Strawberry Blossom
1 1º Ato - Março
Notas iniciais
Março– O mês no qual se cultiva

Ao atender a porta, escutei o som de vidro trincando. Terá sido fruto da minha imaginação?
– Oi... Pode parecer um pouco repentino, mas, atualmente, não tenho onde ficar. Importa-se de eu passar a noite na sua casa?
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Permanecia de olhos fixos na passagem pela qual permitira a entrada deste que rogara por um teto, apesar do mesmo há muito ter se afeiçoado do lar alheio; levando ao pé da letra a expressão “sinta-se em casa”, ainda que o dono do apartamento não a houvesse pronunciado.
– Olha, não é por nada não, mas... Você está me assustando assim, olhando pro vazio. — Nuances de nervosismo podiam ser notadas no riso que se sucedeu a esta alegação.
O rapaz de feições afetadas então se jogou no sofá retrátil, juntamente com da mochila, sua única bagagem.
–E aí, Russ, que me conta? – cruzara as pernas sobre a mesa de centro, fitando o homem à sua frente com um sorriso disperso nos lábios.
Lábios estes... Contornados da aquarela mais fina e pelo aquarelista mais hábil.
– Como conseguiu meu endereço? – disparou esta interrogativa tão logo redirecionou sua atenção ao indesejado hóspede.
O olhar estreito de Russell demorava-se no rosto de traços afetados, inibindo quaisquer intenções de evasão.
Ainda assim, pretendeu dar de ombros:
– Achar o endereço de alguém não é tão difícil quanto pensa... Ainda mais quando o alguém em questão mudou-se apenas de bairro. – seu sorriso desinibido não vingou.Os castanhos inquisitivos persistiam com a intimidação.
O rapaz enfim cedeu um suspiro de rendição:
– Tá bom... Mamãe ainda mantém contato com o seu pai. Satisfeito?
“Por que ela ainda manteria contato com um carpinteiro?”, a indagação satírica abandonou a boca de Russ como um sussurro, que por sorte não alcançou os ouvidos do outro.
Deslocou-se enfim do corredor que dava acesso à sala. O hóspede, por sua vez, contemplou do sofá uma visão que não havia reparado antes, tal foi o anseio por conseguir um lugar onde pudesse passar a noite.
Circulando pela casa com roupas de dormir (não propriamente pijamas, uma vez que o vestuário se compunha apenas de uma bermuda de linho) Russell mal tivera tempo de vestir uma blusa; e isto porque teve de atender a porta às carreiras. Morava só, notava-se logo de vista; e, portanto, tinha por hábito andar como bem entendesse pelo seu lar.
Os olhos de um azul petróleo luziram com vivacidade inaudita ao percorrerem toda a linha do topo à base do abdome alheio. Esta se eclipsava no cós da bermuda, deixando para trás um rastro de pêlos castanhos, castanhos tal como a cabeleira em desalinho de seu portador.
No seu trajeto para a cozinha, encontrou um moletom jogado a um canto. Vestindo-o de prontidão, e até com certo desmazelo, prosseguiu até a pia, de onde recolheu dois copos. Voltou a encarar o hóspede, interrogando-o com o olhar.
Este, por sua vez, assentiu com um leve meneio da cabeça.
– Mas... Por que eu? Digo, depois de tudo que aconteceu, de todos esses anos... – talvez fosse engano seu, mas o visitante distinguiu claras tonalidades de desalento no que o moreno murmurava, mesmo que estes murmúrios fossem abafados pelo som de água correndo na torneira.
Abaixou o olhar, reconhecendo os motivos por tais atitudes, mesmo que isso não o impedisse de responder, e responder até com certo nível de desaforo na fala:
– Russ... Ah, Russie, você nem imagina o quão fundamental é para mim neste exato momento... – ergueu um sorriso travesso ao amigo. – Eu forjei a minha própria morte.
✾
O que você faria se o Sol fosse se apagar amanhã?
No meu caso, tais pensamentos de perda sequer passaram pela minha cabeça nesse momento.
Talvez porque a chama que me havia orientado outrora já se encontrasse extinta.
Tudo o que me restava, então, era uma lacuna...
Ou assim... Eu pensava.
✾
Tudo se silenciou repentinamente quando a torneira foi fechada. Apenas o som dos copos sendo depositados no mármore frio da pia se fez ouvir.
O garoto apoiou-se no braço do sofá, inclinando a cabeça para dentro da cozinha, certificando-se de que nada havia ocorrido. Russ permanecia em pé, as costas voltadas para si.
– Desculpa, eu acho que não---
– Ora, você me entendeu, Russ... – saltou do sofá para a cozinha. –O Oliver Graham Kesey que você conhecia está morto.
Fez questão de sussurrar “está morto” na base da orelha do rapaz mais alto.
– Por que... Assim... Como... – as palavras de repente escassearam, já não eram suficientes para formular uma questão que englobasse todas as suas apreensões.
Seus olhos aflitos esquadrinhavam o homem diante de si em busca de respostas, embora tudo no que repararam foram no piercing septum e no nariz cuja extremidade sustentava a argola. Isto porque Oliver havia se inclinado sobre si, quase se aconchegando em seu tórax.
Ficou claro que o rapaz só fizera isso para alcançar um dos copos que estavam logo atrás de Russell quando levou um deles à boca, bebericando da água fresca.
– Como, você me pergunta...? – Afastava-se em direção à sala. – Enviei uma carta comovente à mamãe, anunciando meu suicídio. Em breve, a boa velha estará se desmanchando em lágrimas e se afogando em tequila...
Atirou-se no sofá, de braço apoiado no encosto. Prosseguiu com o que Russ distinguiu ser um sorriso de deboche:
– Ora, mas não se preocupe... Cuidei de tudo para que não suspeitassem de mim... Desde as minhas contas até as minhas digitais; desde minha forma de suicídio aos lugares que percorri; posso garantir que estou 100% livre de suspeitas. Além disso, tenho pessoas de confiança que---
Foi interrompido de maneira brusca por Russell, cujas mãos prendiam ambos os seus braços no encosto do sofá, obrigando-o a fitar em sua direção.
– Você tem ideia do que fez? – indagou pausadamente. Seus arquejos indicavam a intensidade do esforço necessário para refrear o impulso de esmurrar o rapaz adiante.
Ainda que aturdido pela intensidade da situação, Oliver focou sua visão em detalhes que denunciassem o nervosismo de Russell: tal como as veias que lhe saltavam das mãos ao estreitarem o seu braço, ou como o seu cenho crispava-se, demarcando linhas de tensão na sua testa, ou ainda como seu colo ofegante manifestava o ritmo de sua respiração.
Mesmo ciente de que poderia acabar sendo expulso daquele apartamento, e com um belo de um olho roxo, prosseguiu com a fala mansa, de expressão insolente. O olhar de Russ era feito uma injeção de adrenalina, cujas doses no haviam viciado.
– Dou minha palavra de honra que empenhei o pouco de sanidade que ainda me resta nesse projeto, então se acalme... – expeliu esta reposta como se expele o fumo de um cigarro. – Agora, se importa...? Está me machucando.
Abriu um sorriso canhoto enquanto remexia os braços comprimidos.
Ao absorver a mensagem, o que levou certo tempo, o rapaz desenrascou os dedos da carne alheia.
Oliver jurou que seus braços haviam entorpecido ao sentir a ponta dos dedos formigarem, até que o fluxo sanguíneo voltasse a percorrer lhe as veias. A sua pele, por outro lado, dava sinais de que permaneceria nitidamente lesionada, com plenas vermelhidões quase na altura dos ombros.
Massageava a região ao reerguer os olhos, encontrando Russell em pé e de braços cruzados, fitando-o de cima.
– Eu quero que me dê um motivo do por que eu deveria ajudá-lo nesse crime.–o visitante já ia abrindo a boca quando o moreno o interrompeu novamente. – E no que isso me beneficiaria.
– Pois bem... – afundou-se no estofado do sofá. – Posso dar mais de um motivo, até.
A poltrona recém-restaurada foi puxada pelo proprietário até que ficasse de frente ao sofá. Em seguida, permitiu seu corpo acomodar-se na mesma. Sentava-se de pernas cruzadas, sinalizando um “Prossiga”, prontamente atendido pelo outro:
– Na verdade, eu já vinha planejando a minha morte há algum tempo... – “Talvez mais do que você imagina”, complementou de forma que apenas ele foi capaz de escutar. – E todas essas ideias culminaram no mês passado.
Revolvia o conteúdo do copo indefinidamente, observando o reflexo distorcido do amigo através do vidro, dando continuidade apenas ao respirar fundo:
– Olha, eu vacilei no meu emprego fixo, acabei sendo demitido. – mordeu o lábio inferior enquanto passeava os olhos pelo carpete bege, dando a entender que reabria cicatrizes. – Em seguida, comecei a procurar bicos. Mas a remuneração mal chegava a sustentar o modo de vida que eu levava. Comecei a cortar gastos, porém... Habitava em mim essa necessidade indomável de fugir... Escapar da realidade, sabe? E sempre que eu acordava no dia seguinte, eu me via cada vez mais endividado.
Cutucava a parte inferior das unhas distraidamente.
– Não bastasse o aluguel atrasado e as contas acumuladas, descobri semana retrasada que sou pai. – um sorriso se esboçou nos seus lábios de aquarela, como se ele próprio não acreditasse no que acabara de relatar. – Quando atendi a porta naquela manhã, me deparei com uma moça cujo rosto eu vagamente me recordava. Ela me cumprimentou e perguntou: “Você é o Oliver?”. Cara, eu nunca me arrependi tanto de ter sido batizado com este nome! A princípio, me fiz de desentendido, né? Embora no final, tive de acompanhá-la no teste. Depois, foi só dor de cabeça. Você tem ideia do quanto uma gestante gasta?! E ela fazia questão de me procurar todo dia, sem falta, com aquele sorriso postiço... Só faltava ela vir de braços dados com o inquilino do apartamento!
Seguiu a esta última alusão uma risada frenética do rapaz que acabara de relatar seus infortúnios.
Russell, por outro lado, não só permanecia de cenho franzido como também manifestava em sua postura distante a censura à atitude do hóspede.
Nem os próprios espelhos d’alma, aqueles olhos castanhos tão honestos (os quais Oliver se pegou admirando constantemente), seriam capazes de refletir a incredulidade que se apossara de si. Não acreditava que alguém fosse capaz de rir numa situação dessas, ainda mais quando tal situação dissesse a respeito de si mesmo. Em suma, não acreditava no que acabara de escutar. Ou, pelo menos, não queria acreditar.
– E foi por esses e mais outros motivos que fui levado a concretizar o último plano de Oliver Kesey em vida... Sumir. E recomeçar a viver... Com uma nova identidade, um novo emprego, um novo lar... – determinava a si mesmo, de olhos postos no teto. – Imagine você que, ao raiar do dia, todos aqueles que me conhecem até então vão pensar que morri. Heh, se eu pudesse, voltava disfarçado apenas para ver a reação de cada---
Oliver engoliu suas palavras com o susto que levou ao assistir a Russ saltar tempestivamente da poltrona, de punhos crispados num acesso, logo domado, posto que voltou a se sentar.
O moreno, contudo, demonstrou instabilidade emocional ocultando a face em uma de suas mãos.
– Vá procurar outro lugar. Aqui você não fica. – ordenou, o timbre de sua voz tremulava.
O hóspede indesejado, que acompanhara cada movimento de Russell, ousou se aproximar do mesmo, ajoelhando-se frente à poltrona, à procura das indecifráveis linhas de tensão que lhe frisavam a testa.
– Russ... – miou seu apelido.
– Some da minha frente, falou?!
Exclamou tão intensamente que, mesmo após dias, aquele grito ainda ecoava pela cabeça de Oliver.
O autor do grito ofegava pesadamente, contudo não demorou seu olhar sobre o objeto de sua repulsa, cuidou logo de abrigar o rosto fervente nas mãos.
Todavia, para Oliver, os tons escarlates que contemplara por um instante nas faces do moreno provocaram em si um estímulo.
– Mas você nem sabe das vantagens, ainda... – atreveu a sussurrar contra a orelha rubra de Russell.
Enfrentou certa resistência até que, enfim, agarrasse com firmeza o seu pulso, conduzindo-o por dentro dos tecidos da camiseta a qual estava vestindo desde quando fugira de casa, até que dedos ásperos roçassem na pele morna de seu abdome.
Umedeceu as aquarelas dos lábios, delineando um sorriso travesso.
A mão alheia contraiu-se em reflexo ao toque, tal como o fez ao grudar as costas no encosto da poltrona, como se quisesse se afastar mais do que lhe era possível. As suas íris castanhas moviam-se num frenesi próprio dos loucos; na sua cabeça, fremia o caos.
– Eu não sei se ainda é assim, mas... — Oliver não despregava os olhos dos dois grãos de café cujas pupilas retraíam-se apavoradas. — Lá atrás você chegou a desejar isso.
Despiu-se da camiseta num movimento só, revelando um torso de ossos ressaltados e costelas salientes. Agora que se observava com mais atenção, tinha engordado um pouquinho desde a última vez em que se viram. Não que isso fosse mudar alguma coisa, já que nunca fora dotado de uma barriga "sequinha", apesar de sempre o tacharem como "raquítico". Honestamente, nunca havia posto o pé numa academia.
– Como assim? — Russell, por outro lado, parecia alheio a estas minúcias irrelevantes. Seu maxilar pendia, destituindo-lhe a expressão dos olhos.
– Francamente, Russ... Quem em sã consciência consegue ignorar quando estão de olho no seu traseiro? — riu-se como se tratasse da constatação mais óbvia de suas vidas.
O outro, contudo, travara os músculos faciais numa expressão atônita, e demonstrava não ter intenções de desfazê-la tão cedo.
– Ok... Eu confesso que eu posso não ter percebido de primeira, mas... — apoiava os braços nas costas desnudas — Foi... Foi no último ano do colegial, falou... Você se lembra, não é? Do baile e afins.
Pretendeu não demonstrar nervosismo quando tocou no assunto, dando as costas ao seu amigo, descontraidamente (ou assim, tencionou soar).
– O que tem o baile de formatura...? — rouquejou em notas graves, deitando os olhos no tapete sintético da sala.
Contornou a cabeça a fim contemplar o patrão do apartamento, um sorriso indecifrável a manchar-lhe os lábios.
– Então você se lembra mesmo...? — Inclinou-se sobre a poltrona, seus rostos a uma distância contígua — Heh, e eu pensando que o cérebro fosse capaz de apagar as lembranças ruins.
De onde estava sentado, Russ ergueu faíscas ao hóspede. Oliver prosseguia:
– Se a memória não lhe falha, diga-me, lembra-se da Lizzie...? — seguido de um estremecimento, os músculos de Russell retesaram — E como ela dançou naquela noite, destinada a ser para nós três mosqueteiros, celebrando a nossa amizade? Mas você sabia, não sabia? Que ela gostava de mim talvez com a mesma intensidade com a qual você me desejava.
O confronto de olhares, naquela altura, causaria atrito inclusive no vácuo.
– Você poderia ter tomado uma atitude naquela noite, Russie... — sibilava na língua do demônio ao ouvido do amigo. — Agora, seja lá qual tenha sido o motivo que o refreou (pelo bem da amizade, do momento, ou de sua covardia), não atingiu a Lizzie da mesma forma. Bastaram alguns goles, os primeiros dela, para que uma faísca de coragem se acendesse nela.
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Reabrindo cicatrizes... Aonde você quer chegar?
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De tão próximo, Oliver quase mordiscou a orelha do moreno.
– Admita, você espiou o vão da escada, não foi?
Russ afastou aqueles ombros salpicados de sinais de perto de si, impondo certa distância entre os dois corpos.
– Saiba de uma coisa. — o sem-identidade retribuiu o gesto, repousando as mãos nos ombros robustos de seu amigo. — Eu nunca amei Elizabeth Celestine Campbell. Não mais que uma amiga. Eu só fiquei com ela naquela noite porque ela veio até mim. Porque ela teve a ousadia que nunca se apoderou de ti.
Pinceladas de cinismo pintaram um sorriso no rosto de Oliver.
– Mas, quer saber de uma coisa...? — ciciou como se estivesse confidenciando. — Foi graças ao baile que eu tomei ciência de seus sentimentos por mim. Você com certeza percebeu que eu lhe dirigia olhares repetidamente. Eu estava aguardando pelo momento. O momento no qual você tomaria uma atitude. Bastava uma pergunta, e só. Veja bem, as nossas vidas poderiam ter tomado outro rumo.
Os lábios do moreno permaneciam selados. Manifestava a sua reação ante aos desaforos do amigo apenas com os movimentos dos olhos, ora fixos em um ponto, ora perdidos pelo carpete ou pelas constelações de sinais que se alastravam pelo corpo seminu de Oliver.
– E agora, após tantos anos sem nos ver, eu volto, apenas porque você, Russ, é uma peça conveniente no meu trajeto... — passeava os dedos longos pela gola do moletom alheio, ajustando-a e desajustando-a — Eu estou brincando com as suas emoções... Tenho sido um garoto muito mau... Mereço ser punido, não acha?
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Ele tinha razão. O Oliver que eu conhecia estava morto.
O Oliver que eu um dia amei.
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Foi acompanhado pelo hóspede através de cômodos, sem proferir palavra sobre o destino final daquela noite.
Até que ambos se encontrassem no interior dum recinto cujo teto oblíquo denotava pertencer ao último andar daquele edifício residencial.
Os olhos densos como petróleo distinguiram em meio ao breu, vultos e sombras, os quais, sob qualquer fonte de luz, afiguravam-se como os interesses pessoais de seu possuidor. Era aquele, sem dúvida, o quarto de Russell.
Este que, tão logo encostou a porta, deu as costas ao visitante e despiu-se do moletom. Deu indícios de prosseguir com o descarte das peças restantes de roupa, e só não o fez pois foi interrompido pelo som de um baque oco.
O intruso circulara pelo cômodo, inquieto, mexericando nos bens alheios até que seu cotovelo colidiu contra um abajur cuja existência não havia se atentado, derrubando-o no carpete e causando o sobressalto do moreno.
Apontou ao hóspede uma sombra encaixada no vão da claraboia, a qual Oliver discerniu ser uma cama logo ao sentir maciez do colchão abaixo de si.
O que se seguiu a este flagrante, nem eles próprios saberiam descrever.
Oliver apenas se recorda de ter sentido o peso de um corpo sobre si; mãos ásperas a lhe passearem pelo torso desnudo; unhas a lhe esfolarem a pele da coxa ao ter as peças de baixo arrancadas. Recorda-se da urgência, ah, recorda-se muito bem da urgência daquele tufão, como se o corpo vigoroso acima de si fosse capaz de rugir, o rugido dos ventos.
Ventania esta que chegou a lhe varrer os pensamentos que povoavam a cabeça, pouco a pouco, fazendo-no perder o controle dos sentidos.
Assim, o ciclone se difundia: na violência do toque, nas carícias lúbricas, nos xingamentos urrados, no pulsar do sangue, no latejar do apetite; não havia intervalo sequer para se ofegar.
E com a mesma urgência com a qual cobiçou os lábios de aquarela rubra, Russ desejou se afogar naquele corpo errante, e por assim fazer, ser arrastado pela própria correnteza.
Enterrou-se com fúria, pelo que Oliver sentiu como se lhe cravassem uma lâmina em brasas dentro de si; arrebentando-lhe os tecidos até o estômago. Tombou a cabeça na direção da claraboia. Asfixiava-se, respirar se tornara uma tarefa árdua. Os pulmões inflamavam-se a cada tentativa falha de inspirar o ar escasso, enquanto sobre si brandia o rufar dos arquejos alheios. O seu parceiro mal se dera ao trabalho de lhe regular a respiração, sequer lhe dirigira palavras de conforto, mesmo que estas fossem destituídas de sentido.
Um soluço reprimido ameaçou desprender-se da sua garganta. O garoto estava ciente, porém, de que, caso vertesse lágrimas, estas, que viera acumulando ao longo da vida, não cessariam de fluir. Procurou conforto na paisagem que se pintava diante dos olhos, através dos vidros da claraboia. Ao longe, o céu purpúreo, atritado de nuvens espessas, trincava-se em flash: relâmpagos anunciavam a chegada de uma chuva de verão.
Aquela suposição fora o bastante para consolá-lo no decorrer da penetração. Talvez a chuva lavasse os corpos que se colidem, e carregasse consigo todas as memórias daquela noite tempestuosa.
Um sorriso lastimável desbotou nos seus lábios. Assumiu, com melancolia, que a dor já não lhe incomodava tanto, nem a violência da qual era vítima. Deste modo, permitiu que o seu corpo submergisse. Afinal, já estava familiarizado com a sensação. A sensação de estar se afogando.
Concluído o ato, Russell, que não se havia livrado por completo das peças íntimas, arregaçou a cueca juntamente com a jeans e se dirigiu ao banheiro da suíte.
Abriu a torneira, permitindo que a água fluísse e que o rumor cristalino acariciasse lhe os tímpanos.
Mirava o seu rosto no reflexo, amarelado por conta da iluminação sépia que havia instalado no banheiro. Linhas de exaustão desenhavam-se sob seus olhos, velados pelas sobrancelhas baixas, que por conta da pouca luminosidade davam a sensação de terem sido escavados. Afagou o maxilar, sentindo a barba estilo short boxed pinicar. Cogitou apará-la, entretanto, estas reflexões foram engolidas pelo ralo da pia, restando apenas uma coisa na qual pudesse pensar.
Enxaguou o rosto, mergulhando-o nas conchas das mãos. E enquanto sentia a água gélida acariciar-lhe as faces refletiu se não teria sido melhor se, em primeiro lugar, nunca tivesse atendido a porta.
Voltou a escalar a sua cama, esgueirando-se por baixo do cobertor.
Duas tentativas falhas de acender o isqueiro, uma sacudidela no mesmo, uma terceira tentativa de fazer chama, com sucesso. Este foi o saldo até que enfim pudesse iluminar a ponta do cigarro, cuja embalagem pescara no fundo do bolso de uma jaqueta que não vestia há anos, mas que por coincidência estava por cima da pilha de roupas acumuladas na aresta de seu quarto.
Levantou o vidro da claraboia inclinada sobre si, permitindo que uma golfada de vento invadisse a sua privacidade. Por um instante, acreditou ter visto Oliver estremecer de frio, e chegou a considerar pegar outro cobertor para cobri-lo, contudo, após minutos vigiando a sua silhueta esguia, inerte na penumbra, concluiu ter se enganado.
✾
E lá estava o seu corpo, estirado sobre o colchão.
Mais silencioso que um túmulo.
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Quando despertou naquela mesma manhã (pois pegara no sono na alta madrugada) apalpou a cama preguiçosamente. Porém, sua mão não encontrou saliência alguma, ou qualquer indício de que havia alguém adormecido por ali.
Ergueu-se enfim, esfregando os olhos e despregando as pálpebras. A sua visão embaçada não encontrou Oliver em lugar algum do quarto.
Reservado alguns minutos para a higiene bucal, pôs se a vagar pelos corredores. Não demorou muito para que um aroma incomum invadisse-lhe as narinas.
Sentia cheiro de fritura.
– O que você está fazendo? – abordou o hóspede com a interrogativa brusca.
O rapaz, que se movimentava livremente pela cozinha (como se morasse naquela casa há anos), revirando as gavetas de talheres, revolvendo os armários de tempero, misturando o conteúdo da frigideira; estremeceu dos pés à cabeça com o susto que levou ao escutar o sotaque engolido do galês.
– Bom dia, Russie!
O moreno, que estava recostado no limiar e de braços cruzados, foi contemplado por um sorriso radiante pintado por Oliver. Era um sorriso parcial, cujo maior segredo habitava nas covinhas recém reveladas.
– Quem te deu permissão de mexer na cozinha? – os nervos do mais alto, porém, permaneciam irredutíveis.
– Ora, vamos... Eu estou cozinhando para nós dois. – desligou a boca do fogão, despejando o conteúdo da frigideira, igualmente distribuído entre dois pratos. – Ao menos, me agradeça.
Em seguida depositou-os sobre a bancada, cuja utilidade também incluía desempenhar o papel de mesa.
– Ovos mexidos, torradas e geléia de amora. – recitou, feito o garçom de um restaurante. – Servido...?
Com o intuito de abafar o ruído de seus silêncios, Russell sintonizou o seu rádio de pilhas na emissora local.
No exterior, ouvia-se apenas um mastigar discreto e os chiados do aparelho.
[Good morning, Johanna!
Mornin’ Jace!
So, what do we have here...? It seems that the sun decided to show up today, huh?
…]
– Pepito. – Oliver ruminou.
– Quê? – Russ, que estava passando geléia na torrada, pausou o que estava fazendo.
[...
So, then I guess everyone’s curious as well, right? Tell us, Johanna, what’s the weather forecast for today?
…]
– Hã…? Nada… — remexia o farelo do que um dia foi uma torrada. – Só estava considerando qual vai ser meu próximo nome, agora que não me chamo mais Oliver (Não oficialmente, pelo menos). E então, o que você acha de Pepito?
– Hum... – o moreno grunhiu enquanto sorvia da sua polpa de laranja industrializada.
[ ...59°F
While in Newport, temperature climbs to 62°F
And if you’re heading straight to Swansea, then open your umbrellas, because …]
– Então… O que você pretende fazer agora…? – enquanto falava, Russ sequer dignou um olhar ao hóspede.
–Bem, eu... – descansou os talheres sobre o prato de porcelana. – Estava pensando em dar um tempo até fazer uma nova identidade... Pelo menos até que registrem no cartório o meu óbito...
[...
... well, we’re looking forward to it! Thank you, Johanna!
…]
– E até lá, onde você pretende ficar? – fixou afinal os olhos no rosto de seu interlocutor.
– Trago comigo uma quantia modesta de dinheiro – encarou o moreno de volta, com determinação. – O suficiente para cobrir minhas despesas por pelo menos dois meses. E, por enquanto... Talvez eu procure o endereço de um colega distante.
Ao finalizar constatação, empilhou as louças em uma só mão e as transportou à pia. O estribilho frugal do jingle chiado pelo rádio foi bruscamente interrompido pelo silêncio, justamente quando Oliver estava pegando o ritmo de seu refrão.
– ... E você dirá a este colega distante as mesmas coisas que disse a mim?
Relanceou um olhar fugaz ao homem sentado atrás de si. Ele cruzava os braços novamente.
Direcionou a sua atenção de volta à louça empilhada.
– Talvez... – foi o único vocábulo que abandonou os seus lábios rubros.
Os seus ouvidos captaram o arranhar da madeira no piso frio.
Russell se retirara da cozinha, retornando após alguns minutos. Vestia uma camiseta xadrez por cima de uma blusa acinzentada. Deteve-se na entrada do cômodo, agasalhando-se com uma jaqueta.
– Meifod. – pronunciou gravemente.
– Hã...? – o hóspede pausou as mãos, as quais secava com o auxílio de um pano de prato.
– Eu vou viajar para Meifod hoje. – prosseguiu, ajeitando as mangas. – Decidi aceitar a proposta do meu pai. Vou ajudá-lo na oficina, e enquanto isso, tomarei conta da casa do meu avô.
– Ah... É mesmo...? – Oliver expeliu o ar, afrouxando o pano entre os dedos.
– Eu já vim planejando isso há meses... – circulava pelos cômodos, recolhendo uma peça de roupa ali, um par de sapato aqui. – Vai ser temporário, a menos que eu encontre mais vantagens lá.
– Eu... Entendo. – balbuciou, pendurando o pano no puxador da gaveta.
Bagunçava o penteado rebelde, embrenhando os dedos finos no caos loiro desbotado, feito palha castanha.
Os olhos felinos de Russell leram, na linguagem corporal do intruso, a inquietação de sua alma.
– Fica a seu critério. – enfim dirigiu-se diretamente ao interlocutor. – Eu forneci as informações necessárias para que você consiga me localizar nos próximos dias. Para um stalker como você, não daria nem três para me encontrar.
Oliver paralisou.
– Quê... – seus lábios gesticularam por conta própria.
– Ou, eu posso fingir que não vi você entrando no meu carro... – balançou as chaves do seu Chevrolet diante do visitante inerte.
Enfim absorveu a mensagem, sendo impelido a morder o lábio inferior para impedir que um sorriso ainda maior lhe contornasse os lábios.
△ ▼ △
Não era a primeira vez que percorriam a via A49.
Seus olhos já estavam familiarizados com aquela estrada estreita, ladeada de vegetações arbustivas, bosques e casarões isolados.
E toda esta paisagem coroada com um céu cor de chumbo, típico da Grã-Bretanha, corria atrás dos vidros do carro, através do qual Oliver via o seu rosto refletido.
No decorrer da viagem, trocaram algumas palavras aleatórias, intercalando o silêncio que se instalava com o crepitar das embalagens de guloseimas. Primeiro, abriram um pacote de amendoim, depois, desembrulharam balas de aspecto gelatinoso. Agora, restava apenas o tubo de M&M’S.
Num dado instante, o rapaz loiro resolveu desvendar os segredos do rádio da caminhonete modelo C14, testando cada botão existente até que o aparelho desse sinal de vida. Sintonizou na estação de clássicos do rock.
– Pensei que não curtia rock. – comentou o motorista, sem desviar os olhos da estrada.
– Não nos vemos desde o colegial... E meus gostos mudam frequentemente, esqueceu?
“Você nunca me disse isso...”, foi o que passou pela mente de Russell.
– A propósito... – ciciou Oliver. – Posso abrir o M&M’S?
– Não. – foi a resposta do moreno.
– Argh! – bateu os pés, feito uma criança birrenta. – Mas por que?
– Porque ainda falta uma hora de viagem. – havia censura no seu fitar, feito um pai estóico. – Não é melhor guardar para---
Foi interrompido pelo estalido provocado pela violação do lacre.
Enquanto Oliver atochava a boca de confeitos coloridos, sentiu que duas pupilas o metralhavam intensamente.
– Que foi...? – mastigou a pergunta, pregando no motorista um olhar de inocente.
“É só uma criança...”, Russell cedeu um suspiro.
– Me dá um pouco aqui... – voltou sua atenção à via, embora os seus lábios entreabertos denunciassem gula, exigindo ser alimentado.
De bochechas infladas por conta do riso reprimido, Oliver aquiesceu à brincadeira. Selecionou três confeitos, um verde, outro vermelho e um azul, e os conduziu, um a um, à boca alheia. Fazia questão de equilibrar os confeitos na ponta da língua dele, e não foi por acidente que os seus dedos esbarraram nos lábios de Russ.
E o moreno arrancava risadas bobas de seu companheiro de viagem, mordiscando-lhe os dedos.
– Você parece uma vadiazinha rindo desse jeito. – não resistiu aos gracejos do menor e também libertou o seu riso. Um riso tímido, mas muito atraente.
– Russ! – após inúmeras tentativas falhas de controlar a risada, Oliver conseguiu pronunciar o apelido. – Escuta só!
Aumentou o volume do rádio, o bastante para que este imperasse sobre os demais.
“Não pode ser...”
– Não pode ser. – manifestou o seu pensamento, recebendo em resposta as íris azul petróleo de Oliver, que por um instante, já não lhe eram mais tão herméticas quanto o pareceram na noite passada.
“Strawberry Fields Forever”
Assim, permitiu que a melodia groovie o arrebatasse, e o transportasse ao passado.
Ao passado de quando ainda não tinham idade o suficiente para dirigir, e que para isto, dispunham de um senhor muito bem humorado, em contraste com o seu filho, Russell.
“Papai ainda tem as fitas... Eu acho...”, refletia com os olhos postos na estrada.
Aliás, o pai possuía uma coleção dedicada apenas aos álbuns dos Beatles, e desde que se dera por gente, Russ se recorda de percorrer o trajeto de Cardiff à sua cidade natal escutando a estas músicas.
Quanto a Oliver...
Ao dirigir o olhar ao retrovisor, acreditou ter visto um menino sentado no banco de trás, robusto, mas pálido, de cara embirrada e braços cruzados, e ao seu lado um garotinho franzino, sorrindo um sorriso de dentes manchados de bolo de chocolate.
Ah... Aquele, sim, era o Oliver que conhecia, Russell repetia a si mesmo.
“Living is easy with eyes closed
Misunderstanding all you see
It's getting hard to be someone
But it all works out
It doesn't matter much to me”
Seus ouvidos captaram um murmurejar baixo, vindo do lado esquerdo¹. Conduziu o olhar ao banco do passageiro, se deparando com o rapaz loiro-acastanhado e de nariz arrebitado (cuja única intenção era a de apenas arranjar um abrigo temporário), recitando a letra da música discretamente.
Ao confrontarem olhares, gradativamente, um sonoro acompanhamento foi nascendo da garganta do moreno, enquanto o melodioso sotaque de Bristol se amplificava nas cordas vocais de Oliver.
“Let me take you down
'Cause I'm going to strawberry fields.
Nothing is real
And nothing to get hung about
Strawberry fields forever”
Logo estavam entoando a canção em coro. Um tanto desafinados, é verdade... Classificável como um coro de bêbados, ainda assim, um coro.
“O que vale é a intenção.” seria a desculpa utilizada.
“And nothing to get hung about
Strawberry fields forever
Strawberry fields forever
Strawberry fields forever”
– Ah isso foi nostálgico... – a palavra “nostálgico” brincou na boca de Oliver, provocando cócegas na sua garganta, gerando um riso. – O seu pai sempre colocava essa música quando viajávamos, lembra?
– Era porque você não parava de cantá-la... – Russ endireitou-se no banco.
– Verdade... – o loiro murmurou, com a bochecha colada contra vidro da picape. Seus olhos, perdidos no céu encoberto acompanhavam a trajetória de invisíveis gotículas do relento.
Ao contemplar esta cena, Russell tomou uma decisão:
– Vamos parar em um lugar, antes...
△ ▼ △
– Já posso abrir...? – miou impaciente um Oliver de pálpebras cerradas.
– Ah... Ainda não. – Russell estava bem ao seu lado, conduzindo-o pelos ombros.
Deram mais alguns passos no que o loiro deduziu ser grama, porquanto aqueles afundavam no solo, e o mesmo estalava sob seus mocassins.
– Pode abrir agora.
Cessaram-se os passos, e o peso nos seus ombros sumiram.
– E aí... Reconhece...? – Russ indagou após reservar um instante para que o seu amigo sondasse os seus arredores.
Para o loiro, porém, aquele terreno não diferia muito dos demais que viram ao decorrer da viagem.
– Sinceramente? – encarou o seu acompanhante. – Não.
Após uma análise mais atenta do local, Russell concluiu que, de fato, se o seu objetivo ali era fazer o seu amigo se recordar, teria de levá-lo ao local que representasse tais recordações (uma vez que aquele terreno havia sofrido modificações através dos anos).
– E agora? – perguntou assim que auxiliou o menor a escalar o muro e ofereceu uma mão para que se equilibrasse ao subir no telhado do depósito abandonado.
Um ligeiro vislumbre nas redondezas bastou para que se iluminasse.
– Definitivamente! – arquejou, tanto por conta do esforço físico, como pela paisagem que se desdobrava diante dos seus olhos. – Mas... Cadê a plantação que tinha aqui? Lembra? Do matagal...
– Não sei... Há muito que este terreno ficou ermo... – sentou-se sobre as telhas, gesto repetido pelo outro. – O solo é infértil.
– Nossa... Por quê? – abraçou os próprios joelhos.
– Talvez por causa de um incêndio... – Russ recostou-se, de braços cruzados atrás da cabeça. – As chamas varreram tudo... Não sobrou nada.
– Que filosófico... – riu-se Oliver.
– Por que diz isso...?
– Sei lá... Só achei que o jeito como você falou foi... Profundo. – acercou-se do moreno, aconchegando a cabeça sobre a barriga dele.
Mesmo que a garoa rala pinicasse o rosto de ambos, eles permaneceram deitados sobre o telhado, acompanhando o pôr-do-sol, visível ao longe, no horizonte sem nuvens. Ociosa aragem balançou copas de seculares carvalhos.
– ... Calmo... – grunhiu o moreno.
– É, eu sei, é bem calmo aqui... – concordou preguiçosamente o menor.
– Não. – Russ tentou recuperar o vigor da voz. – Eu perguntei, como você consegue ficar tão calmo assim quando acabou de forjar a própria morte? Você está calmo de mais, não acha?
Oliver ergueu a cabeça com certa dificuldade, apoiando-a na mão. Ao fazer isto, tinha uma visão mais nítida de seu companheiro.
– Tem razão, eu não vou ser hipócrita a ponto de dizer que eu considero como se nada tivesse acontecido. Até certo tempo atrás, minha cabeça estava um caos. – agora seus olhos acompanhavam a trajetória do astro solitário. – Só que desde manhã até agora fui capaz de me esquecer de tudo... Tudo o que deixei de ruim para trás. Sinto que estou percorrendo o nosso próprio “Strawberry Fields”. E apesar do que aconteceu ontem... Como dizer... Você é como um sedativo pra mim, Russ.
Com a outra mão livre, o garoto passeava os dedos finos pelo maxilar de Russell, acariciando-lhe a barba rala. Contudo, os afagos do menor foram bruscamente estancados pela mão do moreno, que comprimiu aquele pulso com brutalidade.
– Se for para ficar dependente de mim, esqueça. – rosnou baixo, porém em tom ameaçador. – Eu não vou ser o seu novo vício, Oliver. Aprenda a viver.
Largou o pulso percorrido por veias cerúleas, e voltou a recostar a cabeça nas telhas, como se nada houvesse acontecido.
Oliver ainda permaneceu alguns minutos ali, ao lado de Russell, com a cabeça enterrada nos joelhos. Ocasionalmente, uma convulsão o sacudia, não se sabia se causada pelo frio ou se pelos nervos. O que se sabe é que se retirou dali antes de admirar o último fôlego do Sol ao mergulhar no abismo noturno.
Os demais quilômetros foram percorridos no mais completo silêncio.
✾
Você já reparou que cada gesto de abnegação pode ter a sua origem no egoísmo?
Isto é só um palpite da minha parte, claro.
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Ah, o mundo não seria maravilhoso se pudéssemos nos isolar dentro de esquifes de vidro, onde nada fosse capaz de nos atingir?
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