde elas costumavam ir.
Marin chegou em sua motoneta vermelha, as costumeiras calças pretas justas, botas e uma blusa sem alça branca, sobreposta com uma jaqueta de couro preta. Dois rapazes, que passavam pela rua a olharam e sorriram. Saori pensou em quantas vezes disse a ela o mulherão fatal que ela é, que poderia ter todos os homens que quisesse aos seus pés e não ao contrário. Aquele ciúme seria sua ruína. Viu Saori pelo vidro e entrou. A empresária de cabelos lilases estava na mesa de sempre, com seu terninho carmim:
—Desculpe o atraso, Saori-chan – a ruiva falou, erguendo a mão para chamar a garçonete – Tive um imprevisto na agência.
—Sem problemas, Ma-chan.. Eu te chamei mesmo para conversamos pessoalmente – observou a amiga fazer seu pedido e suspirou. Preferiria ser direta e reta ao invés de dar voltas. Assim que a garçonete saiu, continuou – Precisamos falar sobre esse seu relacionamento, ruiva.
—Ai, amiga – apoiou as mãos na mesa – Que bom que você me chamou pra isso! Você acredita que eu mandei um “bom dia”, ele visualizou e não respondeu? – bufou e cruzando os braços, se apoiando no espaldar da cadeira – E toda hora vejo ele on-line. Certeza que tá conversando com outra.
—Marin do céu, para de ser surtada! Ele pode tá falando com o irmão, com um amigo ou com um cliente. Você disse que ele é Personal Trainer, não é?
—Pois é. E Personal Trainer atende o quê? Popozuda de academia!
—Ai garota, relaxa... Ele tem cara de ser super profissional e você sabe que eu não costumo me enganar.
—Sim, você já me livrou de diversas encrencas, mas sei lá, Saori-chan... Eu não sinto reciprocidade nele. Se eu não mando mensagem, ele esquece que eu existo. Outro dia mandei uma imagem super fofa e ele simplesmente mandou um “joinha”!
—Eu te chamei aqui justamente pra falar disso, Marin – estendeu as mãos para a amiga, que as segurou com firmeza – Eu sei que disse que o Aiolia era o cara certo, aquele com quem você enfim teria um relacionamento... Só que, se você não tá sentindo reciprocidade e confiança nele, tá na hora de pular fora.
—Como assim? Você acha que não vale a pena que insistir?
—Olha, Ma-chan, é uma decisão que cabe a você tomar. Eu, nos últimos dias, só recebo mensagens suas reclamando de atitudes que ele deixou de ter contigo. Eu já cansei de falar que, em nenhum relacionamento, a pessoa tá ali, 24 horas e 7 dias da semana, disponível pra outra, mas parece que entra por um ouvido e sai pelo outro. Assim você tem suas obrigações na agência de moda, ele tem com as academias, só que você não entende isso. Vocês não são dois adolescentes desocupados com o celular na mão 100% do tempo – inspirou profundamente – Eu, no seu lugar, ao sentir que não sou correspondida, mandava logo um “até logo, até mais ver, bon voyage, arriverdeci, até mais, adeus, boa viagem, que a porta bata onde o sol não bate, não volte mais aqui, hasta la vista baby, escafeda-se e saia logo daqui”
—Nossa – ela deu uma risada nervosa, observando a garçonete servir seu frappuccino. Deu uma sugada no canudo, encarou Saori e disparou – Mas é que, pra você é fácil falar, Saori-chan.
A garota de cabelo lilás ergueu uma das sobrancelhas e questionou:
—Por quê?
—Porque você tem o Seiya, seu grande amor, que você finalmente reencontrou.
Saori travou. Depois respirou fundo e, vendo uma garçonete ali próxima, pediu uma fatia de bolo de morango e um café. De fato, havia reencontrado Seiya graças as redes sociais, depois do traumático término que tiveram. Vinha conversando com ele todos os dias, como se os oito anos que ficaram sem se falar fossem meros oito dias. Mas o cenário era outro. Ela estava no Japão, tocando sua empresa, enquanto ele estava nos Estados Unidos estudando e trabalhando meio período. Marin aproveitou o silencio que brotou na mesa para responder as mensagens de seu telefone, enquanto Saori degustava do bolo de morango que pediu. Ela precisava do doce para se acalmar, ou iria dizer poucas e boas para a ruiva:
—Agora posso falar como a pessoa civilizada que sou – começou, após pousar a xícara de café no pires – Primeiro, assim como é fácil para mim falar algo que não vivencio, é mais fácil ainda para você criar teorias sem fundamento. Quando eu chamei você para dizer que voltei a falar com o Seiya, fui bem categórica quando disse que estava feliz de recuperar aquela amizade perdida, pois, há oito anos, eu tive duas perdas: um amigo e um grande amor. Eu te disse que, mesmo que o sentimento que eu tenho por ele não tenha mudado, apenas aumentado, eu não iria forçar nada, pois suportaria uma nova perda. Prefiro ter uma amizade com um amor platônico, do que forçar um sentimento que não sei se ele ainda tem ou se um dia teve por mim. Tá, ele disse que me amava naquela festa, enquanto dançávamos minha música preferida, mas pode ter sido culpa do vinho que ele, desacostumado, bebeu duas taças. Você está criando uma história... Uma fanfic sobre um relacionamento que existiu por um curto período anos atrás. E o pior: você tá se espelhando nessa história que você inventou na sua cabeça. Você tá fantasiando que o seu relacionamento tem que ser perfeito, igual o relacionamento que você acha que eu tenho!
—Mas você tá apaixonada, amiga.
—SIM! Eu não nego isso! Eu nunca deixei de amar o Seiya...essa é a grande verdade. Me relacionei com o Julian e com o Shô depois disso? Sim. Eu os amei? Sim, porém não foi com a mesma intensidade! No momento que o Seiya respondeu a mensagem que eu enviei sonâmbula, eu me tremi inteira. Eu percebi que passei oito anos mentindo para eu mesma. Percebi que fiquei braba com Shiryu por ele ter me mostrado o vídeo dele fazendo malabares com as facas em um sushi bar, como chamam nos Estados Unidos, não porque achei desnecessário, mas sim porque senti falta dele. Só que, perceba: eu senti isso. Eu, Saori Kido. Não ele! Eu não sei os sentimentos dele, Ma-chan. Não sei e, sendo bem sincera, prefiro não saber. Prefiro continuar vivendo esse amor platônica, mas tendo nossas conversas bobas cheia de memes, vídeos engraçados, troca de músicas... – deu um risinho – E uma putaria ou outra de vez em quando, porque ninguém é de ferro.
—Tá vendo? É isso! Vocês têm reciprocidade um com o outro.
—Sim, isso eu não nego. Porém temos duas outras coisas que são extremamente importantes: respeito e maturidade. Lógico que, tem hora que ele não me responde e eu fico em cólicas! Fico pensamento 1001 coisas, que ele perdeu o celular, foi assaltado, esqueceu na faculdade ou no restaurante que ele trabalha... meu último pensamento é o de ele está com uma americana siliconada – riu – e, mesmo que estivesse, eu tô do outro lado da Terra e não sou nada dele
—Ai, queria ter essa sua frieza. Se o Aiolia me falar que pegou uma popozuda de academia qualquer, mesmo que não tenhamos nada oficial, eu vou chorar e me entupir de sorvete
—Eu disse que não ia sofrer? Lógico que iria chorar horrores, me entupir de sorvete e ouvir Total Eclipse of the Heart no último volume, só não daria a ele o gostinho de saber que estou assim. Esse tipo de coisa massageia o ego masculino. Aí os patetas ficam se achando a última Coca-Cola gelada do Saara – fez uma voz grossa e agitou as mãos em gozação – “Ai, ela não vive sem mim hehe”
—Agora eu entendi, Saori-chan – inspirou – Vou me encontrar com ele no sábado e ver como a banda vai tocar.
—Você é um mulherão da porra, Marin! Se acha que vale a pena continuar investindo no Aiolia, vai fundo. Agora, se decidir não se humilhar mais, estarei aqui para te ajudar com o sorvete... afinal você não pode ganhar peso antes de fazer modelagem, não se esqueça.
As duas trocaram um abraço, pagaram a conta e seguiram cada qual seu caminho. Na segunda-feira seguinte, após sair de uma reunião, Saori pegou o celular e viu um alerta da ruiva. A face séria virou um sorriso ao ler “Marin Yamashita está em um relacionamento sério com Aiolia Temissocles”.
—Vou deixar um estoque de sorvete no refrigerador – murmurou antes de bloquear o celular e voltar a seus afazeres. Já sabia como aquela história iria terminar
Notas finais
Dulces Besos de Chocolate
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