Strangers
1 Tudo conosco começa através da dor
Notas iniciais
Assim como nos filmes
Começa a chover e nós
Nós somos as beldades quebradas
As mentes dos olhos vendidos colidem e nós caímos
Eu te observo, como todas as noites em que você vem, parado naquele mesmo lugar. Sentado no ponto de ônibus, encarando o vazio como quem encara as lembranças. E chove, chove na sua presença, mas você não se importa.
Quais são os fantasmas que te assombram para que esteja sempre ali? Eu me pergunto, mas não tenho resposta. Então te observo. E observando, aprendo um pouco mais sobre você.
Porque quando chove e você caminha, vejo que a água que cai dos céus, inunda seu corpo e lava sua alma. Disfarça as suas lágrimas.
Me pergunto se você sofreu tanto quanto eu, mas acho que já sei a resposta para isso.
Quando a cortina cai
Nosso toque é apenas um toque
Quando você vem de novo, a chuva cai amena. E dessa vez, você não encara o vazio. Você me olha.
E parece que você é a chuva que te desnuda quando vê através de mim, através da muralha que toda a dor constituiu ao meu redor ao decorrer dos anos e das perdas que sequer vale a pena lembrar.
E você se aproxima e me olha, e somos dois estranhos nos encarando, perdidos na profundidade das próprias dores, buscando desesperadamente por uma cura.
Seus lábios se entreabrem, quase como se quisesse dizer algo. Quase como se precisasse. E eu queria ouvir. Queria desesperadamente ouvir o que você tem a dizer.
Mas é apenas dor.
E no meio dessa dor, estendo a mão para tocar seu rosto e sentir que tudo aquilo é real. Que você é real.
Não é como nos filmes
Nossa história está após o fim
Seus olhos se fecham e seu rosto se deita contra a minha palma. Sinto a textura da pele que há muito não vê o sol, empalidecida pelo tempo. Sinto o metal frio dos piercings quando os toco, cada um.
E não nos conhecemos, mas nos encaramos na chuva. E você sorri pra mim. Um sorriso cheio de dor.
Como um prólogo de uma história que nasce através dela.
“Como é seu nome?”, pergunto.
“Pode me chamar de Pain.”
Porque tudo conosco começa através da dor.
Como estranhos
Dissimulados perfeitos
Você não pergunta o meu nome. Não pergunta nada sobre mim. E me sinto grata. Me sinto grata em apenas sentir a textura dos seus lábios contra os meus e eles têm gosto de chuva e das lágrimas salgadas que você disfarçou e eu fingi não ver.
Têm o gosto do meu próprio sofrimento, das feridas não cicatrizadas em meu próprio coração enquanto você tira a minha blusa e a joga em um canto do apartamento que carrega um cheiro que, tenho certeza, não é seu. Mas não me importo. Apenas te beijo de volta e sinto a textura da sua pele e seu sabor. E naquela noite, isso é tudo o que importa.
Estamos nos apaixonando loucamente
Por algo que não é real
Passamos a nos encontrar todas as noites em que você aparece por ali. A chuva constante parece nos favorecer, ocultando-nos como criminosos. Não sei dizer até que ponto isso é real ou não. Não sei dizer, tampouco, o que estamos vivendo.
Só que eu preciso de você. Da sua dor para aplacar a minha. Porque é através dela que você me procura, e ao meu alento.
E eu preciso disso. Preciso desesperadamente disso. Mesmo que não seja real.
Memórias em fotos
Muito fácil de reescrever
Nos deixou sombras solitárias
Segurando um ao outro apertado e nós caímos
Mas as fotos ainda estão ali. As suas lembranças, espalhadas pelo apartamento mesmo que o cheiro já tenha desaparecido.
E eu as observo, o sorriso fácil dela na sua presença. E como o seu some quando revê as fotografias que insiste em esconder.
“Ainda dói?”, pergunto ao observar uma foto em específico. Você me encara de volta, os olhos embargados daquela maneira que sempre te deixa tão belo e imperfeito. Como uma escultura inacabada.
“Como cicatrizes antigas.”, você responde, os dedos afundando em meus cabelos quando me puxa para perto. “Ainda dói para você?”
Em resposta, apenas te beijo. Quero esquecer o passado. Quero viver você. Quero respirar você. Porque isso é tudo o que tenho. Você.
Penso que conseguimos, mas inventamos um sonho
Porque temos uma boa ideia do que poderíamos ser
E fica tudo bem por um tempo. Essa rotina parece o bastante para preencher o vazio dentro de nós.
Você e eu, dois amantes forjados na dor, inventamos o nosso próprio espaço. O lugar onde ninguém nos alcança. E naquele momento, somos apenas nós.
Quero acreditar que é pra sempre. Mas a vida segue. E viver é fácil de olhos fechados, mas sempre existe a hora de acordar. Mesmo que a gente não queira.
Eu não quero você, tudo que você quer é alguém
Porque eu ouço.
Ouço quando você chama o nome dela. Quando tenta alcançá-la sem poder.
Konan.
As cinco letras que me tiraram tudo.
Eu não sabia o seu nome, mas sabia o dela.
E por algum motivo, isso foi o que mais me doeu quando saí naquela noite, sem esperar pela manhã. Sem esperar por você.
Estranhos
Não te vi por um tempo. Não sabia se queria também, e não te busquei. Alguém que não me diz o nome, que se identifica como dor.
Como eu poderia me curar através disso? Como poderia esquecer todas as tragédias que permearam a minha vida?
Como você poderia seguir com a sua?
Pesquisei o nome dela.
Morta.
Em um acidente causado naquele ponto de ônibus. Uma tragédia, diziam.
Mas o que você pensava? Será que um dia eu saberia? Será que eu realmente te conhecia além do calor daqueles lençóis que carregaram por tanto tempo o cheiro dela?
Não sei. Não sei se quero saber a resposta.
Nunca seríamos nós, eh
Até que um dia você aparece. Não no lugar de sempre, mas na minha casa.
“Como me achou?”
“Vai me deixar entrar?”
Eu deixo. Porque não tenho forças para afastá-lo. Porque me viciei na sua dor.
Eu não quero você, tudo que você quer é alguém
Voltando juntos para casa para esquecer que estamos sozinhos
“Ela não morreu apenas. Só não suportou mais a dor.”
Me lembrei de suas palavras: pode me chamar de Pain. Permaneci em silêncio. Não parecia certo dizer que sentia muito. Mas parecia egoísta demais dizer que agradecia pela chance de poder conhecê-lo.
Éramos errados, os dois. Isso era tudo o que eu sabia.
“E o que vai fazer?”, perguntei.
“Quero que volte comigo.” pediu. “Me ajude a superar essa dor.”
É a sua mão, estendida na minha direção. Toda aquela dor, banhada pela chuva. E eu sabendo que aquilo era um erro. Que apenas íamos nos machucar ainda mais.
Eu a seguro.
E seguimos em frente com isso.
Apenas você e eu.
Estranhos.
Dissimulados perfeitos.
Estamos nos apaixonando loucamente.
Já nos apaixonamos loucamente.
Notas finais
Então, eu não sabia muito como trabalhar o casal, daí deixei seguir o fluxo da música. Espero que esteja do seu agrado, linda!
Queria agradecer pela oportunidade e pela capa maravilhosa que você fez.
E aí, gostaram? Nos vemos em breve!
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